Jenna estava sentada em um canto da sala da turma do primeiro ano de Gastronomia, olhando pela janela. De onde estava, conseguia ver mais ou menos a porta da cantina, apesar da distância. Mas sabia que, do chão, ela não seria vista. Imaginava como estava sendo a conversa de Hana com os alunos do exterior com um sorriso de canto. Nenhuma delas estava disposta a dar qualquer coisa de bandeja para eles, por mais que parecessem interessantes. Afinal, finalmente alguém que as entendia tinha aparecido, elas não poderiam perder a chance de se divertirem.

A professora explicava como fariam o bolo da vez, lançando olhares desconfiados para a garota de cabelo tingido. Uma garota de cabelos rosados tinha dito que eram amigas e que Jenna só estava lá para ver um pouco da aula enquanto matava tempo, mas a mulher não parecia convencida. Não era normal terem alunos de outros cursos na aula, mesmo sendo amigos dos alunos de Gastronomia.

"Oh, saíram. Pelo caminho, a Hana tinha razão. Escolhermos o óbvio dificultaria a coisa toda, porque eles não nos veriam escolhendo a primeira opção.", ela sorriu mais largamente. Aquilo poderia ser mesmo divertido. Especialmente se eles olhassem todos os cursos em que tinham pensado do menos para o mais óbvio. A garota continuou acompanhando os ruivos com o olhar até que sua visão fosse bloqueada completamente pelas árvores. "Eles devem parar na Nutrição. Aquele baixinho com certeza vai querer comer. Matar a aula pra brincar com os coleguinhas… Como isso é divertido!".


Catarina estava sentada em um banco no corredor do prédio que tinha escolhido, desenhando em um bloco de papel de forma frenética. Não se importava com os olhares que recebia. Eles continuariam, independentemente do que fizesse, então era melhor ignorar. Tinha decidido dar o enigma da forma mais artística que pudesse, então precisava ser criativa. Não estava no primeiro ponto, então tinha tempo, mas ainda assim não podia demorar.

"Eu devia fazê-los desenhar. Só para poder rir um pouco. Mas talvez isso consuma muito tempo… É, eu vou desenhar. Só eu. Ou posso fazer mímica. Tomara que a Jenna os segure por tempo suficiente!", ela baixou a cabeça. Aquilo estava sendo mais difícil do que ela previra. Tudo porque sua indecisão sempre se fazia presente nos piores momentos.


Anastácia suspirou. Tinha escolhido alguns jogos de baralho para desafiá-los. A cada vitória, ela daria uma parte do enigma. Mas e se eles não ganhassem o suficiente? "Eles não podem ser tão ruins assim em cartas, podem?", ela apoiou o rosto na mão. O cotovelo, apoiado no batente da janela da biblioteca, escorregou levemente para o lado com o peso extra. "Se forem… Eu vou ter que achar alguma coisa mais. Aah, saco… Só porque ia ser tão legal ganhar todas…", ela suspirou.

- É, talvez isso não seja tão divertido assim. – sua voz saiu baixa, sem que a garota percebesse que pensava em voz alta. Então ela baixou os olhos para o livro que lia, voltando a mergulhar na leitura em pouco tempo.


Mei estava no banheiro, trocando de roupa sem se preocupar com o tempo. Afinal, isso era algo que ela tinha. O que a preocupava era não saber ainda como segurá-los por alguns minutos. Talvez não precisasse, mas era bom garantir. Ela tinha escolhido um ponto da universidade que a favorecia, mas… "Eu não conheço as habilidades deles", ela suspirou. Talvez fosse melhor se garantir.

Ela guardou cuidadosamente o vestido rosa-goiaba na bolsa, junto da bota –que ia revestida em uma sacola plástica. Então saiu do banheiro e foi em direção aos armários, escolhendo um que era pouco usado pelos alunos por ser difícil de mexer. Com relativa facilidade, ela o abriu e deixou suas coisas dentro, trancando-o em seguida. Então se levantou e sorriu, olhando o céu azul com certo entusiasmo.

- Essa tarde vai ser bem interessante.


Hikaru já estava cansado de rodarem o prédio inteiro de Saúde e não acharem nada nem ninguém. Os alunos os olhavam como se fossem estranhos. Não era para menos, considerando a média de altura do grupo e que só Tamaki se vestia usando as cores da universidade. Quando pararam, antes que qualquer um pudesse dizer algo, Kyouya ajeitou os óculos e, em um tom deliberadamente indiferente, perguntou se eles tinham se cansado de andar a esmo.

- O que quer dizer com isso? – Hikaru não tinha o tom muito amigável.

- Quero dizer que acredito termos caído em um truque muito simples. – o moreno não se deixou abalar pelo tom do amigo.

- Por que diz isso, Kyouya-senpai? – Haruhi olhava com certa curiosidade para o moreno. Apesar de sua determinação em só conversar em inglês, não tinha percebido que falavam em japonês.

- Percebi quando terminamos de cobrir toda a área de Farmácia. Elas devem ter previsto que descartaríamos o óbvio e iríamos para o menos provável. – ele olhou algo em seu caderno de bolso – Então devíamos ir para a Gastronomia.

O comentário alegrou Hani.

- Espero que eles estejam fazendo doces! Né, Takashi? – o loirinho estava empolgado, abraçando o primo e sorrindo largamente ao falar. O moreno concordou.

Tamaki, em um gesto automático, se virou para uma das alunas que passava e lhe segurou as mãos como costumava fazer no Host Club.

- Diga-me, querida. – o tom suave e o sorriso de galã que ele costumava dar saíram naturalmente, assim como o inglês – Para que lado fica…

Mas, antes que ele pudesse acabar, a garota se soltou, olhando-o como se o loiro tivesse alguma doença contagiosa. Por pouco, ela não saiu correndo. O tom era de repúdio.

- Seu esquisito! O que acha que está fazendo?! Com que direito você me detém assim?! Com que permissão você acha que pode sair me agarrando desse jeito?!

Hikaru sorriu com malícia.

- Olha só, nem aqui ele consegue segurar o lado pervertido dele.

Kaoru entrou na dança.

- Que decepção. E tivemos tanto trabalho com a reabilitação…

- Mas o que…? – Tamaki piscava confuso. Não conseguia acreditar que os gêmeos o estivessem fazendo de bobo em uma situação como aquela. Diante de pessoas que eles nem conheciam – Eu não sou um pervertido!

A garota o olhou com desdém.

- Eu sabia que tinha algo de estranho em você. Não se aproxime mais de mim. – e então se retirou.

- Fala sério. As pessoas daqui são muito manipuláveis. – Hikaru tinha um tom gelado de desgosto – Extremamente mesquinhas.

- Como um lugar assim pode ser uma universidade tão conceituada internacionalmente? – Kaoru tinha o mesmo tom.

- Porque, apesar de tudo, eles sabem fazer bem o que escolhem. – Kyouya ajeitou os óculos e pôs as mãos no bolso – Podemos continuar?

O grupo concordou e logo os sete se dirigiam para o prédio de Cultura.


O telefone de Jenna vibrou, a obrigando a tirar os olhos da janela. No visor, o identificador de chamadas mostrava que era Hana.

- Siiim. – ela se ajeitou. A aula já tinha acabado, de forma que não tinha problema se ela não saísse da sala. Os alunos agora só estavam provando o que tinham feito.

- Eles já chegaram aí? Ou continuam perdidos no prédio de Saúde? – a outra parecia se divertir com os resultados da brincadeira.

- Ainda não, mas devem chegar a qualquer instante. A Anny falou que os viu passando pela janela da biblioteca. – Jenna levantou o olhar quando sua amiga de Gastronomia lhe estendeu um pedaço de bolo e agradeceu com um aceno de cabeça – Onde o enigma de lá ficou? Achei que eles acabariam encontrando.

- Ah, ainda está comigo. Vou para lá daqui a pouco. Assim que eles chegarem aí. – Hana sorria e era possível perceber pelo seu tom de voz.

- O que houve? Você não está mais frenética. – Jenna falava entre uma garfada e outra de bolo.

- Nada. Só escolhi um lugar muito bom para ficar. Bom, vou ver como estão as outras meninas. Mande uma mensagem quando eles chegarem. – e então desligou.

Jenna terminou o bolo e se levantou.


- Meu Deus, por que eu tenho que encontrar todos os esquisitos hoje? – Anastácia levantou o olhar ao ouvir o comentário a alguns passos de si. Sem pressa, ela fechou o livro e o colocou debaixo do braço, se levantando e indo até a fonte da voz.

- Falando comigo, fofa? – ela sorria de canto com uma tranquilidade que sentia apenas em partes.

- Eu não falo com estranhos. – o desprezo se fez facilmente presente na voz da garota.

- Nossa, deve ser profundamente triste ser você então. Afinal, que tipo de gente consegue viver sem se suportar? – Anastácia se divertia alfinetando a colega. E parecia estar dando bastante certo.

- Do que você está falando, sua esquisita? – a garota fechou um dos punhos com certa força. Como se não bastasse o loiro absurdamente alto, ela ainda tinha que aturar outra qualquer que achava que coturnos eram sapatos adequados para uma universidade.

- Estou falando que a esquisita é você, fofa. Quer que desenhe ou seu cérebro se desenvolveu recentemente? – Anastácia sorriu com malícia e o brilho em seus olhos mudou, fazendo a outra recuar um passo institivamente.

- Sai daqui, sua estranha.

- Achei que não falasse com estranhos. Mas, veja só, você até que está mantendo uma conversa boa com alguém que não suporta. O que acha de experimentar o meu coturno na sua barriga como próximo passo? – aquela era uma ameaça vazia, Anastácia sabia. Não gostava de violência. Mas… Provocar a colega era tão divertido que ela não resistiu à tentação de fazer um comentário mais típico de Hana ou de Catarina.

- Mas o que…?!

- Ah, desculpe, seu vocabulário é muito limitado ainda. Olha, os dicionários ficam naquela prateleira ali, ok? – ela apontou para uma prateleira atrás de si, rindo ao ver a raiva no rosto da outra. Então, cansada daquela brincadeira que não levaria a nada, ela se virou e saiu, voltando para a janela em que estava.

"Gente irritante…".


Jenna estava conversando com a garota de cabelos rosados quando uma agitação começou perto da porta da sala. Sem perceber, ela tinha sorrido de canto. Imaginava a causa de tudo aquilo e não podia deixar de se sentir satisfeita. A voz de Hikaru – que ela ainda não conhecia muito bem, já que o vira pela primeira vez na cantina mais cedo – soou alta da porta.

- Ok, qual das cinco está aqui? Vamos acabar logo com isso!

- Hikaru, calma… Você está atrapalhando. – Kaoru tentava acalmar o irmão, mas sem sucesso.

Jenna riu e se dirigiu para a porta.

- Não sei se você reparou, mas algumas pessoas estão em aula. – a morena ajeitou o cabelo, deixando algumas mechas caírem por sobre os ombros. Seu tom era desafiador.

- E você é…? – Hikaru deixou a irritação aparecer em sua voz.

- Jenna. – Kyouya respondeu antes que a garota pudesse abrir a boca – Entrou na universidade há dois anos, no curso de Design. Mora com as outras quatro desde o primeiro ano e tingiu o cabelo quando foi aprovada na faculdade.

A morena pigarreou.

- É, tudo isso aí que ele falou. Enfim, vamos nos divertir um pouco? – ela sorriu, indo para a mesa a que estava sentada durante a aula.

- Não podemos só pegar o enigma e cair fora? – Hikaru tinha o cenho franzido.

- Ora, claro que não. Quero saber como foi para superarem o primeiro. Aposto que descobriram fácil a resposta, mas não o que ela significava. – Jenna sorriu, se divertindo com o desconserto do grupo.

- É, levantamos algumas opções e fomos trabalhando por eliminação. – Haruhi respondia com calma, se sentando diante da outra – Erramos na primeira, achamos que era Farmácia. Gastronomia parecia muito óbvio.

- É, nós supusemos que vocês pensariam em Gastronomia primeiro. – Jenna tinha gostado do jeito direto da outra – Passaram na Nutrição? Fiquei sabendo que eles iam aprender a fazer doces hoje.

Hani se juntou às duas, animado.

- Passamos! E eles nos deixaram provar!

Enquanto conversavam, Jenna pegou o celular e mandou uma mensagem para as amigas. Estou com eles aqui. Quando posso liberá-los?

- Pena que vocês demoraram a chegar aqui. O pessoal de Gastronomia fez bolo. Mas agora já acabou. – ela acariciou a cabeça de Hani, que pareceu um tanto chateado com a notícia. Jenna riu.

- Poderia parar com isso? – o tom de Kyouya era sério, um tanto frio.

- Você não me assusta, Kyouya. – ela sorriu para o moreno, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão – A Hana também é assim.

O moreno ajeitou os óculos.

- Não sei do que você está falando. Mas, por favor, nos dê logo o enigma para que possamos continuar.

- Ora, não tem nada que queiram perguntar? – Jenna pareceu levemente surpresa.

- Quero saber onde está o enigma para acabarmos logo com isso. – Hikaru parecia irritado e tinha cruzado os braços diante do corpo.

- Chatos. Achamos que vocês seriam mais interessantes. – ela suspirou, se ajeitando na cadeira – Achei que vocês fossem querer saber alguma coisa.

- Bom… – Haruhi parecia meio hesitante – Por que vocês decidiram não se vestir como os outros alunos?

Jenna olhou para os gêmeos e então para a garota diante de si.

- Provavelmente seus amigos têm os mesmo motivos. Nós simplesmente não conseguimos nos adaptar a isso. Mas gostamos daqui, não queremos mudar de faculdade. – Jenna tinha um tom sincero ao falar.

- Mas se vestir assim dá identidade a você. Diz "eu estudo aqui"! – Tamaki parecia não acreditar no que ouvia.

- Diga… Tamaki, não é? – Jenna esperou o loiro concordar antes de prosseguir – Você decidiu se vestir assim. Tudo bem, escolha sua. Como as pessoas te trataram? Você se sentiu aceito por elas estando vestido assim? Você se sente confortável nessas roupas?

Tamaki hesitou. Conseguiu entender aonde ela queria chegar. Não importava o que eles vestiam. As pessoas só usavam aquilo como uma desculpa para rejeitarem as outras. O problema era mais profundo. O problema é que elas tinham personalidades que batiam de frente com as das pessoas daquele lugar. O jeito como tinham decidido se vestir deixava aquilo claro. Cada uma tinha suas próprias cicatrizes, mesmo que não fossem físicas.

Mas elas tinham uma a outra para conseguirem suportar.

- Eu…

- Não precisa responder. – Jenna o interrompeu antes que Tamaki tivesse um ataque de choro – Você entendeu o ponto, não entendeu? – quando ele confirmou, ela continuou – Isso é o que importa. Agora vamos ao que interessa a vocês. – ela tirou um papel do bolso e o pôs sobre a mesa – O próximo enigma.