Muito se fala de sangue, mas pouco se fala dos prazeres. Inspirei Leonardo, Rossini, Camilo e Eça. Sobrevivi bem no Egito e na Mesopotâmia. Inspirei a criação de associações e nunca termino.

O Host Club ficou em silêncio. Para eles, aquilo não fazia sentido. Aquele enigma descrevia onde estavam. Jenna, percebendo isso, parecia se divertir e abafava o riso com a mão. Em seu colo, o celular vibrou. Era a resposta de Catarina, dizendo que poderia liberá-los quando quisesse porque ela estava pronta. A morena respondeu com um "ok" e tornou a prestar atenção nos alunos estrangeiros.

- Isso não faz sentido nenhum! – Hikaru afundou na cadeira em que estava – Foi a gastronomia que fez tudo isso. Esse enigma nos traria aqui.

Kyouya desviou o olhar para Jenna, levando poucos segundo para entender.

- Fala, de fato, da gastronomia. Da gastronomia no decorrer do tempo. Não necessariamente na ordem, mas nos traz vários acontecimentos da história da gastronomia.

Haruhi entendeu aonde o moreno queria chegar.

- Temos que ir para o curso de História agora!

Jenna sorriu.

- Até que são espertos. Não vão se distrair e perder o próximo enigma. – ela sorriu, se levantando enquanto falava.

- E você, para onde vai? – a pergunta de Kaoru a pegou desprevenida.

- Ora, ora. Segredo. – ela riu de leve e então saiu.

Não demorou muito para o grupo fazer o mesmo.


O prédio das Ciências Humanas era maior que o esperado e a área destinada ao curso de História se encontrava no último andar dos cinco. Para que todos tivessem acessibilidade, havia um elevador de cada lado do prédio. O lugar era amplo, claro, com grandes janelas e corredores largos. Apesar de os alunos de humanas geralmente serem mais liberais, aquilo não parecia se aplicar ali. Por todo lugar que passavam, olhares tortos e questionadores se voltavam para eles.

- Qual é o problema dessas pessoas? – Hikaru estava levemente encolhido sobre si mesmo, como se para se proteger.

- É porque elas estão encantadas com toda nossa beleza, meu caro Hikaru! Apenas aproveite a fama! – Tamaki estava, mais uma vez, em meio de seus delírios.

- Elas só não estão acostumadas com o que é diferente. Apenas as ignore, Hikaru. – Kaoru abraçou o irmão, o que pareceu causar uma repulsa maior da parte dos alunos.

- Imagino pelo que elas passaram quando chegaram aqui. – Kyouya ajeitou os óculos.

Hikaru pensou na conversa que ele e seu irmão tiveram com a garota perto dos ginásios internos. "Se Kaoru tiver razão, elas sofreram muito no começo…", o ruivo suspirou, aceitando o abraço do irmão com um abraço de volta. Ele não sabia como alguém poderia suportar tanta rejeição assim e ainda se manter sociável. Eles próprios tinham se fechado para o mundo por causa daquilo. Sem perceber, o gêmeo mais velho tinha puxado o mais novo para mais perto.

- Hikaru? Está tudo bem? – Kaoru falava baixo, de forma que só o irmão pudesse escutá-lo.

O ruivo mais velho pareceu despertar do transe.

- Sim, sim. Desculpe, Kaoru. – Hikaru respondia no mesmo tom, sorrindo de canto para o irmão. Kaoru não pareceu convencido, mas não insistiu.

O grupo já estava no último andar, procurando pelo enigma seguinte. Pelo que tinham entendido, nem todos seriam dados por uma das meninas, então eles precisavam ficar atentos. Hikaru e Kaoru já tinham se soltado, de forma a facilitar a busca. Estavam decidindo como se separarem para otimizar a busca quando o telefone de Kyouya tocou. No visor, um número desconhecido com o código de Boston aparecia. O moreno estranhou, mas não disse nada, apenas atendendo à ligação.

- Kyouya? – a voz de Hana soava animada do outro lado.

- Ora, não achei que fossem nos procurar. – Kyouya indicou com a mão que os outros procurassem o papel com o enigma enquanto ele terminava a ligação.

- E não íamos, mas a Jenna me contou como foram as coisas. Seu amigo loiro idiota está legal? - Hana tinha uma preocupação quase sincera na voz.

- O Tamaki? Sobrevive. O abalo não foi tanto. – Kyouya parecia se divertir – Algo mais?

- Só saber como estão as coisas. Ainda na História? O pessoal aí é meio chato, né? – Hana parecia muito à vontade conforme falava.

Antes que Kyouya pudesse responder, Tamaki veio correndo animado em sua direção.

- Kyooouuuyaaa! Achamos! Achamos!

O moreno sorriu.

- Não vamos demorar muito mais aqui. – e então desligou o aparelho.

Ele não sabia, mas Hana sorria quando desligou.


Jenna estava sentada ao lado de Catarina, olhando o que a loira desenhava. Esperavam pacientes enquanto os sete não chegavam. A morena já tinha posto todas a par do que tinha acontecido e enrolava para ir para o ponto final. "Não quero ficar lá sozinha" foi o que dissera. Então estava com Catarina e sairia quando o grupo descobrisse para onde ir. Nunca tinham feito algo daquele tipo antes. Não havia com quem fazer. Mas estavam se divertindo.

Especialmente Hana.

- E vai fazer um jogo de adivinhação mesmo? – Jenna olhava o movimento dos alunos ao perguntar.

- Sim! – Catarina sorriu, mostrando a folha em que tinha desenhado os elementos-chave do enigma – Se eles não acertarem em dez tentativas, vou entregar o papel para eles. – ela mostrou o papelzinho pregado no verso.

- É uma boa. Senão as outras vão morrer de tédio. – Jenna riu – Especialmente a Hana, que ficou no último ponto.

Catarina concordou com a cabeça e voltou a desenhar.


Dato do século XIX. Sou mutável. Sou atemporal. As pessoas me amam e me detestam. Determino sua aceitabilidade social. Quem sou eu?

- Século XIX. Isso é Idade Média. – Haruhi tinha um ar reticente, como se pensasse em algo.

- Ser atemporal significa que dura até hoje? Mas ao mesmo tempo é mutável. Isso não faz sentido. – Kaoru suspirou.

- Ora, meu querido Kaoru, claro que faz. – Tamaki fez uma pose de quem tinha propriedade do que dizia – Algo pode durar por anos se adaptando aos tempos. Veja vocês. No começo eram sozinhos e não se envolviam com ninguém. Mas mudaram! Isso é algo maravilhoso! E elas estão nos falando de algo que manteve sua essência, apesar das adaptações. – o loiro continuava em seus devaneios, sem perceber que não tinha mais a atenção do grupo.

- Isso só pode significar uma coisa: moda. – os gêmeos falaram em uníssono, como se fosse a coisa mais óbvia.

- Oba! Vamos conhecer pessoas que são como a mãe do Hika-chan e do Kao-chan! – Hani estava animado com a ideia.

- Não se anime muito, Hani-senpai. – Haruhi tinha um tom levemente desanimador – Pode ser como no resto da escola.

- Moda é no prédio de Artes, não é? – Kyouya olhava para os gêmeos ao falar.

Naquele momento, eles ligaram os pontos.

- Duas delas estudam lá! – Hikaru falou primeiro, empolgado.

- Será que vamos encontrá-las? – Kaoru completou, na mesma empolgação.

Kyouya sorriu de canto.

- Pelo menos uma delas, eu imagino. – o moreno tinha notado o padrão, apesar de aquele ser o terceiro enigma.

- Isso! – os gêmeos levantaram os braços, animados. Tamaki, sem perceber, tinha feito o mesmo.


Jenna se levantou quando ouviu passos se aproximando. Pelo barulho, não era um aluno ou outro, mas uma massa se movendo em conjunto. Talvez fossem os estrangeiros. Passando a mão carinhosamente na cabeça da amiga, a morena se despediu e disse que estaria do lado de fora para irem juntas para o ponto final. Catarina concordou e pôs o cartaz com o enigma a ser decifrado ao seu lado.

- Ora, ora. Não é que achamos uma delas mesmo? – Hikaru tinha um tom levemente surpreso.

- E o que é isso? – Kaoru apontou para o cartaz.

- Isso, meu caro, é o enigma em forma de enigma! – Catarina tinha um ar satisfeito.

- Nós vamos ter que decifrar dois enigmas? Vale isso? – Hikaru não parecia feliz com a notícia.

- Claro que vale! – Catarina estava empolgada e logo se pôs em pé – Vamos, vamos, decifrem! Se acertarem logo, eu respondo a qualquer pergunta!

- Sua amiga fez o contrário. – Kyouya ajeitou os óculos.

- A Jenna? Hm, é, pode ser. Tudo bem, o que querem saber? – a loirinha tornou a se sentar, ainda empolgada.

Os integrantes do Host Club se entreolharam, pensativos. Catarina esperava pacientemente. Kyouya ajeitou os óculos, Hikaru e Kaoru fitavam o cartaz. Os outros pareciam distraídos com os alunos que passavam. Então Mori – para o espanto de todos – se manifestou.

- Como vocês decidiram os pontos em que ficariam?

- Ah! Uma boa pergunta, meu caro Morinozuka! – Catarina se pôs em pé – Nós escolhemos de acordo com as qualidades de cada uma! Jenna sabe cozinhar, então ela ficou em Gastronomia. Eu sei desenhar, então fiquei em moda. A… – ao perceber que festava quase falando demais, a loira pigarreou – O resto vocês vão descobrir!

- Catarina, não é? – Kyouya olhava as anotações que tinha de cada uma – Você faz arquitetura. Não podia ter escolhido algo que diferisse mais de seu curso?

A loira sentiu que o moreno tentava alfinetá-la e não se deixou abalar.

- Ora, mas Moda e Arquitetura são bem diferentes! Na verdade, eu até pensei em vir para o curso de Moda, mas Arquitetura me encantou mais. – ela deu de ombros, sorrindo ao acrescentar – Algo mais?

- Podemos ver esse enigma logo? – Hikaru apontou para o cartaz.

- Claro, claro! – Catarina o puxou para o centro do banco.

Os integrantes fitaram as manchas coloridas no topo. Uma vermelha e uma azul. A do lado parecia uma nuvem e um sol, seguida de um peixe no que deveria ser o mar. Uma seta apontava para uma linha curva que equivalia a uma onda. Um círculo preto totalmente preenchido e um que tinha só o contorno. Um olho e… Alguns riscos indicando o brilho de absolutamente nada.

- Essas são as palavras-chave. Vocês devem conseguir adivinhar. Na verdade, o enigma está praticamente inteiro aqui. – Catarina se sentou ao lado do cartaz.

- Vermelho e azul. Fácil. A nuvem e o sol podem ser… O dia? – Hikaru cruzou os braços.

- O céu? – Kaoru tombou levemente a cabeça para o lado. O sorriso de Catarina confirmou que o mais novo tinha acertado.

- Temos "vermelho", "azul" e "céu" então. – Kyouya ia anotando em seu caderno as coisas.

- A seta aponta para a água. – Haruhi acrescentou. O moreno anotou "água" em seu caderninho – Os círculos…

- Podemos pensar em "cheio" e "vazio". – os gêmeos comentaram em uníssono.

- "Tudo" e "nada"? – a voz de Tamaki tinha um ar hesitante quase imperceptível, mas o loiro se animou ao receber um sorriso de Catarina.

- "Vermelho", "azul", "céu", "água", "tudo", "nada". Falta só o final então. – Kyouya levantou o olhar do caderno para o cartaz.

- O brilho do olhar? – Kaoru arriscou, com o cenho franzido.

- Poético, mas não. – Catarina parecia achar graça. O ponto da questão era justamente o final.

- Meu amigo Kaoru é um poeta! Ah, que alegria! – Tamaki passou um dos braços ao redor dos ombros do amigo – Compartilhe mais desse seu gosto encantador conosco, meu querido Kaoru!

- Cai fora, Tono. – Kaoru se livrou do braço de Tamaki sem dificuldades, o que fez o loiro se isolar ao lado do banco.

Catarina riu.

- Ele é sempre assim? – ela olhava para Tamaki com curiosidade.

- Geralmente. – a resposta veio de Kyouya, acompanhada da típica ajeitada nos óculos.

- Que divertido! – Catarina ria da cena, quase se esquecendo do cartaz.

- Pode até ser, mas ainda temos que adivinhar isso aí. – Kaoru apontou para o cartaz.

Catarina apenas olhou para ele, com seus orbes azuis brilhando em expectativa. De todos, tinha achado os gêmeos os mais interessantes. Hana combinava mais com Kyouya ou, talvez, Morinozuka. Anastácia combinava, também, com Morinozuka. Ou com Kaoru. Jenna poderia se dar bem com o Haninozuka, mas ela não tinha certeza. Mei… Mei era difícil de saber. A garota nunca tinha demonstrado interesse nesse quesito.

- O que foi? – a voz de Hikaru soou menos amigável do que ele gostaria, mas o ruivo não se incomodou.

Catarina percebeu que o encarava, corando de leve.

- N-nada…! E então, já adivinharam?

Hikaru franziu o cenho, mas Kaoru sorriu de canto.

- Bom, acertamos quase tudo. Por que não nos dá o enigma mesmo para podermos continuar? – Kaoru parecia se divertir.

Catarina parecia pensar. Talvez devesse ver há quanto tempo já estava com eles. Quando pegou o celular, percebeu que tinha recebido uma mensagem. Era Jenna dizendo à amiga que se apressasse porque eles já estavam lá há muito tempo. A loira suspirou, tirando o papelzinho de detrás do cartaz e estendendo ao grupo.

Sou vermelho, sou azul. Estou no céu, estou na água. Sou tudo e sou nenhum. Sou o invisível que se vê.

Quando Tamaki viu a última frase, pareceu se animar novamente.

- Oh, não é só meu querido Kaoru que tem habilidades poéticas! Que maravilhoso!

- Ta, ta. Mas não sabemos o que isso quer dizer ainda, então fique quieto e ajude. – Hikaru fitou o loiro com certa reprovação.

Catarina sorriu de canto.


Anastácia estava se dirigindo para seu lugar quando seu telefone tocou. Era Hana querendo saber se os estrangeiros já tinham chegado nela.

- É nada. A Cat ainda ta com eles. A Jenna já deu uma apressada nela.

- Hm. Ok, me avise quando eles chegarem. Vou ver se a Mei precisa de alguma coisa. Qualquer coisa, invoque uma de nós! – e rindo um pouco a garota desligou.

Anastácia riu. Não era normal Hana ficar conferindo se estava dando tudo certo. Geralmente ela apenas deixava rolar, confiante de que tudo acabaria como tinha planejado. "Mas, dessa vez, ela quer impressionar alguém". E ela sabia quem.