O Host Club não demorou tanto quanto Catarina achou que demoraria em concluir de que teriam de ir para a Química. Aquilo era, ao mesmo tempo, frustrante e animador. As amigas já tinham sido avisadas de que o grupo estava seguindo pelo "labirinto" que elas tinham montado, então a loira juntou suas coisas e foi se encontrar com Jenna na porta do prédio.
- E como foi? – Jenna se espreguiçava enquanto as duas andavam pelo terreno da universidade.
- Eles perguntaram como nós escolhemos os pontos. – Catarina sorriu – Achei meio inesperado. Para nós, isso era algo tão irrelevante.
Jenna sorriu de volta.
- Talvez eles quisessem algo mais leve dessa vez.
Catarina concordou com a cabeça.
O cheiro dos laboratórios invadiu as narinas dos integrantes do Host Club assim que eles entraram na área destinada ao curso de Química. Amônia, álcool, diversos compostos orgânicos e mais outras tantas substâncias. Os gêmeos, Hani e Tamaki torceram o nariz. Kyouya parecia indiferente, mas sentiu uma leve pontada na cabeça causada pelo cheiro quase nauseante. Haruhi e Mori não pareciam ser afetados de qualquer forma.
O gerente do clube foi à frente, logo eliminando as salas e os laboratórios que estavam sendo usados. Isso reduzia a quantidade de locais em que precisavam procurar pela metade. Quando chegou ao final do corredor, com o resto do clube atrás de si, percebeu que estavam na parte errada do lugar. Haruhi pareceu perceber o mesmo.
- Seria mais fácil para elas esconderem o papel no jardim, não é, Kyouya-senpai? – a pergunta, feita em inglês, saiu com alguns pequenos tropeços devidos à falta de costume da garota em usar a língua.
- De fato. – o moreno se virou para os outros integrantes, apontando para os gêmeos, Tamaki e Haruhi – Vocês olhem o jardim lá atrás. Nós vamos olhar a parte da frente.
Hikaru fechou o punho com força.
- Por que eu tenho de ir com eles? – sua voz saiu num sussurro irritado.
- Achei que gostaria de ficar com seu irmão. – Kyouya respondeu sem se abalar, o que irritou mais o ruivo.
- Tsc.
- Hikaru, deixe para lá. O jardim é grande, nós vamos precisar nos separar mesmo. – Kaoru segurou no braço do irmão antes que algo acontecesse. O mais velho apenas se virou e começou a andar. Os outros três se apressaram em segui-lo.
- Né, Kyo-chan… Por que você colocou o Hika-chan com o Tama-chan e a Haru-chan? – o tom de Hani era levemente triste.
- Ele precisa amadurecer. Seria bom se isso acontecesse logo. – Kyouya ajeitou os óculos e logo começou a andar também – Precisamos nos apressar.
Mori e Hani o seguiram.
Kaoru e Hikaru tinham ido pela esquerda no jardim, enquanto Tamaki e Haruhi tinham seguido pelo outro lado. Kaoru até tinha tentado mudar a divisão, mas o irmão apenas o segurou pelo pulso e começou a andar. Já estavam caminhando por alguns minutos quando o ruivo mais velho se deixou cair sentado em um dos bancos que havia, apoiando os cotovelos nas coxas e escondendo o rosto nas mãos.
Kaoru apenas o olhava sem perceber que mordia levemente o lábio inferior. Também não gostava de ver o Tono tão grudado em Haruhi, mas lhe doía muito mais ver o irmão sofrendo com aquilo. E Hikaru tinha passado o dia inteiro aturando as idiotices de Tamaki. Por isso estava tão irritado com tudo. Ele podia dizer que não, que era tudo por causa do "jogo idiota", mas Kaoru sabia que não. Ele só esperava que o mais velho conseguisse superar tudo aquilo logo… Aquele ano nos Estados Unidos poderia mudar a situação. Talvez – só talvez – Hikaru passasse a notar mais as pessoas ao redor.
Mas Kaoru duvidava um pouco.
Foi o soluço do irmão que o trouxe de volta à realidade. Hikaru estava chorando de um jeito que Kaoru não via há tempos. Chorando de verdade. Sem pensar duas vezes, o mais novo abraçou o irmão, lhe acariciando a cabeça. Hikaru não resistiu, passando os braços ao redor da cintura do irmão e deixando as lágrimas escaparem, acompanhadas de soluços relativamente altos.
Kyouya andava pelo jardim sem prestar muita atenção no que passava a sua volta. Hani e Mori tinha ido pelo outro lado, de forma que ele estava sozinho. Havia algo que o incomodava e ele sabia exatamente o que era. Nome, rosto e o que causava o incômodo. Ele suspirou, sentando-se em um dos bancos que havia. Aquilo era algo novo para ele. Achar alguém que pudesse deixá-lo alterado. Ele fitou o chão, com os braços apoiados nas pernas. Precisava se acalmar e se concentrar no que tinham de fazer.
Foi ao se levantar que ele viu, presa à árvore diante de si, alguma coisa presa ao galho. Com poucos passos, o moreno conseguiu cobrir a distância. Àquela altura, ele alcançava. Era um pedaço de papel como os outros, com letras impressas grafadas. Justamente o que procuravam. Ele pegou o celular e avisou os outros, dizendo onde estava. Não esperou que os amigos chegassem para começar a pensar a respeito.
De volta ao banco em que estivera poucos segundos antes, ele releu o papel.
Dito seu jeito de sentir, de pensar e de ser. Aconteço o tempo todo. Você sabe que existo, mas não pode me prender. A você, só resta se submeter a meus caprichos. Quem sou eu?
Aquele final indicava que encontrariam outra das garotas. Mas quem? Ele esperou que não fosse Hana. Algo lhe dizia que a garota seria a última das cinco. Isso deixava Mei e Anastácia como opção. Ele pensava a respeito quando o resto do grupo chegou. Kyouya se levantou como se nada tivesse acontecido e estendeu o papel para eles. Haruhi foi a primeira a se manifestar.
- Isso é sobre a mente, não é?
Kaoru comentou em seguida.
- Eu pensei em Política. Ou Relações Internacionais.
Kyouya parou para pensar por um instante.
- É mais provável que seja a Psicologia. Pelo jeito delas, não acho que fariam Relações Internacionais. – ele ajeitou os óculos – O que significa que vamos voltar para o prédio de Saúde.
Hikaru suspirou. Estava cansando daquele jogo de "gato e rato".
- E quantos pontos você acha que faltam, Kyouya-senpai? – o ruivo tinha um ar levemente desanimado, o que alertou os outros anfitriões. Mesmo assim, ninguém disse nada.
- Supondo que continuemos seguindo o padrão, falta encontrarmos três delas. Entre uma e outra, teremos um ponto sem ninguém. Devemos ainda passar por mais um ponto assim antes do ponto final para dar tempo de as cinco se juntarem. Sendo assim, são sete mais ao todo. – Kyouya não tinha o tom frio e calculista de sempre, um sinal de que estava sendo compreensivo com o amigo.
O ruivo concordou com a cabeça e logo o grupo se pôs a caminho da Psicologia.
- Anny, eles estão indo para você. – Jenna falava em um tom baixo ao telefone para não ser escutada.
Ela e Catarina tinham decidido observar os estrangeiros antes de irem para o ponto final. Quando perceberam que o grupo tinha se dividido para conferir os jardins da Química, a morena ligou para a amiga. Ela só tinha conseguido ver Mori e Hani se divertindo enquanto procuravam pelo enigma, pelo menos até eles serem chamados por Kyouya. Nesse momento, as duas decidiram seguir a dupla.
- Esse foi fácil, que coisa. – Catarina tinha um ar decepcionado.
- Bom, não tem muitos cursos que mexam com isso. Como Moda já tinha ido e realmente nenhuma de nós faria RI, sobra só a Psicologia mesmo. – Jenna desligou o telefone.
- Mas então. Entendeu meu ponto? – Catarina se dirigiu a um dos bancos enquanto falava, sendo seguida da amiga.
- Entendi que a Hana pode acabar pegando o loirinho pra criar. Do jeito que ela é com crianças…
Catarina riu.
- É uma possibilidade. Mas aquele grandão não sairia de perto. Será que eles formariam o bom casal? – a loira estava se divertindo com a conversa.
Anastácia se sentou à mesa de professor que havia na sala. Naquele momento, aquela era uma das poucas salas vazias. Felizmente algumas ficavam abertas para que o pessoal da limpeza pudesse trabalhar mais rápido. Ela analisou o coturno que usava. Tinha limpado bem na noite anterior, então o sapato estava como novo. Ela sorriu. Gostava de coturnos, mas não tinha conseguido comprar muitos ainda. Estava planejando quando iria atrás de um novo quando alguém abriu a porta da sala.
- Ora, ora, chegaram. – ela sorriu com satisfação – Pelo visto foi fácil dessa vez.
Kyouya sorriu de canto. Logo atrás vieram os gêmeos, seguidos de Tamaki, Haruhi e Mori com Hani nos ombros. Antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa, Kyouya se adiantou, parando diante de Anastácia. Tinha a mesma expressão indiferente de sempre, mas a garota sabia que por trás da máscara havia algo que ele não queria dizer.
- Quem pensou nesse jogo?
- Hana. Mas você já sabia. – a garota se se encostou à cadeira, cruzando os braços diante do corpo.
- Suspeitava. – ele se voltou para os amigos – Alguém quer perguntar alguma coisa?
Hikaru abriu a boca para dizer algo, mas mudou de ideia. Ainda não sabia como formular o que estava em sua cabeça. Os outros pareciam pensar. Kaoru foi o primeiro que conseguiu verbalizar o que sentia. O que todos sentiam. Queria saber o propósito daquele jogo. O que elas ganhariam com aquilo.
- Ora, parecemos tão interesseiras assim? Só queríamos entretê-los um pouco. – ela sorriu com certa ironia – Mas é claro que vocês não vão acreditar nisso. Eu vou te dizer o que a gente ganha. A oportunidade de avaliá-los. De saber como é o trabalho de equipe de vocês. De entender seus pontos fracos e seus raciocínios. Assim como vocês estão nos conhecendo, nós estamos conhecendo vocês. A Hana sabia que isso aconteceria. Que nenhuma de nós aguentaria apenas ir para o ponto final e esperar. Por isso estamos nessa ordem. E, de certa forma, quanto mais vocês avançam, mais a próxima fica vulnerável. Porque vocês vão entendendo as regras, vão sabendo como explorar as brechas que aparecem. A Hana se dispôs a ser a mais vulnerável de nós, só para poder ficar em um lugar agradável.
Kaoru sorriu de canto. Aquilo significava que elas estavam realmente dispostas a mostrar os lados todos que tinham. Não apenas aqueles que os outros alunos viam, mas o que elas realmente eram. Os outros integrantes do Host Club também pareceram entender. Ao perceber isso, Anastácia tirou um papel do bolso e entregou a eles dizendo que tinha feito sua parte. Os jogos de baralho não importavam mais. Kyouya pegou o papel com o enigma e se juntou aos amigos.
Há de passar por mim no início e no fim. Há de parar para me ver e ainda não me entender. Sua consciência não me guarda na memória. Sou efêmero, sou eterno.
- Teatro? – Tamaki falou com um ar inocente, o que atraiu a atenção de todos. Anastácia percebeu a mentalidade que tinha guiado o grupo até ali.
- Vocês vêm jogando considerando que sempre serão levados a um curso específico? – ela franziu o cenho, suspirando quando o grupo concordou – Não vão passar daqui então.
Hikaru pareceu se irritar.
- E nós temos que adivinhar o que vocês querem? Mas que droga. Podiam ter dito isso para nós!
- Achei que tinham percebido, considerando que nem sempre encontraram o enigma em uma sala de aula. Qualquer lugar do campus é uma possibilidade. – ela mantinha o tom calmo, olhando o ruivo nos olhos.
Hikaru bufou em resposta e se jogou em uma cadeira. Anastácia rabiscou algo em um papel e então se levantou.
- Eu volto em um instante para ver o progresso de vocês. – e saiu da sala. Pela janela do corredor, conseguiu avistar Jenna e Catarina conversando enquanto passavam pelo prédio.
Mandou uma mensagem para elas passarem na sala da Psicologia em que ela estava e voltou para dentro. O grupo discutia as possibilidades. Apesar do mau-humor, Hikaru estava concentrado em avançarem, o que era bom. Ele estava pondo o trabalho em equipe acima dos interesses pessoais. Era esse tipo de atitude que poderia lhes servir de trunfo um dia. A garota tornou a se sentar onde estava antes, esperando que as amigas aparecessem.
Passaram-se alguns minutos até que alguém bateu na porta. Era Catarina, com um sorriso largo e o cabelo preso em um rabo-de-cavalo baixo. Jenna vinha logo atrás, ficando do lado de fora da sala enquanto as outras duas conversavam. O Host Club parecia alheio a elas. No momento, tinham duas opiniões: o jardim da entrada e o lago no centro do campus. Pelo menos tinham ido pelo caminho certo. As garotas logo se despediram, pouco antes de uma decisão ser tomada pelos alunos estrangeiros.
- Vamos para o jardim da entrada. – Kyouya anunciou, pondo um fim às discussões.
Anastácia sorriu. Eles acabariam logo com o jogo se continuassem naquele ritmo.
