O jardim de entrada era grande, florido e passava a impressão de se estender além dos portões. Não tinha árvores, de forma que não poderiam seguir o raciocínio do jardim da Química, mas tinha alguns bancos espalhados pelas trilhas de paralelepípedo que passavam entre as flores. Hani sugeriu de andarem abaixados para olharem debaixo dos bancos.

- Se estiver realmente sob um banco, é provável que elas tenham se sentado para colocá-lo. – Haruhi se sentou em um banco próximo, abaixando levemente o corpo para conseguir colocar a palma toda da mão na parte inferior do assento – Dessa forma.

O grupo concordou sem muita demora.

- Então teremos de testar todos eles? – Hikaru olhou para o jardim, contando rapidamente quantos bancos eram – Devem ter uns 30 bancos aqui!

- Melhor começarmos logo então. – Kyouya sorriu de canto, parecendo se divertir com a revolta do amigo.

Os gêmeos suspiraram.


Depois de quase dez minutos de os integrantes sentando e levantando pelo jardim inteiro, Kaoru pulou contente quando conseguiu achar o papel. Hikaru, que estava no banco em frente, tinha o cenho franzido e falava com desgosto. O resto do grupo se juntou a eles.

- Eu só consegui colocar a mão em uns três chicletes diferentes. Gente nojenta. – ele mantinha a mão levemente afastada, em claro sinal de desgosto.

- A gente passa em um banheiro. Mas agora venha ajudar a resolver aqui. – Kaoru sorriu, puxando o irmão para perto para que ele lesse o enigma.

Nos meus campos já passaram grandes nomes. Já vi de tudo, sem julgar. Já sofri com abusos, você nem pode sonhar. Já mudei, mas ainda assim permaneço igual. Quem sou eu?

- Só eu acho que isso remete a outro jardim? – Tamaki tinha um ar levemente descontente. O grupo logo concordou com a opinião dele.

- Tem tanto jardim nesse lugar que não seria difícil. – Kaoru suspirou.

- Não sei. Sempre que falam em campo, eu penso em futebol. – Haruhi tinha um ar um tanto inocente ao falar.

- Atividades esportivas então. – Hikaru deu de ombros – O bom é que lá nos ginásios tem vários banheiros.

- Mas em qual deles? – Kyouya olhou algo em seu caderno antes de continuar – Existem, pelo menos, três conjuntos esportivos aqui. Sem contar os do colegial.

- Ora, vamos para o principal. – Tamaki falou como se fosse óbvio, o que atraiu a atenção de todos.

- Nós vamos poder brincar? – Hani estava empolgado com a ideia.

- É uma possibilidade. – a resposta veio de Mori. Apesar do tom indiferente, era possível ver um pequeno sorriso no rosto do moreno, um claro sinal de que ele se divertia.

Hani sorriu para o primo.


Mei terminava de dar a décima volta na quadra depois do quarto intervalo que fizera quando viu os alunos estrangeiros passando no lado mais oposto da quadra central. Ela estava em uma das quadras menores que havia em volta, correndo para se aquecer. Assim que terminou o percurso, a garota foi para a porta que havia na grade de metal que contornava a quadra. Esperaria que eles a notassem ali em poucos minutos. Caso contrário, ela teria de chamá-los.

Foi Mori quem primeiro notou que estavam na parte errada das quadras. Ele apontou para Mei, que virava uma garrafa de água no momento, atraindo a atenção de Hani. O loiro se encarregou de chamar a atenção dos outros integrantes do Host Club. A animação com que falava deixava clara a ansiedade que sentia. O fato de a garota estar nas quadras, com uma bola de futebol em cada lado do campo e em roupas esportivas dava uma ideia de como seriam as coisas.

A morena sorriu quando viu o grupo chegar.

- Achei que tinham se perdido no caminho. – ela estava levemente ofegante devido às corridas.

- Vocês que colocam umas coisas vagas e depois a culpa é nossa. – Hikaru soltou o ar pesadamente.

- Ora. – Mei riu um pouco, bebendo mais um longo gole d'água antes de continuar – Se não fosse assim, qual seria a graça?

- Pelo visto não vamos ter o enigma tão rapidamente dessa vez. – Kyouya desviou o olhar para a quadra.

- Claro que não. Mas antes… Alguma pergunta? – ela sorria animada, terminando a garrafa d'água ao acabar de falar.

- Quantos pontos faltam? – a pergunta veio de Hikaru antes de ele conseguisse pensar em algo melhor.

- Hm… – ela pareceu pensar por um instante – Quatro, incluindo o último.

Aquilo animou o ruivo.

- Finalmente!

Mei riu.

- Vamos começar? – o sorriso que apareceu em seu rosto fez um calafrio correr pelas costas dos integrantes do Host Club.


Eles já estavam ofegantes, com o suor escorrendo pelo rosto. Os coletes de lã tinham sido deixados no canto da quadra muito tempo antes. Ainda assim, o calor que sentiam contrastava fortemente com a época do ano. As bochechas estavam vermelhas, ardendo com o aumento de circulação. Mei, apesar de ter corrido bem mais, parecia estar bem menos cansada.

- Que coisa, será que aqui é o fim do jogo para vocês? – ela sorria com satisfação.

Hikaru se levantou de imediato.

- Mas nem ferrando…! – ele respirava pesadamente com o esforço. Seu corpo clamava por descanso, mas ele não se importava.

Tinha o pé sobre a bola que estava em seu campo. A outra tinha sido deixada de lado quando Mei percebeu que lidar com as duas estava sendo muito complicado para o grupo – o que os ofendeu um pouco, mas ela não ligou. O placar indicava que ela estava dez pontos na frente, apesar de estar sozinha. Hikaru respirou fundo, pegando impulso.

Quando seu pé atingiu a bola, Mei recuou alguns passos. Aquela era uma bola fora com certeza. A forma como ele a tinha acertado impossibilitava a precisão. Mas, para garantir, ela se aproximou mais do gol. Ela se pôs no caminho para defender. Sentiu certa ardência quando a bola lhe acertou o braço levantado para defender, mesmo estando um pouco fora da área do gol, mas não pôde evitar o riso. Aquela determinação toda a excitava, fazia seu sangue correr mais rápido.

- É só isso, Hitachiin? Esse é o poder esportivo de vocês? – ela tinha o tom deliberadamente provocativo.

A outra bola estava mais próxima do campo deles de propósito.

- Nem um pouco! – Hikaru estava novamente animado.

Ela devolveu a bola e encarou o gêmeo mais velho. Sua voz saiu baixa, sem que ela percebesse que pensava em voz alta.

- É o que vamos ver…

Kaoru tinha sido o primeiro a se recuperar, pegando a segunda bola enquanto Hikaru ajeitava a que tinha no pé. Se conseguissem chutar ao mesmo tempo, poderiam acertar o gol mais facilmente. Se errassem, seria a vez de Mei de chutar. Eles não podiam deixar que ela abrisse mais a diferença entre eles. Os outros integrantes do clube estavam sentados mais afastados, olhando enquanto os gêmeos coordenavam o movimento. Mei sorria com satisfação.


Quando o placar anunciou que um dos lados tinha chegado a 35 pontos, Mei se permitiu sentar. Ainda estava na frente do gol, deixando o corpo cair e se espalhar por sobre a grama. Fazia tempo que não tinha uma boa disputa esportiva com alguém. E tinha sido apertada. Eles tinham virado no final, ganhando por uma diferença de dois pontos. Como prometido, ela daria o enigma para eles. Kyouya foi o primeiro a se aproximar.

Ela retirou um papel amassado do bolso do short e entregou para o moreno.


Estou aqui por você, para que possa continuar aqui. Existo desde muito tempo. Sou de grande valor. Alio-me a outros campos, mas também existo sem ninguém.

- Não demorem muito ou ela vai ficar brava. – Mei virara mais uma garrafa grande de água ao falar – Aliás, já deve estar. Segurei vocês por tempo demais.

Kyouya olhava com certa curiosidade para a americana. Aparentemente, Hana era a cabeça do grupo, mas nenhuma delas poderia existir completamente sem as outras. Elas não teriam tanta força se ficassem sozinhas. Ele desviou o olhar para os amigos. A mesma coisa acontecia com eles. Aquelas amizades estranhas, surgidas por causa de uma ideia idiota de um loiro mais idiota ainda, eram mais fortes do que qualquer outra ligação. Era o que os mantinha fortes mais do que qualquer outra coisa.

- Se não se incomodam, eu vou tomar um banho enquanto vocês resolvem aí. Podem ir também. – Mei sorriu, apontando para os vestiários.


Por fim, de banhos tomados e roupas trocadas, o grupo do Host Club tinha decidido ir para a Medicina. Estavam na reta final da brincadeira, o que os animava e, ao mesmo tempo, não. Tinham gostado da ideia, apesar de ainda não terem admitido em voz alta. Era um jeito completamente diferente de conhecer as pessoas. Era inédito e criativo. Era algo em que eles não pensariam tão facilmente, muito menos poriam em prática.

- Então é aqui que nos despedimos. Vejo vocês no ponto final. – Mei sorriu, batendo continência para o grupo antes de se retirar.

No vestido goiaba, ela não passava a ideia de ser a atleta que realmente era. Provavelmente, por pura mesquinharia dos outros alunos, ela não tinha muitas oportunidades de mostrar esse lado. As amigas provavelmente apoiariam qualquer decisão que ela tomasse naquele sentido. Todos eles sorriam animados. Tinha sido uma atividade interessante, bem diferente. Haruhi foi a primeira a se manifestar.

- Então vamos? Estamos acabando, não é? O que será que tem no ponto final?

- Ora, ora, quantas perguntas. – os gêmeos falavam em uníssono, com seu tom usual de provocação – Ainda tem tanta energia mesmo depois de quase morrer na brincadeira?

Haruhi os ignorou.

- Kyouya-senpai, qual era o nome dela?

- Mei. Estudante de Odontologia. Todas estão no segundo ano. A anterior era Anastácia, que está em Enfermagem. Falta apenas Hana, a estudante de Moda. – o moreno ajeitou os óculos ao acabar de falar.

"Hana, a que se dispôs a ficar mais vulnerável apenas para ficar em um lugar confortável. Será?".

- Elas têm nomes mesmo diferentes. – a garota sorriu. Kyouya sorriu de volta sem perceber.

- Vamos?


Hana estava sentada no jardim da Educação, olhando o céu enquanto o dia dava sinais de que logo iria embora. Tinha achado estranho que não tivessem feito nenhuma pergunta para Mei, mas não se importava. Afinal, quantas coisas poderiam ser perguntadas sem se conhecer direito as pessoas? Provavelmente não perguntariam nada relevante para ela também. A menos que acontecesse alguma coisa, mas ela duvidava.

Sem perceber, ela tinha começado a cantarolar baixinho.


O enigma da Medicina estava grudado logo na entrada, o que causou estranheza ao grupo.

- Ta certo isso? Não deveria ser mais difícil para acharmos? – Kaoru se aproximou com Hikaru logo atrás.

Embaixo do papel do enigma, um bilhetinho tinha sido preso com fita adesiva.

Como vocês ficaram muito tempo com a Mei, decidimos facilitar esse! Achem logo a Hana para podermos ter nossa amiga de volta!

Hikaru riu alto, atraindo olhares nada amistosos das pessoas em volta.

- Bom, vamos ver onde ela está, não é? – ele pegou o papel com o enigma e voltou para junto do grupo com Kaoru ao lado.

Tenho toda a inocência do mundo e, ainda assim, posso ter ser da maior malícia. Minha consciência não me deixa entender o que faço. Olhe nos meus olhos e tente resistir. Quem sou eu?

- Um animal de estimação? – o comentário veio de Hani, que tinha um ar infantil ao falar.

Hikaru colocou o enigma ao lado da cabeça do menor.

- É, faz sentido. Não faz, Kaoru? – o mais novo concordou – Faz tanto sentido que eu até me assusto.

- De fato. É medonho que combine tão direitinho. – Kaoru parecia se divertir.

- O que, o que? – Hani olhava do papel para os gêmeos com uma curiosidade e animação genuínas.

- Naaada. – os gêmeos responderam em uníssono com um tom indiferente, logo voltando para o resto do grupo – Elas estão falando de crianças, não estão?

Os outros concordaram.

- Só tem um prédio destinado a crianças, não é? – a pergunta veio de Tamaki, que parecia empolgado com a ideia.

- Sim. O da Educação. – Haruhi tinha um ar pensativo ao falar – É um bom lugar para se terminar o jogo.

Kyouya sorriu por dentro. Aquilo poderia ser interessante…


Hana tinha acabado de se levantar quando a funcionária com quem falara mais cedo apareceu.

- Desculpe, senhorita…

- Hana. Pode me chamar de Hana. – ela sorriu calmamente para a mulher.

- É que o Matheu se recusa a ir embora enquanto o pai não a conhecer. Nós tentamos convencê-lo de que ele precisava voltar para casa, que o pai sentia falta dele, mas ele não quer sair da sala. – a mulher tinha um tom levemente desesperado.

Hana não respondeu, apenas saindo do jardim e indo em direção às escadas.


Quando chegaram à sala de aula, a funcionária pediu que Hana esperasse no corredor. Poucos minutos depois, ela voltou com um garotinho emburrado no colo. Ele parecia acreditar fortemente que estava sendo enganado, ficando surpreso ao ver Hana sorrindo do lado de fora da sala. Seus olhos infantis, grandes demais para o rosto pequeno, ficaram ainda maiores e ele automaticamente estendeu os braços para a garota, animado.

- Então você vai conhecer o papai?

- Matheu, querido, você não pode se recusar a ver seu pai assim. É muito feio ficar impondo condições para fazer as coisas, sabia? – ela falava em um tom calmo, mas tinha aceitado pegar a criança no colo.

Ele ficou com uma expressão tristonha e a abraçou, escondendo o rosto entre as mechas negras de Hana.

- Desculpa… Não fica brava…

Ela o beijou suavemente a cabeça antes de responder, sorrindo de canto.

- Só dessa vez.