Quando saíram, um homem alto de terno e óculos escuros estava parado na porta do prédio, esperando um tanto impaciente. Ao ver Hana, ele franziu o cenho e retirou os óculos, revelando olhos azuis firmes e frios. No entanto, quando ele fitou o garotinho, seu olhar amoleceu, revelando o pai coruja que ele era. Hana sorriu por dentro, se aproximando sem hesitar do homem.

- Funcionária nova? – o homem tinha um tom levemente irônico ao falar.

- Estudante de Moda. Sou Hana, muito prazer. – ela respondia de forma educada, devolvendo o olhar firme do homem com determinação.

Ele riu, se divertindo com o que via.

- Muito bem. E por que meu filho está agarrado a você como se abraçasse o bichinho de pelúcia preferido?

Matheu decidiu se manifestar, se virando para o pai com um sorriso largo.

- Ela cheira como a mamãe! – ele mantinha os bracinhos em volta do pescoço de Hana, que o segurava como se soubesse perfeitamente o que fazia.

O homem a analisou da cabeça aos pés.

- Moda, não é? – ela concordou – Faz jus. Não seria adequado querer confirmar o que meu filho diz, mas você de fato se parece com ela. – o homem sorriu de canto com certa satisfação – Ela também fez Moda, mas não aqui.

- Tenho certeza de que ela foi uma ótima profissional. – Hana sorria com calma, mantendo Matheu em seu colo. O rapazinho não parecia disposto a sair – E, pela forma como seu filho se mostra apegado a ela, imagino que tenha sido uma ótima mãe.

O homem hesitou por um segundo e a garota conseguiu ler nos olhos azuis que tinha acertado em cheio. Na vida pessoal e profissional, a mulher tinha sido dedicada e amorosa. Ela sabia que estava pisando em um terreno incerto e estava pronta para tirar o corpo fora quando o homem repôs os óculos e respondeu.

- Ela era. Não consigo imaginar ninguém que possa ser melhor mãe e esposa. – ele sorriu com certo pesar e estendeu os braços para pegar o filho.

Hana viu, enquanto entregava Matheu ao pai, os estrangeiros se aproximando. Não sabia dizer desde quando eles tinham visto a cena, mas, apesar de querer acabar com tudo o quanto antes, não se apressou para encerrar a conversa.

- Espero não causar nenhum inconveniente, mas seu filho me pediu para visitá-lo todos os dias.

O garoto apenas acompanhava a conversa, sem entender direito o que acontecia. Só sabia que o pai estava se apegando à garota. O homem via nela a irmã mais velha perfeita para seu filho. Se não fosse pelo cabelo escuro – tanto ele quanto a mulher eram loiros –, Hana poderia facilmente se passar por filha dele.

- Não vejo como isso poderia ser inconveniente, desde que não atrapalhe os estudos de Matheu. – o sorriso que ela recebeu era sincero, fazendo com que Hana sorrisse de volta da mesma forma – Pelo jeito, o rapazinho gostou mesmo de você.

Ao perceber que era o assunto, Matheu se manifestou.

- Sim! Ela me ajudou a voltar para a turma hoje!

O pai franziu o cenho. Hana se apressou em explicar.

- Ele disse que se perdeu na hora em que a turma desceu para brincar no jardim. Eu estava de passagem e o ajudei a encontrar os amiguinhos.

O homem bagunçou o cabelo do filho, falando com um tom divertido na voz.

- Tente não se perder de novo, Matheu.

O garotinho concordou, rindo.


Conforme o grupo se aproximava, mais entendiam o que se passava. A garota parada com a criança no colo era mesmo Hana. Não sabiam o motivo, mas ela se mantinha segurando a criança. De onde estavam, o homem parecia ser o pai do menino e tinha se enchido de segundas intenções ao ver a garota. Kyouya franziu o cenho, sem perceber que tinha apertado um pouco o passo. Os outros acompanhavam seu ritmo sem perguntas. Provavelmente também não tinham percebido.

Hana parecia se divertir, sem se importar ao ver que eles se aproximavam. A conversa durou mais um pouco, terminando com o homem encostando a mão brevemente no braço cruzado da garota ao se despedirem. Então os dois acenaram com a cabeça e o homem seguiu seu caminho com o garotinho – seu filho? – no colo. O sorriso em seu rosto era largo. A criança tinha se ajeitado de forma que pudesse deitar a cabeça no ombro do homem.

- Senhorita Hana! – Haruhi foi a primeira a falar quando o grupo a alcançou.

A funcionária, que acompanhava tudo de longe, sentiu o rosto corar ao ver os integrantes do Host Club e logo voltou para dentro do prédio.

- Até que enfim. Eu achei que teria de esperar para sempre. – Hana tinha um tom levemente irônico e ácido na voz ao falar.

- Não pareceu muito entediada. – a voz de Kyouya tinha o mesmo tom de provocação.

- E você não parece muito feliz com o que viu. – ela sorriu mais largamente ao perceber que tinha acertado em cheio, apesar de não ter certeza do que causava a insatisfação.

- Por que seu interesse em homens muito mais velhos deveria me afetar? – Kyouya ajeitou os óculos em uma tentativa de esconder o desconforto que só não foi falha por muito pouco.

Hana riu.

- Diga-me você, Kyouya. – ela sorria com satisfação e trocou o peso do corpo de perna enquanto falava.

Os dois se encararam por um tempo até que Hikaru decidiu intervir, cansado daquele joguinho entre os dois. O que interessava era como tudo aquilo ia acabar. Ele queria saber o que levara Hana a ser a última se, de acordo com Anastácia, aquilo a deixava mais vulnerável.

- Afinal, você não parece ser do tipo que gosta de ficar vulnerável. – ele tinha o cenho franzido.

- De fato, não gosto. – ela sorriu com calma, desviando o olhar para onde o carro do pai de Matheu tinha estado pouco antes – Mas algumas coisas são prioridade.

Kyouya fechou brevemente o punho.

- Que tipo de coisas? – a pergunta partiu de Tamaki.

- Hana-chan quer ser mãe um dia? – Hani logo estava ao lado da morena, olhando para ela com uma alegria infantil.

- Quem deixou você me chamar de Hana-chan, garoto? – ela tinha um tom gélido ao falar, rindo quando o loirinho correu com uma expressão chorosa para o colo do primo – Coisas que não interessam agora.

Tamaki não se satisfez.

- Mas, para você escolher a Educação, para você escolher ficar com tantas crianças em volta…

Hana o cortou.

- Eu gosto de crianças, e daí? – ela tinha um tom indiferente.

O loiro engoliu em seco.

- E qual é o próximo enigma? – Kyouya interveio na conversa antes que Tamaki se deprimisse.

- Não tem próximo enigma. Vocês vão voltar para a cantina e esperar uns cinco minutos. Depois podem ir para o chafariz. – ela deu de ombros – Não conseguimos fazer o que tínhamos planejado, então o final não é tão interessante assim.

A verdade era que elas ainda não tinham pensado em um bom final, mas os acontecimentos recentes tinham dado uma ideia que poderia ser bem interessante a Hana. Se as coisas acontecessem como o esperado, seria divertido. Elas já tinham combinado que o chafariz seria o último ponto. Agora elas só precisavam dar um final à brincadeira.

"A graça deve existir do começo ao fim".


As garotas estavam sentadas na borda do chafariz quando Hana se aproximou. O Host Club já estava na cantina há alguns minutos, então elas não tinham muito tempo. A estudante de Moda sorria de forma satisfeita, o que despertou a curiosidade das demais.

- Eu tenho até medo de saber em que você está pensando, ok? – o comentário veio de Anastácia, seguido de risos das amigas.

- Relaxa. Só… Brincar um pouco. Alguns deles me pareceram meio ranzinzas durante as atividades. Exceto, claro, na da Mei. Com tanta endorfina correndo no sangue, é difícil se irritar. – Hana sorriu para a amiga, que retribuiu.

- Achei que seria bom algo esportivo para descontrair. Especialmente no final, já que não tínhamos como saber muito bem como as coisas se desenvolveriam da parte deles.

- Nada mais justo. – comentou Catarina. A loira tinha se divertido bastante com os relatos de Mei de como a brincadeira tinha corrido.

- E o que eles acharam de te ver na Educação? Uma imagem inesperada? – Jenna tinha um ar levemente brincalhão ao falar, imaginando o choque que os rapazes sentiram. Elas mesmas, quando viram Hana com uma criança pela primeira vez, acharam que a amiga estava doente.

- Definitivamente. Eu estava conversando com um pai quando eles chegaram. – Hana jogou o cabelo para trás.

- Seduzindo o papai. Tsc tsc. – Anastácia tinha um tom zombeteiro.

As garotas riram e Hana deu um tapa leve no braço da outra.

- Mas, oh, não nego que ele era bonito. Loiro de olhos azuis. De terno e gravata ainda. – a garota deixava claro pelo tom em que falava que tinha aprovado o homem. As demais concordaram com um assobio.

Pouco depois de os cinco minutos acabarem, o Host Club apareceu ao lado do chafariz. A pergunta que não queria calar veio de Kaoru. Eles queriam saber qual era a surpresa do final. Hana se adiantou, sorrindo de forma satisfeita. Aquela era uma pergunta totalmente válida e merecia resposta. Ela passou por cada integrante do Host Club, parando diante de Kyouya, que estava na ponta. Os dois se encaravam como se competissem em algo que só eles conheciam. Graças à bota que usava, a diferença de altura não era tanta.

Então, em um movimento rápido, mas não bruto, a garota se projetou para frente.

Os lábios dela pressionavam os dele.

Kyouya sentia as bochechas arderem, mas não estava vermelho.

Sua expressão também não tinha se alterado.

Sem perceber, ele tinha cerrado os punhos, escondidos nos bolsos da calça.

O selinho durou poucos segundos no relógio, mas pareceu muito mais para o grupo.

Quando Hana fez menção de se afastar, ela fez questão de passar a língua pelos lábios do rapaz apenas para provocá-lo mais.

Um arrepio subiu forte pelas costas de Kyouya, mas o moreno não tremeu.

As garotas não sabiam o que dizer. Apesar de tudo, Hana não era de sair beijando as pessoas.

Os integrantes do Host Club estavam chocados. Aquilo era algo completamente inesperado, inclusive o aparente controle de Kyouya.

Os dois ainda ficaram se encarando por um tempo antes de Hana se virar para as amigas com um ar triunfante. Em poucos segundos, as cinco riam, sem saber direito do que. Hana tornou a se virar para o Host Club.

- Não fiquem de queixo caído. Só quis deixar bem claro que vocês devem esperar qualquer coisa de nós. – ela tinha um olhar frio e calculista que fez todos, especialmente Tamaki, tremerem.

Kyouya, por sua vez, ainda se recuperava do que tinha acontecido. Estava dividido entre duas vontades completamente diferentes, o que era uma situação nova para ele. O beijo, apesar de inesperado, o tinha incomodado mais por causa do contexto em que acontecera. Mas ele já tinha imaginado que Hana se encarregaria da "surpresa final" e que ela o escolheria. Afinal, aquela brincadeira era dela. Diferentemente do que ocorria no Host Club, os créditos não eram passados para agradar alguém. Não havia ninguém a quem agradar.

Todas as garotas tinham plena consciência de que a diversão toda tinha sido possível graças a Hana. E estavam visivelmente de acordo com isso. A parte delas estava feita. A recompensa estava dada. Tinham se divertido, tinham aprendido algo – vários "algos" – sobre os alunos novos. Não se importavam com quem tinha coordenado tudo.

Então, entrando na brincadeira, Catarina se pôs em pé na borda do chafariz e abraçou Hikaru, que estava suficientemente perto para isso. Quando o ruivo corou, a garota riu e lhe beijou a bochecha. As outras se divertiam. O pessoal do Host logo ria também. Kyouya sorriu. Era aquilo que importava. Que todos se divertissem. Hana parou ao lado dele, cruzando os braços diante do corpo.

- Espero que não tenha se ofendido. – ela tinha o tom baixo, perceptivelmente preocupada que tivesse irritado o moreno.

Ele negou com a cabeça. Na verdade, o que ela tinha feito tinha dissipado a sensação ruim que ele sentia. Naquele momento ele entendeu: não era uma coisa nela que o incomodava. Era ela toda. E, ao mesmo tempo, ele não entendia como poderia passar os restos dos dias em Boston sem estar com aquele grupo diferente, chamativo. Destemido.

Sem estar com Hana.

Em dois dias, ela já tinha chegado chutando todas as prioridades dele para longe e se posto no topo da lista. Ele até conseguia visualizá-la sentada no topo de sua pirâmide mental de prioridades, com o sorriso irônico e desafiador no rosto, olhando para ele como se duvidasse que ele a tirasse de lá. Por enquanto, ele preferia apenas admirar a visão.

Se as coisas dessem certo, ele não seria o único a sair de lá com as prioridades mudadas. Seus orbes se desviaram para Hikaru, que continuava com Catarina lhe abraçando por trás, a cabeça da loira no ombro do ruivo. Os dois se divertiam e Hikaru não estava mais corado. Mas parecia à vontade, o que era importante. Era mais do que a hora de ele superar Haruhi.

Uma rápida olhada para Kaoru e ele entendeu que o gêmeo mais novo pensava igual. Então o moreno tirou uma mão do bolso e enlaçou os dedos com os de Hana, que tinha abaixado um dos braços sem perceber. A garota se assustou levemente com o contato repentino, mas logo sorriu para o moreno. Naquele momento, eles selavam o acordo que uniria os dois grupos por aquele ano. Ninguém sabia afirmar como as coisas terminariam, mas isso não era importante.


Anastácia ria, se divertindo com as amigas e os mais novos integrantes do grupo. Tinham começado uma guerrinha de água infantil, tendo como principal vítima Tamaki, que tentava revidar como podia. Logo estavam todos molhados, mas não encharcados. Acabariam sentindo frio quando se acalmassem, mas não se importavam. Afinal, por que estragar o momento com um pensamento assim?

Com o canto do olho, ela conseguia ver Hana e Kyouya. Uma certa satisfação a envolveu quando ela leu nos olhos da amiga que as entrelinhas tinham sido lidas. Pelos dois. A questão agora era como as coisas se desenvolveriam. O dia tinha sido suficientemente longo para que eles percebessem rapidamente que mexiam um com o outro, o que era bom. Mas…

Catarina soltou um grito agudo, atraindo a atenção de Anastácia e a tirando de seus devaneios. A loira tinha caído sentada dentro da água, o que fazia o grupo inteiro rir. Ao redor, alguns alunos tentavam prender o riso com a cena, enquanto outros apenas se sentiam incomodados. Anastácia sorriu mais largamente. Aquela escola estava para mudar. Então, estendendo a mão para a loira, ela indicou dois alunos em um canto com a cabeça. Catarina desviou os orbes azuis na direção apontada e sorriu.

- Acho que tem gente precisando de um banho de chafariz. – o tom da loira atraiu os gêmeos, que logo entenderam a ideia, e os quatro se entreolharam.