Algumas semanas tinham se passado desde que os dois grupos tinham se acertado. E, de alguma forma, as pessoas tinham aceitado isso. Claro, eles continuavam sendo os estranhos, os rejeitados, os destoantes. Mas as pessoas não pareciam mais ter a necessidade de se impor sobre os alunos estrangeiros. O Host Club agora tinha o mesmo tratamento que as garotas. Os olhares tortos, os cochichos. Eles tinham a mesma atitude de quem não se importa.

Haruhi e os gêmeos passavam tanto tempo quanto dava com os amigos universitários, mas em muitos dias o contato só era possível depois das aulas, desde que não tivessem que estudar. Quando possível, eles recebiam uma ajuda dos mais velhos. Especialmente em se tratando do esquema das provas. As garotas explicavam os padrões de correção, que professores eram mais rígidos ou não, quais eram duros por fora, mas amoleciam com um agradinho bem feito.

O pessoal da Educação também tinha se acostumado com a presença de Hana. As funcionárias não se importavam – especialmente quando Kyouya aparecia –, mas os alunos mais velhos sempre a evitavam. No máximo, a olhavam da cabeça aos pés, analisando o conjunto completamente fora do padrão que ela tinha escolhido. Longe das pessoas quadradas, no entanto, a garota se divertia com Matheu. O garotinho já tinha conhecido Kyouya, mas ainda não conseguia se aproximar. "Ele me assusta" foi o que disse uma vez quando Hana perguntou o motivo. A garota apenas riu e disse que ele só precisava se acostumar.

E, por mais que Kyouya insistisse – com seu ar entre indiferente e gélido – no contrário, era sempre ela quem entregava o pequeno para o pai.

Ele sempre aparecia no mesmo horário para buscar o filho.

Eles sempre conversavam por alguns bons minutos.

Ele sempre fazia questão de dizer algo que a fizesse rir.

Ele sempre terminava a conversa tocando no braço de Hana.

Naquele dia não foi diferente.

- Sabe, você fica uma graça com esse olhar de "some daqui". – ela sorria como se estivesse vendo algo realmente engraçado quando se pôs ao lado de Kyouya depois de entregar Matheu ao pai.

O moreno apenas deu meia-volta e começou a andar.

- Não vai me dizer que você realmente sente ciúme. Aliás, ciúme de que, me diz? – ela tinha um tom descrente.

- Eu prefiro não falar sobre isso aqui. – ele tinha posto as mãos nos bolsos da calça, como sempre fazia depois que saíam da Educação.

- Você nunca quer falar sobre isso. Mas vai querer no dia em que acontecer alguma coisa. E aí quem não vai querer conversar serei eu. – ela dizia aquilo mais para provocar alguma reação no rapaz – Mas você fica fofo com ciúme.

O moreno cerrou os punhos e desviou o olhar gelado para Hana.

Eles estavam, desde o começo, naquele "chove-e-não-molha". Tinham decidido ir levando, porque ainda não se conheciam direito. Mas, mesmo depois de toda a intimidade que os dois grupos adquiriram, a relação não caminhou. Hana ouvia de Anastácia que precisava fazer alguma coisa, parar de esperar que o rapaz tomasse a iniciativa. Ouvia com frequência. Mesmo assim, ela continuava adiando o próximo passo. Não sabia bem o motivo, mas imaginava que era por querer ver até onde o rapaz iria.

Kyouya, por outro lado, não tinha conversado com ninguém a respeito. Apesar de as garotas já terem dito que ele devia fazer alguma coisa, porque Hana podia ser bem lerda para algumas coisas e talvez – elas sabiam que não era o caso, mas precisavam de um argumento – ela ainda não tivesse certeza se o que acontecera entre os dois tinha sido coisa do momento ou era "pra valer", como Catarina tinha definido.


Hikaru, por sua vez, tinha passado a reparar mais nas "novas amigas". Cada uma tinha um jeito bem específico de tratar as pessoas. Normal, no Host também era assim. Mas não era por uma questão de imagem. Elas não tinham aquilo pré-definido como eles quando mantinham o clube. O jeito de cada uma tinha sido muito moldado no decorrer do tempo. E Hana não era a única que mudava bastante dependendo da situação em que estava.

Catarina também era bastante adaptável. Cada uma a seu modo, elas sabiam lidar com as mais diferentes situações. Para melhorar, a loira era do mesmo tipo dele e do irmão: do tipo que gosta de pregar peças. Mesmo com os horários não combinando sempre, os gêmeos apareciam com certa frequência no prédio de Artes, especialmente na parte de Arquitetura. Os olhares que os acompanhavam tinham se tornado um misto de rejeição e certo temor do que poderia acontecer. Afinal, nunca se sabia que peça eles tinham decidido pregar – ou mesmo se, naquele dia, haveria uma.

Kaoru já tinha percebido – apesar de duvidar que o irmão também tivesse – que Hikaru tinha mais do que isso como motivo. O que era bom, sem dúvida, se o mais novo estivesse certo. Por vezes, para tentar confirmar a teoria, o ruivo se afastava dos mais velhos e ficava observando como eles interagiam. De uma forma geral, Hikaru demorava significativamente para perceber que Kaoru tinha se posto no escanteio. E isso era, na opinião do mais novo, um bom sinal. Tinha feito o mesmo naquele dia, enquanto conversavam com Catarina sobre o que fazer no final de semana.

- Se vamos mesmo fazer isso, seria bom irmos logo atrás do material. – a garota estava sentada sobre a mesa, com os pés no assento da cadeira e os braços apoiados nas pernas.

- Vamos precisar achar um bom supermercado. – Hikaru coçou a nuca.

- Primeiro montamos uma lista bem direitinho do que vamos precisar. Podemos fazer isso hoje à noite, se estiver tudo bem para vocês.

- Hm, acho que tudo bem. A próxima prova é só daqui duas semanas. – Hikaru pareceu pensar – É, duas semanas.

Kaoru sorriu de canto. O irmão estava tão entretido que não tinha percebido o silêncio.

- Podemos ver com a Hana sobre os horários também. Afinal, quanto maior for a área atingida, mais legal vai ser. – Hikaru tinha um sorriso maroto no rosto.

Catarina sorriu de volta do mesmo jeito.

- Ela vai reclamar um pouco, mas vai concordar. Afinal, ela também adora qualquer coisa que mexa com a galera daqui.

- Se não fosse assim, ela se vestiria como os outros, no mínimo. – Hikaru estava realmente se divertindo com os planos – Então hoje à noite. No nosso apartamento?

A loira pareceu pensar.

- Tenho que ver isso. Se a Hana não tiver nada para fazer, podemos passar em casa antes para deixar as coisas e as outras meninas e depois vamos para a casa de vocês.

- Ou você pode ir embora conosco. – Hikaru deu de ombros.

Catarina corou de leve e virou o rosto, sem responder. Kaoru sorriu mais largamente.

- Está decidido. – a voz do mais novo pareceu assustar os outros dois, o que o divertia – Depois da aula, nos encontre na entrada da garagem. Você vai embora conosco.

- M… Mas…! – Catarina sentia o coração acelerado e conseguia ouvir o próprio sangue correndo.

- Mas…? – Kaoru tombou levemente a cabeça para a direita, esperando a resposta com um sorriso divertido.

A loira bufou e se levantou.

- Eu vou falar com a Hana…! Voltem para a aula…! – e então saiu, com os braços cruzados diante do corpo pequeno.

Kaoru ria.

- Uma graça. – ele desviou o olhar da porta para o irmão – Não acha, Hikaru?

O mais velho concordou levemente com a cabeça, corando um pouco ao perceber que o fizera. Kaoru pareceu se divertir mais com aquilo, saindo da sala com um sorriso largo no rosto e as mãos nos bolsos da calça. Hikaru hesitou, mas foi atrás do irmão. Afinal, agora não podiam fazer nada além de esperar. Catarina mandaria um aviso para eles quando tivesse acabado de acertar as coisas com Hana.


De noite, os quatro estavam sentados no chão da sala do apartamento que os gêmeos tinham alugado. Conversavam animados sobre trivialidades depois de já terem acertado tudo para a brincadeira que fariam dali uns dias. Então o olhar questionador de Kaoru caiu sobre Hana. A garota devolveu o olhar com um quê de desafio e logo o ruivo tinha se levantado para pegar uma garrafa vazia. Catarina e Hikaru se entreolharam, levemente temerosos.

- O que vocês acabaram de combinar nesse pacto silencioso aí? – a voz de Catarina saía levemente esganiçada.

Kaoru tornou a se sentar a tempo de responder.

- Vamos brincar de verdade ou desafio! – ele sorria animado, sendo acompanhado de uma risada satisfeita de Hana.

Catarina gelou.

- Nada disso. Nana-ni-na-não. – a loira gesticulava freneticamente.

- Ora, Cat, pra quê todo esse medo? Qual é o pior que podemos fazer? – Hana tinha um tom deliberadamente inocente.

- Pra quê?! Você ainda pergunta? – a loira parecia chocada – Já se esqueceu da última vez…?!

Hana riu alto.

- Não vai se repetir. Eu prometo. – a morena tinha um ar de satisfação que fez os gêmeos se entreolharem, num misto de curiosidade e um leve temor.

- Podemos começar? – Hana colocou a mão sobre a garrafa – Fundo é pergunta e boca é resposta. – quando o trio concordou, ela girou a garrafa.

A garrafa girou por alguns segundos antes de parar apontando para Catarina e Hikaru, que estavam sentados frente-a-frente. A loira se empertigou. Seria interessante desafiar o gêmeo. Com certa empolgação na voz, ela cantarolou ao perguntar se ele escolhia verdade ou desafio. Hikaru engoliu em seco, olhando da garrafa para a amiga ao responder.

- Desafio.

Hana sorriu, apoiando o cotovelo na perna cruzada e a bochecha na mão fechada, esperando pelo que a amiga bolaria.

- Eu te desafio a… – ela fez uma pausa dramática – Compartilhar com a gente seu desejo mais estranho. – ela tinha um sorriso satisfeito no rosto.

Hikaru corou em segundos e ficou pálido em seguida. Catarina e Hana riam, enquanto Kaoru olhava preocupado para o irmão. Não fazia ideia de qual era a resposta àquilo, mas, pela reação do outro, não deveria ser nada muito bom. O gêmeo mais velho tinha travado. Não conseguia processar mais nada. Ele apenas olhava para a loira com uma expressão entre assustada e descrente, abrindo e fechando a boca repetidas vezes como se falar fosse muito difícil.

Hana abraçou o rapaz pelo pescoço e sussurrou em sua orelha ao falar.

- A gente promete não falar para ninguém, fofo.

A reação de Hikaru foi imediata. Ele se afastou de Hana, com o rosto vermelho e o coração batendo rápido. Tremia de leve, em parte pelo susto. As garotas se divertiam com a cena. Kaoru suspirou. Nunca tinha visto o irmão tão alterado. Ele sorriu de canto. Podia ser bom. "Desde que o Hikaru não termine traumatizado, acho que ta tudo bem…", ele olhou para o irmão. Hikaru ainda tentava se recompor.

Então, juntando-se à roda mais uma vez, o gêmeo mais velho ajeitou a gola da camiseta e pigarreou. Ainda tinha as bochechas vermelhas, mas parecia um pouco mais calmo. Um pouco bem pouco. Kaoru achava certa graça. Até que o irmão ficava bonitinho daquele jeito. Catarina e Hana tinham se acalmado e esperavam pela resposta com um ar satisfeito e desafiador.

- Eu… – ele fitava a garrafa, com as mãos fechadas sobre o colo. Pigarreou mais uma vez – Que droga…! – o ruivo fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, mas o cenho permanecia franzido – Meu desejo mais estranho é…

Kaoru pôs a mão sobre o joelho do irmão, como se dissesse que estava tudo bem e que o outro podia levar o tempo que precisasse. Hikaru sorriu de canto e colocou uma mão sobre a de Kaoru. Seu coração batia mais devagar, apesar de ainda não estar no ritmo normal. As bochechas tinham voltado à cor de sempre. Mas, mesmo assim, ainda estava estampado em seu rosto o quanto se sentia sem graça com aquilo, o que divertia as meninas.

Hikaru respirou fundo mais uma vez e então soltou as palavras uma atrás da outra, em um fôlego só.

- Comer uma omelete feita pela menina de quem eu gosto escrito "eu te amo" com o ketchup (N/A: ele se refere àquelas que são arroz envolvido com omelete e vem com ketchup em cima, que é usado para se escrever algo para quem vai comer).

Hana e Catarina se entreolharam. Algo romântico como aquilo definitivamente não era o estilo do rapaz, o que tornava o desejo estranho. Mas, ao mesmo tempo em que era estranho, era "extremamente fofo", como as duas anunciaram em voz alta pouco depois de o ruivo acabar de falar. Então as duas, quase se jogando sobre o amigo, o abraçaram com força.

- Que bonitinho! Ele até ficou sem graça para dizer isso! – Hana se divertia apertando a bochecha de Hikaru.

- Quem diria que ele tinha esse lado todo apaixonadinho! – Catarina bagunçava o cabelo do rapaz.

- Ta, ta, chega! Saiam de cima de mim! – apesar do tom bravo, Hikaru estava visivelmente se divertindo. Kaoru, ao seu lado, apenas ria da cena, assim como as garotas.

Então, após uma breve troca de olhares, Hana e Catarina beijaram, cada uma, uma bochecha de Hikaru e o soltaram, voltando para seus lugares. O ruivo tinha novamente as bochechas rosadas. Esperava que as duas rissem dele por querer algo tão bobo e romântico. Mas elas tinham feito exatamente o contrário, o que o fazia sorrir de canto. Então ele se ajeitou e levou uma mão à garrafa. Era hora de continuar com a brincadeira.

A garrafa parou apontando de Kaoru para Hana.

O ruivo sorriu com visível prazer da situação.

A morena engoliu em seco.

- Desafio. – apesar disso, a voz dela saía firme.

Kaoru apoiou os braços nas pernas cruzadas, projetando um pouco o corpo para frente. O sorriso continuava em seu rosto. Ao seu lado, o telefone piscava, indicando que a mensagem que ele escrevera tinha acabado de ser entregue. A morena fitava o aparelho como se pudesse extrair alguma coisa de lá. Não demorou muito para a campainha tocar.

- Eu a desafio a beijar quem estiver atrás da porta. – a satisfação de Kaoru era tanta que era quase palpável.

Hana engoliu em seco.

- Isso não é justo. Não deveríamos envolver terceiros no jogo. – ela tinha sentado sobre as mãos para tentar controlar o nervosismo. Poderia ser qualquer um, mas ela sentia que ele tinha escolhido a dedo quem apareceria.

- Não se preocupe, eu avisei que estamos jogando. Não vai precisar explicar. – Kaoru se levantou – Eu vou com você até a porta.

Hana soltou o ar pesadamente. Não tinha escolha. Então a garota se levantou e, enquanto ia até a entrada do apartamento, sentia os olhos de Hikaru e de Catarina em suas costas. Aquilo não estava nos planos. Tinha combinado o jogo com Kaoru para fazer com que Catarina e Hikaru ficassem juntos. Apenas. Ela parou ao ver que o ruivo tinha parado junto à porta. A mão dele estava na maçaneta. Ela sabia que não poderia ficar onde estava, que teria de ficar bem na frente da porta.

Respirando fundo, ela cobriu a pouca distância que sobrava.

Kaoru abriu a porta num ritmo deliberadamente menor do que deveria.

Hana sentia o coração batendo forte na garganta.

Quando a porta se abriu, ela sentiu os joelhos tremerem.

Não poderia ser verdade.