Hana acordou quando era quase meio-dia com batidas na porta do quarto. Sentia-se dura por ter ficado tanto tempo na mesma posição quase fetal sobre a poltrona. Catarina já tinha voltado de sua corrida e tomado banho, agora estava na sala conversando com Kaoru. Hikaru tinha saído para chamar a morena. Hana se espreguiçou e foi lavar o rosto antes de abrir a porta. Tinha o cabelo desgrenhado e o rosto marcado da coberta. Prendeu o cabelo em um rabo baixo, mas não tinha como dar um jeito no rosto.
Quando abriu a porta, Hikaru parou com a mão no ar a tempo de não acertar a garota.
- Achei que não acordaria nunca. – o ruivo tinha um tom divertido na voz.
- Achei que fosse me bater. – ela franziu o cenho – Que horas são?
- Meio-dia, Hana. Você dormiu bastante, hein? – o mais novo colocou a mão sobre a cabeça da morena, visivelmente fazendo gozação.
Hana suspirou. Estava atrasada.
- Pode pedir pra Cat vir aqui? Eu preciso fazer uns telefonemas. – ao ver a expressão confusa de Hikaru, ela apenas acrescentou um "por favor" e fechou a porta.
Tinha combinado de ver Matheu naquele dia. Iria ao parque com ele. Kyouya iria junto, "apenas por precaução". Palavras do moreno. Hana sorriu de canto ao se lembrar disso. Mas seu sorriso logo sumiu ao pensar que ainda precisaria passar em casa, tomar um banho e ver o que vestir para só então ir se encontrar com o garoto. E não tinha deixado um ponto de encontro marcado com Kyouya. Precisava resolver isso.
- Senhor Williams? Desculpe por ligar assim, mas achei que seria melhor avisar que vou me atrasar um pouco. Acabei perdendo a hora… – ela fez uma pausa ao perceber que o homem iria falar e escutou por alguns segundos – Tudo bem, compro sim. Chocolate? – uma nova pausa – Tudo bem, eu levo sim. Até mais, então.
Em seguida, ela ligou para Kyouya. Enquanto o telefone chamava, Catarina entrou no quarto.
- Ta tudo bem? – a loira tinha o cenho franzido.
- Ah, sim. – Hana sorriu para a amiga – Mas eu preciso voltar para casa. Vai comigo? – nesse momento, o rapaz atendeu – Ah, não você. Você eu sei que vai. Perguntei pra Cat. – pausa – Ah, não precisa ficar irritadinho assim por isso, por favor. Seguinte, eu preciso passar em casa. Onde a gente se encontra? – pausa – Ta, então te vejo lá embaixo em cinco minutos. – e então ela desligou.
- Vai sair com o Kyouya? – Catarina sorria de canto com certa satisfação.
- Vamos ao parque. – Hana terminou de juntar suas coisas – Vai voltar comigo ou não?
Catarina pensou por um instante.
- Ah, não. Depois peço carona para os gêmeos se precisar.
Hana assentiu com a cabeça e então calçou os sapatos. Beijou a amiga no rosto e saiu apressada. A chave do carro chacoalhava em sua mão. Despediu-se dos gêmeos com um aceno e um beijo soprado e saiu, descendo pelas escadas. Seria mais rápido que esperar o elevador e não eram muitos andares. Chegou à garagem pouco antes de a porta do elevador se abrir e revelar um Kyouya levemente emburrado por ter sido acordado antes do previsto. Graças a Tamaki, o moreno tinha dormido pouco.
A morena dava partida no carro quando o rapaz entrou. Sem pensar muito no que fazia, ela o beijou na bochecha antes de cumprimentá-lo. Kyouya se assustou de início, mas se recompôs em poucos segundos, fechando a porta com a delicadeza esperada, de forma que a porta fez um ruído levemente alto ao bater. Hana jogou o que tinha no colo no banco de trás e saiu com o carro. Kyouya ainda tentava entender o que tinha acontecido.
- Pela cara, dormiu mal. – ela sorriu de forma marota para ele – Tamaki estava eufórico de novo?
O moreno concordou com a cabeça e apoiou o braço na porta. A cabeça pendia para trás, afundando levemente no couro.
- Ele é uma graça todo apaixonado assim, mas consegue chegar a um nível realmente irritante, não? – a morena ria da expressão emburrada do outro – Bom, vamos passar na minha casa antes de ir. Eu preciso trocar de roupa e tomar banho. E temos que comprar picolés.
Kyouya se virou para Hana ao ouvir a última frase.
- Por que temos que comprar sorvete exatamente?
- O senhor Williams pediu.
O rapaz cerrou o punho esquerdo, mas a garota não viu. Estava ocupada demais manobrando no trânsito.
- Só por isso? – o tom de Kyouya era frio, mas Hana apenas ignorou.
- Matheu pediu, na verdade. – ela olhou brevemente para o outro e sorriu de canto.
- Você está mimando muito esse garoto. – Kyouya tinha voltado a olhar pela janela.
Ela deu de ombros.
- É só de vez em quando, você que é exagerado.
- Você o vê todo dia. Mesmo quando não temos aula.
- E isso o incomoda? Por acaso você está com ciúme? – ela estava visivelmente se divertindo com a conversa.
Kyouya não respondeu, o que fez com que a garota sorrisse com satisfação. Talvez Anastácia tivesse razão e era hora de Hana tomar a iniciativa. Mas aquilo poderia ficar para depois. No momento, ela só conseguia pensar em tomar um bom banho e por uma roupa limpa.
Quando saíram para o supermercado, Hana vestia uma saia que ficava pouco acima dos joelhos, para variar um pouco das saias longas que costumava usar. Era uma verde militar pregueada e camuflada. Por baixo, ela usava um short curto o suficiente para não aparecer, apenas aquecê-la. Usava também uma regata branca com uma jaqueta preta por cima. Calçava uma bota de cano alto até o joelho, com cadarços que subiam desde o peito do pé até a canela, salto alto e uma pequena plataforma na frente, ambos de borracha. A plataforma era pelo salto ser muito alto, de forma a não machucar o pé.
Kyouya tinha franzido o cenho ao ver como a garota estava vestida, mas não podia negar que tinha gostado. Ela tinha um estilo diferente, que, ao mesmo tempo em que lhe causava estranheza, o atraía. Poucas pessoas se vestiam daquela forma, então a garota sempre chamava atenção por onde passava. O rapaz tinha notado alguns olhares um tanto mal-intencionados, sempre se pondo mais próximo de Hana quando isso acontecia e olhando em volta com um ar de poucos amigos.
As pessoas tendiam a entender rapidamente o recado.
Quando chegaram no parque, o céu tinha aberto, ficando consideravelmente azul. O sol estava fraco, mas aquecia o suficiente. Em um banco no lado oposto ao que o casal – ou quase casal – estava, Matheu se encontrava com o pai, conversando animado sobre alguma coisa. O homem sorria de forma verdadeira, o que fez Hana sorrir sem perceber. O garotinho falava gesticulando com as mãos e os braços, sorrindo largamente para o pai. Quando o pequeno viu Hana e Kyouya, seu sorriso se alargou – se aquilo fosse mesmo possível – e ele sairia em disparada na direção dos dois se não fosse pelo pai.
Jenna, Anastácia e Mei estavam sentadas na sala da casa que tinham comprado dois anos antes, conversando sobre o pessoal do Host Club. Pelo clima que tinha se instalado entre Hana e Kyouya e Catarina e Hikaru, aquele era um assunto frequente, mas, a cada vez, um aspecto diferente era abordado. A noite passada fora pelas duas integrantes, ainda ausentes, do grupo, apenas reforçava a teoria do trio de que aquela união tinha vindo para ficar.
- Mas o problema vai ser no final do ano. Eles não voltam para o Japão? – o comentário com ar pessimista veio de Mei.
- Ai, Mei, pra que pensar nisso agora? Você acha que eles se importam? Querem mais é curtir o tempo que eles têm juntos. – Jenna tinha um leve ar de reprovação.
- Mas esse é um ponto importante. E se elas quiserem ir para o Japão com eles? – Anastácia franziu o cenho.
- Ai, gente, quanta bobagem. Elas não iam simplesmente nos largar aqui a ver navios. – Jenna revirou os olhos – Mas e vocês? Não se interessaram por nenhum, por acaso? – ela tinha um ar levemente provocativo.
As outras duas pararam para pensar.
- O Kaoru é bonitinho. – Anastácia foi a primeira a responder.
- Convenhamos, ele é super o seu tipo de menino. – Jenna tinha se empolgado com a ideia.
Mei concordou com a cabeça. E, parando para pensar, Kaoru era o que tinha se tornado mais próximo da amiga. Na verdade, ele tinha se tornado o mais próximo de todas elas de algum jeito. Mas, em se tratando de Anny, a intimidade parecia ganhar um ar diferente. Como se o ruivo tivesse medo de fazer alguma besteira e afastar Anastácia. Como se tentasse frear um flerte que mal existia, porque o rapaz sabia que as técnicas do Host Club – àquela altura, elas já sabiam do grupo na escola japonesa e das encenações para as clientes – não funcionariam. Não com elas. Muito menos com Anastácia.
- Ele é fofo. – Anastácia deu de ombros – Daí a ser "super o meu tipo de menino" eu já não sei.
- Fala sério, ele é uma graça. Todo preocupado. Com todo mundo. Observador. E bonito. – Jenna tinha um ar maroto que fez um arrepio correr pelas costas de Anny.
- E mais novo. – a garota franziu o cenho – Não acho que ele seja tanto quanto aparenta.
- Ora, que bobagem. Como se dois anos nos tornassem as madames Maturidade. – Jenna tinha um ar zombeteiro.
- Bom, na verdade, considerando que as mulheres amadurecem primeiro, dois anos fazem bastante diferença. – Mei tinha um ar inocente, sem perceber que estava jogando água fria no argumento de Jenna, que suspirou.
Anastácia apenas riu.
Catarina estava deitada preguiçosamente no sofá, esperando enquanto Hikaru fazia pipoca. O ruivo não estava acostumado a preparar coisas, mas tinha seguido as instruções do pacote – felizmente eles tinham posto um aparelho de micro-ondas no apartamento – e tudo parecia estar dando certo. Kaoru tinha saído por alguns instantes, dizendo apenas que já voltava. Na verdade, ele estava no apartamento de Mori e Hani, matando tempo. Queria dar ao irmão e à amiga a oportunidade de ficarem sozinhos um pouco. Depois perguntaria a Hikaru como tinham sido as coisas.
"Ver filme e comer pipoca. Sentados no sofá dividindo a coberta. Que programa mais romântico, Hikaru", Kaoru sorriu de canto. Hani estava dormindo naquela hora e Mori preparava alguma coisa na cozinha. Apesar de não aparentar, o moreno tinha mais habilidades além das artes marciais. Kaoru lia um livro qualquer que tinha pegado da prateleira dos amigos. Era algo sobre a origem de várias lendas e contos infantis.
Alguns andares abaixo, Tamaki e Haruhi seguiam a mesma programação dos amigos. Tinham alugado alguns filmes e, como a garota já tinha estudado tudo que precisava, os dois podiam passar um tempo juntos. O loiro tinha ficado quase eufórico quando soube, o que arrancou algumas risadas de Haruhi. Eles estavam sentados no sofá, enrolados em uma colcha nem grossa nem fina. Tamaki abraçava a garota ao seu lado pela cintura, mantendo-a perto de si. Haruhi não parecia se incomodar, ficando com a cabeça apoiada no loiro.
Dividiam um pote de pipoca de panela, preparado pela garota. Todas aquelas coisas misturadas – passar um tempo com Haruhi, poder ficar abraçado a ela, comer algo que ela cozinhara – faziam com que o coração de Tamaki batesse com força de tamanha alegria. Tanto que o loiro não sabia como estava conseguindo se manter quieto sentado no sofá.
Aquele era um dia bastante agradável para todos eles, apesar de Kyouya se sentir desconfortável com a presença do pai de Matheu. Mas o que poderia fazer? O garoto não poderia simplesmente sair sozinho para o parque. Naquele momento, o moreno estava apoiado com as costas em uma árvore, vendo Hana ajudar a criança a limpar a boca suja por causa do picolé. A morena parecia verdadeiramente tranquila e confortável com a situação, assim como Matheu.
A cena fazia Kyouya sorrir de canto.
