Era, após várias semanas de considerável folga, o nada desejado período de provas. Para os cursos da faculdade, aquilo significava não ter aulas. Já para o pessoal do colégio, significava exatamente o contrário. A grade era alterada um pouco, de forma que as provas eram sempre no começo do dia, mas eles não estavam dispensados depois.
- Isso é injusto. – Hikaru reclamava pela terceira vez no dia, um domingo, sobre o método escolhido pela instituição.
Hana suspirou. Tinham marcado de fazer um grupo de estudo naquele dia, mais pela companhia, já que os cursos eram todos diferentes. Mas o ruivo estava tornando impossível, para a maioria deles, estudar. A morena já tinha colocado fones de ouvido para tentar bloquear as reclamações do amigo, mas não tinham funcionado. O volume que a agradava não era alto suficiente e aumentar mais lhe daria dor de cabeça.
Haruhi e Jenna pareciam ser as únicas concentradas, pelo menos por um tempo. Logo as garotas perceberam que Jenna tinha dormido na mesma posição em que estava enquanto estudava. Era difícil para todos. A primeira prova para Hana era de Sociologia da Moda – algo que ela detestava. Catarina tinha Cálculo, que, apesar de não ser das mais complicadas, estava longe de ser seu forte. Jenna tinha que lidar com História do Design – e a área de humanas não era exatamente sua paixão. Mei tinha prova de Psicologia aplicada à odontologia, algo que ela tinha sincera dificuldade em entender – afinal, se é para mexer com a boca do paciente, para que saber psicologia? Já Anastácia tinha que entender Farmacologia. Não era um estudo tão profundo – o que já a fazia agradecer aos céus –, mas ainda era complicado, já que a professora exigia que os alunos soubessem, além do nome genérico, o nome comercial de diversos medicamentos e seu mecanismo de ação de uma forma mais geral. Apenas "age no cérebro" não era suficiente.
Quando Hikaru suspirou, Hana e Anastácia olharam para ele já de mau humor, prevendo uma nova reclamação. Mas o ruivo apenas se levantou e foi até a cozinha. Estavam no apartamento de Kyouya, que tinha decidido tirar um cochilo depois de algumas horas meio infrutíferas de estudo. Alguma coisa – que ele ainda não sabia o que era, além de Hikaru – o incomodava. Sua mente se recusava a se focar no que ele precisava estudar. Ou, como ele havia dito, "apenas dar uma relida". As garotas reviraram os olhos com o comentário.
Hikaru voltou com um copo de chocolate quente em mãos e um ar mais leve. Aparentemente, ele só precisava de algo para se ocupar. Catarina sorriu de canto e foi até o ruivo. Com um brilho alegre no olhar e um sorriso largo, apesar de os lábios não se separarem, ela olhava de Hikaru para a caneca. O ruivo levou alguns segundos para entender que ela queria um gole, mas logo lhe estendeu a bebida, rindo de leve da expressão da loira.
- Sabe, você pode pedir que nem uma pessoa normal. – ele bagunçou um pouco o cabelo da menor ao falar.
Ela bebeu um gole grande em resposta à provocação, deixando dois terços do que havia antes. Hikaru sentiu-se sem reação. Catarina, por sua vez, voltou quase saltitando para seu lugar. As amigas riam, tentando disfarçar olhando para o material que tinham levado, mas sem grande sucesso. Hikaru por fim deu de ombros e tornou a se sentar. Hana foi a primeira a dizer algo.
- Isso é para você aprender a não provocá-la por causa da altura.
Anastácia riu, jogando o peso para trás e se apoiando nas mãos. As pernas estavam dobradas sob a coberta que ela tinha pegado emprestada. Com a aproximação do inverno, as temperaturas tinham caído bastante. A única que parecia não se incomodar com o frio era Hana – o que gerava, em certas ocasiões, diversas piadinhas por parte das amigas. Catarina então se sentou entre Anastácia e Hikaru, se aninhando no colo da amiga. Sentia sono devido ao esforço para estudar. A morena afagou os cachos loiros, ninando a outra.
- Ela realmente parece um bichinho. – a voz de Kaoru saía baixa para não despertar Catarina – É fofo de um jeito estranho.
Hikaru fitava as duas. Anny parecia extremamente à vontade com a situação, apesar de elas parecem estar em posições desconfortáveis. Catarina, por sua vez, tinha adormecido em pouco tempo e parecia estar em um sono profundo, encolhida e enroscada ao redor da amiga. O pessoal do Host Club já sabia, mas aquilo reforçava a ligação entre elas. Nenhum deles conseguia imaginar uma situação como aquela de forma natural. Os únicos que davam um quê de naturalidade eram os gêmeos, mas ainda assim não era como Catarina aninhada no colo de Anastácia.
Ao notar o olhar do ruivo, a morena sorriu de canto e lhe pegou delicadamente a mão. Então a deixou sobre a cabeça de Catarina, como se dissesse para o amigo fazer o cafuné em seu lugar. Hikaru hesitou, mas logo afagava a cabeça da menor. Hana e Anastácia se entreolharam, sorrindo ao notar a tranquilidade que tinha aparecido no sorriso do ruivo. Kaoru também sorriu com a cena. Era bom ver o irmão despreocupado.
Ao final da tarde, com o grupo já exausto, Kyouya perguntou se os amigos não queriam ficar por lá mesmo. Moravam quase todos no mesmo prédio, mas ninguém recusou a proposta. As garotas tinham se animado com a ideia, já pensando em se apossar de Haruhi e fazerem uma noite das meninas em um dos quartos. Tamaki não gostou da ideia e tentou protestar, mas o olhar gélido de Hana e de Anastácia o impediu de tentar pegar Haruhi "de volta".
O problema maior era que as garotas não tinham o que vestir – diferentemente de quando Hana e Catarina tinham ido para a casa dos gêmeos, já que a morena levara coisas de casa por precaução. Kyouya apenas respondeu com um indiferente "olhem nas gavetas" e voltou para seu quarto. Kaoru não resistiu e foi atrás do amigo.
- Kyouya-senpai. – o ruivo bateu na porta aberta, se apoiando no batente – Posso perguntar uma coisa?
- Não vejo porque não poderia. – o moreno ajeitava algo quando respondeu e não virou para o amigo ao falar.
- O que você pensa da Hana-chan? – ele tinha usado o tratamento escolhido por Hani de propósito.
O moreno parou o que fazia e se virou para o ruivo. Sua áurea tinha se tornado sombria e o mais velho estava visivelmente incomodado com a forma como Kaoru tinha escolhido para se referir à garota. Sua voz saiu fria, quase como uma lâmina afiada. O ruivo, apesar do arrepio que sentiu nas costas quando seus orbes cor de mel cruzaram com os negros do veterano, não se deixou abalar.
- E por que você está me perguntando isso?
- Só achei que alguém deveria por isso em pratos limpos. Sabe, vocês dois ficam bem juntos.
Kyouya não respondeu, apenas voltando a arrumar o que precisava.
- Seria uma pena – Kaoru sorriu com malícia, sabendo que pisava em terreno perigoso. Mas, apesar disso, estava até se divertindo com as provocações – se a Hana-chan se cansasse de esperar.
Kyouya respirou fundo antes de se virar para o amigo de novo. Kaoru engoliu em seco, quase se arrependendo do que dissera.
- Não me importo com a forma como decide chamá-la. – aquilo era mentira, mas o moreno falou com tal convicção que era bem passível de verdade – Mas vá direto ao ponto ou volte para junto dos outros.
Kaoru hesitou, mas decidiu falar. Seria melhor se os dois se acertassem logo, de qualquer forma.
- Você devia dizer a ela que gosta dela. Sabe, ela ficaria realmente feliz com isso. – o ruivo sorriu de canto com um ar levemente triste que Kyouya interpretou como sendo compaixão – Vocês se dão tão bem. E o motivo disso é tão… Óbvio.
O moreno não respondeu.
- Em todas as vezes em que ela o beijou – o mais novo sabia que falar daquele jeito fazia parecer que tinham sido várias vezes e não apenas duas –, como você se sentiu?
Kyouya apenas deu novamente as costas para a porta. Aquilo não importava. Ele tinha certeza de que nada daquilo era suficiente. Sem perceber, tinha cerrado os punhos. O moreno sabia que o amigo tinha chances de estar certo. Mas e se não estivesse? Ele ainda tinha expectativas para atingir. Brincar de relacionamento com alguém de outro continente por um ano apenas iria atrapalhá-lo. Ele não tinha tempo para pensar naquilo. Mesmo com a distância, o pai continuava a observá-lo.
"Pura bobagem" ele conseguiu ouvir em sua cabeça. A voz, tão conhecida, o fez olhar em volta com certo receio. Kaoru já tinha se retirado. Tinha entendido rápido que Kyouya não manteria a conversa por muito mais tempo. Respirando fundo algumas vezes, o moreno fechou a porta e caminhou em direção à cama. Precisava sentar. Precisava se acalmar. Se tinha chegado ao ponto de ouvir a voz dela dentro de sua cabeça… Aquilo não podia ser verdade.
As garotas tinham pegado o maior dos dois quartos que sobravam e conversavam animadas. Haruhi, apesar de não ser do tipo tagarela, estava rindo com vontade. Era estranho, mas estava realmente se divertindo. Os assuntos eram tão triviais e, ao mesmo tempo, extremamente interessantes. Experiências das garotas, comentários ácidos sobre os colegas ou professores, provocações mesmo entre elas. Era um grupo bastante diferente do que ela estava acostumada. Ali, não importava quantas vezes alguém tinha ido para a França – na verdade, nenhuma delas tinha saído do país ainda –, ou em quantos restaurantes já tinham encontrado artistas.
Eram apenas garotas normais conversando sobre vidas normais.
Ninguém ligava para celebridades ou se o cabelo sairia na capa de revista. Ninguém se importava se herdaria os negócios da família. Não tinham nem negócios para herdar, por isso precisavam arranjar um bom emprego depois da faculdade. Elas acreditavam que conseguiriam ser efetivadas cada qual em seu estágio e ficar em boas empresas. Acreditavam que Haruhi seria capaz de superá-las com facilidade. Acreditavam que podiam moldar o mundo a seu jeito.
Era um universo completamente diferente daquele do Host Club. Ainda assim, os dois grupos conseguiam se dar extremamente bem. Provavelmente porque se completavam. Porque davam várias visões de um mesmo acontecimento, o que enriquecia a bagagem de todos. Desde o começo. Desde a "caça ao tesouro", em que o prêmio final foi uma amizade que, se desse tudo certo, seria intercontinental. Todos saíam ganhando com a estranha ligação entre os alunos mais excêntricos da escola.
Mas, por trás de todos aqueles risos, de toda aquela alegria, corações apertados se controlavam para não gritar. Haruhi via o olhar de Anastácia correr de Hana para Catarina com frequência, sempre com um quê de preocupação quando o assunto era garotos. Mesmo se falassem dos rapazes idiotas que tinham como colegas de sala. E Haruhi entendia – apesar de não tão profundamente, porque era meio desligada – o motivo daquela preocupação.
Era porque, depois da porta, fora daquelas paredes que delimitavam o "mundo das garotas", estava o mundo real, em que as coisas não eram tão fáceis, as pessoas não sabiam ser tão compreensivas e os sentimentos nem sempre estavam presentes no mesmo momento. Mesmo se estivessem, nem sempre os sinais eram claros. Nem sempre as interpretações eram corretas. Ela sabia disso muito bem. Ao pensar nisso, um sorriso de canto apareceu em seus lábios. As garotas estavam distraídas demais para notar, mas Haruhi não ligou.
Kaoru estava ao lado do irmão debruçado na varanda, olhando o céu noturno. Hikaru não tinha dito nada sobre o cochilo de Catarina e como ele tinha se sentido ao niná-la, mas o gêmeo mais novo sabia sem precisar perguntar. O irmão tinha ficado alegre durante o resto do dia e não tinha reclamado mais, nem que fosse só de birra. E Anastácia tinha contado para a loira sobre o ocorrido. A única reação da menor foi corar e desconversar.
"Esses dois podiam parar de dar tanto trabalho", Kaoru suspirou. O gesto atraiu a atenção de Hikaru, que perguntou com uma preocupação genuína se estava tudo bem.
- Eu estaria melhor se você percebesse algumas coisas logo. – o mais novo sorriu de canto ao ver a confusão no rosto do outro – Esquece. Você vai entender depois.
- Mas… Mas se tem algo te incomodando, Kaoru…!
- Ok, ok, não precisa se preocupar. – Kaoru afagou o cabelo do irmão, sorrindo de forma divertida.
Hikaru soltou o ar pesadamente. Não adiantaria discutir.
- Mas… – Kaoru tornou a se debruçar na varanda, olhando para o céu ao continuar – O que você acha da Cat?
Hikaru sentiu as bochechas ficarem rosadas e também se virou para fora.
- Ela é divertida. E, apesar de tudo, ela tem um lado…
- Fofo? – Kaoru desviou o olhar para o irmão, com um sorriso maroto no rosto. Ao ver o mais velho corar, ele apenas riu.
- Ela entende a gente. – sem perceber, Hikaru sorriu de canto.
- E é uma graça. – Kaoru tinha um ar satisfeito, alargando o sorriso quando o irmão pigarreou. Estava acertando em cheio os pontos que o mais velho não conseguia dizer.
- É você quem está dizendo. – Hikaru ficou com uma expressão emburrada por alguns segundos, mas logo tinha voltado a sorrir de canto.
- Você gosta delas? De todas elas, eu digo. – o mais novo achou que era melhor afunilar o assunto aos poucos.
- Elas são divertidas. São originais. Elas têm um ponto de vista que coincide em muito com o nosso.
- Especialmente Hana, Anny e Catarina. – Kaoru analisava cada reação do irmão com calma.
- Acho que a Anny nem tanto. Apesar de ela acordar conosco em vários pontos, não consigo imaginá-la colaborando com algum dos nossos planos. – Hikaru pareceu pensar por um instante – Talvez ela até ajudasse um pouco a planejar algo, meio sem perceber. Mas não ficaria muito de acordo quando percebesse.
- Então você gosta mais da Hana e da Catarina, porque elas aceitariam mais nossas… Brincadeiras. – Kaoru deixou a satisfação que sentia ficar clara em seu sorriso. Hikaru não percebeu, seus olhos continuavam voltados para o céu.
- É. Acho que dá pra dizer isso. – Hikaru deu de ombros.
- Seguindo seu raciocínio, Catarina é a mais interessante, já que ela colabora muito mais. – Kaoru se apoiou de costas na varanda, com os braços cruzados diante do corpo e o rosto voltado para o irmão.
Hikaru finalmente pareceu notar aonde o mais novo queria chegar, sentir o rubor lhe subir pelo rosto.
- E-eu… Eu não disse isso…! Eu nunca disse que gosto dela assim…!
- Acabou de dizer, na verdade. – Kaoru ria das reações do outro.
- Isso não vale, Kaoru…! – Hikaru escondeu o rosto nas mãos e respirou fundo antes de continuar – Isso foi manipulação.
- Mas você gosta dela, não gosta? – Kaoru não parecia se importar com o que o irmão dizia.
Hikaru ficou em silêncio, o que apenas aumentou o sorriso satisfeito de Kaoru. Então o mais novo abraçou o irmão, rindo levemente do rosto corado do mais velho. Seria bom se aquele ano nos Estados Unidos fizesse Hikaru superar de vez Haruhi. Mas, por outro lado…
"Não pense nisso, Kaoru. Não pense no pior quando ainda tem muita coisa para acontecer".
Kaoru olhou para a lua cheia, que brilhava forte no céu. Aquele seria um ano realmente interessante…
N/A: Kaoru poderia trabalhar como cupido, hahahaha
