Anastácia estava na cozinha, preparando seu café da manhã. A casa dormia, mas ela não tinha mais sono. A noite tinha sido agitada, de forma que a garota ainda sentia-se cansada. A ideia era de que, talvez, comer ajudasse. "Digestão e tal…" foi como ela encontrou para justificar mentalmente o tanto que pretendia por para dentro. A morena já estava a algum tempo preparando o que comeria quando ouviu passos vindos do corredor. Com um ar despreocupado, ela desviou os orbes castanhos na direção da porta, sorrindo de canto ao ver um Kaoru sonolento entrando na cozinha.
- Bom dia. – ela tinha um ar animado ao falar, sorrindo para ele enquanto se servia de uma xícara de chá.
O ruivo levou um tempo para processar o que acontecia.
- Ah, Anny… Bom dia. – ele sorriu de canto, bocejando em seguida.
- Acho que você não devia ter saído da cama. – ela serviu outra xícara da bebida e estendeu para o amigo, que aceitou de bom grado e se sentou à mesa.
- Talvez… Mas não conseguia mais dormir. Hikaru estava muito agitado e acabou me batendo algumas vezes enquanto dormia. – ele sorriu de canto. Antes de tomar um gole do chá, ele levantou a xícara para a morena em agradecimento.
- E agitado por quê?
Kaoru suspirou.
- Todas as noites algo dá errado. Se ele não demora a dormir, tem um sono agitado. Ou então acorda várias vezes durante a noite. – o ruivo terminou o chá e deixou a xícara sobre a mesa – Mas eu não sei o motivo.
Anastácia pareceu pensar.
- Quais as chances de ser porque o subconsciente dele está tentando passar uma mensagem? – pelo sorriso no rosto da garota, Kaoru entendeu o ponto.
- Grandes, eu diria.
A morena riu, terminando o pão que tinha preparado e estendendo algumas bolachas para o amigo. Kaoru aceitou em silêncio, comendo sem muito ânimo. Tinha passado tanto tempo se preocupando em resolver a vida dos amigos que ainda não tinha parado para pensar em como ele se sentia a respeito das amigas de Boston. Mas, naquele momento, sem ninguém precisando de um cupido a postos, ele conseguia ver o próprio lado das coisas.
Anastácia estava com o cabelo despenteado, preso em um coque feito às pressas, com várias mechas escapando. Os dois ainda estavam de pijama. O dele era branco, simples, um conjunto de calça e camiseta. Já a garota usava uma camiseta masculina grade demais para ela e uma calça de moletom. Kaoru se pegou correndo os olhos pela vestimenta da garota antes que a morena percebesse. Imediatamente, seus olhos se voltaram para a xícara diante de si. A mão tinha parado no ar, ficando no meio do caminho entre o prato de bolachas e a boca.
- Tudo bem? – a voz dela o trouxe de volta à realidade, expondo uma preocupação sincera.
- Tudo. – ele deixou a bolacha que tinha pegado no prato de volta e se levantou – Acho que preciso de mais chá. – então pegou a xícara e foi até o fogão, pegando a chaleira e se servindo sem qualquer pressa. Sentia as bochechas quentes, mas não muito. Sempre poderia dizer que era por causa da bebida.
Anastácia sorriu de canto. O rapaz era mesmo uma graça. Com um ar inocente, ela se levantou e deixou as coisas que não usaria mais na pia, "para liberar espaço na mesa", como ela tinha justificado quando o olhar questionador do ruivo se voltou para ela.
- Vai comer alguma coisa mais? Ainda deve ter pão suficiente para alimentar todo mundo. Na geladeira tem geleia. – ela tinha tornado a se sentar e olhava para o ruivo com uma despreocupação calculada.
Kaoru se apoiou de costas na pia, com a xícara em mãos. Olhava para algum ponto atrás de Anastácia enquanto pensava a respeito. Poderia dizer que sim apenas para ter uma desculpa para continuar por ali. "Mas eu realmente preciso de uma desculpa?", ele sorriu de canto. Não, não precisava. A garota pareceu entender o que se passava na cabeça do garoto, mas não disse nada. Kaoru continuou onde estava, bebericando a bebida de vez em quando. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, até que a morena decidiu se manifestar.
- E como estão as coisas entre Hana e Kyouya? Algum progresso do lado dele? – ela beliscava as bolachas ao perguntar.
Kaoru deu de ombros.
- Continua sendo o mesmo de sempre. Pelo visto, ele acha que não vale a pena, já que o plano é ficarmos aqui por pelo menos um ano. – o rapaz suspirou – E ele não parece disposto a ficar por mais tempo depois, mesmo que tenha todos os motivos do mundo para isso.
- Vulgo – ela quebrou uma bolacha ao meio –, ele é um idiota. – uma mordida antes de continuar – Não tem nada que possa fazê-lo perceber que, quanto antes ele se desprender do que quer que seja, melhor pra todo mundo? – ela terminou o pedaço que comia.
- Eu tentei falar com ele ontem. – o ruivo terminou o chá antes de continuar – Ele ficou um pouco alterado, o que foi bom, mas eu realmente achei que fosse morrer. – ele riu.
- São realmente farinha do mesmo saco. – Anastácia olhou para o relógio pouco acima da cabeça de Kaoru – A Hana deve acordar em pouco tempo, posso tentar falar com ela.
O ruivo pareceu pensar.
- Por que eu acho que Kyouya-senpai só vai fazer algo quando for tarde demais? – ele tinha um tom triste ao perguntar e a garota entendeu a que ele se referia.
- Porque provavelmente é verdade. – ela deu de ombros – Parece ser bem a cara dele fazer isso. Ou melhor, não fazer nada. – ela riu com certo deboche.
Kaoru riu de volta. Tinha de concordar. Kyouya era do tipo que pensava várias vezes antes de tomar qualquer decisão, especialmente em se tratando de si mesmo. Estava sempre preocupado com a imagem que transmitiria e em como aquilo refletiria em seu futuro. Em como algo o beneficiaria ou prejudicaria. Tinha sido criado daquele jeito, o que poderia fazer? Era o caçula da família, de forma que era esperado muito mais dele do que dos irmãos.
- Mas ainda assim… – o ruivo não completou o pensamento.
- Ainda assim ele poderia deixar de ser idiota. É, concordo. – Anastácia parecia realmente se divertir com o tópico.
Kaoru concordou brevemente com a cabeça, sem pensar muito a respeito quando mudou de assunto.
- Mas e você, Anny? Não tem ninguém que, sei lá, mexa com você? – ao perceber o que tinha perguntado, o ruivo fechou levemente o punho. Por que raios ele estava perguntando aquilo?
Anastácia riu da pergunta. Não conseguia imaginar o motivo de Kaoru se interessar por aquilo quando já estava de babá de dois casais complicadíssimos – pra dizer o mínimo. A garota terminou o chá – que tinha ficado frio àquela altura – e fitou os orbes cor de mel do ruivo. Ela tinha, apesar de não saber em que nível aquela "mexida" acontecia ainda. Podia tentar descobrir, mas não seria uma ideia muito original. Era estranho lidar com aquilo, especialmente em se tratando de quem era. Afinal, os dois tinham um olhar aguçado para o que acontecia em volta.
- Até tem. – ela deu de ombros – Mas não vou te contar mais que isso. – ela sorria de forma provocadora.
Kaoru soltou um risinho um tanto inconformado. Devia esperar aquele tipo de resposta dela.
- E você? – a pergunta dela o pegou desprevenido e o rapaz sentiu as bochechas corarem. Anastácia riu – Que gracinha!
- Não é uma gracinha. – ele franziu o cenho e desviou o olhar, cruzando os braços diante do corpo. Mas não conseguiu ficar emburrado por muito tempo. A risada de Anastácia acabou fazendo com que o ruivo sorrisse de canto.
- Eu vou aceitar isso como um "sim". – ela tinha um tom levemente desafiador.
Kaoru tornou a olhar para a amiga, sorrindo de volta com o mesmo ar de desafio. Então ele se desapoiou da pia. Era melhor voltar para o quarto. Não conseguiria pensar em mais nada para manter a conversa. Quando passou por Anastácia, o ruivo lhe afagou brevemente os cabelos, sorrindo de canto sem perceber. E então tornou a sumir pelo corredor. A garota apenas olhava com uma expressão levemente confusa, sem ter certeza de que estava interpretando o ocorrido da forma certa.
Concluindo que ficar sentada lá não resolveria nada, Anastácia se levantou, guardando o que precisava e pondo a louça suja na pia. Deu uma limpada rápida na mesa e se dirigiu para a sala. Talvez só precisasse se distrair um pouco e deixar sua mente fazer as conexões necessárias sozinha. Seu subconsciente provavelmente acabaria gritando a resposta até o final do dia.
A garota apenas se largou sobre as almofadas do móvel e olhou ao redor. De onde estava, conseguia ver a porta do quarto em que as garotas tinham dormido. Tamaki continuava encolhido no chão como um cachorrinho fiel montando guarda. Ela se lembrou de que quase pisara no rapaz quando saiu para comer. "Não sei até onde toda essa preocupação dele é fofa e até onde é assustadora…", ela sorriu de canto. Hani e Mori tinham decidido, por fim, que era melhor voltarem para o próprio apartamento. Não tinha quarto para todo mundo no apartamento, apesar do tamanho.
As portas dos outros dois quartos ficavam mais adiante no corredor, de forma que Anastácia não conseguia vê-las. Não que importasse. Então ela pegou o controle remoto de sobre a mesa e começou a passear pelos canais. Não eram onze horas da manhã ainda, então ela duvidava que algo interessante estivesse passando. E tinha razão. Não valia a pena procurar por algo, então deixou em um canal interativo de música e se ajeitou no sofá. Estava quase adormecendo de novo quando um Tamaki choroso passou correndo e se escondeu atrás do sofá em que ela estava. Anastácia se sentou e olhou para o loiro.
- O que foi agora? – ela tinha um tom cansado e não sentiu a menor dó quando o rapaz se voltou para ela com uma expressão chorosa.
A explicação logo emergiu do corredor.
- Saco, tinha que ficar de plantão na nossa porta? Idiota. E ainda esperava que a gente te recebesse com flores? – Hana tinha um tom irritado ao falar – Idiota demais. – ao ver que Tamaki estava na sala, ela adquiriu um ar sombrio – Por que a sua cara de criança imbecil chorosa tem que ser a primeira coisa que eu vejo no dia? – sua voz saía cortante, o que fez o mais alto tremer.
- Ah, Hana. Bom dia. – o tom de Anastácia era entre indiferente e levemente animado.
- Bom dia é o inferno. – Hana resmungou mais alguma coisa que os outros dois não entenderam enquanto ia para a cozinha.
- Não se preocupe. – Anastácia acariciou levemente a cabeça do loiro, que continuava com um ar choroso – Ela é sempre mal humorada de manhã. – ela sorriu de forma a tranquilizar o amigo – Mas resolve se tiver chocolate. – então ela se levantou e foi atrás da outra.
Tamaki apenas se encolheu onde estava, lançando olhares dignos de pena para a porta pela qual as duas garotas tinham sumido.
