Quando Kyouya acordou, quase todos já tinham se levantado. Ele conseguiu ouvir barulhos fracos vindos da cozinha. Ele olhou para o relógio. Meio-dia. Era mais provável que ele fosse o último a se levantar. Não importava. Sem qualquer pressa, o moreno saiu da cama e foi para o banheiro. Só acordaria mesmo depois de lavar o rosto com água gelada. Foi quando estava saindo, com a toalha em volta do pescoço, que alguém bateu à porta. O anfitrião abriu sem muita cerimônia, baixando o olhar para ver quem era.

Catarina sorria animada.

- Bom dia! A Anny e a Hana querem saber se você tem chocolate em algum lugar para nós fazermos biscoito e brigadeiro.

O moreno fitava a loira com um ar de indiferença, mas sua voz saiu levemente fria.

- E por que eu teria?

- Porque você é amigo do Mitsukuni e da Hana! – a menor não pareceu nem um pouco abalada com o tom do amigo – E eles são viciados em doces.

- Então por que você não vê com eles? – Kyouya estava quase fechando a porta ao terminar de falar, mas Catarina não deixou, pondo o pé no caminho.

- Porque você ter agradaria muito a Hana. – o sorriso da garota tinha um ar levemente infantil.

Kyouya lançou um olhar de poucos amigos à loira.

- Você pode ir ao mercado com ela também, se preferir. – ela continuava como se fosse imune ao mau humor do outro.

Kyouya soltou o ar pesadamente, sem responder.

- Teehee. – a menor sorriu com satisfação e voltou para a cozinha, indo em um estranho estado de alegria ao encontro das amigas.

O moreno apenas fechou a porta.


Hana sentia-se impaciente. Sentia-se desconfortável por ter que pegar as roupas emprestadas – e não entendia nem de onde a vestimenta tinha saído. Entendia que a mãe dos gêmeos trabalhava com moda, mas ainda assim… A morena suspirou. Apesar de não ser desconfortável, ela se sentia melhor usando uma saia longa que uma calça jeans, mesmo que não fosse uma skinny. A blusa era uma branca simples de manga comprida e ela usava o casaco do dia anterior.

Kyouya a encontrou no térreo em pouco tempo. A morena apenas revirou os olhos ao ver a expressão mal-humorada do outro. Aquilo tinha se tornado tão rotineiro que ela não se importava mais. Ainda assim, respirou fundo e sorriu para o outro. Kyouya pareceu adquirir um ar mais suave e logo os dois estavam a caminho do mercado.

- Vocês precisam só de chocolate? – ele tinha um ar indiferente ao falar.

A garota deu de ombros.

- Acho que sim. – ela conferiu o telefone – Em barra e em pó. E algumas latas de leite condensado.

Kyouya não respondeu.


Anastácia estava sentada no sofá, olhando as receitas de biscoito no computador. Catarina tinha dito que se lembrava mais ou menos de como fazê-los, de forma que era melhor dar uma conferida rápida. Jenna estava na cozinha lavando as coisas com Haruhi e a amiga loira, enquanto os garotos conversavam sobre alguma coisa sentados à mesa.

Hani e Mori tinham voltado ao apartamento de Kyouya quando foram avisados de que as garotas fariam doces. O loirinho estava empolgado, especialmente depois de saber que Kyouya tinha ido com Hana ao mercado. O pequeno não parava de levantar hipóteses sobre o que poderia acontecer.


O casal – ou quase isso – andava pelos corredores do mercado sem qualquer pressa. A cena fazia com que o moreno pensasse, inevitavelmente, no dia em que foram ao parque se encontrar com Matheu e o pai. Não era algo que o alegrasse muito, especialmente considerando que o homem mais velho não parecia desviar a atenção da garota em momento algum, exceto em poucas ocasiões em que tinha o filho nos braços. O rapaz não gostava em nada da atitude do outro, mas Hana continuava a agir como se não soubesse o que se passava.

As palavras dela voltaram como um baque em sua mente.

"'Você nunca quer falar sobre isso. Mas vai querer no dia em que acontecer alguma coisa. E aí quem não vai querer conversar serei eu'. Mas quando o que acontecer?", ele fitou as costas da garota, que, naquele momento, olhava a prateleira de doces atrás do chocolate que valia mais a pena. Kyouya, após alguns segundos de reflexão – em nada relacionada ao que ele pensava antes –, apenas estendeu a mão e pegou algumas barras do chocolate ao leite que tinha logo diante de si. Hana protestou, dizendo que era um chocolate caro demais para usarem para fazer biscoitos.

- Eu pago então. – o moreno deixou o chocolate na cesta de compras e colocou as mãos nos bolsos. Seu tom era de indiferença, mas o fato de ele não olhar para a garota indicava que ele não se sentia tão indiferente assim.

"Esses riquinhos…", ela suspirou. Então pegou a lista de compras e continuou andando. Precisavam comprar leite condensado e forminhas para moldar os biscoitos. Ela olhou ao redor para ver onde estavam as coisas. Kyouya ia logo atrás, parando brevemente quando seu telefone tocou. Ele atendeu sem olhar o visor. Do outro lado, um Tamaki empolgado perguntava como estavam as coisas. O moreno não respondeu e pensou em desligar o telefone. Mas antes que o fizesse, Anastácia pegou o aparelho das mãos do loiro.

- Diz que você teve a decência de, pelo menos, carregar a cesta de compras. – ela tinha um ar descrente. Imaginava que o moreno provavelmente não tinha nem sequer cogitado aquela ideia. E acertou em cheio – Então vá atrás da Hana e trate de se oferecer pra carregar as coisas! Agora!

Kyouya suspirou. Por que tinha de passar por aquilo tudo?

- E carregue as compras depois de voltarem! – ao terminar de falar, a garota desligou.

O moreno olhou para o aparelho por alguns segundos, vendo que o número de origem tinha sido o do seu apartamento. "Eu ainda vou ter que pagar por isso…", ele franziu o cenho por um instante, guardando o aparelho no bolso. Então tornou a andar. Quando voltou os orbes negros para frente, Hana não estava mais onde ele a tinha visto pela última vez. Ele ajeitou os óculos, sem saber exatamente como proceder. "Eu provavelmente deveria procurá-la. O que ela disse que faltava comprar mesmo?", ele olhou em volta.

- Ah, você está aí! – a voz de Hana soou vinda de trás do rapaz, que se virou para fitar a amiga – Quando vi que você não estava mais me seguindo, achei que tivessem te sequestrado. – ela tinha um tom de deboche.

Kyouya não respondeu, apenas pegando a cesta de compras das mãos da garota, que não resistiu. Ao contrário, ela sorriu com satisfação com o gesto. O moreno mantinha o ar de indiferença no rosto, começando a andar na direção dos caixas. O leite condensado já estava comprado, de forma que ele concluiu que só faltava pagarem para poderem voltar para casa. Hana pigarreou.

- Nossa lista não acabou, ok? – ela cruzou os braços em frente ao corpo por baixo dos seios, o que os levantou levemente. Kyouya se limitou a desviar o olhar – Ainda faltam as forminhas e a Cat ligou falando que o Mitsukuni quer bolo.


Kaoru estava debruçado na varanda, com um ar pensativo. Tinha conseguido dormir mais um pouco depois da breve conversa com Anastácia mais cedo, mas ainda havia algo que o incomodava. Assim como tinha feito com Hikaru na noite passada, ele foi afunilando o assunto aos poucos em sua cabeça, partindo de sua relação com as garotas de Boston. Ele realmente gostava delas, apesar de achar que Mei e Jenna tinham menos a ver com ele e o pessoal do Host.

Catarina era como um bichinho de estimação. Vê-la pedir a bebida de Hikaru e depois se aninhar em Anastácia no dia anterior tinha reforçado essa imagem. Hana era divertida, mas era parecida demais com Kyouya, o que o assustava um pouco. Sobrava Anastácia. A garota era difícil de decifrar, o que fazia com que ele sentisse uma estranha curiosidade a respeito. Ela também tinha um lado que lembrava Kyouya, mas em menor grau. Pensar nisso fez Kaoru sorrir de canto. Aquilo explicava como ela e Hana conseguiam se dar tão bem.

Tirando o ruivo de seus devaneios, a voz da garota em questão soou da porta que ligava a sala à varanda. Ela sorria para o ruivo, que acabou sorrindo de volta. Quando ela perguntou se estava tudo bem, o rapaz apenas confirmou com a cabeça. A morena não pareceu muito convencida, mas não insistiu. Ela sabia que não adiantaria. Kaoru então se afastou do beiral e voltou para a sala. Anny foi atrás, perguntando se ele ia querer ajudar a fazer os doces.

- Eu não sou muito bom na cozinha, mas posso ficar dando apoio moral. – ele sorriu com um ar divertido ao falar.

Anastácia riu de leve do comentário.

- Apoio moral é sempre bem-vindo. Mas, se preferir fazer outra coisa, não precisa se incomodar. Não vamos te deixar com menos só por isso. – ela respondeu da mesma forma.

Foi a vez de Kaoru rir.

- Fico feliz em saber disso.

A conversa ficaria por isso mesmo. O ruivo acompanhou com o olhar enquanto Anastácia voltava para a cozinha, onde Catarina separava os ingredientes que já tinham disponíveis, e depois foi se juntar ao irmão no sofá. Hikaru estranhou ao ver o sorriso satisfeito no rosto do outro. Não tinha acontecido nada que pudesse explicar aquilo. Pelo menos não do ponto do mais velho. Mas Kaoru tinha entendido algo muito importante e aquilo o satisfazia.

Achava sempre importante entender o que acontecia não apenas ao redor, mas dentro de si.


Jenna aproveitava a pausa da agitação do grupo para olhar o material da aula online que tinha. "Apesar de isso ser mais uma desculpa, mas quem se importa?", ela sorriu de canto. A aula online era a que mais a agradava por um motivo muito simples. Podia ficar longe de seus colegas irritantes e suas perguntas descabidas. "Se bem que… O professor não é nada que se jogue fora.", ela suspirou. Quais eram as chances de conseguir saber se o homem estava disponível? Tudo que ela sabia – porque ele tinha dito na primeira aula – era que ele não era muito mais velho que a maioria dos alunos. Ela chutava que ele tinha por volta de 25 anos. "Não é uma diferença tão grande, não é?", ela sorriu de canto.

Quando a primeira aula, salva em pdf, abriu na tela do computador, seu sorriso se alargou. Havia ali o nome, instituto e e-mail do professor. Além, claro, do link em que as gravações das aulas poderiam ser acessadas. Ela percorreu rapidamente o olho pela tela, pensando na desculpa que usaria para falar com ele. "Eu preciso de uma desculpa cabível. O problema é que eu tenho facilidade com a aula dele…", ela franziu o cenho. Talvez pudesse ver algum trabalho para crédito extra? Afinal, eles tinham créditos extras a cumprir na faculdade.

- O que você está fazendo, Jenna? – Mei tinha se sentando no sofá diante da amiga, olhando com curiosidade para a outra.

Jenna sorriu de canto, respondendo que estava planejando parte da graduação. A estudante de Odontologia pareceu se animar com aquilo. Era bom ver a amiga levando o curso mais a sério. A garota de cabelos tingidos sorriu diante da inocência quase palpável que a outra emanava. Mei era a inocente do grupo, a que demorava mais para entender as piadas de duplo-sentido, a que geralmente demorava a entender o que se passava a sua volta. E Jenna achava aquilo uma graça, de certa forma. Por outro lado, deixava-a com vontade de provocar a amiga de todos os jeitos. Adorava a forma como Mei ficava quando entendia o sentido nem tão puro de uma piada ou uma frase.

- Estava pensando sobre os créditos extras que precisamos fazer. – Jenna se ajeitou no sofá, dando espaço para Mei se sentar e fechando as coisas que olhava no computador – E você, já decidiu?

Mei parou para pensar por um instante.

- Uma professora trabalha com pesquisa, vou ver se posso fazer algo com ela. – a garota sorria, levemente empolgada com o tema.


Hana estava na fila do caixa com Kyouya logo atrás. A mulher que os atendia tinha se distraído momentaneamente com a presença de Kyouya, mas, ao notar o olhar gélido deste, ela engoliu em seco e se apressou em terminar de passar as compras da dupla. A morena estava distraída com algo do lado de fora, não percebendo quando alguém atrás deles na fila assobiou. O rapaz, por sua vez, pareceu profundamente incomodado, entendendo perfeitamente o motivo daquela manifestação.

Dizendo a si mesmo que fazia aquilo apenas para evitar qualquer eventualidade que pudesse atrasá-los mais, Kyouya passou um braço ao redor de Hana, puxando-a levemente para perto de si, e olhou para o outro atrás deles na fila. Era um garoto ruivo, de cabelo espetado e olhos verdes. Não parecia ter muito mais que o moreno de idade, mas era consideravelmente mais baixo. O rapaz sentiu um arrepio quando seus olhos se encontraram com os do moreno e, aproveitando que não havia ninguém atrás, mudou de fila no caixa.

Quando a mulher anunciou o valor total da compra, Kyouya apenas pegou a carteira e pagou por tudo, mesmo tendo dito antes que pagaria apenas pelos chocolates. Hana tinha uma expressão confusa, tanto pelo abraço quanto pela generosidade, mas preferiu não perguntar. Já tinha ensacado tudo enquanto esperava pelo outro. Então, surpreendendo-a mais uma vez, Kyouya pegou todas as compras na mão e caminhou em direção à saída.

Hana se apressou em segui-lo, sorrindo quando ficou ao seu lado.

Sem perceber, Kyouya sorriu de canto.