Com o final das provas, o grupo tinha decidido sair para comemorar. Um passeio pela cidade, um cinema, uma parada em uma das melhores sorveterias, passar em algumas lojinhas de rua. Apenas passear. Estavam em uma rua bastante comercial, com lojas dos mais diferentes tipos. Tamaki, como sempre, estava empolgado com as "coisas de plebeus", arrastando pela mão uma Haruhi constrangida. Hana e Catarina olhavam uma loja de cosméticos, enquanto Mei e Jenna olhavam uma de sapatos. Hikaru e Kyouya estavam sentados a uma mesa na sorveteria a que o grupo tinha ido. Mori e Hani também estavam lá, mas o loiro queria mais um doce e o primo tinha ido junto para escolherem o que comprar.

Dessa forma, sobrava Kaoru para fazer companhia a Anastácia na loja de roupas a que a morena quis ir. Quando ela perguntou ao amigo se ele aceitava ir junto, o ruivo hesitou. Aquela seria uma boa oportunidade de testar a hipótese que tinha se formado em sua cabeça. A reação da garota ao receber um "sim" como resposta à proposta o animou, de forma que ele não reclamou de irem a uma loja que só tinha roupas femininas. Olhando ao redor, conseguia identificar várias peças que cairiam realmente bem na morena.

Naquele momento, Anastácia estava em um dos provadores com algumas meias-calças finas e meia dúzia de shorts coloridos. Veria camisetas depois. A garota duvidava que fosse encontrar alguma jaqueta legal, mas estava disposta a procurar. Não queria abusar do ruivo, mas estava cogitando deixá-lo segurando as peças que decidisse levar. Ou que poderiam ser levadas. Imaginou que ele protestaria um pouco, mas acabaria cedendo. Tirando-a de seus devaneios, alguém bateu na porta do provador.

- Anny? – a voz de Kaoru soava levemente alegre do outro lado.

Ela terminou de vestir um dos shorts que pegara e abriu a porta. O ruivo analisou a peça por um instante, quase se esquecendo do que tinha em mãos.

- Roxo fica bem em você. – ele sorriu de canto e estendeu um vestido verde militar para a amiga – Achei que ficaria bem em você.

Anastácia olhou a peça por um instante. Não era tão fã de vestidos, mas aquele parecia cair bem com coturnos. Além disso, o tecido, apesar de ser leve, parecia aquecer bem. Também não parecia ser justo demais, especialmente na saia. Era um frente-única interessante e, pelo tamanho da saia, ela imaginou que ficaria mais ou menos na altura de seus joelhos. Ela agradeceu ao ruivo e pegou a peça, voltando para dentro do provador e fechando a porta.

Kaoru se permitiu cair sentado em um dos banquinhos que havia na loja, deixando a cabeça pender para trás e ficando escorada na parede. Imaginava que o vestido verde cairia extremamente bem na garota e a imagem fez suas bochechas corarem. Se ficasse como ele imaginava, o rapaz acabaria precisando sair para pegar um pouco de ar fresco. O ruivo estava pensando nisso quando Anastácia saiu do provador e parou diante do enorme espelho que havia na frente dos provadores, cobrindo uma parede inteira.

O gêmeo mais novo apenas a olhava com um sorriso de canto nos lábios. Gostava do estilo da garota. Era diferente. Poucos usavam coturnos, o que já fazia com que Anny se destacasse. Se ele não estivesse enganado, o dela era dos modelos antigos, com uma ponteira de metal na frente. Não machucava quem usava, mas poderia fazer sérios estragos em quem fosse atingido por aquilo. Além disso, apesar de muitos consideraram "moda", o ruivo não tinha visto tantas pessoas usando um short com meia-calça. Não de forma casual como Anastácia usava. Muitas usavam apenas em situações específicas.

A morena notou os orbes cor de mel voltados para ela pelo espelho, sorrindo de canto. "É, dois meses talvez sejam tempo suficiente. Não vejo porque não seriam", ela se virou para Kaoru e acenou. O ruivo se levantou e foi até ela, sendo quase imediatamente questionado sobre o que achava da roupa que ela usava. O ruivo riu de leve e cruzou os braços, pensando por alguns instantes.

- Acho que os três primeiros são mais a sua cara. E que você devia experimentar o vestido. – ele tinha um leve ar de desafio ao terminar de falar.

Anastácia sorriu de volta do mesmo jeito.

- Quer tanto assim me ver usando algo que você escolheu? – ela colocou uma das mãos na cintura.

- É, seria legal. Ajudaria a saber se eu herdei o bom gosto da família. – ele não se deixou abalar, pelo menos não externamente. Por dentro, no entanto, ele se sentia levemente ansioso.

A garota riu da resposta, voltando para dentro do provador. Então, antes que o ruivo tivesse tempo de reagir, ela colocou algumas peças nas mãos dele, dizendo que separasse o que achou melhor e devolvesse o resto. Ao fim, fez um coração com as mãos e tornou a se fechar dentro da cabine. Kaoru sorriu de canto com um ar levemente decepcionado. Aquele pedido não parecia muito animador. "Pelo menos vai dar tempo de ela se trocar, não é?", ele disse a si mesmo na tentativa de se animar.

E tinha razão. Quando o ruivo voltou, com metade das peças apenas nas mãos, a garota já tinha trocado os short e a camiseta pelo vestido e abria a porta do provador para se ver melhor no espelho. Kaoru estava entrando naquele mesmo momento na área dos provadores e estagnou ao ver a amiga analisando o caimento do vestido no meio do corredor. Seu rosto ferveu instantaneamente e ele se pôs imediatamente atrás de uma parede. A imagem que tinha de como a amiga ficaria no vestido estava certa. "Não. Não chega nem perto, na verdade", ele logo se corrigiu.

Sentia o coração um tanto acelerado, de forma que precisou de algum tempo para se recuperar. Era estranho ficar alterado daquele jeito. Nem mesmo na fase de Haruhi tinha ficado assim. Talvez… "Talvez isso signifique que eu me importo mais com a Anny então. O que faz sentido", ele sorriu de canto. Era melhor se controlar e voltar para a área dos provadores logo, antes que sua ausência se tornasse estranha. Quando ele espiou o corredor para ver se Anastácia continuava diante do espelho, sentiu alívio e desapontamento ao ver apenas o vazio.

"Deixe de paranoia, Kaoru. Ela ia precisar se destrocar uma hora", ele se recompôs e tornou a entrar na área dos provadores. Parou diante do da amiga e esperou, cruzando os braços diante do corpo. Em uma das mãos, ainda segurava as peças que tinha separado a pedido da outra. Não demorou muito para que a garota saísse da cabine, parecendo se surpreender com a presença do ruivo. Mas Anastácia logo sorriu e disse que ficaria com o vestido. Tinha ficado bom.

- Fico feliz em saber. – ele sorriu de canto e estendeu os shorts e as meias-calças ainda fechadas para ela – E daqui, o que vai levar?

Ela pegou as roupas na mão e analisou por um instante. Então separou duas peças de cada tipo, que entregou juntamente do vestido para Kaoru, e foi devolver o resto. A morena não viu, mas o ruivo sorria com satisfação enquanto a via a amiga passeando pela loja. Uma vendedora logo se aproximou do rapaz, com um misto de incerteza e admiração no rosto e na voz, e perguntou se ele queria que ela deixasse as peças que ele tinha escolhido separadas no caixa. O ruivo agradeceu, sorrindo gentilmente para a mulher ao lhe entregar tudo. Então se juntou a Anastácia na busca por mais peças para seu guarda-roupa excêntrico.

A garota estranhou ao ver o ruivo de mãos vazias, franzindo o cenho por um instante. O rapaz rapidamente explicou o que aconteceu com um sorriso, o que tranquilizou a amiga. Os dois passaram mais algum tempo entre as araras cheias dos mais diversos estilos de roupa e a garota até provou mais algumas coisas, mas acabou decidindo levar apenas o que tinha separado de início. Parte da decisão era porque ela tinha que deixar dinheiro para um par novo de coturnos. Kaoru disse que esperaria do lado de fora enquanto ela pagava. A morena concordou com a cabeça e foi para o caixa.

Do lado de fora, Kaoru apoiou as costas na vitrine e cruzou os braços diante do corpo. A visão de Anny com o vestido lhe voltou à mente e ele precisou cobrir o rosto com as mãos para esconder o rubor. Ao levantar os olhos novamente, ele notou uma movimentação estranha do outro lado da rua. Um homem, de roupas e óculos escuros, observava com atenção o movimento das lojas próximas, sentado a uma das mesas do Café. Algumas das janelas do estabelecimento eram escuras e espelhadas, o que dificultava a visão da parte interna. A porta estava fechada e a placa pendurada indicava que eles não estavam mais funcionando. "Tem alguma coisa errada acontecendo aqui", Kaoru se ajeitou. Tinha baixado o rosto e olhava como podia para o Café. Se ficasse óbvio que ele observava, o homem do outro lado poderia perceber.

No entanto, quando Anastácia saiu da loja e o homem estranho sorriu largamente e com visível malícia, o ruivo não conseguiu se conter. Passou um dos braços em volta dos ombros da garota, lhe tomando – educadamente, claro – a sacola de compras da mão e indo com ela pela rua até a sorveteria. A morena estranhou, mas não perguntou nada. Se o ruivo estava agindo estranho, ele provavelmente tinha um bom motivo. Apenas quando tinham tornado a se juntar para os amigos que ela perguntou o que aconteceu enquanto ele esperava por ela.

- Onde estão os outros? Haruhi? Tamaki? Jenna? Hana? Catarina? Mei? Nenhum deles voltou? – Kaoru estava sério, o que alertou os outros Hostes.

- Vou ligar para Hana. Hikaru, ligue para Catarina. Hani, ligue para Jenna. Mori, vá atrás de Tamaki. Aquele idiota deve continuar arrastando a Haruhi por aí. – Kyouya tinha sacado o celular e digitado o número de Hana enquanto falava. Estava esperando ser atendido quando acabou.

Os rapazes logo cumpriam as missões que tinham recebido.

- Ei, Cat, cadê você? Ta sozinha?

- Jenna-chan? A Mei-chan ta com você?

- Hana, onde você está? Voltem para a sorveteria.

Mori voltou em pouco tempo com Haruhi no colo e um Tamaki confuso atrás, sendo segurado pela mão pelo mais velho. Kaoru olhava ao redor com certa ansiedade. Anastácia estava ficando impaciente por não ter nenhuma resposta. Ela estava prestes a protestar quando Kaoru se manifestou.

- Anny, se acalme, ok? Assim que as outras chegarem, nós vamos precisar sair. Você e a Cat vêm comigo e Hikaru no carro. Mei e Jenna vão com Hani-senpai e Mori-senpai. Haruhi e Hana vão com Kyouya-senpai e o Tono. – conforme falava, ele apontava para os amigos – Mas, por favor, fique calma.

Enquanto o ruivo falava, Kyouya tinha se levantado e ido até uma loja próxima. Logo voltava com as compras de Hana em mãos e uma morena e uma loira revoltadas por não terem tido tempo suficiente para olhar todos os esmaltes. Faltavam apenas Jenna e Mei. Kaoru e Kyouya olharam ao mesmo tempo para Mori, que rapidamente entendeu o recado. Assim que o moreno mais alto saiu, Hana se deixou cair sobre a cadeira em que ele estivera.

- Alguém pode me dizer que diabo está acontecendo? Que paranoia repentina é essa?

- Não é "paranoia repentina". E vamos explicar tudo assim que estivermos nos carros. – Kyouya ajeitou os óculos e anotou algo em seu caderno de bolso.

Hana revirou os olhos. Catarina tinha uma expressão confusa e preocupada ao mesmo tempo. Os estrangeiros estavam tensos. Havia algo errado e ela duvidava que Hana não tivesse notado. Sua teoria foi confirmada quando ela viu o pulso cerrado da amiga sobre a mesa. Apesar do ar rebelde, ela tinha entendido que aquilo não era à toa. Foram precisos alguns minutos, mas logo Mori tinha voltado com as duas garotas que faltavam. Jenna conversava empolgada sobre alguma coisa com Mei, que parecia levemente desinteressada, mas estava se esforçando. Kaoru se levantou quase de imediato ao ver o trio.


Quando estavam todos nos respectivos carros – seguindo a divisão que Kaoru sugerira –, o ruivo mais novo ligou em conferência para os amigos. Explicava com calma, apesar da certa afobação que sentia, o que tinha acontecido e porque era importante que eles saíssem. Tamaki tinha se agitado no banco de trás, cobrindo a voz de Kaoru no meio da explicação. Hana se virou para ele irritada, conseguindo um silêncio quase imediato. A voz de Kaoru soava tranquilizadora.

- Tono, eu entendo que você se exalte, mas agora está tudo bem. – ele não tinha contado do olhar estranho lançado a Anastácia por um motivo e não pretendia falar tão cedo – Só é importante que alguém ligue para a polícia para avisar do que houve.

Hana foi a primeira a comentar.

- Podemos fazer isso assim que chegarmos ao prédio de vocês. Só que você vai ter de contar a eles exatamente o que contou para nós.

A voz de Anastácia soou ao fundo, levemente distante.

- Não é melhor fazer isso agora do celular de alguém?

Um breve momento de silêncio.

- Anny, cuide disso, por favor. Ajude o Kaoru a falar com a polícia. Nós nos vemos no prédio. – então Hana desligou o aparelho e afundou um pouco no banco do motorista.

Kyouya lançou um breve olhar para a garota. Ela estava perceptivelmente tensa. Os nós de seus dedos estavam esbranquiçados devido à força com que apertava o volante. O rapaz tinha imaginado que deixá-la dirigir ajudaria a acalmá-la, mas não parecia estar tendo muito efeito. Então ele ligou o rádio, sintonizando uma estação de música clássica. A morena respirou fundo e afrouxou as mãos. Sorrindo de canto, ela agradeceu. Sua voz tinha saído baixa, mas não o suficiente para o rapaz não escutar.

Kyouya sorriu de canto e passou a olhar o caminho pela janela.


Kaoru sentia as mãos suarem um pouco enquanto Anastácia conversava com o policial ao telefone. Já tinha dito tudo que sabia, mas faltava acertar alguns detalhes. Aparentemente, ele precisaria passar em algum Distrito Policial para dar um depoimento formal. Como ele odiava aquilo. Pelo menos não iria sozinho. Ao volante, Hikaru lançava olhares preocupados para o irmão. Catarina também estava agitada, mas se mantinha quieta. Poucos minutos depois, Anastácia desligou o aparelho.

- Hikaru, vire na próxima à direita. Vamos passar no Distrito agora e já acabar com isso. – ela guardou o aparelho na bolsa e olhou para Kaoru.

O ruivo mais novo olhava pela janela, com um ar distante. Ao sentir a mão da amiga em sua perna, ele se assustou, pulando levemente no banco. A morena automaticamente recuou a mão, com um olhar preocupado. Então o ruivo suspirou e a abraçou, escondendo o rosto em seu ombro. Ele realmente odiava ter de passar por aquilo. Aquela tensão não estava lhe fazendo qualquer bem.

Anastácia abraçou o rapaz de volta e passou a lhe afagar as mechas ruivas, tentando acalmá-lo. Hikaru sorriu de canto com a cena.