Quando os gêmeos, Anastácia e Catarina voltaram ao apartamento, os outros integrantes do grupo estavam sentados na sala, esperando em meio a um silêncio tenso. Kaoru continuava com um braço ao redor da morena, que não parecia nem um pouco incomodada. A bem da verdade, aquilo a agradava. Tanto que ela tinha uma mão enlaçada com a dele. Hikaru e Catarina foram os últimos a entrar, trancando a porta atrás de si. A loira imediatamente foi atrás de alguma coisa para o gêmeo mais novo comer e se acalmar.
Kaoru apenas encostou as costas na parede que dava para a varanda e abraçou Anastácia por trás. A garota retribuiu ao gesto deixando os braços sobre os dele e acabou sorrindo de canto sem perceber quando sentiu que o rapaz apoiava levemente a cabeça na dela. Hana foi a primeira a quebrar o silêncio, falando com cuidado, em um tom compreensivo, muito diferente de seu tom normal.
- E como foram as coisas no Distrito Policial…?
Anastácia respirou fundo ao sentir as mãos de Kaoru se fecharem com força e decidiu responder. O ruivo merecia um descanso.
- Foi rápido até. Kaoru precisou contar tudo o que viu. Eles perguntaram se mais alguém tinha visto algo, mas saímos de lá assim que eu saí da loja, então não tinha muito mais a acrescentar. Perguntaram como era o cara que estava sentado do lado de fora e se era normal o Café estar fechado àquela hora. Kaoru cuidou da descrição. Fizeram um retrato-falado. Aparentemente, não é a primeira vez que aquele cara aparece em denúncias. Eu e a Cat falamos que era estranho o Café estar fechado, porque todas as lojas de lá costumam fechar só bem mais tarde, mas que podia ter acontecido alguma coisa e o gerente decidiu dar folga para todo mundo. Mas aí as mesas não estariam para fora e não deveria ter ninguém na frente. E eles provavelmente colocariam um aviso dizendo que não abririam hoje. Mas não tinha nada lá. – a morena fez uma pausa para respirar – Os policiais agradeceram e aí fomos dispensados. Enquanto o Hikaru manobrava o carro, duas viaturas saíram em alta velocidade. No meio do caminho, passamos por mais algumas que seguiam na direção contrária à nossa.
Aqueles que não tinham processado a gravidade da situação até então soltaram o ar pesadamente. Hana se levantou e pegou o controle da televisão. Algum canal já deveria estar cobrindo os acontecimentos àquela altura. Ela parou quando viu que transmitiam um Boletim Urgente em um dos canais. O repórter falava apressado, passando as informações para quem não tinha visto a cena desde o começo. O grupo se manteve em silêncio enquanto acompanhava a matéria. O lado bom era que não havia nenhuma troca de tiros até então, mas todas as outras lojas tinham sido obrigadas a fechar para evitar o assalto em massa e o Café estava cercado.
Kaoru cerrou os punhos e trincou os dentes ao ouvir que o homem que ele tinha visto tinha escapado mais uma vez. Ao lembrar o sorriso malicioso de quando a garota saiu da loja, o ruivo a puxou para mais perto sem perceber. Anastácia franziu o cenho e voltou o rosto para o amigo, perguntando em um tom quase sussurrado o que tinha acontecido. Kaoru pareceu perceber que a apertava com força demais e afrouxou o abraço, mas não respondeu. Ele apenas fitava o chão com um ar sério demais. Aquilo era estranho, mas, considerando os recentes acontecimentos, ela achou melhor deixar de lado por enquanto.
Na televisão, a polícia já levava um pequeno grupo de homens para as viaturas, com um visível ar de desapontamento por terem deixado escapar o comandante do grupo. Eles poderiam prender quantos "peixes pequenos" fossem. Enquanto não conseguissem o homem descrito por Kaoru, aquilo tudo continuaria. Hana suspirou e desligou a televisão. Não tinham mais nada a fazer, então o melhor era arranjarem algo para aliviar aquela tensão.
- Bom, agora que o serviço à sociedade já foi prestado, é melhor fazermos algo para nos animar. – ela tornou a se sentar e olhou para os amigos.
- Eu concordo. – Anastácia tinha um tom leve ao falar, sorrindo quando os olhares se voltaram para ela – O importante é que saiu todo mundo bem, afinal de contas.
- E o que vocês têm em mente? – a pergunta, com um ar inocente, veio de Haruhi.
Hana e Anastácia se entreolharam e sorriram.
- Strip-poker! – a resposta veio em uníssono. (N/A: levem em conta que a querida autora não manja de pôquer, apenas não é muito criativa 8D Ou vocês podem fingir que eles criaram um regra pra definir quem perderia a roupa e tal... xD)
Hani tinha ficado de banca. Kyouya, Anastácia, Hikaru, Catarina e Mori jogavam. Hana tinha sugerido não jogarem todos ao mesmo tempo porque aí teria mais graça – e nem todos saberiam ou estavam no clima para jogar. Mas a garota tinha ficado surpresa quando Kyouya disse que jogaria. Aquilo não parecia certo. Mas ainda assim seria divertido. Como era começo do jogo, ainda não havia muito para aliviar a tensão, mas aquilo estava para mudar. Um olhar para Hikaru confirmou que ele se sentia confiante.
Jenna tinha preparado lanche para os amigos e passeava pela roda vendo as cartas que cada um tinha em mãos. Haruhi e Tamaki olhavam com curiosidade e desentendimento ao mesmo tempo. Eles não sabiam as regras do jogo, como as garotas tinham previsto. Mei tinha se cansado de ver logo na primeira rodada e lia um livro, deitada preguiçosamente no sofá. Kaoru estava em uma das poltronas, olhando com certo desinteresse os amigos jogando. Por vezes, o ruivo sorria de canto. Era bom ver um clima mais leve no apartamento, mas ele ainda não conseguia se acalmar.
Hana sentou ao lado dele, no braço do móvel, e perguntou com um tom deliberadamente inocente.
- Não te incomoda que a Anny esteja jogando?
Kaoru sentiu as bochechas ficarem rosadas, mas não respondeu. A garota sorriu de canto com satisfação. A reação dele já respondia a pergunta. Ela acariciou a cabeça do rapaz e se sentou no outro sofá, olhando enquanto o jogo se desenrolava. Hikaru então se manifestou em sinal de vitória, com um sorriso satisfeito no rosto.
O jogo continuava sempre animado. Àquela altura, Catarina estava apenas de camiseta – que felizmente era suficientemente grande para lhe cobrir até pouco mais de um palmo abaixo do quadril – e a lingerie. Kyouya e Hikaru tinham perdido apenas o casaco e as meias, sendo os mais vestidos da roda. Mori estava quase igual aos amigos, mas tinha perdido também a camiseta. Anny…
- Droga, eu de novo? – a garota suspirou. Tinha perdido o casaco e o short já. Sua meia-calça, naquela vez, era suficientemente grossa, de forma a esconder a calcinha. Mas não tinha mais escapatória. Se perdesse mais uma vez, estava fora do jogo.
A morena se levantou e retirou a blusa. Tinha as bochechas rosadas, mas não se importou. Pelo menos estavam se divertindo. Hana assobiou em visível provocação. Quando os olhares das duas se encontraram, Anastácia conseguiu ver um ruivo corado na poltrona. A garota sorriu com malícia. Aquilo seria mesmo interessante. A outra demorou um pouco a entender, mas então se lembrou de que Kaoru estava na poltrona praticamente ao seu lado.
Anastácia caminhou com toda a naturalidade do universo até o rapaz e passou os braços ao redor de seu pescoço. O ruivo ficava cada vez mais vermelho e não conseguia reagir. Os rostos dos dois estavam extremamente próximos e a garota sorria com satisfação. Era possível sentir o coração do rapaz batendo com força no peito. "Que gracinha!", a morena sorria, com um misto de satisfação e malícia no rosto.
Kaoru engoliu em seco. O tempo parecia não passar naquele instante e ele desejou que realmente não passasse, apesar de não gostar de ficar sem graça daquele jeito. Só queria que as circunstâncias fossem outras, entendendo como Kyouya se sentira quando Hana o beijou pela primeira vez. Anastácia então lhe beijou carinhosamente a testa e lhe afagou os cabelos, o soltando em seguida e voltando para a roda.
O grupo estava em silêncio. Passaram-se alguns segundos – que pareceram longos minutos – até que alguém se manifestasse.
- Kaoru fica tão bonitinho sem graça! – Catarina tinha um tom animado, levemente debochado, e tinha levantado os braços com a animação.
As garotas riram, concordando. Kaoru apenas se levantou, com um ar emburrado, e foi para a cozinha pegar um copo de água. Mas Hana viu que ele sorria ao sair. Seria bom se as coisas dessem certo. A garota desviou o olhar para Anastácia, que parecia concentrada no jogo, mas acompanhava os movimentos do ruivo com o canto do olho. "Vai ser bom se os dois se acertarem. Eles merecem se preocuparem mais com si mesmos. Afinal, já se preocuparam demais com o resto de nós", ela sorriu. Talvez devesse falar com Kaoru.
Na cozinha, o ruivo virava um copo atrás de outro de água.
- Acho que já vi essa cena antes. – a voz de Hana tinha um ar de deboche.
Kaoru desviou o olhar para a porta, vendo a morena com os braços cruzados diante do corpo e o ombro apoiado no batente.
- É. O ambiente foi praticamente o mesmo também. – ele sorriu de canto, se lembrando do jogo de Verdade ou Desafio.
- E como você está? – ela se desapoiou e foi até a mesa, puxando um dos bancos para se sentar – Além de profundamente sem graça. – ela ainda sorria do mesmo jeito.
- Eu… Não tenho certeza. – ele suspirou.
- Foi um dia cheio. – ela deu de ombros – Mas você gosta da Anny. – seu sorriso ganhou um quê de satisfação.
Kaoru virou o rosto, hesitando ao responder.
- Eu… Acho que sim. Tudo faz mais sentido se pensar assim, mas…
- Mas é estranho e você tem medo de que ela não corresponda. – Hana completou, gesticulando com a mão como se estivesse cansada daquela ladainha.
- Meio isso. – o ruivo deixou o copo sobre a pia e se sentou em um banco ao lado da morena – Eu não posso dizer que tenho o melhor dos históricos.
- Mas você merece estar errado. – ela apoiou um cotovelo sobre a mesa e apoiou a bochecha sobre a mão fechada. Quando Kaoru a olhou sem entender, Hana sorriu de canto – Na verdade, tudo isso é injustificado. Você está errado, fofo.
- Sobre achar que tudo faz sentido se for isso, achar estranho ou ela não corresponder? – ele franziu o cenho.
- Não, não e… – Hana não teve tempo de completar. Naquele momento, Mei tinha entrado na cozinha.
- Ah, vocês estão aqui! – ela sorriu – Pediram pra levar um pouco de chá, então eu vir buscar.
- Eu ajudo. – Hana se levantou, sorrindo de volta para a amiga. Lançou um último olhar a Kaoru, como se dissesse que ele tomasse uma atitude.
De volta à sala, Kaoru percebeu que o jogo estava acabando. Anastácia estava novamente vestida, sinal de que tinha perdido o jogo. Catarina ainda estava com a camiseta, o que permitia que Hikaru permanecesse focado no jogo. Kyouya então sorriu com satisfação. Tinha ganhado a partida. Por outro lado, Mori tinha perdido. Com a mesma expressão indiferente de sempre, o rapaz se levantou e estava desabotoando a calça quando as meninas gritaram em um coro levemente desesperado que ele podia só se vestir. O moreno assentiu com a cabeça e recolheu suas roupas.
Kaoru sorriu de canto. Aquilo era a cara de Mori. Quando os olhos do ruivo cruzaram com os do moreno, o mais velho sorriu de canto, recebendo um sorriso de volta. Então Kaoru voltou a se sentar na poltrona em que estava antes e voltou a ver o jogo. Pouco depois, Hana e Mei saíram da cozinha com duas bandejas com xícaras e o bule e serviram chá para o grupo todo. Hana olhava de forma questionadora para o ruivo mais novo de vez em quando, mas tudo que recebia de volta era um dar de ombros.
Apenas Kyouya e Hikaru sobravam jogando. O ruivo já tinha perdido a camiseta, o que tinha causado uma leve hemorragia nasal em Catarina. Alguns tinham cansado de ver a partida e estavam conversando, lendo ou fazendo qualquer outra coisa. Hana, Anastácia e Kaoru estavam no meio termo. Conversavam um pouco, viam um pouco do jogo, voltavam a conversar e assim ia. Hana apostava que Kyouya fosse terminar o jogo ainda vestido.
Infelizmente, o destino quis que ela estivesse errada.
Kyouya se levantou e começou a desabotoar a camisa. Quando Hana viu a cena, sentiu o rosto esquentar, mas manteve a expressão de quem não se importava. O moreno olhou brevemente para a garota, sorrindo de canto com certa satisfação. Então, quando os botões acabaram, ele tirou a peça em uma velocidade deliberadamente reduzida. Hana sentiu vontade de socá-lo, mas se contentou com afundar no sofá e jogar uma almofada no rapaz.
Anastácia e os gêmeos riram. Kyouya apenas tornou a se sentar com a mesma expressão indiferente de sempre, mas manteve a almofada no colo. Hana bufou. Por que tinha jogado justamente a almofada que estava usando? Ela apoiou o cotovelo no braço do sofá e deixou a bochecha sobre a mão fechada, ficando com o cenho levemente franzido também. Kaoru, sorrindo como se tivesse visto a coisa mais engraçada que poderia haver, perguntou se tinha alguma coisa errada em um tom que beirava a provocação.
A garota o encarou com um ar de poucos amigos e sorriu com deboche.
- Tanto quanto tinha quando a Anny te abraçou, meu amor.
O rosto do ruivo ficou vermelho assim que a outra terminou de falar, o que fez com que Hana soltasse uma gargalhada sonora que atraiu a atenção dos amigos, especialmente Anastácia e Kyouya. Quando o olhar de Hana cruzou com o questionador do moreno, ela não resistiu e respondeu com o mesmo tom que usara com o ruivo.
- Estávamos falando de quanto você sensualiza sem camisa, meu amor. Não se preocupe, é bastante.
Kyouya sentiu-se sem graça e levemente irritado com o comentário. Mas o que o impressionou foi que Hana tivesse se recuperado tão rápido. Considerando o que Anastácia e Catarina tinham lhe dito alguns dias antes – e ele aproveitara para testar quando elas sugeriram o strip-poker –, a morena devia ter levado um tempo um pouco maior para conseguir voltar à "acidez cotidiana". Foi ao desviar o olhar para Kaoru que ele entendeu o que tinha acontecido. Sendo assim, o melhor era deixar aquilo tudo de lado e voltar a se concentrar no jogo.
O próximo que ganhasse a partida ganharia o jogo. O moreno baixou o olhar para as próprias cartas. Não eram as melhores, mas ainda serviriam. Tudo dependia da mão do ruivo. Ele viu Hikaru franzir o cenho em sinal de desgosto. Hani fazia as onomatopeias que tinha feito durante todo o jogo, se divertindo sendo a banca. Hikaru baixou as cartas que tinha em mãos.
Fim de jogo. Kyouya tinha perdido.
