Quando Kyouya baixou as cartas que tinha em mãos, Hana engoliu em seco. Ainda não estava processando muito do mundo ao redor, de forma que acreditava que aquilo significava que o moreno teria de perder mais uma peça de roupa. O alívio a invadiu com força quando ela viu que o rapaz apenas recolhia as peças que já tinha despido. Hana se permitiu apenas afundar no sofá. Pelo menos até a pergunta lhe chegar aos ouvidos.

- Vamos fazer um novo jogo agora? – Hikaru tinha um tom animado, visivelmente impulsionado pela vitória.

- Acho que a Hana, a Jenna, a Mei e o Kaoru deveriam jogar agora. E, como você ganhou, Hikaru, você joga de novo. – Anastácia tinha um tom ardiloso na voz, misturado com uma inocência calculada.

O ruivo mais velho não desanimou.

- Eu vou ganhar de novo! – ele estava visivelmente se divertindo.

- Eu posso ser banca de novo? – a voz infantil de Hani tinha uma alegria genuína.

Anastácia concordou com a cabeça, rindo quando o loirinho se animou ainda mais.

- Ta, fazer o que, né? – Hana suspirou e se levantou, tomando o lugar de Kyouya - Vamos ver quem vai sofrer mais. – uma áurea negra envolveu a garota, que parecia arquitetar alguma coisa.

Os gêmeos engoliram em seco.

- Hana, controle-se. – a voz de Jenna tinha um ar indiferente – Mas uma vingancinha cai bem. – ela sorriu com cumplicidade para a amiga e se sentou ao lado de Hikaru.

Foi a vez de Anastácia e Catarina engolirem em seco.

- Mitsukuni, vamos começar a brincadeira. – Hana tinha o tom calculista de Kyouya, sorrindo largamente ao falar.


Quando a terceira partida acabou, Hikaru soltou o ar pesadamente.

- Eu de novo…? Como isso…?! – ele olhava levemente desesperado para as cartas na mesa.

Hana riu com prazer.

- Perdendo. Pode tratar de tirar a camiseta, Hitachiin. – ela estava se deliciando com o momento, olhando do ruivo para Catarina, que, apesar do rubor forte no rosto, não conseguia desviar os olhos do rapaz – E faça disso um show.

Hikaru franziu o cenho. O que diabo aquilo significava?

O ruivo se levantou e começou a puxar a camiseta para cima, expondo o quadril. Naquele momento, Catarina guinchou baixinho atrás de Hana, que apenas sorriu mais largamente. Poucos segundos depois, Hikaru estava com o peito desnudo. A loira sentia o rosto fervendo e não conseguia pensar em nada. Hana e Anastácia riam da cena. Ver duas vezes o rapaz sem camisa tinha sido demais para a loira, que apenas afundou na poltrona.

Quando Hikaru se sentou novamente, eles deram continuidade ao jogo. As partidas se desenrolaram tranquilas, já que as garotas ainda estavam vestidas. Mei estava de vestido, de forma que perder mais uma vez significava ser eliminada, mas a garota não se importava. Não era boa mesmo em jogos de cartas, especialmente pôquer. Jenna, felizmente naquele dia, estava com um cachecol também, de forma que não estava por um triz. Ainda tinha o vestido e o bolero. Kaoru estava sem o casaco apenas, enquanto Hana tinha preferido tirar as meias.

- Acho que agora seria legar ver o outro Hitachiin perdendo, né? – Hana tinha um tom de desinteresse ao falar, mas prestava atenção na movimentação dos amigos.

Anastácia tinha corado. Kaoru se encolheu levemente. Aquilo poderia ser divertido.

- Ops. – a voz de Jenna tinha atraído o olhar dos amigos. Os planos de Hana seriam levemente adiados.

A morena sorriu de canto. Quando Jenna queria, ela sabia como provocar. A garota do cabelo tingido então se levantou e se virou de costas para a roda. Tinha voltado um pouco o rosto, lançando um olhar deliberadamente sedutor para Hikaru – que estava sentado bem de frente para ela. O ruivo apenas olhava desconcertado para a amiga, sem saber direito o que esperar. Hana pegou o celular e colocou a música-tema de Pantera Cor-de-Rosa para tocar. Jenna aproveitou e começou a tirar o vestido, rebolando de forma sensual enquanto o fazia.

Hikaru engoliu em seco. Aquilo não podia ser sério.

- J… Jenna…! – a voz de Mei soou alta, com um tom desconcertado, quando o vestido da garota estava entre a cintura e o quadril.

Jenna suspirou.

- Calma, Mei. Tem nada demais. – a garota do cabelo arroxeado suspirou, tornando a por o vestido. Então ela se sentou e tirou o bolero.

Hana e Anastácia riam alto, enquanto os gêmeos e Catarina olhavam sem acreditar para Jenna. Kyouya, Mori e Hani estavam indiferentes ao ocorrido. Tamaki e Haruhi tinham desistido de ver as partidas de pôquer. Mei suspirou. Não conseguia se acostumar com aquele jeito tão despreocupado da amiga.

- Bom, continuemos? – Hana, quando conseguiu se acalmar e desligar a música, sorriu com satisfação.

Os gêmeos concordaram com a cabeça, engolindo em seco. Aquele jogo estava sendo bem mais perigoso.


Kaoru engoliu em seco. Já tinha perdido o casaco e as meias. Agora tinha de escolher entre tirar a calça ou a camiseta. O ruivo olhou ao redor. Hikaru continuava emburrado por não conseguir vencer de Hana. Mei, já eliminada do jogo, estava ocupada demais vendo alguma coisa com Haruhi. Jenna tinha voltado a olhar o computador depois de ter perdido. Sobrava apenas Hana das meninas que jogavam.

Catarina tinha ido para a cozinha depois de algum tempo e ainda não tinha voltado. Anastácia estava deitada no sofá, olhando distraída o celular. Kyouya estava na poltrona em que tinha sentado depois do jogo anterior e parecia anotar algo em seu caderno de bolso – o fiel amigo naquele ano nos EUA. O ruivo não fazia ideia de onde Tamaki tinha se metido, mas Mori continuava no sofá olhando o jogo. Kaoru suspirou.

- Anny, você não vai querer perder isso. – a voz de Hana soava satisfeita e desafiadora.

Anastácia, em um gesto de que se arrependeria depois, olhou para a amiga sem entender e então para onde a outra olhava. Kaoru estava já com metade da barriga exposta. A garota sentiu o rosto ferver, deixando o celular cair sobre o peito. Quando o ruivo terminou de tirar a camiseta, seus orbes cor de mel cruzaram com os castanhos de Anastácia. Ele sorriu de canto, um tanto sem graça. Não podia deixar de pensar que ela ficava bonitinha com o rosto corado, mas, ao mesmo tempo, ele desejava que ela não tivesse se virado.

Kaoru tornou a se sentar, com a camiseta no colo e as bochechas levemente vermelhas. Hana ria com prazer. Ela ainda tinha a blusa e a saia no corpo, de forma que poderia perder mais uma antes de ser eliminada. A morena sorriu com satisfação, olhando de um gêmeo para outro. Hani deu novamente as cartas. Naquele momento, a garota sentiu sua confiança ser abalada. Sua mão não estava boa. Os gêmeos, por sua vez, tinham um largo sorriso no rosto.

"Merda", ela engoliu em seco.

Foi a vez de Hikaru cantar vitória. Ao olhar para Kaoru, Hana entendeu. Era a vez dela de ficar por um triz. "Merda, merda, merda", ela se levantou. "Isso totalmente não estava nos planos", as mãos estavam no quadril, segurando a barra da blusa. Quando a peça estava em sua cintura, um casaco foi jogado sobre suas costas. Quando a garota se virou para trás, Kyouya estava em pé, com o rosto voltado em qualquer outra direção, com um ar de quem não queria nada. Hana sorriu de canto. Aquilo era fofo. De um jeito um pouco estranho, mas era fofo.

- Deixe de ser sem graça, Kyouya-senpai. – Hikaru se divertia com a situação.

Hana riu um pouco com o olhar nada amigável do moreno e tirou o casaco dos ombros. Era justo que ela também ficasse com apenas uma peça sobrando. Era a regra do jogo e ela tinha aceitado os termos quando concordou em jogar. Quando ela devolveu o casaco a Kyouya, o rapaz apenas deu de ombros e, com a peça novamente vestida, foi pegar algo na cozinha. Hana o acompanhou com o olhar por um instante e então respirou fundo. Não podia mais adiar aquilo.


Quando Kyouya saía da cozinha, a primeira coisa que viu foram as costas marcadas de Hana. O rapaz franziu o cenho. Aquelas cicatrizes não pareciam certas, apesar de a garota nunca ter dito nada. E quem falaria? Mesmo que fosse um trauma que ela carregasse, as chances de simplesmente falar – especialmente para ele – eram pequenas. Foi a voz de Catarina, repentinamente parada a seu lado, que trouxe o rapaz de volta à realidade.

- Fica feio, né? Todas nós temos algumas. As pessoas são idiotas. As de Jenna são no peito. Acho que foi por isso que ela ficou de costas naquela hora. Mei tem nos braços, por isso ela sempre usa mangas compridas. Eu e Anny temos na perna. – a loira sorria de canto com um ar tristonho – As pessoas podem mesmo ser idiotas. – então ela voltou para a sala e se sentou ao lado de Anastácia, que parecia completamente recuperada do choque de ver Kaoru com o peito exposto.

Kyouya levou mais algum tempo até decidir voltar. Ficou parado à porta da cozinha por vários minutos, acompanhando as linhas claras nas costas levemente morenas de Hana. Elas formavam um labirinto desconexo, sem começo, meio ou fim. Algumas eram maiores que outras. Algumas eram tão pequenas que ele mal as viu. Ele se perguntou se mais alguém tinha reparado. Provavelmente não.

Seus olhos acompanharam uma cicatriz que descia em diagonal do ombro direito até a cintura, parando quase onde o cotovelo esquerdo de Hana encostava quando ela juntava os braços ao corpo. A linha só era visível porque era longa. Era fina suficiente para ser praticamente invisível. Ele se perguntou há quanto tempo a morena evitava expor as costas. Por isso ela tinha hesitado tanto no começo? Por isso ela tinha se sentado em seu lugar? De onde estavam, os outros integrantes da turma não conseguiam ver as costas da garota. Se ela queria esconder as cicatrizes, fazia sentido se sentar onde ela estava.

Kyouya respirou fundo e foi para a sala. Ao passar por Hana, deixou novamente o casaco em suas costas. A morena estranhou, mas não disse nada. Imaginou que ele tivesse visto o que ela tanto tentava esconder. Pelo menos tinha sido só ele. Se ela tivesse tentado fazer algo mais, chamaria a atenção do resto do grupo e poderia ser pior. Ela sabia que Kyouya não faria perguntas. Ele nunca fazia. Ele era quem dava as respostas.

Estavam na partida final. Hikaru, inconformado, tinha perdido a anterior, de forma que caberia a Kaoru conseguir a vitória. Hana – que tinha vestido o casaco de Kyouya – olhava para as cartas que tinha em mãos. Podia ganhar desde que a mão de Kaoru não fosse muito boa. Mas a garota duvidava. O ruivo franziu momentaneamente o cenho, analisando o que tinha em mãos. Hani olhava animado de um para o outro, finalmente em silêncio.

Hana e Kaoru se entreolharam por um instante e baixaram as cartas praticamente ao mesmo tempo.

Um sorriso satisfeito.

Um suspiro.

O jogo tinha acabado. A vitória era de Hana.

- E agora, o que vamos fazer? – Kaoru apoiou os braços nas pernas.

- Não sei você, mas eu adoraria um chocolate quente e por minhas roupas de volta. – a morena tinha um tom divertido na voz ao falar e já se levantava, olhando ao redor para localizar as roupas.

Kaoru riu de leve, concordando. Quando os dois tinham acabado de se vestir, Hana devolveu o casaco a Kyouya, que pegou a peça sem levantar o olhar do livro que tinha em mãos. A garota não sabia dizer quando o moreno tinha pegado o livro, mas não se importou. Sem pensar muito, ela lhe afagou o cabelo ao agradecer pelo carinho, o que fez o outro franzir o cenho. Hana apenas sorriu em resposta e foi para a cozinha, perguntando em um tom suficientemente alto quem queria chocolate quente.


Já fazia um tempo que a noite tinha caído, de forma que as garotas tinham decidido voltar para casa. Alguns dos estrangeiros protestaram um pouco, mas isso não as fez mudar de ideia. O dia tinha sido longo, elas queriam descansar. No carro, com uma Hana levemente distraída ao volante – ela só processava o que estava acontecendo no trânsito por hábito, mas deixava passar praticamente qualquer comentário das amigas –, a conversa tinha um ar ora animado, ora mais tranquilo. Foi Catarina quem acabou tocando no assunto que todas evitavam sem perceber.

- O Kyouya viu suas costas, Hana. – a loira, que ia logo atrás do banco do motorista, estava apoiada na porta ao falar.

- Quando ele saía da cozinha? – a pergunta veio de Anastácia. Quando a outra confirmou com a cabeça, ela continuou – É, bem que eu achei estranha aquela parada dele.

- Ele falou alguma coisa? – Mei, como sempre, tinha um ar inocente.

- Hm, não. Mas, quando eu o vi lá, fitando as costas da Hana, eu contei que todas nós temos algumas. E onde ficam. Não acho que ele vá falar ou perguntar alguma coisa, mas achei importante ele saber. – a loira se ajeitou no banco.

- Fez bem. – Anastácia sorriu para a amiga, também se ajeitando no banco do passageiro – A Hana ficou mesmo em um ponto estratégico. Foi melhor assim.

- Imaginem se fosse o Tamaki a ver. – Jenna suspirou ao acabar de falar. Só de imaginar a cena, ela sentia vontade de bater no loiro.

Hana riu de canto.

- Eventualmente, todos eles vão saber, - ela parou o carro quando o farol fechou – O Kaoru já deve suspeitar que alguma coisa aconteceu com a gente tem um tempo. – ela olhou pelo espelho retrovisor o carro que vinha logo atrás do delas – Esse idiota tem a mão grudada na buzina, por acaso?

- Calma, ok? Ta escuro, ta todo mundo cansado, mas nada de comprar briga no trânsito. – Anastácia franziu o cenho e ligou o rádio.

Quando o farol abriu e Hana viu que o carro de trás ia tentar uma ultrapassagem, ela naturalmente foi para a pista à esquerda. A pessoa buzinou de novo. Anastácia repreendeu a amiga, que apenas deu de ombros. Seguiram pela esquerda até quase onde tinham de fazer o retorno, indo a uma boa velocidade. Hana gostava de dirigir quando estava irritada, mas detestava ficar irritada quando dirigia. O carro de trás se encaixava no segundo caso.

- Eu podia fazer com que ele saísse da pista. – ela virou o carro para a direita e ligou a seta – Mas custaria uma fortuna arrumar o carro depois.

Anastácia revirou os olhos.

- Você precisa comer. É isso.

Jenna entendeu o recado.

- Um banquete saindo no capricho, chefe! – as garotas riram. Hana apenas deu de ombros.

Em pouco tempo estavam em casa.