No dia seguinte, Frederick, Benjamin e John tinham decidido que iriam à faculdade com as amigas. Ninguém pareceu se importar, com exceção de Hana, que franziu levemente o cenho quando ouviu a ideia. Anny estranhou a reação da amiga, mas não perguntou. Se tinha algo errado, ela acabaria descobrindo. Usaria aquele dia para ver como os alunos estrangeiros reagiriam à presença dos rapazes americanos – e ela imaginava que a reação de Hana estava relacionada justamente a isso.

As garotas foram direto para a cantina quando chegaram à universidade. Afinal de contas, precisavam almoçar antes de irem para as aulas ou então o rendimento (que muitas vezes já não era tão alto na sala de aula) cairia drasticamente. Quando os oito chegaram, um estranho zunzunzum se formou. Os olhares tortos tinham um ar levemente mais hostil. Mei, inconscientemente, cruzou os braços diante do corpo. Catarina passou a andar mais próxima de John, que estava logo ao seu lado, recebendo um abraço protetor em volta dos ombros. Hana e Anny olhavam de volta com um ar gélido, imaginando se podiam, só um pouco, socar a cara de alguém. Jenna fingia não perceber, mas tinha segurado na mão de Benjamin, que andava logo a sua frente.

Frederick, notando que Mei parecia se encolher cada vez mais sobre si mesma, puxou a garota para si, abraçando-a de forma protetora. Quando o grupo chegou à mesa no final da cantina, praticamente todos os integrantes do Host estavam lá almoçando. Mori franziu levemente o cenho, sentindo-se desconfortável ao ver Mei abraçada ao amigo loiro que ele não conhecia. Hikaru, ao ver Catarina grudada em John – o ruivo tinha conversado com Kyouya e sabia mais ou menos quem era quem –, se levantou da cadeira em um gesto automático.

- Ué, ta faltando gente aqui. Cadê o casal e o outro ruivo? – Hana puxou uma das cadeiras livres e se permitiu afundar no assento.

- O Kaoru falou que precisava conferir uma coisa e vinha depois. – Hikaru tinha voltado a se sentar, fitando Catarina e John com certo desgosto.

- Tamaki e Haruhi estão na biblioteca. Ele precisa fazer um trabalho e ela está ajudando. Eles já almoçaram. – Kyouya olhou para os rapazes, franzindo levemente o cenho ao ver o estado de alerta nos olhos dos americanos.

- De qualquer forma, antes que a gente esqueça, vamos às apresentações. – Anny tinha se apoiado na parede e apontava para os respectivos donos dos nomes conforme falava – Esses são John, Benjamin, que a gente chama de Ben, e Frederick. Os estrangeiros são Kyouya, Hikaru, Takashi e Mitsukuni. – ela cruzou os braços diante do corpo – O gêmeo de Hikaru é Kaoru. Tem mais um loiro alto, o Tamaki, e uma garota parecida com a Mei fisicamente falando. Ela se chama Haruhi.

John sorriu, parecendo se divertir com o desgosto no rosto de Hikaru.

- Como elas parecem bem, vocês devem fazer um bom trabalho. – ele apertou mais o abraço ao redor da loira – Continuem assim. – ele sorria com certa satisfação.

O ruivo franziu o cenho. Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, no entanto, um Kaoru sorridente apareceu. Ele cumprimentou os três americanos como se já os conhecesse, o que causou certo estranhamento, e então cumprimentou o resto do grupo. Ele sorria animado ao falar, contrastando com o clima um tanto pesado que se instalara na mesa. Então o rapaz desviou o olhar para Anastácia, que o olhava como se achasse que ele estava doente.

- Não me olhe assim, Anny. Eu fico chateado. – ele ficou com uma expressão de choro por alguns segundos, mas logo ria novamente – E então, todo mundo já almoçou? Daqui a pouco temos que voltar para a aula.

- Que bicho te mordeu mesmo? – a pergunta veio de Hana, que se divertia com o bom humor do amigo.

- Nenhum. – ele se apoiou ao lado de Anastácia na parede.

- Kaoru, certo? – Benjamin esperou que o outro confirmasse antes de continuar – Você e seu irmão estão em que ano?

- Estamos terminando o colegial. Terceiro ano. – o ruivo pareceu não entender.

Ben desviou o olhar para Anny, parecendo repreendê-la. A garota levantou as mãos na altura do peito, em um gesto que a isentava de culpa. O moreno voltou a falar. Como o ruivo parecia o mais disposto a conversar, ele queria saber como foi que os dois grupos, visivelmente tão diferentes entre si, tinham ficado tão próximos. Kaoru parecia se divertir com a pergunta.

- Foi ideia delas, na verdade. – o ruivo explicou brevemente sobre a "caça ao tesouro" que tinha acontecido e logo os três americanos pareciam mais descontraídos.

- É a cara de vocês mesmo. – Frederick bagunçou o cabelo de Mei, que suspirou.

- Precisava mesmo disso, Fred? – apesar do tom levemente incomodado, a garota sorria de canto enquanto arrumava as mechas castanhas. O garoto apenas sorriu em resposta.

- De qualquer forma… – Hana encarava a própria mão sobre a mesa ao falar – Acho que eu não fui a única a perceber que tem algo estranho aqui. – ela levantou o olhar para os amigos.

- Os idiotas ficaram mais hostis. – John tinha um tom sério ao falar e ainda não tinha soltado Catarina.

- Devem ter se lembrado do nosso primeiro dia aqui. Afinal, para eles, Ben, John e Fred são como "carne fresca". – Anastácia deu de ombros – Mas eles já apareceram conosco e sem esse estúpido "uniforme". – ela simulou as aspas com a mão e tornou a cruzar os braços.

Jenna e Mei se entreolharam. Aquilo fazia sentido. Hana tinha voltado a fitar a própria mão e tamborilavam os dedos sobre a mesa. Catarina olhava para algum ponto à frente, muito distante da conversa. A loira não ouvia nada do que as amigas diziam, não notava o desconforto de Hikaru, não via os olhares de Anny em sua direção. Anastácia suspirou.

- Se começarem com aquilo tudo de novo, vai ser um inferno. – ela olhou para Hana.

- Nós não vamos deixar que isso aconteça. – Hana tinha um tom distante, fitando sempre a mão como se pudesse extrair a resposta de lá – O melhor que podemos fazer é continuar levando a faculdade como temos feito até agora.

- Eu também acho, mas… E se acontecer alguma coisa? – Anny apoiou as mãos sobre a mesa e encarou os orbes negros da amiga, que não levantou o olhar.

- Não vai acontecer. – Hana tinha o tom firme, olhando cada um dos presentes por alguns segundos antes de passar para o próximo. Quando ela voltou a falar, fitando novamente a mão, sua voz saía baixa, como se ela precisasse se convencer do que dizia mais do que aos outros – Nada vai acontecer…

- Epa. Ok, já chega de vocês falarem como se todo mundo entendesse o que está acontecendo. – John soltou Catarina e virou o rosto de Hana para si, mas sem machucá-la – O que aconteceu?

Kaoru e Kyouya se entreolharam. Seria possível que eles três não soubessem?

Hana devolveu o olhar de John com firmeza. Catarina, subitamente desperta de seu transe, olhou ao redor para entender o que se passava. Quando seu olhar cruzou com o de Hikaru, o ruivo fez um breve sinal com a cabeça que logo foi entendido. A loira foi até onde o amigo estava e se sentou em seu lugar. Hikaru, parado ao seu lado, colocou uma mão sobre seu ombro e deixou a outra no bolso da calça.

- John. – a voz de Anastácia atraiu a atenção dos amigos – Aqui não. – ela sorria de canto com um ar levemente triste.

O rapaz entendeu o recado. Ele lançou um último olhar a Hana e suspirou ao se afastar.

- Tudo bem. Mas eu vou cobrar uma explicação depois. – quando Anny concordou com a cabeça, ele sorriu de canto.

- Ora, ora, será que é a nossa vez de ficar com ciúme de vocês? – o comentário veio de Frederick, que tinha visto a forma protetora que Hikaru tinha adotado com Catarina. Fred sorria de canto com um ar levemente zombeteiro.

As garotas acompanharam o olhar do amigo, rindo um pouco. A resposta veio de Anastácia, que abraçou Kaoru ao falar apenas para provocar. O ruivo corou levemente, mas abraçou a garota de volta. Sem perceber, ele tinha sorrido com a situação. A morena também sorria, se sentindo extremamente confortável nos braços do garoto.

- Um dia a situação ia virar, fofo. – ela tinha um ar levemente irônico na voz.

Kaoru apertou levemente os braços ao redor da garota e lhe beijou suavemente o topo da cabeça, fazendo com que Anastácia corasse sutilmente. Fred sorria com a situação. "Pelo menos eles parecem bem", ele desviou o olhar para Kyouya, que olhava para um ponto qualquer na cantina, fitando Hana de vez em quando. "Já esses dois…", ele suspirou. Aquilo seria complicado. O rapaz passou os braços sobre os ombros da amiga, abraçando-a por trás, e sorriu.

- E o que vamos fazer hoje?

Hana olhou para o amigo ao responder, falando como se não acreditasse.

- Nós temos aula, Fred querido. O que vocês três vão fazer eu não sei, mas a gente tem que ir para a aula.

O rapaz pareceu pensar por um instante.

- Posso ir junto? – ele tinha um ar deliberadamente inocente e a pergunta fez Hana rir, mas a garota concordou – Eba! – ele a beijou na bochecha antes de soltar o abraço.


Tem um minuto?

Hana encarava a tela do telefone como se seu conteúdo pudesse mudar a qualquer instante. Ela não acreditava muito que tinha recebido a mensagem. Na cadeira ao lado, Frederick parecia muito concentrado na aula da garota. De vez em quando, o rapaz comentava alguma coisa, mas logo tornava a se calar e prestar atenção no que era dito. Quando uma pergunta muito óbvia era feita, ele revirava os olhos.

- Sério que tem esse tipo de gente na sua sala? – ele cochichava ao perguntar, olhando para a amiga com o cenho franzido.

A morena sorriu de canto, concordando com a cabeça. Então deu de ombros como se dissesse que não podia fazer nada. O rapaz suspirou e tornou a prestar atenção na aula. Hana olhou novamente para o aparelho em suas mãos. Era melhor responder. Já tinha, pelo menos, cinco minutos desde que recebera a mensagem. Ela respondeu com um simples "sim". Não demorou muito para que a tela piscasse novamente. Ela abriu a nova mensagem.

Pode me encontrar na frente do chafariz?

A garota parou para pensar por um instante. Ela gostava do professor, a aula era boa. Por outro lado, a possível conversa – afinal, se não fosse por aquilo, por que mais pediriam para ela sair? – podia ser importante. E provavelmente aquela oportunidade não apareceria de novo tão cedo. Ela mordeu levemente o lábio inferior. Seus orbes negros levantaram da tela para Frederick e então voltaram para o aparelho. Ela respirou fundo e respondeu que estava a caminho. Juntou suas coisas rapidamente e disse que já voltava para o amigo.

- Mas, se a aula acabar e eu não estiver aqui, leve as minhas coisas com você, ok?

O loiro revirou os olhos.

- Obviamente, Hana. Até parece que eu ia largar tudo aí. – ele sorriu de canto, recebendo um beijo na bochecha antes de a garota sair.


Hana parou diante do chafariz e olhou ao redor. Não havia ninguém por perto. Ela franziu o cenho, mas decidiu esperar. A garota tirou o telefone do bolso do casaco e conferiu a hora. A distância era menor para ela, era normal chegar antes. A garota deu de ombros, tornando a guardar o aparelho e se sentando na borda do chafariz. Pouco minutos depois, ela viu alguém se aproximando.

- Achei que não viesse. – ela tinha um tom levemente desafiador e sorria de canto ao falar.

- Achei que soubesse que eu cumpro com o que falo. – a resposta veio com um tom levemente frio.

A garota revirou os olhos.

- E por que me chamou aqui?

- Porque achei que seria o lugar mais fácil para você. – o tom era de quem falava com uma criança que não entendia nem o óbvio.

- Isso eu entendi, gracinha. – ela tinha um tom ácido ao falar – Mas não sei o que você pode querer comigo.

- Eu quero que você fique longe do Frederick.

- Nem ferrando! – ela se levantou visivelmente inconformada – Quem você acha que é para me pedir isso?!

Kyouya ajeitou os óculos, parecendo indiferente ao tom da garota.

- Por que eu não pediria isso? – apesar do tom deliberadamente distante, o rapaz tinha alguma coisa diferente no olhar.

Hana hesitou.

- Isso… Isso não faz o menor sentido. – ela cerrou os punhos – Você não pode simplesmente pedir uma coisa assim, sem mais nem menos, e esperar que eu aceite.

Antes que o moreno pudesse responder, o telefone de Hana tocou. A garota atendeu no segundo toque.

- Senhor Williams? – ela tinha sorrido de canto sem perceber – Não, não estou fazendo nada importante agora. Claro que posso. Uhum. Ok, estarei aí em alguns minutos. – e então ela desligou.

Kyouya tinha o cenho franzido e fechou uma das mãos em punho conforme ouvia a garota falando. Quando ouviu o final da ligação, ele apenas se virou e começou a se afastar. Quando Hana se voltou novamente para onde o moreno estava e viu suas costas, ela não aguentou. Ela encheu o peito para falar e sua voz saiu alta. Kyouya não se virou quando as palavras atingiram seus ouvidos, apenas continuando a andar.

- Covarde! – a garota fechou a mão com força ao redor do aparelho – Você é extremamente covarde! – ela deixou algumas lágrimas caírem antes de fazer o que precisava.