Kyouya sentia-se irritado. Trocado. A garota podia achar que não, mas ele tinha precisado de muita coragem para decidir ter a conversa que teria com ela. Talvez ele fosse mesmo covarde – não era a primeira vez que, direta ou indiretamente, alguém lhe dizia isso –, mas tinha seus motivos. Mesmo que ele fosse, não justificava a atitude da garota. Ele cerrou as mãos com força.
- Tsc. – ele se sentou em um banco que havia no caminho, apoiando os cotovelos nas coxas e escondendo o rosto nas mãos. Aquela situação era nova para ele.
"Eu preciso conseguir lidar com isso logo…", ele levantou o rosto, deixando as mãos cobrindo a boca. Sua mente trabalhava rápido, mas nenhuma das opções em que conseguia pensar parecia ser viável. Ele suspirou. Talvez fosse hora de conversar com alguma das meninas de novo, mas ele não conseguia ter conversas assim normalmente. Sua mente voltou a focar em Hana sem que ele se desse conta.
"Agora ela está voltando para a sala para pegar as coisas. Não porque você conseguiu falar o que queria, mas porque o senhor Williams a chamou. E para que ela foi chamada? Você sabe? Não, você não sabe. Porque simplesmente saiu andando em vez de continuar conversando com ela. Ela provavelmente ia te explicar o que houve. Talvez você seja mesmo covarde. Muito covarde. Você devia ir atrás dela", Kyouya baixou o olhar para as mãos. "Você está irritado. Suas mãos estão tremendo. Levante e vá atrás dela. Corrija isso tudo. Desfaça o mal-entendido", ele se levantou, respirando fundo. A vozinha em sua mente não ficava quieta por um segundo.
O moreno olhou ao redor. Se o senhor Williams queria alguma coisa, Hana provavelmente passaria na Educação para pegar Matheu primeiro. Era para lá que Kyouya precisava ir. Ele pegou o celular do bolso e discou o número da garota. Tentou várias vezes, mas todas deram caixa postal. Ele fechou a mão com força em torno do aparelho. Provavelmente estava sendo ignorado. Então, sem mais o que fazer, ele se pôs a caminho da Educação.
- Senhorita Hana! Que surpresa vê-la aqui tão cedo. – uma das funcionárias sorriu para ela ao falar.
Hana sorriu de volta.
- O senhor Williams me pediu para levar Matheu para casa.
A funcionária hesitou.
- Eu preciso conferir se ele autorizou.
- Sem problemas. – a morena sorria, escondendo perfeitamente a irritação que sentia. "Ande logo com isso, saco. Eu não tenho a vida toda para manter esse sorriso", ela ajeitou a bolsa no ombro.
Kyouya parou na porta do prédio de Educação. Uma das funcionárias o reconheceu.
- Ah, você é aquele rapaz que vem às vezes com a senhorita Hana. – ela sorriu – Do que precisa aqui?
- A Hana passou aqui? – ele tinha o tom menos amigável do que gostaria, mas não se importou.
- Ela acabou de sair. – a mulher parecia levemente assustada ao responder – O senhor Williams permitiu que ela saísse com Matheu.
Kyouya cerrou os punhos. Tinha chegado tarde demais. Agradeceu rapidamente a mulher e saiu em passos largos para o estacionamento. Enquanto andava, tentava novamente ligar para a garota. O telefone tocava várias vezes, mas ninguém atendia. Então ele tentou ligar para Anastácia.
- O que diabos você fez agora?! – a garota tinha um tom irritado – A Hana me ligou quase aos prantos falando que estava indo embora!
Kyouya ficou em silêncio.
- Trate de encontrá-la já! Entendeu?! – ela ficou mais irritada ainda e Kyouya se apressou em responder que estava tentando – Idiota. – então a garota desligou.
O moreno sentiu vontade de arremessar o aparelho longe, mas apenas o colocou de volta no bolso da calça.
Matheu se divertia no banco de trás do carro de Hana, olhando a paisagem com uma empolgação típica de criança. O telefone da garota piscava incessantemente no banco do passageiro. "Eu devia ter desligado essa droga", ela desviou o olhar para o aparelho por um instante. Depois de Matheu ter perguntado por que ela não atendia ao telefone, Hana tinha deixado o modo silencioso ativado. Não queria falar com ninguém no momento. "Muito menos com aquele idiota", ela virou o volante suavemente para a direita enquanto pegava o acesso que precisava.
- Você vai ficar em casa com a gente hoje? – Matheu foi tão para frente com o corpo quanto o cinto permitiu. O rapazinho sorria, fazendo Hana sorrir de volta.
- Talvez um pouco. Eu preciso estudar hoje, não posso demorar muito.
- Você pode estudar em casa! – ele estava empolgado com a ideia.
Hana riu.
- Vamos ver.
Todos os integrantes do Host, mais o grupo americano – incluindo os três visitantes – estavam na garagem quando Kyouya chegou. Anastácia tinha avisado a todos de que tinham algo importante a resolver. Quando o moreno se juntou ao grupo, Anastácia precisou ser segurada para não bater na cara do rapaz. Ela o olhava com uma raiva quase palpável no rosto.
- Agora que o rei dos idiotas chegou, vamos repassar. Eu e Kaoru vamos com Kyouya para a casa do senhor Williams. Vamos tentar falar com a Hana e arrumar as coisas. Frederick, Jenna, Mei e John vão para a nossa casa, para o caso de Hana não demorar na casa dos Williams. Tamaki, Haruhi, Mitsukuni e Takashi vão para o apartamento deles, caso a Hana precise conversar com alguém e vá para lá. Hikaru, Catarina e Ben vão ficar por aqui, só por garantia. Todo mundo entendeu? – ela olhou para os amigos, que concordaram com a cabeça – Ótimo, então vamos embora.
Hana tocou a campainha da casa do senhor Williams, segurando Matheu no colo. Não demorou muito para a porta ser aberta e o garotinho logo se animou mais, estendendo os braços para o pai. O homem pegou a criança no colo e lhe deu um grande beijo na bochecha antes de cumprimentar a garota, que acompanhava a cena com um sorriso no rosto. O pai a convidou para entrar, mas ela recusou.
- Eu preciso estudar hoje.
Ele ficou com uma expressão de quem estava decepcionado.
- Não pode ficar nem um pouco? Tenho certeza de que Matheu adoraria brincar um pouco com você. – ele sorriu de canto e o garotinho logo concordou.
- Eu realmente adoraria, mas vai ter que ficar para uma próxima vez. – ela ajeitou o cabelo.
- A gente pode cobrar? – o pai de Matheu tinha um tom brincalhão ao falar.
Hana riu.
- Com certeza Matheu não vai me deixar esquecer.
O rapazinho sorriu.
- Bom, então fica para uma próxima vez então. – o senhor Williams se abaixou para beijar a bochecha de Hana e entrou na casa.
A morena apenas se virou para voltar para o carro.
Kaoru estacionou o carro a tempo de os três verem Hana receber o beijo do homem e se virar, com um sorriso satisfeito no rosto. Kyouya, que tinha sido obrigado a ir no banco de trás, fechou as mãos com força. Anastácia suspirou. Do ângulo em que estavam, não tinha como dizer onde tinha sido o beijo, apesar de ela duvidar que tivesse sido em qualquer lugar diferente da bochecha. O ruivo suspirou.
- Bom, ela está indo embora. O que vamos fazer? – ele se virou para Anny.
- Vamos atrás dela. Talvez não seja uma boa se ela perceber que estamos aqui. – a morena se ajeitou no banco e virou para Kyouya ao completar – Fique feliz, ela podia ter entrado na casa.
O moreno olhou para a amiga com um incômodo palpável.
- Nem vem. Isso foi culpa sua. Toda sua. – ela tornou a se virar para frente – Vamos para casa.
Kaoru concordou com a cabeça e deu a partida no carro.
Hana dirigiu a esmo por um tempo, olhando pelo espelho retrovisor até que o carro de Kaoru não estivesse mais atrás do dela. A morena não queria companhia alguma naquele momento. Então ela ligou o rádio e se dirigiu para o shopping mais próximo. Precisava de algo doce para se acalmar. Provavelmente compraria um milk-shake. Parecia uma boa ideia.
Frederick não conseguia ficar quieto em um lugar, andando de um lado para o outro na sala do apartamento das amigas. Jenna e Mei não sabiam mais o que fazer para tentar acalmar o amigo, de forma que tinha sobrado para John conversar com o loiro e entender o que se passava. Frederick estava irritado e não fazia questão de esconder.
- Meu deus, como aquele cara é idiota! Como a Hana pode gostar de um babaca como ele?! O que um imbecil como ele tem?! Aquele covarde!
- Fred, isso é ciúme? – John parecia se divertir.
- Claro que é ciúme! Ela se apaixona por um idiota que não dá a mínima! Ou talvez dê, mas é COVARDE DEMAIS PARA FAZER ALGUMA COISA! – ele respirou fundo – Babaca.
- E por que você ta com ciúme mesmo? – John se ajeitou no sofá, acompanhando o amigo com os olhos.
- Porque…! Porque a Hana sempre foi a mais vulnerável. – o loiro parou e encarou o amigo – Ok, não. Ela não é e nunca foi a mais vulnerável. Mas… Um idiota daqueles?! – ele voltou a andar – Pelo menos a Anny parece bem! Céus…!
- Admita, você queria que ela se apaixonasse por você. – John parecia resistir à vontade de rir.
- O que?! – Fred parou no meio da sala, olhando incrédulo para o moreno – Meu deus, não! Nós moramos na Europa! Eu não poderia fazer isso com ela!
- E daí? Os caras lá são do Japão. – John deu de ombros.
Frederick engoliu em seco.
- Além do mais, se fosse com você, aposto que os pais dela não iam reclamar de ela se mudar. – o moreno continuava atiçando o amigo – Você está com ciúme porque gosta dela.
- Deixe de falar bobagens, John. – o tom do loiro era duro e ele falava entre os dentes.
- Bobagens? Bobagem seria se eu dissesse que ainda gosto da Anny. Apesar de achar que um cara do Japão não seja a melhor escolha. Provavelmente vai doer. – ele deu novamente de ombros – Já você… Mais de um ano longe não foi suficiente?
- Cale a boca. – Frederick se apoiou na parede – Eu não gosto dela desse jeito, ok?
- Tem certeza? – John sorria com satisfação.
- Tsc. – o loiro tornou a andar pela sala – Aquele babaca tem que acertar isso tudo logo, senão eu vou socar a cara dele.
John riu.
- Com muito prazer, eu aposto.
- Eu socaria agora, se pudesse. Mas a Hana não vai ficar muito feliz. – o loiro franziu o cenho – E não me venha com teorias estranhas.
- Eeeu? Teorias estranhas? Não faço a menor ideia do que você ta falando, Fred. – o moreno riu – Já pensou em fazer boxe?
- Eu fiz boxe. E sei como fazer um belo estrago na cara de alguém. – o loiro resmungou mais alguma coisa que John não entendeu – Meu deus, ela podia chegar logo.
O outro ia responder quando a porta se abriu. Os dois se viraram automaticamente, sentindo uma pontada de decepção ao ver Kaoru, Anny e Kyouya entrando. A morena suspirou e fez que não com a cabeça. Eles não sabiam onde Hana estava nem quando ela voltaria para casa. Frederick foi a passos largos até Kyouya, que o fitou com indiferença. Os dois tinham praticamente o mesmo tamanho, o que permitia ao loiro olhar o moreno nos olhos.
- Espero que esteja feliz. Se algo acontecer a ela, a culpa é sua.
Kyouya não respondeu, apenas se virando e indo até a cozinha.
- Covarde! – Frederick se sentou no sofá e cruzou os braços diante do corpo, deixando o ar sair pesadamente.
Anny acariciou a cabeça do amigo.
- Nós sabemos que ela não aceitou entrar na casa do senhor Williams. Supondo, claro, que o convite tenha sido feito. Mas ela percebeu que estávamos indo atrás e começou a dirigir a esmo, então achamos melhor voltarmos para casa. Ela deve passar em algum lugar para se acalmar e então vir para cá. Acho que devíamos chamar todo mundo de volta se ela não aparecer em nenhum lugar em meia hora.
- Só meia hora? Ela pode ir a qualquer hora para a casa deles ou para a faculdade. – Fred continuava revoltado.
- Para a casa deles eu concordo. Mas ela não vai para a faculdade. Não tem mais nada lá que ela queira. – Anny olhou a hora – Por isso, se em meia hora ela não chegar, vou falar para o pessoal que está na faculdade ir para o apartamento dos meninos.
- Parece um bom plano para mim. – John tinha se esparramado no sofá em que estava – Mas, mudando de assunto, e você, Anny?
A morena desviou os orbes de Frederick para John ao ouvir seu nome.
- Eu o que? – ela franziu o cenho.
- Como anda sua vida pessoal? – o rapaz sorria com satisfação, olhando brevemente para Kaoru ao perguntar.
A morena entendeu rapidamente o que o amigo queria dizer, corando levemente.
- Ah, vai… – ela pigarreou – Vai bem.
- Bom saber. Quer dizer que conseguiu um namorado?
Ela sentiu o rosto ferver. Parado um pouco atrás de onde a garota estava, Kaoru acompanhava a conversa. Ao ouvir a pergunta, seus orbes cor de mel automaticamente se voltaram para John, indo para Anastácia em seguida. O ruivo tinha as bochechas levemente rosadas, mas esperava pela resposta em silêncio. Anastácia precisou de um tempo para se recompor da vermelhidão antes de responder.
- Não. Ainda não. Mas… Quem sabe um dia? – ela sorria com certa tranquilidade, se controlando para não olhar para Kaoru.
- Espero que seja esse ano ainda. Não é? – John tinha desviado o olhar para o ruivo na última frase.
Os outros dois não responderam, apenas sorrindo de canto com a sugestão.
