Quando Hana voltou para casa, depois de mais de duas horas de espera dos amigos, o grupo inteiro estava reunido na sala. Frederick foi o primeiro a se levantar, abraçando a garota com força. A morena não resistiu, apenas passando os braços ao redor da cintura do loiro e fechando as mãos em suas costas. O rapaz sentiu o tecido repuxar levemente, mas não se importou. Sentia a respiração de Hana em seu peito, dizendo a si mesmo que seu coração batendo acelerado era por causa da preocupação.
Anastácia permaneceu sentada onde estava, olhando a cena com um pequeno sorriso nos lábios. Sabia que não adiantava questionar a amiga naquela hora, porque nenhuma resposta seria dada e, de brinde, ainda adiaria o momento da calmaria, quando seria possível ter realmente uma conversa com Hana. Ela se ajeitou quando Kaoru se sentou ao seu lado. O ruivo parecia aliviado ao ver a cena, mas algo o preocupava. Ele ainda não sabia como verbalizar, mas não importava. Ele olhou de canto para Anastácia, que também parecia preocupada com algo. "Mas, eventualmente, vamos saber", ele tornou a fitar as costas de Frederick.
Kyouya tinha saído da cozinha ao ouvir o barulho da porta, mas não passou para a sala. Em vez disso, ficou em pé ao lado do balcão que separava os dois ambientes. Ele não se sentia confortável com a situação por diversos motivos, mas sabia que não tinha nada que pudesse fazer. Ou talvez… "Tente", a vozinha que o tinha perturbado por um tempão tornou a se manifestar em sua cabeça. "No máximo, ela vai te bater. Mas essa dor vai passar", ele avançou um passo. Frederick continuava abraçado a Hana. "Espere ela se soltar. Não piore as coisas", ele apoiou a mão no balcão. Aquela espera parecia consumi-lo lentamente.
Quando Hana finalmente se soltou do amigo, Catarina se pôs a sua frente com um ar preocupado. A morena jurou ter visto a expressão de um cão abandonado nos olhos da loira, rindo levemente e lhe afagando os cabelos. A menor sorriu, abraçando a amiga com força por um instante e então voltando para onde estava antes. Hana olhou ao redor por um breve momento, ficando com um ar frio e distante quando seus orbes focaram Kyouya. O moreno cerrou levemente os punhos e se adiantou, envolvendo a garota pela cintura e a puxando para si. A próxima coisa de que Hana teve consciência a fez arregalar os olhos.
Kyouya tinha, por vontade própria, a beijado.
Hana sentiu o rosto ferver, mas não tentou se desvencilhar.
Quando o moreno se afastou, a garota ainda tentava entender o que tinha acontecido. O silêncio na sala era sepulcral. Kyouya, com as mãos dentro dos bolsos da calça, respirou fundo antes de falar. Hana ainda estava vermelha, o que tornava tudo mais difícil. "Você consegue. Anda! Não adianta fazer isso e não dar explicações", ele desviou o olhar. Sentia que Anastácia o encarava com certa curiosidade. Já Frederick parecia querer decapitá-lo com o olhar.
- É por isso que eu posso pedir.
Hana levou alguns segundos para entender.
- Isso… Ainda assim, eu não poderia fazer isso. – ela cerrou os punhos e baixou o olhar – Você não pode simplesmente achar que eu vou mudar o jeito como tenho vivido a minha vida até agora só porque… Só por causa de você.
Kyouya não respondeu. Não confiava tanto nas próprias capacidades mentais ainda.
- Eu sinto muito. – ela levantou os orbes negros para o rapaz, que apenas acenou brevemente com a cabeça e passou por ela.
A próxima coisa que Hana ouviu foi a porta se fechando a suas costas. Um soluço entalou em sua garganta. Ela fechou as mãos com mais força e sentiu as pernas fraquejarem, mas se manteve em pé. Kaoru passou ao seu lado e logo tinha saído do apartamento também. Anastácia tinha dito algo para o ruivo. Ela sempre sabia o que fazer. O pensamento fez Hana sorrir de canto. "Como você, que geralmente não sabe o que fazer, consegue não irritar alguém que sempre sabe o que fazer?", ela sentiu outro soluço se juntar ao primeiro.
Anastácia passou os braços ao redor dos ombros de Hana, abraçando-a carinhosamente. Aquela seria uma longa noite. Os integrantes do Host se entreolharam, mas foi Haruhi quem se adiantou. Parando diante de Anastácia, a garota perguntou se havia algo que eles pudessem fazer, recebendo uma negativa. O que sobrava era esperar. Esperar que Hana se acalmasse, esperar que Kyouya não fizesse nenhuma besteira, esperar que Kaoru conseguisse respostas, esperar que as coisas não piorassem.
Esperar.
Não demorou muito para que as cinco estivessem sozinhas no apartamento. De repente, o lugar parecia grande demais. Jenna, Mei e Catarina tinham ido para a cozinha para cuidar da janta, enquanto Hana e Anastácia estavam na sala. O silêncio na casa era praticamente total, mas não era opressivo. Era um silêncio necessário, que indicava que o pior já tinha passado. Era um silêncio regado a chá de camomila para acalmar os nervos.
Kaoru tinha alcançado Kyouya quando o moreno passava pelo portão de entrada do prédio. O ruivo deteve o amigo pelo braço, dizendo que daria uma carona a ele até em casa, já que Kyouya tinha deixado o carro na universidade. O moreno concordou, apesar de não parecer exatamente confortável com a ideia. Kaoru sorriu, indo até o carro sem pressa. Kyouya ia atrás, em um silêncio de quem repassa mentalmente o que acabou de fazer. Sem perceber, ele sorriu de canto.
"O que está feito, está feito. Pelo menos ela não te bateu", ele entrou no carro. "Podia ter sido bem pior. Ela podia ter beijado o Frederick. Ok, não pense nisso. Mas ele realmente é um problema, não é? Até quando ele fica aqui mesmo?", ele repassou mentalmente os detalhes que tinha anotado no caderno de bolso. "Ah, mais alguns dias. Você sobrevive. Aliás, anote no caderninho que a Hana gosta de te beijar. Esse foi o que? O terceiro beijo não oficial de vocês?", ele se apoiou na porta do carro, vendo a paisagem mudar conforme Kaoru dirigia. "É isso mesmo. Olha que fofo. Por que você não se declara logo?", ele olhou para o ruivo. Talvez não fosse uma ideia ruim.
- Kyouya-senpai. – a voz de Kaoru o fez voltar para a realidade. – Por que você fez aquilo? – a pergunta tinha sido feita em japonês.
O moreno respondeu no mesmo idioma.
- Era a melhor coisa a se fazer. – ele tornou a olhar pela janela – Se ela não quisesse, tinha se soltado.
Kaoru riu de canto.
- Talvez. Sabe, todos nós ficamos impressionados. – o ruivo olhou brevemente para o amigo antes de continuar – Mas foi uma boa decisão a sua. Claro que isso não descarta a conversa que você e a senhorita Hana precisam ter. – ele tinha escolhido com cuidado como chamaria a amiga naquele momento.
- Pode chamá-la como quiser. – Kyouya tinha um ar indiferente na voz.
Kaoru aproveitou o sinal fechado e se virou para o amigo.
- Você gosta mesmo dela, Kyouya-senpai?
O moreno não respondeu, afundando mais no banco. Kaoru sorriu com satisfação e engatou a primeira marcha. Aquela reação do amigo respondia tudo. Todos os desentendimentos entre o mais velho e a garota eram por pura falta de comunicação. Não que aquilo não fosse óbvio, mas a resposta não verbal de Kyouya confirmava. O ruivo respirou fundo e fez um último comentário sobre o assunto.
- Converse com ela sobre isso o quanto antes. Mas com calma.
Kyouya sorriu de canto. Talvez não fosse tão difícil.
Hana suspirou. Ainda devia uma explicação às amigas, ela sabia. Mas não tinha ideia de por onde começar. Era coisa demais para tempo de menos. Talvez ela devesse começar pelo primeiro encontro de Kyouya com Fred, Ben e John. Pelo que ela leu no olhar do moreno, mas não conseguiu acreditar de todo. Ainda não acreditava muito, apenas mais. Talvez as coisas não fossem mesmo coisa de sua cabeça. Ou talvez ele só quisesse provar um ponto. Hana suspirou de novo. Aquilo estava ficando complexo demais.
- Relaxa, meu amor. – Anastácia pôs a mão sobre as da amiga, que estavam fechadas ao redor da xícara de chá – Você não precisa falar nada agora se não quiser.
Hana sorriu de canto.
- Eu só não sei por onde começar. – ela levantou os olhos. Jenna punha as coisas na mesa para jantarem. Catarina lavava a louça. Mei pegava algumas coisas no armário – Ele pediu para falar comigo hoje.
Anastácia pareceu levemente surpresa, olhando para as outras três para ver se elas prestavam atenção. Jenna tinha olhado na direção de Hana quando ouviu o comentário. Mei tinha parado com a mão no ar. Catarina deixou um copo cair, espalhando sabão pelo chão. Hana riu de leve e se virou para as amigas.
- Por que vocês não param e sentam aqui? Especialmente a Cat, antes que a gente tenha que repor louça demais. – a morena parecia tranquila ao falar.
Catarina, levemente corada por causa de sua reação, secou as mãos e se sentou na frente da amiga. Hana logo começou a contar o que tinha acontecido naquele dia até o momento em que ela voltou para casa. As amigas ouviam em silêncio, sem perguntar nada. Surpreendentemente, não tinham dito nada sobre a atitude de Kyouya ao final da "conversa" com Hana. A morena não se importou. Era melhor assim.
Frederick estava afundado na cama do hotel, fitando o teto. John e Benjamin conversavam sentados nas cadeiras que ficavam próximas da porta. Os dois falavam baixo, mas o loiro ainda sabia do que se tratava o assunto. Fred suspirou e se sentou na cama. No frigobar havia algumas garrafinhas de bebida alcóolica. Ele não devia, mas… "Mas eu mereço!", ele se levantou. Não costumava beber, mas não conseguiria aguentar aquilo tudo sem uma mãozinha para se acalmar. John pareceu alarmado quando viu o amigo pegar uma das garrafinhas.
- Você vai mesmo beber só porque o cara de quem a Hana realmente gosta a beijou na sua frente?
Frederick lançou um olhar de poucos amigos para o outro.
- Não, eu vou beber porque ele é um idiota que está brincando com os sentimentos dela. É por isso que eu vou beber. – ele tirou a tampa da garrafa e bebeu um grande gole da bebida transparente.
Benjamin suspirou.
- Você devia tentar dormir um pouco, isso sim. O que você pretende fazer quando ela começar a namorar alguém?
A mão de Frederick se fechou com força.
- Eu não sei, ta legal? Não faço ideia. Eu achei que tinha conseguido superar tudo isso, mas eu estava obviamente errado. Porque isso é o que eu faço melhor. Estar errado. – ele bebeu o resto da bebida e jogou a garrafinha no cestinho de lixo – Eu vou pensar sobre isso quando acontecer.
- Olha… – John olhava atentamente para o amigo ao falar – Sei que você espera voltar para casa antes de tudo se ajeitar, mas acho mais provável que você tenha de pensar sobre isso antes do que imagina.
Fred suspirou.
- É. To sabendo. – ele pegou uma garrafinha com um líquido dourado dentro e abriu – Mas é bom que ela ache alguém com quem consiga ser feliz. – ele bebeu um gole e se sentou na cama, olhando as mãos apoiadas no colo – Mesmo que seja por esse ano. A experiência vai ser boa para ela.
Benjamin e John sorriram e foram até o amigo, falando com um tom zombeteiro.
- Você gosta mesmo dela, hein?
- Fica até com cara de quem se importa com os outros.
- Nunca vi você tão preocupado com alguém assim.
- Desse jeito, é capaz de sequestrar a garota só pra ter certeza de que ela vai ter os cuidados de que precisa.
Fred fechou a mão em volta da garrafinha com força e jogou a embalagem na direção dos amigos, espalhando a bebida pelo quarto. Quando a garrafa se chocou contra a parede, uma mancha ficou visível sobre a tinta branca e vários cacos de vidro se espalharam pelo chão. O loiro suspirou. "Acho que preciso ser menos impulsivo…", ele se levantou e foi até o telefone, discando o número da recepção. A suas costas, Ben e John continham o riso.
- Boa noite. Tem como pedir para alguém da limpeza passar no quarto 501? Obrigado. – ele desligou o telefone e se deitou na cama.
- Não vai beber mais? – a pergunta veio de Benjamin, que se divertia com a situação.
- Ou prefere quebrar mais algumas garrafas antes? – John tinha o mesmo tom de voz.
- Ah, calem a boca. Por que vocês não voltam para o próprio quarto e me deixam em paz? – Frederick pegou o controle da televisão e começou a passar pelos canais.
- Ui, alguém ta irritadinho. – John tinha um ar zombeteiro.
Benjamin pegou uma garrafa do frigobar e colocou sobre o criado-mudo.
- Use com sabedoria. – ele sorria de canto ao falar, caçoando igualmente do amigo.
Frederick revirou os olhos e logo os outros dois tinham saído do quarto controlando o riso para não incomodarem os outros hóspedes. O loiro logo pegou no sono, esquecendo a televisão ligada em um canal de culinária. Naquela noite, o rapaz teve um sono sem sonhos. Era melhor assim. Geralmente, quando ia dormir alterado, acabava tendo um sono agitado e acordava de mau humor do dia seguinte por ter dormido mal.
Hikaru estava afundado no sofá do apartamento que ele e Kaoru estavam dividindo. Ver como o relacionamento de Hana e Kyouya estava se desenvolvendo o fazia pensar em como ele faria em relação ao que sentia por Catarina. Estava óbvio até para ele que a garota correspondia aos sentimentos do ruivo, mas ele não sabia como agir. Apesar da experiência com Haruhi – que não era muita coisa, mas ajudava –, ele ainda não sabia lidar direito com o que sentia.
- Isso é um problema, não é…? – ele não percebeu que pensava em voz alta.
- Isso o que? – Kaoru, que tinha chegado alguns minutos antes, passava pela sala para ir à cozinha atrás de um pouco de água.
Hikaru se assustou, pulando levemente no sofá.
- Kaoru! Não faça isso, droga! – ele apontava freneticamente para o irmão.
- Você que ficou falando sozinho aí e eu que sou culpado? – Kaoru sorriu de canto – Em que estava pensando?
O gêmeo mais velho suspirou e tornou a deitar no sofá.
- Essa história toda da Hana com o Kyouya-senpai… Ela me faz pensar.
Kaoru, que já tinha buscado água e voltado, se sentou na poltrona ao lado do sofá e fitou o irmão.
- Pensar em que? – ele sorria de canto com tranquilidade, já imaginando a resposta.
- Em mim. No que eu preciso fazer. Afinal… Eu preciso fazer alguma coisa, não é? – Hikaru fitava o teto, tendo um tom meio distante ao responder. Sua expressão era de preocupação e Kaoru achava bom que o outro pensasse sobre tudo aquilo com tanta seriedade.
- Precisa. Afinal, a Cat não vai esperar para sempre. – ele se levantou e estendeu a mão para o mais velho – Mas você não está sozinho. Eu também preciso tomar uma atitude.
Naquele momento, Hikaru pareceu se lembrar de algo.
- Aliás, por que você estava tão feliz no almoço hoje?
Kaoru parou para pensar um momento, levemente surpreso com a pergunta.
- Lembra-se do último dia de provas? – quando o mais velho concordou, o mais novo continuou – Tinha algo que me preocupava, mas agora está tudo bem. – ele sorria largamente ao responder. Agora não tinha nada que o preocupasse. Mesmo a lembrança do sorriso estranho o confortava. Tudo porque tinha deixado de ser uma ameaça.
