Hikaru e Kaoru estavam sentados à mesa de sempre da cantina, conversando sobre as aulas e o pessoal da sala, quando um par de vozes familiar os fez virar. Benjamin e John tinham atrás de algo para comer e se dirigiam para a mesa, distraídos com o assunto em pauta. Os gêmeos apenas fitavam os outros dois meninos, imaginando onde estaria o terceiro. Não precisaram esperar muito para ter a resposta. Da porta da cantina, uma voz soou alta. Frederick gritava com alguém.
- Já mandei sair do caminho, palhaço!
Benjamin suspirou e se virou para John.
- Minha vez? – ele esperou o amigo concordar antes de dar de ombros e se virar, voltando pelo caminho por que tinham vindo – Sempre igual…
John riu e se sentou à mesa, olhando para os gêmeos.
- Oh, olá. – ele sorriu – Não se incomodem com a bagunça, é sempre assim.
Hikaru franziu o cenho, sem responder. Kaoru tinha um ar confuso.
- Você não deveria se preocupar um pouco mais com seu amigo?
- Oh, não, não. Senão é capaz de eu apanhar também. O Ben vai resolver rapidinho. – John se ajeitou, deixando a latinha de refrigerante sobre a mesa – Mas… Vocês não deveriam estar em aula?
- E o que você tem a ver com isso? – Hikaru soava pouco amigável ao falar, o que fez com que Kaoru suspirasse.
- Na verdade, nada. – antes que o rapaz pudesse continuar, seu telefone tocou, indicando que uma mensagem tinha chegado.
Vocês podem não destruir a escola? A gente gosta daqui, apesar de tudo.
John riu. Como Anastácia tinha descoberto, ele não sabia. O rapaz respondeu que iam se esforçar e tornou a guardar o aparelho. Hikaru o encarava com uma expressão de poucos amigos e Kaoru olhava para a fonte do barulho. Poucos minutos depois, Frederick e Benjamin se juntaram aos três. O loiro tinha um arranhão fresco na bochecha, mas um ar satisfeito. Benjamin tinha o cabelo bagunçado e não parecia muito contente com a situação.
- Olha só, dessa vez chegou mesmo a bater no outro. – John tinha um ar zombeteiro – Quão menor ele era?
- John, cala a boca. – Benjamin se debruçou na mesa.
Frederick ria por dentro.
- Só porque você não conseguiu me impedir de socar aquele idiota vai ficar irritado? - o loiro alargou o sorriso – Pense pelo lado bom, graças a você, o babaca não ta com o nariz quebrado. No máximo, trincou um pouco.
Hikaru e Kaoru se entreolharam.
- Qual foi a causa dessa vez? – John cruzou os braços diante do corpo e levantou uma das sobrancelhas.
- Ele não quis sair do caminho. – Benjamin revirou os olhos – Aparentemente, o Fred tem dificuldades em desviar o caminho.
O telefone do loiro apitou.
Diz pra mim que você não precisou ir para o hospital.
Frederick sorriu. O tom de Hana na mensagem passava certa urgência, o que o satisfazia. Antes que o rapaz pudesse responder, o telefone apitou de novo.
Eu juro que te dou motivo pra ficar internado se você continuar causando na minha faculdade!
O rapaz franziu o cenho. O tom tinha mudado completamente de uma mensagem para a outra. Era quase como se…
- John, o que você contou para elas? – o loiro levantou o olhar para o amigo.
- Eu? – ele tinha um ar inocente ao falar, apesar de ter total consciência do que se tratava – Eu não fiz nada.
- Mais importante que isso. – Kaoru achou melhor interferir antes que os dois se alfinetassem mais – O que vocês estão fazendo aqui?
- Ah. – Benjamin se levantou e olhou para o ruivo – A gente veio ver as meninas, mas elas não quiseram cabular aula porque, aparentemente, já faltaram muito. Então decidimos explorar o lugar.
Os gêmeos se entreolharam.
- Mas eu to pensando em ir ficar com a Cat um pouco. – John se levantou e ajeitou a cadeira enquanto completava – Afinal, parece que a próxima aula dela vai ser legal hoje. – ele sorriu de canto e saiu.
Hikaru o encarava, não gostando da ideia. Kaoru suspirou e revirou os olhos.
Haaaaaana, me ajuuuuuda!
A morena franziu o cenho. Catarina tinha o ar de desespero em todas as mensagens que tinha mandado naquela tarde. No começo a loira estava quieta, mas alguma coisa tinha acontecido. O que, ela não sabia. Talvez os rapazes soubessem, mas ela duvidava. "Os gêmeos podem ter invadido a aula dela. Dependendo do que o Hikaru estiver fazendo, é normal a Cat surtar. Mas o normal seria ela não conseguir pensar em que fazer. O Ben não faria nada para torturá-la, faria? O Fred…", ela sentiu um arrepio correr por suas costas.
Toda vez que pensava no amigo, ela se lembrava do momento em que ele a abraçou. Ela sentiu medo vindo dele. Um medo profundo, um medo irracional. O coração disparado dele tinha passado a bater mais rápido quando ela o abraçou de volta. Ela não gostava do que os sinais diziam. "Eu esperava que isso tivesse passado já…", ela suspirou. Pelo visto, estava errada. "Se Anny tiver razão, vai ser um problema. Eu não quero que ela tenha razão. Ela não pode ter razão. Não nisso", ela franziu o cenho.
Haaaaaana, tira o John daquiiii! Peloamordedeus,tiraeledaqui!
A morena sorriu. Então era isso. John. Ela não podia negar que o rapaz sabia como provocar os outros. Era quase uma especialidade. Os outros dois também sabiam, mas era bem menos proposital. John entendia o que exatamente incomodava cada um que conhecia e usava aquilo a seu favor. Ela detestava essa habilidade do amigo, mas acabou sorrindo de canto com a situação. Decidiu, por fim, responder à amiga e perguntar o que estava acontecendo.
Ele fica soprando minha orelha e cutucando minha barriga! Essa aula já não é a mais legal. Imagina focar com ele do lado!
Hana sorriu mais largamente. Poderia ser pior. Poderia ser Hikaru com a loira. Se fosse, ela não conseguiria focar nem na aula mais legal do universo. Mesmo assim, a morena achou que deveria ajudar. Mandou uma mensagem para John dizendo para ele subir dois andares e encontrá-la no corredor principal. A resposta do rapaz veio em poucos segundos, dizendo que concordava, já que precisavam conversar mesmo. A morena estava saindo da sala quando seu celular apitou mais uma vez.
Precisamos conversar.
Ela franziu o cenho, sentindo o peito apertar. Teria de deixar aquilo para depois, mas queria realmente saber do que se tratava. Ela respondeu com um simples "ok" e foi se encontrar com John. Hana sorriu quando o amigo a alcançou e perguntou o motivo de ele estar na aula de Catarina. O rapaz sorriu com certa satisfação, olhando de forma sugestiva para a outra. Considerando como as coisas tinham se desenvolvido no dia anterior, ele não esperava que Hana entendesse de imediato, mas ela logo sorria de volta do mesmo jeito. Os dois conversavam a caminho da sala de aula da garota.
- Você por acaso está mesmo tentando juntar a Cat com o Hikaru? Desde quando é tão solidário assim?
- Nossa, assim você me ofende, Hana. – ele riu de leve – Só achei uma graça a preocupação estampada na cara dele ontem. Tem alguma coisa que justifique eles ficarem tão alertas em relação aos colegas de vocês?
A garota deu de ombros. Nenhuma delas teve coragem de contar sobre as cicatrizes na época em que foram causadas nem depois. Aquele também não parecia ser o momento.
- Ele não sabe lidar direito com os próprios sentimentos. – ela sorriu de canto.
- E algum deles sabe? – John arqueou uma sobrancelha, duvidando da possibilidade.
A garota apenas sorriu em resposta e entrou na sala.
Catarina sentia-se profundamente aliviada por estar novamente sozinha na sala. Por outro lado, as palavras de John ficavam ecoando em sua mente. Quando o rapaz percebeu que ela não manteria a conversa, tinha decidido pentelhá-la. A loira suspirou. Estava tão óbvio assim? "E o que diabos ele quis dizer com 'parar de ter medo de ser feliz'? Eu não tenho medo!", ela franziu o cenho. "… Tenho…? Quanta idiotice. Claro que não. Por que eu teria? Mas…", ela se ajeitou na cadeira. De repente, sentia-se extremamente desconfortável em seu lugar. O professor continuava falando, mas ela não conseguia prestar a menor atenção.
As palavras de John voltavam com cada vez mais força em sua mente.
Faça alguma coisa.
Deixe de ser boba, seja feliz.
Ele gosta de você, por que não se declara?
Não é possível que você não tenha percebido depois de ontem.
Não tenha medo de ser feliz. Até agora, você correu da felicidade. Trate de começar a persegui-la.
Catarina suspirou. Era verdade que, no começo, ela tinha medo. Muito medo. Conforme o grupo ia ficando mais velho, ela começou a ter consciência do que a intimidade com rapazes podia gerar. E aquilo a assustava. Mas ela não tinha mais medo. Ela sabia que, eventualmente, acharia alguém que a deixasse confortável. Que a faria perceber que sentir-se mulher não era necessariamente uma fraqueza. O primeiro que achou que causaria uma mudança nela não passou de um lapso. Ela não tinha realmente gostado dele. E os amigos não saíram de seu lado em nenhum momento. O que, talvez, tenha sido o problema. "Afinal, foi por causa disso que eu passei a gostar dele, não foi?", ela fitou o caderno aberto sobre a mesa.
Tinha sido. E ela ainda era uma garotinha assustada nesse ponto naquela época. Até porque o rapaz a tratava como uma igual. Era bom, claro. Mas ela não sabia se aquilo significava que o sentimento era mútuo ou não. E por isso era ruim. Não havia nada de especial que a ajudasse a desvendar a situação. "Pelo menos o encanto passou rápido. Apesar de que, por causa disso tudo, ainda ser… Assim", ela pegou a caneta e encarou o papel e branco. Desenhar podia ajudá-la a pensar com mais clareza.
Desenhar podia fazer com que John saísse de sua cabeça.
Os gêmeos tinham saído da cantina pouco depois de John, deixando Benjamin e Frederick conversando. Hikaru se sentia profundamente desconfortável na presença do trio, mas Kaoru parecia não se importar. O mais velho não entendia aquilo. Afinal, as garotas tinham uma ligação muito mais profunda com aqueles três do que com os integrantes do Host Club. Frederick, Benjamin e John as conheciam muito melhor. Sabiam seus pontos fracos. Sabiam quando precisavam dar mais apoio. Sabiam como lidar melhor com elas. Como fazer com que elas se sentissem bem.
Hikaru suspirou, o que atraiu a atenção do irmão.
- Preocupado? – Kaoru sorriu de canto.
- É… Um pouco. – Hikaru corou levemente, desviando o olhar para o outro lado.
Kaoru riu de canto com a reação do mais velho.
- Sabe que ele estar com ela não significa nada além de estar na mesma sala, né? Eles podem conversar e tudo, mas não é como se ela fosse agarrar o John.
Hikaru bufou.
- Eu sei, mas você não precisava falar assim.
Kaoru riu.
- Isso que eu vejo é ciúme, Hikaru? Vamos ter que recomeçar todo aquele tratamento pro seu temperamento explosivo? – o mais novo tinha um ar de divertimento e satisfação ao falar.
Hikaru revirou os olhos e afundou as mãos nos bolsos.
- Não, não vamos, ok? – ele suspirou – Eu só queria saber o que fazer.
- Fale com ela. – o mais novo sorria de canto – Diga que gosta dela. Eu posso me esconder por perto e ver o que consigo extrair das reações dela.
Hikaru corou com a sugestão de se declarar, abaixando a cabeça.
- Não é tão simples.
Kaoru parecia se divertir.
- Não vai ser simples agora, muito menos depois. Não acha melhor resolver tudo isso logo?
Hikaru olhou para o irmão com as bochechas ainda vermelhas.
- E você? Não tinha que tomar uma atitude também?
- Tenho. – Kaoru desviou o olhar para o céu – Mas não sou eu quem se sente ameaçado.
Hikaru bufou.
- Não fique assim. – Kaoru abraçou o irmão pelos ombros, sorrindo largamente como se aquilo tudo fosse muito divertido – Vai dar tudo certo para vocês dois.
"Espero que sim", Hikaru sorriu de canto sem perceber.
Anastácia estava olhando distraída pela janela durante a aula quando viu os gêmeos passando. Ela pegou o telefone e mandou uma mensagem para Kaoru, perguntando o motivo de eles não estarem na aula. O garoto logo respondeu que, se ela queria tanto assim que eles fossem para uma sala, eles poderiam ir para lá. Ela mordeu o lábio inferior para controlar o riso e respondeu com um simples "vem". Em poucos segundos, o gêmeo mais novo falou que eles já estavam no prédio e precisavam da sala. Ela sentiu as bochechas ficarem rosadas. Não esperava que ele realmente aceitasse. Ela passou o número da sala e voltou a fitar o professor.
Não vem buscar a gente?
Anastácia sorriu de canto com a mensagem, respondendo que eles esperassem um pouco que ela logo teria intervalo. Kaoru concordou e disse que ele e o irmão ficariam na frente da biblioteca do prédio de Saúde esperando. "Meu deus, tão longe?", ela revirou os olhos. Se eles conseguiam achar a biblioteca, então por que não esperar na frente da sala em que ela estava? Poucos minutos depois o professor anunciou que fariam uma breve pausa e que, na segunda metade da aula, teriam alguns exercícios para serem resolvidos. A garota aproveitou para sair logo da sala e ir atrás dos amigos.
- Isso que você ia ter o intervalo logo. – Kaoru tinha um sorriso de canto no rosto que era visivelmente provocador.
Anastácia resistiu à tentação de provocá-lo de volta.
- Sabe como é, o professor não vai muito com a ideia de dar um tempo pros aluninhos. – ela sorriu – E aí, por que não estão na aula de vocês?
- Se quiser tanto assim, a gente vai embora. – Kaoru deu de ombros.
- Então vai, ué. – Anastácia estava visivelmente se divertindo, rindo quando Kaoru revirou os olhos – A ideia foi sua, nem vem.
O ruivo sorriu de canto, com ar de quem se rendia.
- Tudo bem, tudo bem. Não está mais aqui quem falou.
Anastácia sorriu largamente com ar de vitoriosa.
Hana se ajeitou na cadeira de forma que pudesse ficar virada para John. A aula já tinha acabado e muitos dos alunos estavam indo para casa, mas a garota ainda tinha mais uma aula antes de dar o dia por encerrado. Enquanto esperava o professor da aula seguinte chegar, ela aproveitava para conversar com o amigo. Queria saber o que ele tinha feito para Catarina ficar tão desesperada por ajuda. O rapaz riu, apoiando um cotovelo na mesa e encarando Hana de volta com a mesma intensidade.
- Eu só sugeri que ela se declarasse. – ele deu de ombros.
- Sugeriu. – ela repetiu como se digerisse a palavra – Vindo de você, não dou muito crédito. Aposto que você estava quase arrastando a garota para fora da sala.
John riu.
- Nessas horas, a gente descobre a imagem que nossos amigos têm de nós. – ele revirou os olhos – Não estava, ok? Ta, eu disse na lata pra ela se declarar. Não acho que ela vá fazer isso, mas não custa tentar. Ela realmente merece que dê certo. – ele sorriu de canto e Hana interpretou seu tom como sendo uma leve tristeza.
"Decepção, talvez? Arrependimento? O que você não está me dizendo, John?", ela se remexeu na cadeira, repentinamente desconfortável. "O que vocês nunca nos contaram? O que parece ser tão importante agora que nós 'não sabemos'? O que tinha que ter existido nos 'velhos tempos'? Do que você se arrepende?", ela analisou a expressão do amigo por um instante. Se estivesse certa… "Preciso falar com a Anny", ela projetou levemente o corpo para frente.
- Eu nunca te vi tão preocupado assim com a vida amorosa de qualquer uma de nós. – ela sorria de canto de forma desafiadora.
John engoliu em seco.
- Só não quero que ela se arrependa. – ele sorriu de canto, mas seu tom provocador de sempre não estava lá. As palavras transmitiam algo diferente. Era uma preocupação que Hana nunca tinha visto no amigo.
"Diga, John. O que você tentou esconder por todos esses anos? O que você nunca verbalizou nas nossas conversas? O que está te consumindo agora de forma tão devastadora?", ela sorriu de canto. Era bom que o amigo estivesse preocupado. John olhou para um ponto distante por um momento e então tornou a fitar a morena. Quando falou novamente, seu tom já era normal, com aquele ar de quem sabe mais do que deixa transparecer.
- E você? Conseguiu se resolver com o… Kyouya? É esse o nome? – quando Hana confirmou com a cabeça, ele continuou – Como ficaram as coisas entre vocês?
- Ficaram. – ela tronou a encostar-se à parede – Ainda não conversamos sobre o que aconteceu.
John soltou uma risadinha e revirou os olhos. Não teve tempo de responder, o professor tinha acabado de entrar na sala.
