Jenna chegou à casa do professor em pouco tempo, tocando a campainha após ponderar se realmente deveria fazer aquilo por um breve instante. "Eu já vim até aqui. Talvez ele até já tenha me visto. Então por que não?", ela ajeitou o vestido e o bolero. Passaram-se poucos segundos até que a porta fosse aberta e ela visse, do outro lado, o professor sorrindo para ela.
- Eu imaginei que viria. – ele sorriu.
- O senhor parece muito bem para quem está doente. – ela sorriu de canto, aceitando o convite para entrar.
- Eu precisava de uma folga. – ele fechou a porta e indicou a sala, como se dissesse para ela se sentar – Aceita alguma coisa para beber?
Jenna negou com a cabeça e se sentou em uma das poltronas que havia. A casa do homem tinha cheiro de livros antigos misturados a novos e um toque de café. Os móveis eram de madeira escura e as janelas grandes permitiam uma boa iluminação natural do ambiente. As prateleiras lotadas se estendiam por quase todas as paredes. No canto, uma máquina de escrever reluzia, um claro sinal de que era usada com frequência. Algumas folhas estavam ao lado, viradas para baixo, o que impedia sua leitura. A garota resistia à tentação de olhá-las quando o homem voltou para a sala com uma bandeja de chá.
- Pode lê-las, se quiser. – ele sorriu, apontando para as folhas com a cabeça. Jenna corou levemente, fazendo o outro rir – São apenas devaneios de um homem com muito tempo livre.
- Não acho certo. São coisas pessoais, eu não posso simplesmente olhar assim. – ela sorriu de canto.
O homem concordou com a cabeça e seus olhos dourados pareceram adquirir um brilho diferente. Ele se serviu de chá antes de recomeçar a falar. O cheiro de eucalipto preenchia lentamente o cômodo. Jenna pensou em como todos aqueles aromas tão diferentes pareciam combinar tão bem entre si. Quando o professor começou a falar, sua voz era tranquila, como se ele já soubesse a resposta.
- Você não veio até aqui para tirar dúvidas da matéria. – ele a fitou com um estranho ar de tranquilidade – Afinal, você é uma das minhas melhores alunas.
Jenna sorriu.
- De fato… Mas, como já disse antes, professor, tem algumas coisas que eu não entendi.
- Por exemplo? – ele pousou a xícara no colo – Você quer saber mais sobre a mistura de cores em colorações digitais?
Jenna se ajeitou em seu lugar.
- Essa parece ser uma ideia interessante.
O homem terminou o chá e deixou a xícara sobre a bandeja que tinha deixado na mesa de centro.
- Ou talvez você queira entender como uniformizar dois componentes de camadas diferentes em um mesmo nível. – ele sorria para a garota, analisando-a com o olhar com calma.
Jenna entendia cada uma das indiretas, permanecendo sempre sentada em seu lugar. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo naquela sala. Conseguia interpretar os sinais que recebia com precisão. Ela tinha passado dias e mais dias adquirindo a devida intimidade com o professor. Era hora de passar para o nível seguinte.
Mei saía da aula sem pressa quando seus olhos fitaram dois rapazes parados no lado de fora do prédio de Saúde. Um deles, moreno e alto, parecia tranquilo. O outro, loiro e baixinho, andava agitado de um lado para o outro. A garota sorriu de canto, sentindo-se ligeiramente sem jeito. Não fazia ideia de qual era o motivo para os dois estarem ali. Ela se apressou em sair e ir encontrá-los.
- Mei-chan! – Hani correu na direção da garota, abraçando-a com força – O Takashi quer falar com você, então viemos te buscar!
A morena sorria, sentindo uma leve ansiedade com o comentário do loiro. Ela cumprimentou o moreno e perguntou se tinha acontecido alguma coisa. Ele concordou brevemente com a cabeça, acrescentando que a tinha visto no treino de basquete. Então ele colocou a mão sobre a cabeça dela, lhe afagando levemente os cabelos ao continuar.
- Espero que possa ficar para o próximo. – ele sorria de canto, o que fez o coração de Mei acelerar.
- E-eu vou tentar…! – ela abaixou a cabeça, sentindo-se corar.
Mori concordou com a cabeça e logo o trio tinha se posto a andar.
Jenna estava em pé diante do espelho do banheiro da casa do professor, ajeitando o cabelo. Tinha acabado de ajeitar as roupas, ainda insatisfeita por não conseguir desamassar a saia do vestido. As coisas tinham caminhado como ela imaginou que seria, parando praticamente no ponto que ela tinha decidido mentalmente. Apesar da aparente pressa com que eles tinham avançado, não estavam indo rápido demais. Ela não deixaria ir rápido demais.
Quando levantou o olhar, ela viu que dois orbes dourados a fitavam pelo espelho, acompanhados de um sorriso de canto. Ela sorriu de volta e o homem a abraçou por trás. Ela colocou os braços sobre os dele, recebendo um beijo no pescoço. Ela riu levemente, não resistindo quando ele a puxou para mais perto. Como ainda estava sem o bolero e seu vestido era um tomara-que-caia, ela conseguia sentir o calor que a pele descoberta do peito dele emanava.
- Você precisa mesmo ir embora? – ele a olhava pelo espelho, sorrindo com um ar levemente triste.
Ela suspirou, olhando-o de volta como se relutasse em fazer o que precisava. O homem pareceu se animar.
- Preciso. Infelizmente, eu preciso. Mas podemos marcar um dia para mais uma aula extra. – ela sorriu com malícia, recebendo um sorriso idêntico de volta. Ela conseguia ver a animação estampada no rosto do homem – Por hoje, vai ter que se contentar com isso.
- Tudo bem, tudo bem. – ele a soltou e deixou espaço para que a garota saísse do banheiro.
Jenna voltou para o quarto e pegou o bolero e a bolsa que tinha deixado sobre a cama. Sentia o olhar do outro a suas costas, percorrendo-a da cabeça aos pés. Enquanto vestia o bolero, a morena baixou o olhar para o peito. Ainda não se sentia confortável o suficiente. As outras pareciam ter superado, mas ela ainda se sentia presa àquilo. Por isso tinha decidido que não iriam longe demais. Não ainda. Ela fechou o bolero, deu uma última ajeitada no vestido e colocou a bolsa no ombro.
- Eu vou com você até a porta. – o homem sorriu, pegando uma camiseta qualquer no armário.
- Ah, não vai seduzir a vizinhança? – Jenna tinha um tom irônico na voz, rindo enquanto iam até a porta da casa.
- Eu dispenso. A senhora que mora aqui do lado é tarada demais. Não vamos alimentar isso ainda mais, não é? – ele respondeu no mesmo tom, puxando a garota uma última vez para si.
Jenna colocou as mãos apoiadas no peito do homem e lhe deu um último selinho.
- Até a próxima aula, professor. – então ela se soltou do abraço e saiu.
O homem suspirou e fechou a porta. Tinha um sorriso largo no rosto apesar da consciência de que não devia se envolver com nenhum aluno. "Mas ela logo mais não vai ser mais minha aluna", ele foi para a sala recolher a bandeja de chá que tinham deixado para trás. "Esse é o último semestre que dou aula para a turma dela. E, considerando o desempenho até agora, não preciso me preocupar com o semestre que vem", ele olhou para a pequena mancha de chá no tapete. "Mas o autocontrole foi mesmo impressionante".
Mori estava com o primo e Mei na cantina, comendo um lanche generoso após o treino. A garota esperava pelas amigas para poderem ir para casa. Apesar de gostar de estar praticamente sozinha com o rapaz, ela não sabia o que fazer, o que a deixava desconfortável. De repente, Hani anunciou que ia procurar alguma coisa doce para comer, deixando a mesa logo depois. Mori engoliu um pedaço do lanche e olhou para Mei.
- Você parece desconfortável.
Ela sentiu as bochechas esquentarem.
- E-eu… Eu só não sei o que dizer. – ela olhava para a mesa, tentando manter a voz firme sem muito sucesso – Você é sempre tão quieto que e-eu…
- Tudo bem. – ele sorria de canto ao falar – Pode perguntar.
- Você… – ela engoliu em seco – Você parece tão feliz enquanto joga que eu… Eu me perguntei se era certo nós… Nós te privarmos de ficar onde te faz bem…
Mori não respondeu, de forma que Mei continuou.
- Quer dizer… Você não gostaria de andar com o pessoal do time? Eles com certeza te aceitariam… Você… Você parece tão confortável na quadra…
- Não. – ele não tinha o tom rude e a garota finalmente levantou o olhar – Eles não aceitariam. – ele tinha uma expressão indiferente e voltou a comer assim que acabou de falar.
Mei não entendeu de início e não entenderia até conversar com as amigas sobre o que tinha acontecido, mas ainda assim olhava para o moreno como se soubesse que algo não estava certo. Ela engoliu em seco mais uma vez. "Fale", alertou uma voz em sua cabeça. A morena baixou o olhar para as próprias mãos. "Ande logo e fale, antes que o Mitsukuni volte!", ela fechou as mãos com força e tornou a levantar a cabeça.
- Você…! – quando Mori levantou o olhar para ela, a garota corou, mas tornou a falar – Você gosta de andar com a gente?
O moreno concordou brevemente com a cabeça, engolindo o que tinha na boca. Mei achou que ele diria alguma coisa, mas foi o silêncio que se instalou entre eles. Ela viu o loirinho voltando para a mesa com o canto do olho, distraído com o pedaço de bolo que tinha em mãos. Ela engoliu novamente em seco. Se fosse para falar mais alguma coisa, teria de ser logo.
- Você… – ela sentia o rosto ferver – Você gosta de alguém…? – quando acabou a pergunta, Mei tornou a encarar as próprias mãos.
Ela não viu Mori sorrir de canto, mas o ouviu concordar brevemente. Se Hani não tivesse voltado para a mesa naquele instante, ela provavelmente teria se declarado para o rapaz. O loirinho sorria, olhando para o primo com uma alegria infantil e dizendo que tinha sido difícil escolher o que comer, porque a variedade era realmente grande. O moreno acariciou a cabeça do primo e tornou a comer. Quando o telefone de Mei tocou, ela acabou se assustando.
- O-oi! – ela se ajeitou na cadeira – Ah, oi, Anny! Eu estou aqui na cantina com o Takashi e o Mitsukuni. A Jenna? Não sei… Ela não atende ao telefone? Estranho… Claro, ligo sim. Ok, até daqui a pouco. – ela sorria ao falar e logo tinha desligado o telefone.
- Nós devíamos ver onde o Kyo-chan está também. – Hani engoliu um grande pedaço de bolo antes de continuar – Ele falou que precisava de carona hoje.
Mei franziu o cenho. Cada um deles tinha o próprio carro e Kyouya era um dos que não gostava muito de caronas. Então o que aquilo significava?
John e Fred tinham voltado para o hotel pouco depois de Benjamin desligar o telefone. O loiro tinha ido direto para o próprio quarto a fim de tomar um banho, enquanto os morenos se encontraram no bar do hotel. Benjamin via algo no celular e beliscava uns amendoins, enquanto bebia algo que parecia ser refrigerante. John ria ao se sentar ao lado do amigo.
- Você vem até o bar para beber refrigerante?
Benjamin levantou os olhos da tela, sorrindo ao responder.
- A internet aqui é melhor. – ele tornou a olhar para o aparelho – E então, como foi na aula da Cat?
John deu de ombros.
- Acabei vendo parte da aula da Hana no final. A Cat me expulsou da sala. – ele fez sinal para o garçom e então se virou para o amigo – E aí, tirou o atraso do sono com ou sem companhia?
- Não tirei. – Ben deixou o aparelho sobre a mesa e aproveitou a vinda do garçom para pedir uma porção de fritas. John pediu algo para beber e, assim que o funcionário se afastou, Benjamin voltou a falar – Fiquei pensando no que aconteceu e perdi o sono.
- Você diz…? – John indicou discretamente o peito do amigo, recebendo uma breve concordância do outro – E por que ficou pensando nisso mesmo?
- Aconteceu alguma coisa que elas não nos contaram nesse último ano. Alguma coisa séria. Eu imaginei se não seriam histórias parecidas.
- Cara, se elas não nos contaram… Sei lá, deve ter um bom motivo. – John deu de ombros.
- Eu sei. Mas você viu como a Hana e a Anny ficaram alarmadas. Elas estavam sérias do mesmo jeito que ficaram naquela vez. – Benjamin esperou enquanto o amigo agradecia pela bebida antes de continuar – Sei lá, talvez a gente devesse perguntar.
- Eu acho que você ta ficando paranoico. – John bebeu um grande gole antes de continuar – Quais as chances de terem avançado nelas desse jeito?
Nesse momento, Frederick se juntou aos amigos. O rapaz logo foi inteirado da conversa, concordando com Benjamin.
- Os alunos estrangeiros também parecem alertados demais. Não é normal, mesmo sendo um país diferente em tudo para eles. – o loiro deu de ombros – Agora, se nós perguntarmos e elas não quiserem responder, é melhor não insistir.
Os outros dois concordaram.
