Kyouya estava sentado no banco de trás do carro de Mori, olhando distraído pela janela. No banco do passageiro, Hani ia inquieto. O loiro olhava frequentemente para trás para ver como o amigo estava. Mori dirigia sem pressa, por vezes lançando olhares ao espelho retrovisor para ver como Kyouya estava. Ficaram imersos em silêncio por quase um terço do caminho, quando Kyouya finalmente decidiu falar.
- Vocês chegaram a reparar em alguma coisa estranha ultimamente? – ele desviou o olhar para Hani, que se ajeitou no banco e se virou para trás.
- Kyo-chan está preocupado com as garotas, né? – o loirinho sorria – Na minha turma, algumas pessoas parecem mais agitadas. Mas acho que é porque temos um trabalho para entregar.
- Frederick. – Mori tinha o mesmo tom indiferente de sempre.
Kyouya fechou a mão com força.
- Kyo-chan não gosta dele? – Hani olhava do primo para o amigo – Vocês deviam conversar.
- Eu não tenho nada para dizer para aquele lá. – Kyouya ajeitou os óculos e cruzou os braços diante do corpo.
- Kyo-chan… Você está com ciúme? – quando o rapaz não respondeu, Hani continuou – Parece que o Frederick gosta da Hana-chan, não é? – ele se virou para o primo – Mas a Hana-chan não gosta dele do mesmo jeito. – o loiro sorria – Ela gosta de outra pessoa, né?
- Mitsukuni. – Mori não demonstrava nenhuma emoção ao falar, mas o primo entendeu. Estava falando demais.
- E daí se ela gosta dele ou de outra pessoa? Por que isso importa? – Kyouya tinha um tom levemente irritado e fechava as mãos com força.
Hani sorriu com certa compaixão.
- Kyo-chan, você devia conversar com a Anny-chan ou a Cat-chan.
Kyouya, que tinha abaixado a cabeça, sorriu de canto. Aquilo confirmava sua teoria. A carona tinha valido a pena.
Anastácia estava deitada preguiçosamente em sua cama, sem conseguir dormir. Tinha pegado um livro para ler, mas logo tinha desistido. Não conseguia se concentrar. Ela sabia o motivo, mas não queria encará-lo. Não queria lidar com ele. Não era sua responsabilidade. A morena tinha acabado de levantar da cama para pegar água quando alguém bateu na porta do quarto. Ela calçou um par de pantufas e foi ver quem era.
- Cat…! O que houve? – a morena, inicialmente surpresa, sorriu de canto ao perguntar.
- Não consigo dormir… Eu ainda… – ela engoliu em seco. Anastácia acariciou a cabeça da amiga e disse que era melhor elas irem até a cozinha. Catarina concordou, voltando a falar enquanto a amiga pegava um copo d'água – Eu realmente achei que a Hana fosse fugir…
Anastácia riu de leve.
- Ninguém vai te abandonar, meu amor. – ela parou na frente da menor e, deixando o copo sobre a mesa, a abraçou – Nenhuma de nós vai te abandonar, ok? – Catarina concordou em silêncio, recebendo leves afagos da amiga – Muito bom. Agora fique calma. Quer dormir no meu quarto?
A loira abraçou a morena com força, concordando com a cabeça. "Ainda é difícil para ela…", Anastácia sorriu de canto e soltou o abraço. Ela bebeu um grande gole de água antes de voltar para o quarto, com a amiga logo atrás. Às vezes, durante a noite, ela também tinha medo de ficar sozinha, mas sabia que não tinha o que temer. "Mas a Cat sempre foi deixada de lado. Ela sempre teve a solidão pra temer. É por isso que ela tem tanto medo de perder as pessoas…", Anastácia abriu a porta do quarto e deixou as pantufas em um canto.
Catarina logo tinha se posto debaixo das cobertas e pegado no sono. A morena sorriu de canto. Não raro, ela se sentia como uma mãe para a amiga. "Acho que ela surtaria se não tivesse ninguém acordado logo hoje", ela sorriu de canto e se deitou na cama. Catarina tinha se espremido contra a parede, de forma que quase não ocupava espaço. Anastácia afagou novamente os cachos loiros da outra e estava se ajeitando para dormir quando o telefone piscou sem fazer barulho. "Uma mensagem logo agora?", ela franziu o cenho e esticou a mão para o aparelho.
Acordada? Não consigo dormir e imaginei que podíamos conversar.
Ela sorriu. Aquilo era uma boa evolução. Na outra vez, ela e Catarina que precisaram tomar a iniciativa.
Por enquanto, sim. Também não consegui dormir. Em parte a culpa é sua. Do que quer falar?
Ela olhou para Catarina dormindo abraçada ao coelhinho branco que ficava sobre a cama. Estava quase dormindo quando a luz do celular se acendeu. "Merda".
Pode vir para cá? Posso ir te buscar também.
Anastácia franziu o cenho. Então ele queria ter uma conversa séria de verdade. Ela olhou novamente para a amiga. "Não posso deixá-la sozinha".
Tudo bem, mas a Cat vai junto.
Quando as garotas chegaram ao apartamento de Kyouya, a primeira coisa que Catarina fez foi se deitar no sofá e se cobrir com a colcha que tinha sido deixada lá. Anastácia riu de leve, se sentando em uma das poltronas. Kyouya sentou na que ficava de frente para a morena. Na mesa de centro, um copo de água pela metade fazia companhia para uma revista de passatempos que pareciam mais complexos que o normal. Levou algum tempo, mas Kyouya logo começou a falar.
- Hani-senpai me disse que eu deveria conversar com o amigo de vocês, o Frederick.
Anny pareceu levemente surpresa por um instante.
- Bom, devia mesmo. Aliás, você devia explicar aquele beijo na Hana pra todo mundo, meu amor. – ela esperou para ver se o rapaz responderia. Quando ele se manteve em silêncio, ela continuou – O Fred sempre foi muito protetor com a gente. Ele tem um sentimento de ciúme muito maior que o John ou o Ben. Ele provavelmente está sentindo como se estivesse perdendo a Hana para alguém que ele acha que não se importa.
Kyouya fechou levemente as mãos, o que não passou despercebido.
- Convenhamos, você é péssimo em mostrar o que sente. Qual é o seu problema com isso? A Hana ia adorar se você mostrasse um pouco mais de afeto em público.
O rapaz desviou os olhos para um ponto qualquer.
- Isso não interessa.
- Claro que interessa. Pelo amor de deus, Kyouya. – Anastácia revirou os olhos – Você devia dizer a ela o que sente. E deixar bem claro pro Fred que você se importa com a Hana.
Kyouya suspirou.
- Eu me importo com ela. – ele cerrou mais os punhos e olhou para Anastácia – Mas isso não muda nada.
- Isso muda tudo, fofo. – ela sorriu de canto – Tudo mesmo.
Ele continuou olhando para a amiga, sem dizer nada. A morena se ajeitou antes de continuar.
- A Hana é meio idiota quando se trata dela. Bom, ela é muito idiota quando se trata dela mesma. Se você não se declarar logo, é provável que ela decida partir para outro. Aliás, ela provavelmente interpretou o beijo do jeito errado. Por que você não a beija de novo? Diga que gosta dela, fique todo sem graça e bonitinho e a beije. Ela vai adorar.
Kyouya sentiu as bochechas corarem.
- Isso não faz o menor sentido.
- Isso faz todo o sentido. Meu deus, você não sabe nada de mulheres mesmo. – ela riu.
O rapaz revirou os olhos.
Na manhã seguinte, Jenna foi a primeira a notar a ausência de Anastácia e Catarina. Sobre a mesa da cozinha, ela achou um bilhete dizendo que as duas tinham passado a noite fora e dariam um jeito de ir para a faculdade. Mei tinha lido o recado por sobre o ombro da amiga, parecendo levemente surpresa.
- Quando elas saíram?
Hana entrou na cozinha pouco depois.
- Quem saiu?
- Anny e Cat. – Jenna deixou o recado sobre a mesa e foi pegar algo para comer.
- Elas saíram? – Hana se sentou em um dos bancos e encarou o bilhete por um instante antes de se virar para as amigas – E que dia é hoje?
- Sexta. – Jenna olhou sem entender para a amiga – Isso muda alguma coisa?
- Muda que eu não tenho aula porque o professor cancelou. – Hana se espreguiçou – Levo vocês e volto.
- Deixa de bobagem, a gente chama os gêmeos. Eu preciso falar com o Hikaru mesmo. – Jenna tinha um tom divertido ao falar – Aproveitar que a Cat saiu.
- O que você precisa falar com ele? – Mei tinha um tom inocente.
Hana riu e Jenna revirou os olhos. A inocência de Mei às vezes a impressionava.
Depois de deixar as amigas na faculdade, Hana tinha voltado para casa e vestido uma calça e um casaco de moletom escuro. Estava debaixo das cobertas no sofá, procurando o que ver na televisão, quando a campainha tocou. Ela maldisse algumas vezes quem quer que fosse e foi abrir a porta. Do outro lado, um Benjamin e um John sérios a fitaram.
- Precisamos conversar. – Benjamin esquadrinhou a casa rapidamente antes de voltar a falar – Só você está aqui?
- Ahn, é. – a garota franziu o cenho – O que houve?
- O Frederick quer tirar satisfações com o senhor amor da sua vida. – John entrou no apartamento assim que a amiga liberou a passagem – Tivemos de drogá-lo ontem no jantar para evitar que ele saísse antes de nós. E o dopamos de novo antes de vir.
Hana pareceu levemente chocada com a informação.
- Calma, devagar. Vocês drogaram o Frederick? – a voz da morena saiu levemente esganiçada, de forma que ela pigarreou antes de continuar – Com o que?
- Alguns comprimidos para dormir que eu trouxe na mala. – Benjamin se sentou no sofá – Hana, isso é importante.
- Eu sei que é, droga. – ela foi até a cozinha e voltou com um copo de água em mãos – Quando ele pretende fazer isso? – "Meu deus, aquele estourado vai arrebentar o Kyouya. O que eu fiz para merecer isso?".
- Eu não faço ideia. – John tinha se apoiado na parede – Mas é melhor que os dois conversem na presença de alguém. De muitos alguéns. – ele franziu o cenho – Você não pode estar junto, senão o Fred não vai dizer tudo o que quer. Tudo que ele precisa dizer.
- Como não? Meu deus, eu tenho que estar junto! – Hana sentia um leve desespero.
- Hana, por favor. – Benjamin se levantou e foi até ela – Eu e o John vamos ficar com o Fred o tempo todo, ok? Vai ficar tudo bem.
A morena concordou com a cabeça.
Kaoru tinha acabado de descer do carro quando viu o de Kyouya parando na garagem a poucos metros. O ruivo tinha ido até lá apenas para pegar o que tinha esquecido. Naquele dia, ele e o irmão não tinham a última aula, então não tinha problema andar pela escola naquele horário. Mas era estranho que o moreno chegasse tarde. "Ele não tinha aula de manhã?", o ruivo fechou o carro e ficou observando.
Quando Anastácia desceu do carro, Kaoru sentiu o corpo gelar. O que aquilo significava?
- Cat, meu amor, anda logo. – a morena tinha um tom divertido na voz. Se ela se virasse, viria dois orbes cor de mel a encarando. Eram poucos passos que os separavam.
Kaoru tinha fechado a mão com força em volta da chave do carro.
- To indo, que droga. – Catarina desceu e jogou alguma coisa no banco de trás.
Kyouya permanecia dentro do carro, olhando para as duas enquanto esperava. Kaoru não percebeu que forçava cada vez mais a mão ao redor do metal da chave ou que o plástico tinha estalado sob sua pele. Depois que as duas desceram do carro e se despediram de Kyouya, o moreno tornou a manobrar e saiu. "Kyouya-senpai faltando na aula…?", Kaoru entrou no carro novamente e, quando ia colocar a chave na ignição, percebeu as marcas vermelhas em sua mão. Ele franziu o cenho. Tinha rompido alguns vasos, mas a pele estava intacta, de forma que ele não se importou.
Em pouco tempo, tinha ido atrás do amigo.
Kyouya parou diante do prédio em que as garotas moravam, olhando para o carro de Kaoru pelo retrovisor. Aquilo podia atrapalhar um pouco os planos, mas não era hora de pensar a respeito. Se não fizesse o que tinha planejado logo, não faria nunca. O moreno desceu do carro e entrou no prédio, indo para o apartamento das garotas. Kaoru hesitou, mas foi atrás.
Hana tinha sentado no chão, encarando a televisão desligada enquanto Benjamin e John decidiam o que fazer. Quando a campainha tocou, os três se entreolharam com uma preocupação quase palpável. A morena se levantou e foi até a porta, olhando pelo olho-mágico antes de abrir. Ela se assustou ao ver quem estava do outro lado. "O que diabos ele veio fazer aqui…?".
- Hana, eu sei que você está aí. – a voz de Kyouya soava levemente autoritária.
A garota fez sinal para os dois amigos sumirem da sala e abriu a porta. Benjamin e John tinham se refugiado no quarto de Catarina, que era o mais perto. Kyouya entrou no apartamento e esperou a porta ser fechada antes de fazer qualquer coisa. Hana respirava com certa dificuldade, olhando para o moreno sem saber o que pensar. Então ela se lembrou da última mensagem que ele tinha mandado.
- Sobre o que nós precisamos conversar?
- Você sabe. – ele tinha as mãos nos bolsos e seu olhar era intenso. Hana se encolheu por instinto.
- Então pode começar a falar. – ela cruzou os braços diante do corpo.
- Eu… – ele hesitou. E se Anastácia estivesse errada? Ele respirou fundo. Já que estava lá, era melhor dizer de uma vez – Eu me importo com você.
A garota sentiu as bochechas arderem. Antes que ela pudesse responder, um forte barulho veio dos quartos, atraindo a atenção de Kyouya. O moreno foi em passos largos até a fonte do barulho, escancarando a porta sem muita delicadeza. Hana tinha ido atrás, sentindo que aquilo não acabaria bem. A voz de John foi a primeira coisa a chegar a seus ouvidos.
- Erm… Oi. A gente já ta saindo. Você pode continuar sua decla- Digo, conversa com a Hana. – ele passou rapidamente pelo outro, com Benjamin em seu encalço, e foi para a porta. Kyouya os olhava com desgosto.
- O que eles estavam fazendo aqui? – a voz dele era fria e ele tinha falado assim que a garota fechou a porta.
- Não posso receber meus amigos na minha casa? – ela tinha uma expressão emburrada – Meu deus, como você é controlador. – a garota se jogou no sofá e encarou o moreno – Só pra você saber, eles vieram porque estavam preocupados. O Fred não vai muito com a sua cara. E ele fez boxe e tal, sabe como fazer um belo estrago.
Kyouya arqueou uma das sobrancelhas.
- Ele quer tirar satisfações com você. Aparentemente ele gosta de mim e você seria o "senhor Insensibilidade". – ela fitou o chão, com um ar levemente tristonho. Kyouya sentiu o peito apertar.
Hana suspirou. Quando se deu por si, o moreno estava sentado no chão, diante do sofá e ao seu lado, olhando-a com preocupação. Ele levou uma das mãos até a dela e a envolveu com tamanha delicadeza que a garota se assustou, mas não recuou. Ela queria saber o que ele faria. Kyouya, que se esforçava para não levantar o olhar para o rosto da outra, beijou as costas da mão de Hana suavemente antes de falar. Não sabia o que tinha acontecido exatamente, mas se sentia muito mais calmo em relação a tudo aquilo. Sua voz saía mais firme do que ele esperava.
- Eu sei que fiz muitas coisas que a magoaram. – ele fechou os olhos e apoiou a cabeça na perna da garota – Eu sei que tenho agido feito um idiota. Mas… Eu só fiz tudo isso porque gosto de você. – ele sentia as bochechas esquentarem conforme falava, mas apenas continuou. Era importante colocar tudo para fora – Eu só espero que não seja tarde demais. Você já deve ter percebido, mas é difícil, para mim, não priorizar alguns assuntos. Desculpe se eu a fiz sofrer por isso.
Hana soluçou, percebendo que tinha começado a chorar. Kyouya levantou o rosto, alarmado de repente. Não esperava que ela chorasse. Ele não sabia como lidar com aquilo. Mas a garota sorria, então provavelmente estava tudo bem. Ele engoliu em seco e esperou. Quando a morena conseguiu se acalmar, ela secou as lágrimas na manga do casaco e fitou o moreno. Ela sorria de canto e tinha posto as mãos sobre a que ele mantinha no sofá. Kyouya olhou para as mãos de Hana por um instante antes de tornar a fitá-la nos olhos.
- Você é um idiota. Eu também sou. Mas, apesar de nem sempre saber o que você está pensando, de ficar confusa e não saber se tudo não passa de paranoia, eu também me importo com você. Eu provavelmente não deixei as coisas claras também. – ela baixou o olhar antes de continuar – Mas não é tarde demais… Eu também dei as prioridades todas erradas. – ela mantinha o sorriso o tempo todo e Kyouya não conseguiu evitar o pensamento de que ela ficava linda sorrindo, o que o fez corar. Hana levantou novamente o olhar – Eu gosto de você, Kyouya. E fazia muito tempo que eu não gostava de alguém assim.
Kyouya fitava o chão, sentindo o rosto ferver. Ao notar que ele estava sem graça, a morena riu e o abraçou, lhe beijando o topo da cabeça. Como ele era bem mais alto, ela não teria muitas oportunidades de fazer aquilo.
