Quando as garotas chegaram à casa, junto dos gêmeos por terem dado carona, Hana e Kyouya estavam no sofá, dormindo abraçados. A garota tinha os braços ao redor da cintura do moreno, que tinha passado um dos braços ao redor dos ombros dela. Anastácia arqueou uma sobrancelha, deixando o molho de chaves sobre o móvel que ficava ao lado da porta. Jenna e Mei se entreolharam, sem saber o que pensar. Catarina sorriu largamente e se virou para Anastácia. A morena sorriu de volta para a loira e lhe afagou os cachos.
Os gêmeos se entreolharam. Kaoru, quando tinha seguido Kyouya, tinha decidido não subir até o apartamento das meninas após vários minutos de hesitação, voltando para a faculdade em seguida. Lá, tinha descoberto porque Catarina e Anastácia tinham chegado com Kyouya – o que deixou o ruivo com uma profunda sensação de alívio. Hikaru estranhava a cena porque, devido à falta de poder observador (coisa que Kaoru tinha de sobra), não sabia dizer desde quando o amigo tinha interesse em Hana daquele jeito.
Anastácia logo tinha pegado uma coberta e colocado por cima do casal, sorrindo com satisfação. Ela então olhou para os amigos, que sorriam todos de canto, e indicou que deviam ir para a cozinha. Se ficassem na sala, provavelmente acabariam acordando os dois, o que poderia gerar uma cena… Complicada. "Afinal, ele acabou de admitir pra ela o que sente. Não acho que queira ser visto pelos amigos assim ainda", ela se sentou em um dos bancos e desviou o olhar para Kaoru. "Quem diria que eles seriam os primeiros…", ela suspirou.
Frederick, que tinha acordado de seu sono químico de mau humor, ainda maldizia os amigos. Tinha perdido a tarde inteira praticamente por causa deles. O loiro estava sentado de pernas cruzadas sobre a cama, olhando irritado Benjamin colocar gelo no ferimento de John. "Quando diabos eu vou falar com aquele idiota agora?", Frederick trocou o braço em que apoiava a cabeça, desviando o olhar para o espelho. Ele próprio tinha um corte sobre a sobrancelha esquerda.
- Não fique com essa cara de criança mimada sem doce. – Benjamin se voltou para o loiro ao falar – A culpa é sua por ser tão esquentadinho.
Frederick revirou os olhos. Talvez tivesse errado mesmo ao bater em John quando descobriu o que tinha acontecido – e o moreno tinha revidado, o que era mais que justo –, mas ele não se importava. O lado bom era que as chances de ele socar Kyouya diminuíam. "Mas aquele cara ainda me deixa irritado", ele suspirou e se levantou. Ele tinha o olhar distante quando parou ao lado dos amigos.
- E como ela estava quando vocês saíram de lá?
- Vermelha. – John deu de ombros – Acho que dessa vez você perdeu. Ai. – ele afastou a mão de Benjamin com um tapa – Cuidado, pô.
Benjamin revirou os olhos e abaixou a mão do amigo, voltando a dar um jeito no corte que o outro tinha ganhado na bochecha.
- Isso que quem costumava ter problemas de temperamento era eu. – ele deu de ombros – Sabe, a gente ainda pode ir até lá, Fred. Elas não vão nos chutar.
Frederick bufou levemente e concordou com a cabeça.
- Acaba aí e a gente vai.
Quando Hana acordou, ver a coberta posta com cuidado sobre eles dois a fez corar. Aquilo significava que as amigas tinham chegado e visto a cena. Significava que haveria perguntas e a morena não queria responder a nada no momento. Ela se sentou e olhou para Kyouya. Ele tinha tirado os óculos quando os dois se deitaram no sofá, mas ela não viu onde ele os colocou. Não importava. Ela sorriu de canto. "Assim nem parece que ele é aquele demônio encarnado", ela ajeitou uma mecha do cabelo do rapaz. Ao perceber o que fazia, ela se levantou de imediato e recolheu a mão, sentindo o rosto arder.
Anastácia observava a cena em silêncio, sentada ao balcão que separava os dois ambientes no lado da cozinha. Quando a amiga se virou, Anny apenas acenou e sorriu, o que fez Hana corar ainda mais. Anastácia precisou controlar o riso antes de indicar com a cabeça que a outra se juntasse ao grupo. Hana concordou brevemente com a cabeça e ajeitou a coberta, indo para a cozinha em seguida.
- Feliz? – Anastácia tinha o tom suave ao falar. Hana sorriu, sem precisar dizer nada para a outra entender – Pedi pra ninguém falar nada por enquanto.
Hana agradeceu e olhou ao redor. Catarina estava sendo torturada com cócegas pelos gêmeos, mas não podia rir alto porque eles tinham posto uma fita lhe tampando a boca. Hana sentiu um pouco de dó da amiga, que se debatia e tentava se soltar. Jenna se divertia, encostada em um canto e olhando a cena com certo prazer. Catarina era o brinquedinho da turma e já tinha passado por coisa provavelmente pior. Mei…
- Cadê a Mei? – a voz de Hana atraiu a atenção do grupo, dando a brecha necessária para Catarina escapar. A loira correu para junto de Hana, choramingando. A morena a abraçou de volta e lhe afagou os cachos – Pronto, pronto. Já passou.
- Mmmmmm. – ela levantou os orbes azuis para a amiga. Então tirou a fita da boca, reclamando um pouco da leve dor. Apesar disso, ela sorriu ao falar – Você tava tão bonitinha com o Kyouya! – a garota apertou o abraço.
Hana sentiu as bochechas ficarem rosadas e desviou o olhar.
- Ah, é…? – ela coçou a nuca.
Os gêmeos riram e se entreolharam. O sorriso que deram fez Jenna se encolher.
- Haaanaaaa, você não acha que devia explicar alguuuuma coisa? – Kaoru parou ao lado da amiga e a envolveu pelos ombros.
- Como o que estava acontecendo ali. – Hikaru tinha levantado o rosto da morena pelo queixo e se abaixado de forma que os dois estavam muito próximos.
Hana sorriu, apertando a bochecha de Hikaru.
- Em outros tempos, eu poderia fazer algo de que você não ia gostar nem um pouco. – ela colocou a ponta do indicador na ponta do nariz do ruivo – E vocês vão ter eventualmente uma explicação.
Anastácia ria da cena. Se Kyouya não tivesse falado com a garota pouco antes, provavelmente Hana teria uma reação que faria Hikaru corar até o último fio de cabelo e se afastar assustado. "Seria engraçado, mas prefiro que ela se foque em quem importa", ela desviou o olhar para Catarina, que ria aliviada por não ser mais o alvo. "Pelo bem de todos", ela se levantou e afastou Hikaru de Hana.
- Ok, ok, já chega. Vocês podem se alfinetar depois.
Antes que alguém pudesse responder, a campainha tocou.
- Ué, quem será? – Hana se soltou de Kaoru e foi até a porta, abrindo-a – Vocês de novo? – ela riu e deu espaço para os amigos passarem.
Catarina, que tinha se debruçado sobre o balcão, franziu o cenho ao ver os amigos.
- O que houve com o rosto de vocês? – ela apontava de Fred para John.
Benjamin suspirou.
- O estourado do Fred aconteceu.
- Só porque vocês me drogaram! – o loiro falava alto, ainda emburrado.
Kyouya se revirou no sofá, se sentando ao acordar. Ele olhou em volta, franzindo o cenho ao perceber a quantidade de gente. Então pegou os óculos que tinha deixado ao pé do móvel e olhou ao redor mais uma vez. Quando seus orbes negros encontraram Frederick, o moreno não conseguiu evitar um sorriso satisfeito. Aquilo pareceu irritar o loiro.
- O que é?
Kyouya não respondeu, apenas se levantando e passando uma mão nos cabelos para ajeitarem. Então avistou Hana no canto da sala, próxima da porta, olhando temerosa para a cena toda. Ele indicou com a mão que ela se aproximasse, o que fez todos os olhares caírem sobre a garota. "Desgraça, ele sabia que isso ia acontecer. Por que eu, meu bom deus? Por quê?!", ela engoliu em seco e foi até o moreno, recebeu uma carícia breve na cabeça. Suas bochechas ardiam e ela sentia o olhar irritado e questionador de Fred a suas costas. Então Kyouya foi até a cozinha pegar um copo de água.
Anastácia sorria com satisfação pela cena. Catarina tinha um ar curioso, assim como Mei. As duas eram as mais lentas do grupo, então não entendiam direito o que se passava. Jenna tentava controlar o riso, assim como os gêmeos. Benjamin e John tinham se instalado no sofá com um ar de quem não se importa, mas Fred ainda remoía alguma coisa por dentro. Hana se apressou em se virar para os amigos e perguntar se eles queriam alguma coisa.
- Ah, nós viemos por aquilo lá. – John tinha um ar indiferente.
Hana engoliu em seco.
- Ah, é…? Mas já…? – ela lançou um breve olhar para a cozinha – Com todo mundo aqui…?
- Isso não estava nos planos, na verdade. – Benjamin deu de ombros – Kyouya! – ele tinha a voz alta, atraindo o olhar do moreno – O que acha de trocar uma ideia com o Fred?
- "Trocar uma ideia"…? – ele digeriu a gíria por um instante, como se ela o desagradasse – Sobre o que? Eu não tenho nada a tratar com ele.
Hana lançou um olhar desesperado à Anastácia, que suspirou e foi para a sala.
- Ok, quero todo mundo para fora. Hikaru, Kaoru, vocês vão pra casa. Jenna, Mei e Cat, se metam no quarto mais longe. – quando os amigos protestaram, a garota adquiriu um ar frio ao acrescentar – Agora.
Em pouco tempo, apenas ela, Hana, Kyouya, Fred, John e Benjamin estavam na sala.
- Eficiente como sempre. – John tinha um ar de zombaria misturado à satisfação.
- Cala a boca, John. – ela riu de canto – Bom, Hana, acho melhor você não ficar aqui também. – ela olhou da amiga para os rapazes, que concordaram com a cabeça – Sinto muito, amor.
Hana suspirou e foi em direção aos quartos, mas ficou no de Catarina, que era o mais perto da sala. Não tinha permissão para se intrometer, mas não resistia à tentação de saber o que aconteceria. Ouviu a amiga acrescentar que ficaria com Benjamin e John na cozinha, só para garantir que as coisas não saíssem muito do controle. Hana suspirou.
Kyouya arqueou uma sobrancelha, esperando que Frederick dissesse alguma coisa. O loiro bufou e afundou no sofá. Queria dizer tanta coisa, mas nenhuma frase coerente se formava em sua cabeça. O moreno esperava paciente, com as mãos dentro dos bolsos da calça. Tinha consciência da presença de Anastácia, Benjamin e John a suas costas, apesar de o trio não estar em nenhum ponto que dava muita visão para sala.
- Eu não me conformo que ela se apaixonou por você. – Frederick olhava para um ponto qualquer na parede, falando com um tom irritado, mas não alto.
- Só porque você gosta dela. – Kyouya tinha um tom deliberadamente indiferente.
- Tsc. Como foi que ela se apaixonou por um cara frio como você? – o loiro encarou o moreno – Você nem se importa com ela.
Kyouya ficou com um ar satisfeito, apesar de não sorrir e seu tom não mudar.
- Na verdade, eu me importo. E ela sabe. – ele sorriu de canto ao ver o outro franzir o cenho.
- Sei. Só porque você a beijou, não significa que eu acredite. – ao dizer aquilo, Frederick cerrou os punhos com força.
- Você provavelmente vai tentar me bater, seja agora ou depois. Não aconselho. – Kyouya ajeitou os óculos.
- Você me enoja. – o loiro fechou as mãos com mais força.
- Isso não é problema meu. – o moreno trocou o peso do corpo de perna.
Frederick automaticamente se pôs em pé.
- Se eu descobrir que você fez algum mal a ela, eu juro que vou aonde for preciso só pra socar a sua cara.
Kyouya tinha um tom frio e cortante ao responder.
- Você não é capaz de fazer nada que a magoe.
Na cozinha, Benjamin engoliu em seco. Não pelo que tinha sido dito, mas pelo tom. Frederick odiava que falassem com ele num tom de quem despreza. Ele olhou para John, que tinha a mesma preocupação. Anastácia já tinha se virado e ido até o balcão. Os dois foram atrás. No quarto de Catarina, Hana cerrou os punhos. O silêncio na sala era profundo. Perigoso. Ela escancarou a porta do quarto em um movimento rápido e correu para o outro cômodo. A única coisa de que teve consciência foi a mão fechada em punho de Frederick se movendo rapidamente de baixo para cima para atingir Kyouya.
Por causa da distância entre os dois, ela conseguiu se colocar no caminho a tempo. Sentiu o impacto em sua bochecha direita pouco depois. Frederick a tinha visto, mas não em tempo suficiente para puxar o braço de volta. A única coisa que conseguiu fazer foi refrear um pouco o movimento. Ainda assim, Hana acabou perdendo um pouco o equilíbrio, cambaleando para trás. Kyouya a segurou, olhando com frieza para Frederick. O loiro tremia de leve, entre o choque e a raiva.
Hana tossiu, limpando o sangue que escorreu com o punho da manga. Talvez tivesse de passar no dentista antes do planejado, mas não se importava. Ela tornou a se por em pé e ajeitou a roupa, olhando para Frederick. O loiro tinha desabado sobre o sofá, apoiando os cotovelos nas pernas e escondendo o rosto nas mãos. A garota foi até ele e colocou uma mão sobre sua cabeça, acariciando calmamente o cabelo loiro do rapaz. Ela sorria de canto ao falar.
- Ta tudo bem, Fred. Não precisa ficar assim.
O rapaz fechou as mãos com força.
- Por que…? – sua voz saía fraca e hesitante. Quando Hana não respondeu por não ter entendido a pergunta, ele respirou fundo e a reformulou – Por que você se intrometeu…?
- Porque eu faria o mesmo se fosse o contrário. – ela ainda sorria e tinha se abaixado diante do amigo – Eu faria o mesmo se fosse com você, Fred. Você sabe disso.
O loiro desviou o olhar, fitando Kyouya por um instante. O moreno tinha uma forte intenção assassina emanando de seu corpo, o que fez um arrepio correr pelas costas de Frederick. Ele agradeceu por Hana continuar entre eles e tornou a olhar para a amiga. O sentimento de proteção de um em relação ao outro era maior do que ele imaginava. Aquilo tudo era mais real do que ele poderia imaginar. "Isso é uma verdadeira droga, isso sim", ele suspirou e passou delicadamente uma mão pela bochecha da amiga.
- Você não devia ter se colocado na frente…
Hana colocou a mão sobre a do amigo, fitando-o com uma compaixão que o deixou desconfortável.
- Eu sei que você vai se torturar por causa disso por meses. Não devia, mas eu sei que vai. Fred, acredite em mim: vai passar. A minha dor, a sua dor. Um dia acaba. – ela se levantou e soltou a mão do amigo – É melhor passar em um hospital e ver como está a sua mão.
Anastácia, aproveitando o momento, foi até Hana e a virou para si.
- Meu amor, você tem que ser levada para o hospital. Meu deus, o que deu em você? – o desespero dela era praticamente palpável.
Hana desviou o olhar para Kyouya e estendeu a mão. O moreno foi até as duas, segurando na mão da menor. Ele tinha um ar preocupado apesar do silêncio levemente assassino. Benjamin e John se entreolharam, engolindo em seco. Não parecia o momento certo para pegarem Frederick e tirarem o corpo fora. As coisas não tinham saído exatamente como o planejado.
