Quando Anny, Frederick, John, Hana e Kyouya voltaram do hospital, encontraram o grupo – incluindo os gêmeos, que tinham voltado quando souberam da briga – sentado em roda na sala, conversando sobre frivolidades. Frederick ainda estava visivelmente de mau humor, mas os demais – exceto Kyouya, que tinha voltado a sua indiferença – pareciam bem. "Eu sei que o plano original era juntar os dois, mas… Que droga, tinha que ser tão difícil? Se eu soubesse como esse cara era desde sempre, não tinha pensado em ajudar. Saco", Fred suspirou, indo se sentar na ponta mais distante do sofá.

- E como foi lá? – Jenna sorria animada ao ver que todos estavam inteiros.

- Ah, eu realmente vou ter que ir ao dentista mais cedo que o planejado. Duas próteses caíram. – Hana suspirou – Vou ter que mexer nas minhas economias, mas fazer o que…?

Os rapazes se entreolharam, curiosos.

- Próteses? – a pergunta veio de Kaoru, atraindo o olhar da morena.

- É. Eu perdi alguns dentes alguns anos atrás. – ela deu de ombros.

Benjamin pareceu entender antes dos amigos.

- Por causa daquela vez lá? – ele franziu o cenho – Achei que eu tinha sido o único com problemas permanentes.

- Eu não vejo como um problema. – ela deu de ombros novamente e foi se sentar na poltrona mais próxima.

Kyouya mantinha o olhar questionador na direção de Hana. Foi Anastácia quem explicou.

- Nós tínhamos alguns problemas no colegial… Pessoas idiotas tendem a nos perseguir. – ela se ajeitou em um canto, olhando para os amigos ao começar a contar a história.


Era o primeiro ano do colégio. Muitos dos alunos do Ensino Fundamental tinham saído e muitos alunos novos tinham entrado. Apesar da tradição de manter os filhos na escola nos dois períodos, a instituição vinha tendo uma grande "renovação" de estudantes nos últimos anos. Felizmente, o grupo não tinha se separado. Naquela época, as meninas já adotavam os diferentes estilos. Como nenhuma delas se vestia de forma vulgar – Jenna também não tinha o piercing, mas elas achavam que isso não seria um problema de qualquer jeito – e a escola não tinha uniforme, ninguém parecia se importar.

Exceto um grupo de garotas que tinha surgido no segundo ano.

Elas eram tratadas com grande veneração pela maioria dos estudantes. O resto geralmente fingia que as garotas "abelha-rainha" não existiam. Infelizmente, Hana, Anastácia e Jenna não nunca foram do tipo que deixa uma provocação quieta. Mei não gostava de confusão, de forma que era geralmente ignorada. Catarina muitas vezes parecia indecisa entre alfinetar as garotas de volta ou deixar de lado. Os rapazes, por se importarem com as amigas, costumavam se intrometer quando a situação complicava.


Quando Anastácia terminou de apresentar o quadro geral, o telefone de Kyouya tocou. Era Haruhi perguntando onde ele e os gêmeos estavam. O moreno respondeu que estavam na casa das meninas e não sabia quando iriam sair de lá. Ao fundo, ele ouviu Tamaki gritando que todos deveriam ir para lá então. Haruhi suspirou e se desculpou antes de desligar. Quando Kyouya se voltou novamente para o grupo, Anastácia decidiu que era melhor esperarem antes de continuar a história. Demorou um pouco, mas logo todo o grupo estava reunido, sentado no chão da sala do apartamento das garotas como uma turma do Infantil ao redor da professora na hora de contar uma história. Anny respirou fundo e retomou a narrativa.


Um dia, enquanto o grupo estava na cantina no intervalo entre as aulas, as garotas "abelha-rainha" se aproximaram. Elas tinham uma aparência e uma atitude típicas de quem está acostumado a ser bajulado e não se conformavam com a "desfeita" do grupo. A que provavelmente era a líder, com seu cabelo loiro platinado artificialmente volumoso caindo em cachos falsos sobre os ombros, se adiantou, falando com sua vozinha esganiçada que achava uma falta de respeito o modo como elas tinham sido tratadas pelos oito nos últimos dias. E era por isso que estavam lá. Para acertarem as contas.

Hana foi a primeira a se levantar, ficando maior que a falsa loira por conta do salto da bota. A morena sorriu com satisfação quando a outra recuou instintivamente. Então, com os punhos cerrados em um visível controle de raiva – uma raiva alimentada por meses que começava a se manifestar como desejo de quebrar um nariz visivelmente cirúrgico –, a garota respondeu. Respondeu que não tratavam ninguém que fosse educado com elas com desrespeito. Mesmo os que deixavam a educação em casa podiam ser respeitados. Era tudo uma questão de bom-senso. A loira riu.

Hana, enquanto descia o punho sobre a bochecha da outra, não viu o brilho metálico presente na mão de uma das garotas atrás. Anastácia gritou e puxou Hana a tempo, que viu o metal do soco-inglês passar diante de seus olhos. O resultado da raiva veio no mesmo instante e Hana acabou metendo o salto grosso da bota na garota diante de si. Mei, desesperada, falava para os dois lados pararem com aquilo. Catarina – que tinha saído para ir no banheiro logo antes da confusão – não entendia o que se passava e porque uma massa de gente tinha aparecido em seu caminho.

O silêncio era sepulcral.

Jenna lixava as unhas, olhando Hana se controlando para não meter a bota na cabeça da garota que tinha caído. Anastácia tentava controlar a amiga. A loira platinada gritou alguma coisa que elas não entenderam e a próxima coisa de que Hana e Anastácia tiveram consciência foi de alguém as puxando para lados opostos. Anny tentava se soltar, mas sua preocupação com o descontrole de Hana não a deixava pensar direito no que tinha que fazer. A loira platinada se colocou entre as duas logo depois de Anastácia visualizar o rosto da amiga virando violentamente para um lado e algumas gotas de sangue caírem no chão.

- Merda, acho que vou precisar de próteses. – Hana cuspiu e dois dentes apareceram no meio do sangue. A morena teve tempo de cravar o salto na barriga de alguém mais uma vez antes de sentir o impacto na bochecha que ainda estava inteira.

Anastácia e Jenna gritaram na mesma hora. Benjamin, John e Frederick tinham chegado à cantina naquele momento e abriram caminho entre as pessoas com cotoveladas e empurrões. Alguns protestos se fizeram ouvir, mas eles não se importaram. Hana tinha o rosto inchado na altura do maxilar quando eles conseguiram ver o que acontecia. Um garoto grande, que estava lá apenas para ganhar alguma migalha do que as garotas "abelha-rainha" tinham a oferecer, segurava Anastácia pelos braços, que estavam ficando cada vez mais sem circulação conforme ela se debatia e xingava.

Antes que o próximo soco da loira platinada atingisse Hana, Benjamin se colocou no caminho. Enquanto ele soltava a amiga de outro garoto baba-ovo, Frederick resolvia a situação a seu modo com a loira. Hana tossia sangue, mas insistia que estava bem. Benjamin a tinha posto sentada no chão e se abaixado diante dela, vendo onde mais a garota tinha sido atingida. Quando a morena arregalou os olhos, ele se virou a tempo de ver uma bota lhe acertando o peito. A força do impacto tinha sido aumentada pelo metal que revestia internamente a ponta do sapato. Naquele momento, Mei, apesar de todo o desespero, já tinha ligado para a emergência. Jenna tinha pegado Catarina e a deixado longe da confusão antes de voltar para ajudar Anastácia.

As duas conseguiram afastar a garota que continuava a atingir Ben no peito com o bico metálico com certa facilidade, mas o estrago já estava feito. Hana, desesperada por não ter conseguido se soltar do rapaz para ajudar no meio daquela confusão, fazia o que podia sob as orientações de Anastácia. Frederick tinha se juntado a eles, com as mãos vermelhas. Detestava bater em garotas, então ficou apenas se defendendo, o que lhe garantiu alguns hematomas por umas semanas. Hana queria muito poder levantar e fazer um estrago na cara das "abelhas-rainhas", mas estava servindo de apoio para Benjamin. E aquilo era prioridade.

Quando Mei voltou, John foi abrindo caminho para ela e os paramédicos até o grupo. O rapaz tinha ficado responsável de impedir que mais gente se intrometesse, o que significava dar um jeito nos rapazes que tinham ajudado na contenção das garotas e evitar que os amigos deles dessem as caras. John tinha escapado, mas os outros dois (os brutamontes descerebrados, como ele os descreveu) tinham ido para a diretoria. As coisas tinham chegado rapidamente àquele ponto porque havia poucos funcionários presentes naquele horário.

Benjamin e Hana tinham apagado na ambulância. O grupo foi em peso para o hospital no carro de John. Quando Hana acordou, um tubo a alimentava conectado a seu braço. Sua cabeça doía e ela não tinha muita certeza do que tinha acontecido. As paredes brancas ao redor a davam a sensação de sufoco. Ela baixou o olhar do teto e viu Frederick apoiado de braços cruzados na parede ao lado da porta. Quando o loiro a viu, foi imediatamente ficar ao seu lado.

- E o Ben…? – a voz da morena saía fraca. Sua garanta estava seca e arranhando.

- Você quer água? A Anny falou que seria bom você beber um pouco quando acordasse. – ele olhou em volta atrás do jarro de água que a enfermeira tinha deixado.

- Fred… O que houve com o Benjamin…? – Hana tinha franzido o cenho. Ele não era de se desviar de uma pergunta.

- Eu vou chamar as meninas. Elas estão aflitas. – ele se levantou da cadeira em que estava, mas não conseguiu sair. Hana o segurava pela mão.

- Benjamin. Cadê? – ela estava séria e não gostou nada quando o amigo engoliu em seco.

- Ele quebrou alguns ossos. Disseram que ele teve sorte porque, apesar do estrago, não perfurou nenhum órgão. Mas ele vai ter que ficar muito tempo de repouso. Sem fazer qualquer esforço. Falaram sobre mantê-lo internado e respirando por aparelhos até que ele acabe de se recuperar. Eu acho que é um pouco de exagero, mas não entendo nada disso. – ele engoliu em seco. Não conseguia se virar para a amiga – Eles também falaram que você teve sorte por ter só trincado o maxilar. Não deve estar doendo agora por causa dos anestésicos. Mas você perdeu vários dentes.

Hana passou a língua pela boca, sentindo os buracos.

- Seis? – ela tinha um tom curioso, não assustado como era de se esperar – Foi pouco.

Frederick fechou as mãos com força.

- Você devia levar isso um pouco mais a sério! Vocês deram sorte por nós chegarmos a tempo! Meu deus, Hana! – ele se virou para a amiga, que ficou surpresa de vê-lo chorando – Eu achei… Eu achei que…

- Você achou que nós fôssemos morrer numa briga idiota daquelas? – ela desviou o olhar, franzindo o cenho com a ideia – Elas já tinham a intenção de nos bater. Senão não haveria soco-inglês ou a bota com aquela ponteira de metal. Os garotos não estariam lá. Todos sabiam, por isso ninguém se meteu. Elas devem ter dito que quem se metesse ia apanhar junto. – Hana sentia a raiva crescendo e lhe queimando a garganta – Meu deus, como eu queria afundar o nariz daquela metida.

Frederick engoliu em seco. Nunca tinha visto Hana tão irritada. Apesar das provocações e alfinetadas frequente entre os dois grupos, ele nunca tinha imaginado que parariam no hospital. O máximo que já tinha acontecido era alguém ser empurrado, mas nunca houve risco real. Naquele momento, ele entendeu que não era mais assim. Que, na próxima, as coisas podiam ser piores. Um arrepio lhe correu pelas costas e ele se soltou de Hana. A morena desviou o olhar gélido de raiva para o amigo, mas logo tornou a fitar a parede. Ela provavelmente estava repassando o que tinha acontecido. Aquilo a corroeria por dentro por muito tempo ainda.

Quando Hana recebeu alta, Benjamin estava na terceira cirurgia. Vários fragmentos de ossos tinham se espalhado pelo sangue, mas não causaram nenhum dano permanente por causa do atendimento médico rápido. O maior estrago já tinha sido reparado. As costelas quebradas não tinham se soltado. Tinham algumas falhas, mas iriam se recuperar. Foi porque ele manteve o braço na frente o tempo todo que o impacto não foi suficiente para quebrar totalmente alguma costela. O grupo estava todo na sala de espera. Hana, vestindo o casaco de Frederick porque suas roupas estavam bastante destruídas, estava parada na última porta a que tinham acesso.

Ela olhava preocupada para a sala de cirurgia, longe demais para que visse o que estava acontecendo. Quando uma luz vermelha se acendeu e vários funcionários correram naquela direção, ela arregalou os olhos. Seu autocontrole não foi suficiente para conter o instinto. Ela saiu correndo, apesar dos gritos que a mandavam voltar e parou diante da sala de cirurgia. Lá dentro, os médicos tinham trabalho em manter Benjamin estável. Alguma coisa tinha dado errado.

Ela sentiu lágrimas escorrerem por seu rosto e alguém a puxar pelo braço para fora. Mas tudo que ela conseguia processar era sua voz saindo esganiçada enquanto ela chamava desesperada pelo amigo. Ela não tentava se soltar. Sabia instintivamente que não funcionaria. A pressão em seu braço era muito grande. Mas continuava chamando pelo amigo. O desespero fazia com que mais lágrimas escorressem. Hana não conseguia enxergar nada diante de si. A próxima coisa de que teve consciência foi dos braços carinhosos que a envolveram.

Ela apoiou a cabeça no peito de Frederick e se permitiu chorar desesperadamente até que alguém viesse falar com eles. O médico, apesar da preocupação que marcava seu rosto, tinha uma expressão aliviada. Benjamin precisaria de muito descanso, mas ficaria bem. Por causa das cirurgias, ficaria com uma cicatriz no peito. Hana sentia-se distante. Não conseguiria acreditar até ver o amigo. Inconscientemente ela levou uma das mãos à bochecha, passando a ponta dos dedos pelo arranhão que tinha restado dos socos que levara com o soco-inglês. Só estava inteira daquele jeito por causa de Benjamin. Ela não suportaria se algo acontecesse com ele.

O grupo fez algumas sessões de terapia depois do ocorrido. Hana, em especial, tinha passado por um programa de controle de raiva. Ela não achava que precisava, mas seus pais insistiram e ela cedeu. Mas, mesmo sem aquilo, ela duvidava que voltasse a cair no soco com alguém sem um motivo realmente muito bom. Mesmo depois do tratamento, ela achava que só um motivo muito bom a faria bater em alguém de verdade. Esse motivo ainda não tinha aparecido.


Hana tinha ido até a varanda enquanto Anny terminava a história. Pensar naquilo ainda fazia seu peito doer. Não tinham tido mais problemas depois daquele incidente por intervenção da diretoria. Como as garotas estavam realmente preparadas para a briga, foi fácil fazer com que elas levassem toda a culpa. E John tinha uma boa lábia. Hana passou a língua pelos buracos onde estavam suas próteses antes. Ela e Benjamin estavam eternamente marcados por causa daquilo. A escola passou a adotar uniforme no ano seguinte. Os alunos só podiam ir de tênis. As mochilas eram revistadas em dias aleatórios. A instituição perdeu credibilidade.

Kyouya olhava para Benjamin com um misto de agradecimento e indiferença. Então seus orbes negros se desviaram para Hana. A garota tinha se encolhido sobre si mesma, parecendo se sentir extremamente sozinha. Ele foi em silêncio até ela e a abraçou. Hana não resistiu, mas não disse uma palavra. O silêncio na casa era profundo. Catarina – que ainda se culpava por não ter conseguido fazer nada na época – tinha se encolhido no sofá. Anastácia sorria de canto, sentindo que, apesar das mágoas, ficava mais próxima dos amigos toda vez que repassava aquela história.

Kaoru foi o primeiro a se manifestar depois que Hana e Kyouya voltaram para a sala. Ele tinha entendido sobre a cicatriz de Benjamin – que foi obrigado a tirar a camiseta para mostrar o peito marcado – e os dentes falsos de Hana. O que ele não entendia era onde as cicatrizes delas entravam na história. As garotas se entreolharam. Benjamin, John e Frederick não sabiam daquela história. Hana suspirou e se sentou no braço do sofá.

- Essas são histórias do nosso primeiro ano de faculdade. Cada uma tem a própria história. E eu duvido que todas tenham sido superadas. Eu mesma ainda me incomodo com as minhas. – ela deu de ombros e olhou para Fred – Afinal, foi uma briga idiota. Sempre é uma briga idiota.

O loiro entendeu o que ela quis dizer. Ela tinha entendido, há muito tempo, o motivo de ele ter ficado tão preocupado por causa da briga. E, mais recentemente, ela tinha entendido porque ele se preocupara tanto com ela na época. Frederick sorriu de canto e acenou brevemente com a cabeça. Hana sorriu de volta e se virou para o resto dos amigos. Aquela seria uma longa noite de tragédias…