Hana respirou fundo antes de começar a contar como tinha ganhado as cicatrizes.

- Era o meio do primeiro mês de aula. Eu já tinha ido várias vezes sem o "uniforme" da universidade e percebido que aquilo não agradava muita gente, mas achei que não teria problema. Foi ingenuidade, mas eu realmente não achei que teria de enfrentar gente idiota tão cedo de novo.


Hana estava no fundo da faculdade, olhando o sol se por. Mais à frente, separando o terreno da faculdade do "mundo lá fora", havia uma cerca de arame farpado com uma placa cravada a alguns metros de distância dizendo para as pessoas tomarem cuidado ao se aproximarem. Ela se perguntou o que levaria alguém a ficar tão perto da cerca. Estava distraída, não viu os pares de olhos que a espreitavam. Então uma pedrinha rolou ao seu lado. Hana franziu o cenho. Não era um declive, a pedra não rolaria sozinha.

Quando a morena ia se virar, algumas pedrinhas quicaram em sua direção. Uma ou outra raspou levemente em suas roupas. Ela se colocou rapidamente em pé, percebendo o que se passava. Ao seu redor, vários alunos tinham pedrinhas nas mãos. A ideia era encurralá-la. Hana olhou mais atentamente em volta. O único lado livre era o da cerca. Ela entendeu o plano. Entendeu também que não tinha para onde correr. Sua mente gritava para ela não revidar, independentemente do que acontecesse. Seu corpo gritava para ela correr e escolher um bom escudo humano.

Hana cerrou as mãos com força e respirou fundo. A cerca não parecia ser muito alta, talvez desse para pular. Era uma ideia perceptivelmente idiota, mas era a única que ela tinha. Ela respirou fundo e começou a correr. As pedras batiam no chão atrás dela. Uma mão roçou nas costas de sua blusa. Ela correu mais. Estava quase no ponto perfeito para pegar impulso para pular quando alguém a pegou pela mão e a forçou a virar. Com o desequilíbrio e a velocidade, ela sentiu as costas se chocarem contra o arame.

Ela sentiu as pontas afiadas do arame farpado lhe rasgando o tecido e afundando na carne, mas não gritou. Ninguém a ouviria. Ninguém viria em seu socorro. Ela não queria que viessem. As pernas cediam pouco a pouco e ela sentia o arame abrindo caminho por sua pele. Para cima e para dentro. O corpo pesava cada vez mais para baixo e para trás. Alguém a segurou pela gola da blusa e a ergueu. O arame repuxou mais uma vez e ela sentiu algo quente escorrer.

As gotas vermelhas caíam lentamente, marcando a grama verde escura sob a luz do luar.

Hana se mantinha em pé como se fosse suspensa por fios invisíveis. Seu corpo queria reagir, mas sua mente gritava para que ela não fizesse nada. As frases clichês da terapia para controle de raiva ecoavam em sua cabeça. Ela não devia bater em ninguém por mais que a pessoa merecesse. A violência nunca era a solução, porque não gerava nada além de mais violência. A dor física passaria, mas a dor na alma seria para sempre. E violentar alguém a feriria na alma de uma forma tão profunda que ela poderia nunca se curar.


- Por causa disso, eu me perguntei se não deveria deixar a minha alma se quebrar de uma vez então. – Hana deu de ombros – A terapeuta vivia repetindo que eu era melhor que aquilo, que aquele impulso de raiva. Ela dizia que, se eu não conseguisse me controlar, eu teria problemas no futuro. Na escola, na carreira, em casa. Ela não aceitava a ideia de que o problema não era apenas dentro de mim. Era fora. De qualquer forma… – ela se ajeitou no braço do sofá antes de continuar.


A mesma pessoa que a tinha suspendido antes a empurrou de volta no arame farpado. Ela era vista como um brinquedo naquela hora. Como um João-bobo. Ela mantinha os braços diante do corpo, se protegendo das pedras que continuavam a vir. Poucas realmente a acertavam, mas era melhor se garantir. Ela sabia que ficaria marcada nas costas. Sentia o metal ganhando calor conforme ela era pressionada contra ele. Sentia o líquido ainda escorrendo, lhe sujando as roupas, manchando o chão. Quando secasse, atrairia animais. Os olhos atentos continuavam sobre ela. Qualquer movimento era perigoso.

Ela foi suspensa de novo. Naquele momento, a escuridão a envolveu breve e gentilmente. Ela imaginou se seria deixada em paz se perdesse a consciência. Sentiu vertigem ao ser levantada. Não sabia quão distante do chão estava, apenas que seus pés tinham perdido o apoio. Ela não se debateu. Não sabia a distância do arame farpado. Então a soltaram. Ela sentiu o arame a abraçar na cintura e viu seus cabelos negros caindo do lado de fora da faculdade. Não havia mais dor. O sangue se dividia entre inundar sua cabeça e seus pés e marcar o chão. Alguém a segurava pelos tornozelos e ela sentiu novamente a mão em sua garganta. Alguém disse alguma coisa e ela foi puxada de volta.

Largada no chão.

Ela fitou a própria mão. Precisava fazer as unhas. Talvez pintasse de vermelho. Ela sorriu de canto. Era um pensamento idiota para o momento. Ela ouviu passos se afastando. Finalmente, tinha acabado. Ela não tinha frio, apesar das costas expostas. Ela não tinha medo ou dor. Vozes distantes começaram a se fazer presentes. Ela achou ter reconhecido uma ou outra. Alguém discou um número no telefone. Hana apagou antes de saber o que se passava.


- Depois disso, acordei de novo no hospital. A Cat tinha adormecido do lado da cama e a Anny estava na janela. Eu não me lembro de muita coisa além do desconforto dos curativos. E estava com a intravenosa de novo. – ela sorriu de canto com um ar distante – Acho que fiquei apagada por pouco mais de um dia. Pelo menos não tínhamos aula porque era final de semana.

- A gente pode ver? – a pergunta, distorcida pelo tom de preocupação, veio de John.

Hana sorriu calmamente em resposta e se levantou. De costas para o grupo, ela tirou a camiseta por cima, mantendo apenas os braços vestidos. Ela ouviu os amigos prendendo a respiração. O labirinto em suas costas era confuso, desconexo. Ela sentiu as pontas geladas dos dedos de Benjamin a tocarem. Kyouya fez menção de ir até o rapaz, mas ela o segurou gentilmente pela mão. O moreno entendeu, mas não se sentia confortável. Benjamin percorreu algumas cicatrizes com os dedos. Em alguns pontos, a pele tinha engrossado. Em outros, a marca era tão fina que mal era visível.

Benjamin suspirou. Eles tinham perdido uma parte importante. Eles não estavam presentes quando elas mais precisaram. Mas a história teria sido quão diferente se eles não tivessem se mudado? Hana provavelmente ainda estaria sozinha na hora em que foi encurralada. Provavelmente não chamaria por ajuda. No máximo, teria sido encontrada alguns minutos antes do que foi. Ele recuou a mão, olhando com dor para a amiga. Hana tornou a se vestir e se virou para o resto do grupo.

- Eu ainda não consigo ficar de noite na faculdade se estiver sozinha. Eu sempre acho que tem alguém me perseguindo. Às vezes, eu tenho medo de ir para a faculdade. Não consigo ficar em lugares cheios por muito tempo. São medos idiotas, a maior parte é paranoia. Mas a gente nunca supera algumas coisas. – ela ajeitou o cabelo e sentiu Kyouya a envolver pela cintura de forma discreta. Ela sorriu de canto e lhe afagou a mão.

- Eu também passei a evitar lugares muito cheios. – Jenna atraiu os olhares para si quando começou a falar – Pelo menos, vou com menor frequência. Fiquei meio paranoica em relação à bebida. Se eu perco o copo de vista por dois segundos, eu pego um novo, limpo. E não aceito mais convites de ninguém da faculdade para ir a festas ou qualquer outra coisa. – antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ela começou a contar sua história.


Jenna estava sentada no balcão do bar, bebendo algo leve por ainda ser o começo da noite. Tinha ido para lá com alguns rapazes e algumas garotas da faculdade. Era começo do ano, ela achou que era melhor se enturmar com o pessoal da sala. E gostava daquele tipo de ambiente. Em um determinado momento, ela precisou ir ao banheiro e pediu para os dois rapazes com quem conversava para olharem o copo para ela. Jenna não achou que estava pedindo o favor justamente para quem devia temer.

Os rapazes tinham aceitado de bom grado e, quando ela voltou, o copo parecia exatamente o mesmo. Ela sorriu para eles e tomou um gole. Alguma coisa, de repente, pareceu diferente para ela. Os risinhos em sua orelha deram o alerta. Ela olhou para os rapazes com o canto do olho. O sorriso malicioso de um deles a assustou. Ela ainda bebia, mas estava começando a se sentir tonta. Aquilo não fazia sentido. Sua resistência não era tão baixa. Quando um dos garotos acenou como se estivesse se despedindo, ela entendeu. O copo escorregou de sua mão e ela não ficou consciente por tempo suficiente para saber se o vidro se espatifou no chão ou não.

Jenna acordou com a cabeça doendo e o cheiro de álcool impregnando o quarto. Do banheiro vinha o som de água escorrendo. Ela sentia sede. Ao perceber isso, a morena se assustou. Tinham lhe amordaçado a boca. Ela olhou ao redor. Reconheceu os dois rapazes que ficaram no balcão com ela. Uma das garotas que os acompanhou. Uma quarta pessoa saiu do banheiro, limpando uma faca de cozinha na toalha.

- Tem certeza de que ela não vai poder revidar? – Jenna não sabia dizer de onde vinha a voz. Sua cabeça tinha começado a girar.

- Tenho. – a voz feminina só podia pertencer a uma pessoa. Jenna franziu o cenho e baixou o olhar para as próprias pernas. Em seguida, olhou para os pulsos. Estava presa à cama – Nós amarramos bem direitinho. Ela só vai apertar mais os nós se tentar se soltar.

Jenna sentiu que a consciência queria deixá-la de novo. Um dos rapazes notou e ela sentiu água gelada ser jogada em sua cabeça. Tinha servido para despertá-la. O garoto com a faca se pôs sobre ela, deixando um joelho apoiado de cada lado de sua cintura. Com cuidado, ele abriu a parte da frente do vestido de Jenna com a faca. Ela ouviu som de metal e imaginou que aquela não era a única arma branca que eles tinham separado. Uma chama amarela se acendeu no banheiro, fazendo Jenna arregalar os olhos.

O rapaz em cima dela dava as ordens. Antes que a garota pudesse entender alguma coisa, ela sentiu o calor da lâmina aquecida em contato com a sua pele. Jenna gritou, mas sua voz estava abafada pela mordaça. Ela se contorceu e, como a outra garota tinha dito que aconteceria, os nós se apertaram. O rapaz trocou algumas palavras com um dos outros. Jenna só entendeu que alguma coisa não tinha sido suficiente. Ela sentia a dor da queimadura feita logo abaixo dos seios.

- É um desperdício, mas… Você nos obrigou a isso, Jenna.

Quando o rapaz acabou de falar, ela sentiu a lâmina lhe cortar embaixo do outro seio. Mais uma vez, um grito abafado lhe saiu da garganta. Alguém limpou o sangue que escorria, mas ninguém se preocupou com as lágrimas de dor e desespero que começavam a cair dos olhos da morena. Ela não sabia o que tinha feito para merecer aquilo. A lâmina continuava a cortá-la até a lateral.

A sessão de tortura continuou. Ela carregaria aqueles estigmas de ferro e fogo para sempre. Ela sabia que as pessoas que estavam fazendo isso não sentiriam remorso. Eles achavam que aquilo a faria entender. Eles achavam que o sofrimento a faria entrar na dança. Mas eles estavam errados. Eles não sabiam lidar com as diferenças. Ninguém daquela escola sabia. Jenna sentiu um soluço entalar na garganta. O metal, fosse frio ou fosse quente, continuava a lhe ferir a pele. Ela gritava, mas ninguém conseguia ouvir fora daquelas paredes. Ela não entendia como o alarme de incêndio não tinha disparado ainda.

Em algum momento, a consciência lhe deixou. Quando ela acordou, estava sozinha no quarto, ainda amarrada e amordaçada à cama. Não havia sangue na cama nem em qualquer outro lugar além do que tinha secado ao redor dos ferimentos. Quem a encontrou foi uma camareira. Jenna não prestou queixa. Não conseguia se lembrar direito do que tinha acontecido na hora. Sentia-se tonta, drogada. Não sentia dor. Tinha sido levada ao hospital, onde encontrou as amigas. O médico confirmou que ela tinha recebido alguma coisa. Os ferimentos foram tratados. Eventualmente, eles não passariam de uma marca enrugada ou de uma linha fina sobre sua pele, foi o que a equipe médica disse. Para ela, seria sempre mais.


Jenna suspirou. Odiava aquela história. Sentia-se idiota toda vez que pensava no que tinha acontecido. Sentia-se inocente, desprotegida. Despreparada. Vulnerável. Os amigos a olharam com compaixão. Ela odiava aquilo. Odiava sentir que os outros tinham pena dela. John, ao seu lado, passou os braços ao redor dos ombros da garota e a puxou para si. Ninguém disse uma só palavra. Jenna levou as mãos ao peito. Odiava aquelas marcas. Ouviu alguém dizer alguma coisa, mas não entendeu. Não queria entender. Sabia que a sua história era uma das piores, se não fosse a pior de todas. Cada uma das cinco tinha sofrido e, eventualmente, cada uma superaria. Mas ela não via esse dia chegando.

- A minha não foi tão proposital. – Catarina engoliu em seco. Era estranho quebrar o silêncio – E-eu acho… Foi no começo do segundo mês de aula. Foi como eu e a Anny conseguimos as nossas, na verdade – ela olhou para Anastácia, que sorriu de canto e indicou que a loira continuasse.


Catarina estava com Anastácia indo para uma das portas que dava acesso para o jardim interno do prédio de Artes. As duas não tinham aula naquele horário, mas Catarina precisava fazer um rascunho para um trabalho e tinha decidido usar o prédio da faculdade de base. A morena, por falta do que fazer, tinha decidido fazer companhia para a amiga. As duas estavam quase na porta quando alguém passou por elas, empurrando-as como se tentasse abrir passagem.

Catarina, que ainda não tinha encarado muitos problemas com os colegas, quis tirar satisfação. Anastácia tentou fazer a loira deixar de lado, mas Catarina protestou e chamou a garota que as tinha empurrado. As duas trocaram algumas palavras antes de Catarina ser empurrada contra a porta. Anastácia, por reflexo, se colocou atrás da amiga para impedi-la de cair. Tinha perdido um pouco o equilíbrio, mas não tinha caído.

Estaria tudo bem se, enquanto a morena se ajeitava para ficar em pé, Catarina não tivesse sido empurrada de novo, dessa vez com mais força. Como a morena ainda continuava entre a loira e a porta sem todo o equilíbrio – seu centro gravitacional nunca tinha sido muito bom –, as duas caíram sobre a porta, que cedeu com a força do empurrão. O vidro da porta se espalhou com o choque, causando múltiplos ferimentos em Anastácia e Catarina. A loira, como tinha caído por cima da amiga, não se machucou tanto, mas alguns cacos tinham se cravado em sua perna pálida.

Elas foram encaminhadas para um hospital para terem todos os pedaços de vidro retirado, não sofrendo nenhuma consequência grave. A única coisa que ficaria eram as marcas dos ferimentos. Algumas eram maiores que outras. Alguns fragmentos do vidro não chegaram a deixar cicatrizes. Como Catarina era bastante clara, as marcas apareciam pouco em sua pele. Mas Anastácia, que tinha a pele de um tom mais normal – não que fosse muito difícil, considerando que Catarina era branca como papel, praticamente –, tinha marcas muito mais visíveis.


Kyouya franziu o cenho e se virou para Catarina.

- Achei que vocês duas tinham cicatrizes apenas nas pernas.

Anastácia riu de leve, respondendo pela amiga.

- As minhas das costas não aparecem muito. E as das pernas são mais visíveis. Aliás, eu não sei como ninguém reparou quando jogamos strip-poker. – ela sorria como se achasse graça de alguma coisa.

Os integrantes do Host Club se entreolharam. Aparentemente, nenhum deles tinha reparado nas costas de Anastácia. Frederick, Benjamin e John não pareceram gostar nem um pouco da notícia.

- Vocês jogaram…

- … Strip-poker…

- … Com eles…?

Hana e Anastácia se entreolharam, se divertindo com o ciúme nas vozes dos garotos.

- Pois é. Ainda bem que todas estavam com um lingerie bem sexy no dia. – Hana olhava diretamente para Frederick ao falar, sorrindo com satisfação.

O loiro corou imediatamente e virou o rosto, sem responder.

- Vocês nunca jogaram com a gente…! – John, que tinha soltado Jenna, apontava freneticamente de Hana para Anastácia, visivelmente revoltado com aquilo.

- Ora, ora, John, não sabia que você fazia taaaanta questão de nos ver de lingerie. – Anastácia sorria de forma provocadora.

O rapaz corou.

- E-e-e-e-u…! Isso não é justo, ok…?! – ele cruzou os braços e abaixou a cabeça, fitando o chão com uma expressão emburrada.

- E você, Ben? – Hana se virou para o último do trio, que ainda não tinha se manifestado.

- Eu o que? – ele tinha um ar indiferente apesar das bochechas rosadas.

- Ora, vai dizer que não ficou curioso. – Anastácia tinha o mesmo tom provocador que usara com John.

Benjamin riu.

- E que homem não ficaria curioso sobre vocês cinco de lingerie? – ele tinha um sorriso divertido, parecendo confortável com a conversa.

Hana sentiu a mão de Kyouya se fechar.

- Você sempre foi o mais sem graça de zoar. – Hana revirou os olhos – Pelo menos essas suas bochechas rosadas te delatam. – ela sorriu com satisfação. O amigo riu.

- Bom, vocês podem colaborar e mostrar as cicatrizes. – Benjamin olhou de Anastácia para Catarina.

Catarina ficou com o rosto vermelho rapidamente.

- M-mostrar…? – a voz dela tinha saído esganiçada, o que fez Benjamin, Hana e Anastácia rirem. O pessoal do Host olhava como se não acreditasse na cena.

Anastácia foi até o amigo, tirando a jaqueta de couro e levantando a blusa. De perto, os pontos claros em suas costas eram mais visíveis. Benjamin, por instinto, levou a ponta dos dedos até as marcas, percorrendo levemente as costas da amiga. Anny sentiu seus pelos se eriçarem com o toque suave, mas não recuou. Quando o rapaz suspirou e tirou a mão, ela tornou a se ajeitar e vestir a jaqueta.

- Que coisa… Pensar que vocês passaram por tudo isso enquanto a gente não tava aqui. –ele cruzou os braços diante do corpo – Bom, ficou faltando… A Mei. – ele se virou para a amiga.

Mei corou. Antes de começar, a garota pigarreou e cruzou os braços diante do corpo.


Mei estava andando por um dos atalhos da faculdade. Precisava trocar de prédio para a próxima aula e estava atrasada. Se o caminho "correto" não fosse tão grande, ela não precisaria passar por uns cantos pouco iluminados. A garota andava apressada, ignorando os alunos a sua volta. Sem querer, esbarrou em um garoto que andava no sentido contrário. Ela se desculpou rapidamente, mas o outro não pareceu satisfeito. Quando Mei se virou para continuar andando, ele a puxou com força e a jogou contra a parede.

- Já pensou em ter mais cuidado por onde anda, idiota? – ele tinha um tom pouco amigável.

- Desculpe. É que eu estou realmente atrasada. Eu não queria te atrapalhar. – Mei pressionava o material com força contra o peito.

O rapaz arqueou uma sobrancelha. Alguns de seus amigos tinham vindo ver o que tinha acontecido. Um deles reconheceu Mei como sendo "a garota que se veste estranho", apesar de, naquele dia, ela estar com uma jeans justa e uma blusa bordô. Ela ainda não conseguia usar as roupas que preferia normalmente. Quando viu o sorriso gelado que surgiu no rosto do rapaz em que tinha esbarrado, ela engoliu em seco.

Ele puxou o material de seus braços e tirou algo do bolso. Mei tremia, sem saber o que esperar. Ele a mantinha contra a parede, a segurando com força pelo ombro. Quando ele se afastou, ela viu um punho descendo em sua direção e se protegeu com os braços automaticamente. De repente, eram vários golpes vindos de várias direções. Ela mantinha os braços erguidos para se proteger, sem coragem de gritar. Por vezes, sentia uma lâmina lhe cortando a carne. O rapaz tinha sacado um canivete e o usava eventualmente para completar a agressão.

Mei sentiu a vontade de chorar lhe queimar o peito, mas resistiu. O soluço estava entalado na garganta e o sangue tinha começado a escorrer por sobre a roupa. Então alguém a segurou pela gola e a ergueu. Ela tentou se soltar, mas a mão em volta de seu pescoço se mantinha firme. Ela sentiu o canivete perfurar o músculo do braço e ser retirado com brutalidade, mas não gritou. Não conseguiria. O ar não chegava em quantidade suficiente em seus pulmões.

Os ataques com a lâmina continuaram nos dois braços. Algumas pessoas riam, mas nenhuma interferia. Ela conseguia ver alunos passando ao longe, mas nenhum se virava para ver o que estava acontecendo. Ela desejou não ter pegado o atalho. Teria luz, pelo menos. Mas lá, naquele lugar semi-iluminado, rodeada por pessoas que não conhecia, ela se sentia sufocada pela escuridão. Quando finalmente se cansaram e a soltaram, ela tossiu, puxando o ar em golfadas grandes e desesperadas.

Seu material foi chutado em sua direção antes de o grupo dispersar. Ela ouviu alguém gritar e logo vários passos se aproximavam. Mas ela estava assustada demais para olhar. Quando alguém se abaixou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, ela se encolheu e gemeu. A voz de Jenna chegou suave em seus ouvidos, fazendo as lágrimas caírem. Jenna abraçou a amiga e lhe acariciou os cabelos. Mei foi levada para o hospital da universidade para receber os curativos necessários. Não eram muitos, mas também não eram poucos os cortes que deixariam marcas. O pior, no entanto, foi perceber o quanto as pessoas podiam ser cruéis por causas tão pequenas.


Quando acabou de falar, Mei engoliu em seco. Ela tinha enterrado aquela história bem fundo em sua mente e encarar os fatos de novo fazia seu peito doer. Mori, em um gesto que surpreendeu a todos, foi até a garota e a abraçou. Mei apoiou a cabeça no peito do rapaz e o abraçou de volta. Apesar do choque pelo relato, o grupo estava mais chocado pela atitude do rapaz. Ninguém esperava que logo ele fosse consolar a garota.

Jenna sorriu de canto. Os dois formavam o casal perfeito. Hana, Anastácia e Catarina se entreolharam, estranhando um pouco, mas logo tinham sorrido. Seria bom se Mei conseguisse se acertar com alguém. Os rapazes e Haruhi estavam em um silêncio profundo. Os gêmeos, no entanto, logo acharam um jeito de estragar o momento.

- Então Mori-senpai gosta da Meeeei? – Hikaru tinha um sorriso maroto ao falar.

- E eu achava que ele ia se apaixonar por uma garota de família tradicional japonesa. – Kaoru sorriu da mesma forma que o irmão.

- Ora, fiquem quietos vocês. – Hana jogou uma almofada em cada um – Ele é mais bem resolvido que vocês dois juntos nesse quesito. – ela tinha um ar desafiador.

Kaoru pareceu se ofender com aquilo, fazendo Hana rir. Anastácia revirou os olhos.