Kyouya acordou assustado e suando frio. Tinha sonhado com o relato de Hana, como se visse a cena de longe sem poder fazer qualquer coisa para mudar o desfecho. Seu coração batia acelerado. Ele escondeu o rosto com as mãos. Sentia-se vulnerável e, ao mesmo tempo, extremamente protetor. Então o rapaz fitou o teto. Ficou daquele jeito pelo que pareceram longos minutos antes de se virar. Ao seu lado, Hana dormia profunda e tranquilamente. Ele sorriu de canto e passou um braço ao redor da garota. A morena se revirou levemente na cama, ficando com o corpo mais próximo de Kyouya, que corou levemente. Aquilo tudo ainda era estranho para ele. A próxima coisa que lhe ocorreu foi a família. O que seu pai diria se soubesse do relacionamento? Apesar de tudo, aquilo ainda importava. Ele ainda tinha de pensar no prestigio da família. Kyouya engoliu em seco. Talvez fosse melhor que Hana não soubesse sobre aquilo.

Kaoru acordou no meio da noite sentindo frio e dor. Não era para menos considerando que ele tinha caído da cama. Hikaru o tinha empurrado para fora em algum momento e agora ocupava toda a cama de Catarina. O mais novo suspirou e se levantou. Sentia sede, de forma que foi até a cozinha. Na volta veria o que fazer sobre Hikaru ocupando todo o espaço. Antes, ele precisava de uma caneca de chocolate quente. Quando chegou à cozinha, o mais novo se sentiu levemente surpreso. Anastácia estava lá, fazendo alguma coisa no fogão. Ele apenas ficou na porta, fitando as costas da garota por um tempo que pareceu realmente longo. Então a garota se virou, se surpreendendo ao vê-lo, mas logo sorrindo para ele.

- Acho que não fui a única a ter insônia. – ela tinha a voz suave ao falar.

Kaoru tinha virado o rosto, ficando com as bochechas levemente coradas.

- Hikaru me jogou para fora da cama. – ele coçou a nuca.

Anastácia riu levemente.

- Acho que devíamos tê-lo colocado com a Cat. Ela dorme encolhida contra a parede. – a garota parou para pensar por um instante – Isso significaria que você ia dividir a cama comigo.

Kaoru sentiu o rosto ferver e passou pela amiga em passos largos, indo pegar um copo no armário. Como não estava habituado com a casa – apesar de todas as visitas –, acabou dando de cara com pilhas de pratos. "Droga…", ele suspirou e fechou o armário.

- Na porta do lado. – Anastácia tinha se sentado à mesa, soprando a caneca de chá.

Kaoru, ainda mais sem graça, seguiu a instrução da morena. Logo tinha pegado um copo e esquentava o leite. Anastácia apenas o fitava em silêncio, por vezes tomando um pouco do chá. Sorria de canto com o constrangimento do rapaz, imaginando se havia algo que ele quisesse dizer. Então, de repente, Kaoru se virou para ela. Ele ainda tinha as bochechas vermelhas e fechava as mãos com força na borda da pia, em que estava apoiado. Anastácia esperou.

- Eu… – ele engoliu em seco – Eu sinto muito por… Ter perguntado… Das cicatrizes…

Anastácia sorria de canto.

- Não precisa se desculpar. Eventualmente, alguém ia perguntar. Nós sabíamos desde o começo que não poderíamos esconder para sempre. A partir do momento em que decidíssemos nos relacionar com alguém, o segredo estaria comprometido. – ela deu de ombros – Eu não me importo, porque as minhas e as de Cat não são tão graves assim. Apesar de tudo, nós somos as que saíram mais ilesas. – ela viu Kaoru engolir em seco de novo – Mas a Mei não consegue confiar nas pessoas. Hana tem medo de ficar sozinha. Jenna não consegue mais se divertir. Para elas, o fardo é muito maior. – ela tomou um gole grande do chá e se levantou para deixar a caneca na pia. Quando parou do lado do ruivo, sua voz saiu baixa, como se ela estivesse falando mais para si – Espero que eles sejam capazes de curar essas feridas…

Kaoru sentiu o impulso de abraçar a morena, mas não se mexeu. Anastácia continuou parada ao lado dele por mais alguns segundos antes de ir em direção à porta. Quando estava saindo, ela se virou uma última vez para ele, sorrindo de canto ao falar.

- Não precisa lavar nada depois. Só deixar na pia com um pouco de água. – então ela voltou para o quarto.

Kaoru soltou o ar pesadamente, deixando-se cair em um banco. Por que, apesar do que a garota tinha dito, ele sentia que alguma coisa estava fora do lugar? Por que ele sentia como se, apesar de tudo, Anastácia e Catarina estivessem tão quebradas quanto as outras? "E será que nós somos capazes de colocar os pedaços juntos de novo…?", ele suspirou. Ficou encarando a parede por um tempo, até ver que o leite já estava suficientemente quente. Com a bebida pronta, ele tornou a se sentar à mesa. Quem tinha contado a história tinha sido Catarina. Não seria possível então que, do lado de Anastácia, não houvesse algo mais? Algo que a loira não soubesse por que a amiga nunca tinha dito?

Arrancando o ruivo de seus pensamentos, Hana apareceu na cozinha. Ela pegou um copo de água e se sentou de frente para o amigo. Ela o olhava como se analisasse alguma coisa. Kaoru se manteve em silêncio. A garota então suspirou e se debruçou na mesa. Ela tinha um tom distante ao falar, o que fez com que o rapaz lhe acariciasse a cabeça. Ela sorriu de canto com o gesto.

- Tem alguma coisa que vocês não estão contando para gente, não é…?

Kaoru manteve a mão sobre a cabeça da amiga ao responder.

- E o que você acha que é?

- Eu não sei. Tamaki e Kyouya, em especial, parecendo sempre preocupados com algo. Por que, considerando de onde vocês vieram, decidiram estudar na nossa escola? Apesar de ser uma instituição conceituada, vocês poderiam ter escolhido escolas muito melhores. – ela se virou para Kaoru, ainda com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados sobre a mesa.

- Há alguma coisa em nós que te incomoda? – Kaoru tinha o tom suave e sorria de canto ao perguntar.

Hana suspirou.

- Vocês são ricos, bonitos e inteligentes. Bom, tirando a Haruhi, que é bonita e inteligente, mas vem de uma família normal. Eu gosto dela. – Hana sorriu de canto – Não estou dizendo que a gente se arrependa de ter conhecido vocês. Eu só não entendo… Eu não consigo entender a escolha de vocês.

Kaoru riu levemente antes de responder.

- Afinal, por que garotos de família rica escolheriam uma escola tão normal? Não é isso? – ele acariciou mais uma vez a cabeça da amiga.

- Bom… É. – ela desviou o olhar para o copo d'água – Afinal… Eu não vejo a família de nenhum de vocês aprovando qualquer relação assim…

Kaoru franziu o cenho. Seria possível que ela estivesse falando da família de Kyouya-senpai? Afinal, o pai do moreno era extremamente exigente. Mas o ruivo duvidava. Em nenhum momento Kyouya tinha comentado sobre suas relações familiares. Ou tinha? Provavelmente não. O mais velho detestava falar daquilo. Ele gostava de deixar claro que tinha como conseguir o que queria, independentemente dos meios. Mas acabava aí. Kaoru recolheu a mão e a deixou apoiada no colo. Do que, então, Hana estava falando?

- Por que diz isso, Hana? – Kaoru apoiou um braço na mesa.

- Porque nós somos problemáticas. A Anny e a Mei nem tanto, mas eu, a Jenna e a Cat somos esquentadinhas. – ela viu o ruivo franzir o cenho com a expressão – Nós nos irritamos mais facilmente. Não gostamos de deixar barato. Se nos sentimos ofendidas, queremos tirar satisfação. A Mei é a que mais deixa de lado. Ela odeia confusão. A Anny é o meio termo. – a morena deu de ombros – É disso que eu estou falando. Nós praticamente somos sinônimos de problema.

Kaoru sorriu de canto. Então era aquilo.

- Isso não tem importância. Eles aprovaram a experiência de estudar no exterior. Tudo o mais cabe a nós decidir. – ele acariciou a cabeça da amiga mais uma vez antes de se levantar. Ao terminar a bebida, ele deixou o copo sobre a pia e voltou para o quarto.

Hana ficou na cozinha mais um pouco.


Um grito agudo ecoou pela casa, fazendo com que todos se levantassem de um pulo. Hana, que ainda estava na cozinha, foi correndo para o quarto de Anastácia, a fonte do grito. Os demais apareceram pouco depois. Lá, Anastácia abraçava carinhosamente Catarina, que tinha acordado assustada – e assustado os amigos – e chorava copiosamente no colo da amiga. Hana sorriu de canto. Era sempre difícil, para umas mais que para as outras. Ela foi até as amigas e se sentou sobre a cama, afagando os cachos da loira.

- Está tudo bem, Cat. Ninguém pode te fazer mal agora. Você não está sozinha. – Hana falava com a voz suave e olhou para Anastácia atrás de uma resposta. A outra apenas balançou minimamente a cabeça, indicando que não sabia o que tinha acontecido exatamente.

Catarina soluçou e abraçou Anastácia com mais força.

Kaoru franziu o cenho. Pelo que Anny tinha dito, o problema de Cat não era por causa das cicatrizes. Ela não tinha se traumatizado com aquilo. Então por que a loira estava tão assustada? Por que Hana falava sobre ninguém poder ferir a loira? Sobre não estar sozinha mais? Ele olhou para os amigos. Kyouya tinha o semblante sério, assim como Hani. Eles tinham entendido, assim como o ruivo, que havia algo mais atrás daquilo. Jenna abriu passagem no meio dos garotos, trazendo Mei pela mão.

- Fazia tempo que isso não acontecia. – Mei suspirou e se juntou às amigas sobre a cama de Anastácia – Cat? – ela esperou os orbes azuis a fitarem – Está tudo bem. Nós estamos aqui.

Jenna sorria divertidamente ao acrescentar.

- Mesmo se você não suportar mais, nós sempre estaremos aqui com você. – o sorriso da garota de cabelos tingidos se alargou quando a loira sorriu de canto -Sempre, ouviu bem? – ela afagou os cachos da amiga.

- E agora virou festa no meu quarto. – Anastácia riu de canto e indicou que os amigos entrassem no cômodo em vez de ficarem na porta.

Kaoru empurrou levemente o irmão na direção de Catarina. Hikaru olhou para o mais novo com uma expressão levemente irritada, mas logo se voltou para a loira e se sentou a sua frente. Ele não sabia o que dizer, de forma que apenas ficou lá, olhando preocupado para ela. Em algum momento, depois de Catarina ter apoiado as mãos na cama, Hikaru segurou uma delas com as próprias. A loira corou levemente, mas não recuou. Kaoru sorriu com satisfação ao ver as bochechas rosadas e o sorriso de canto do irmão.

- Eu acho que devíamos todos nos ajeitar aqui e dormir todo mundo junto. – Hana sorria de um jeito estranho que fez com que as amigas se entreolhassem.

- O que exatamente você tem nessa cabecinha diabólica? – Jenna engoliu em seco.

- Bom, nós podemos repetir o strip-poker. – ela deu de ombros – Ou só ficar conversando até cairmos no sono.

A segunda ideia foi perceptivelmente mais bem aceita pelo grupo. Hana se divertia com as reações que via. Anastácia tinha revirado os olhos com o comentário da amiga. Àquela altura, todo mundo sabia que repetir o jogo era uma péssima ideia, mas Hana gostava de provocar. Catarina, por insistência das amigas, tinha se aninhado ao lado de Hikaru, que ficou completamente vermelho, mas não rejeitou a ideia.

O grupo conversava sobre trivialidades, rindo, se provocando, fazendo brincadeiras. Em um dado momento, Catarina pegou no sono. Anastácia, Kaoru e Hana tiveram a mesma ideia. Anny se abaixou na direção do ruivo mais velho e, falando em um tom baixo para não acordar a loira, sugeriu que Hikaru levasse a garota para o quarto. O ruivo pareceu levemente surpreso com a sugestão. Hana emendou.

- E fique lá com ela. Se ela acordar e perceber que está sozinha, as coisas vão complicar.

Quando Hikaru ficou vermelho como um tomate, Kaoru se abaixou ao seu lado e colocou uma mão em seu ombro, encorajando-o. O mais velho tentou dizer alguma coisa, mas seu cérebro não conseguia montar nenhuma frase coerente. As garotas o apressaram, de forma que logo Hikaru tinha se levantado e, carregando Catarina no colo, saído do quarto de Anastácia. Hana sorriu com satisfação e se virou para Kaoru.

- Acho que isso significa que você fica aqui.

O ruivo corou.

- Ahn… É, acho que sim…

Anastácia entendeu o que se passava, parecendo se divertir.

- Quem diria, não é? – ela olhou para o ruivo, que corou mais e virou o rosto. "Ele fica tão bonitinho assim…!", seu sorriso se alargou. Ela sentia que as próprias bochechas estavam um pouco vermelhas, mas não se importou.


De manhã, Anastácia acordou com o braço de Kaoru a envolvendo pela cintura. A morena corou imediatamente, mas não se afastou. Gostava daquilo. De estar com o rapaz naquele momento inocente, podendo sorrir bobamente sem ninguém para ver e deixá-la ainda mais sem graça. "Tão inocente assim…", ela ajeitou uma mecha do cabelo do ruivo. Kaoru se remexeu um pouco, mas não acordou.

A garota então se virou com cuidado e estendeu a mão para o celular, que estava sobre o criado-mudo. Precisava saber que horas eram. A luz lhe agrediu momentaneamente os olhos e ela precisou de alguns segundos para conseguir enxergar. Era quase meio-dia. Ela suspirou. Precisava levantar. Apesar de ser sábado, ela não gostava de ficar tanto tempo na cama. Estava colocando o aparelho de volta no criado-mudo quando recebeu uma mensagem. Era Hana convocando-a para uma conversa na cozinha.

Anastácia se virou com cuidado e saiu da cama. Kaoru continuava a dormir profundamente. Então, calçando as pantufas, ela foi até a cozinha, onde encontrou uma Mei e uma Hana preocupadas. Anastácia franziu o cenho. Algo muito errado tinha acontecido. Seu primeiro instinto foi pensar em Catarina, mas a loira não iria a lugar nenhum sozinha. Quando Hana fitou a amiga, tudo fez sentido.

- Onde está a Jenna? – Anastácia ouviu a própria voz distorcida pela preocupação.

- Nós não temos a menor ideia. – Hana tinha um tom pesaroso e Mei estava cabisbaixa na frente da pia – Mei acordou e encontrou um bilhete de Jenna preso no espelho.

Anastácia pegou o papel da mão da amiga e leu. Jenna apenas dizia que precisava de um tempo sozinha.

- O celular ficou aqui. Só nos resta sair e procurar. – Mei parecia a ponto de chorar.