Jenna andava apressada pela rua, apertando o casaco contra o corpo. A saia do vestido balançava conforme ela se movia, enroscando em suas pernas. Quando a porta escura de madeira surgiu em seu campo de visão, ela apertou o passo, chegando quase a correr. Ela só parou depois de subir os degraus que davam acesso à casa. Ela respirou fundo, recuperando o fôlego antes de tocar a campainha. "Por favor, atenda. Atenda, atenda, atenda", ela suspirou aliviada quando ouviu barulho de passos vindo de dentro da casa. Quando a porta se abriu, dois orbes dourados a fitavam com surpresa.
- Jenna…! Eu não a esperava hoje…!
- Desculpa aparecer sem avisar. Eu… – ela engoliu em seco, empurrando o bolo em sua garganta para baixo – Eu só precisava…
O homem deu espaço para ela entrar e fechou a porta. O aquecimento estava ligado, de forma que o casaco não era mais necessário. Mesmo assim, ela não o tirou. Naquele momento, se sentia melhor com ele. Ela foi levada até a sala, onde alguns pares de olhos desconhecidos a fitaram. A voz grave e suave do professor soou em seu ouvido dizendo que ele já voltava e que ela poderia se sentar onde quisesse. Ela engoliu novamente em seco e se sentou em um canto afastado. A conversa, que tinha se interrompido com a sua chegada, voltou aos poucos a preencher o cômodo. Jenna olhava distraída pela janela.
- Jenna. – a voz do homem a trouxe de volta para a realidade. Ela o fitou com um ar distante, recebendo uma xícara de chá – Beba. Vai te fazer bem. – ele sorriu e lhe afagou a cabeça antes de voltar a atenção para os outros visitantes.
A conversa prosseguiu como se Jenna não estivesse lá e ela agradeceu por aquilo.
Anastácia e Hana montavam um plano de ação quando Catarina entrou na cozinha. Imediatamente as duas morenas mudaram de assunto, como se nada estivesse acontecendo. A loira sentia-se sonolenta e foi arrastando o pé até a mesa. Pouco depois de a garota se sentar, um Hikaru gritando irritado se fez ouvir. Hana e Anny se entreolharam, fitando a loira em seguida. Catarina continuava com a expressão de quem não estava ali. Hana suspirou e foi ver o que tinha acontecido. No momento em que ela chegou ao corredor, Kaoru saía correndo do quarto de Catarina.
"Céus, eles vão derrubar a casa", a garota revirou os olhos e entrou no quarto. Hikaru estava sem camisa, que estava no chão com algo que parecia ser pasta de dente. A morena suspirou. Não sabia o que o mais novo tinha feito com o ruivo que ainda esperneava, mas coisa boa não tinha sido. Ela recolheu a camiseta de Hikaru e a jogou sobre o rapaz. Sua voz saía levemente fria quando ela falou.
- Se vocês não sujarem a casa toda, a gente agradece.
Hikaru se encolheu por instinto.
- Mas… O Kaoru…! – ele apontou para a porta.
- É, é, eu vi. Ele saiu correndo com a maior cara de culpado. Não. Suje. O. Chão. – então ela deu as costas e saiu cantarolando alguma coisa. Kyouya apareceu na porta do quarto na mesma hora, com uma expressão irritada.
- Quem está fazendo todo esse barulho?
Hana sorriu.
- Boa tarde, meu amor. – ela viu as bochechas do moreno ficarem rosadas, deixando a satisfação transparecer em seu rosto – O Kaoru fez alguma coisa com o Hikaru. De qualquer forma, vê se acorda direito que nós temos um problema.
Kyouya franziu o cenho, mas não achava que ia receber mais explicações. Estava para voltar para dentro do quarto quando Hana o segurou pela mão. Assim que ele se voltou para ver o que a garota queria, ela se colocou na ponta dos pés – o que fez com que ele fosse levemente puxado para baixo – e lhe deu um selinho. Kyouya sentiu o rosto ferver, apesar de não corar, e se soltou de Hana. A garota ria com satisfação ao voltar para a cozinha.
- Que gracinha esses meninos. – então ela tornou a se sentar onde estava antes de Hikaru acordar.
Anastácia franziu o cenho com a frase da amiga.
- Qual é a lógica desse comentário mesmo? – ela sorria de canto ao falar.
Hana acenou para Kaoru, que estava na sala, e esperou que o ruivo fosse até elas.
- O que você faria se a Anny te beijasse? – ela perguntava com toda a naturalidade do mundo para o amigo, que corou na mesma hora. Então ela se voltou para Anastácia, que controlava o riso – Essa é a lógica.
- T-tem algo mais que você queira perguntar? – ele engoliu em seco, rezando por um "não". Quando Hana o dispensou, ele agradeceu mentalmente e voltou para a sala.
- Você super devia se declarar para ele. – Hana apoiou um cotovelo na mesa e a bochecha sobre a mão fechada, olhando para a amiga ao falar.
Anastácia olhava para Kaoru ao responder. Sua voz saía suave, mas ela tinha as bochechas rosadas.
- Provavelmente. Mas eu não sou muito boa nisso. – ela deu de ombros e olhou de relance para Catarina – E não sou a única.
Hana riu e revirou os olhos. Poucos minutos depois, Kyouya apareceu na cozinha.
- Do que você estava falando antes? – ele tinha um tom indiferente, mas a preocupação estava visível em seus olhos. Hana o pegou pela mão e foi para a varanda antes de responder.
- A Jenna sumiu. A Anny e eu estávamos montando uma lista de possíveis lugares em que ela estaria quando a Cat apareceu. Não podemos, em hipótese alguma, falar sobre isso na frente dela.
Kyouya franziu o cenho.
- Um dia eu te explico. Por enquanto, nós precisamos dar um jeito de procurar a Jenna sem preocupar a Cat. – ela olhou para a cozinha e viu que Anastácia conversava com a loira – Vamos ter que montar dois times. Um vai ficar aqui com a Cat e o outro vai tentar localizar a Jenna. – ela viu Kyouya concordar com a cabeça – Vamos ter que juntar o máximo de informações possíveis em um tempo recorde. Especialmente porque ela pode ter ido para algum lugar que não conhecemos.
Jenna sentiu o estômago se contorcer de fome. Aparentemente, as pessoas que estavam lá já tinham comido, porque ninguém perguntou sobre o almoço. Ela olhou o relógio. O tempo tinha passado depressa. "Uma hora da tarde já… Definitivamente, eu devia ter comido em algum lugar", ela suspirou. Então o dono da casa foi até a garota, estendendo uma porção de amendoins coloridos para ela. A morena agradeceu. Ele sorria de canto ao falar.
- Logo mais vamos almoçar. Já comeu alguma coisa? – ela negou com a cabeça, de forma que ele continuou – Espero que goste de peixe assado.
Ela sorriu de volta, concordando com a cabeça. O homem pareceu que ia dizer alguma coisa quando uma senhora o chamou.
- Nathan. Nathan, querido, venha cá.
O homem se desculpou com Jenna e foi ver o que a senhora queria. A garota sorriu de canto. Provavelmente era uma avó, ele não tinha nada por que se desculpar. Na verdade, ela achava que quem devia desculpas era ela mesma, por ter se intrometido no compromisso dele sem grandes explicações. Ela suspirou e começou a beliscar os amendoins. O chá tinha acabado, mas ela não sentia coragem de pedir mais. Sentia-se deslocada no ambiente. Achava que devia ir embora, mas não queria voltar para a rua.
À mesa do almoço, Jenna sentou-se ao lado de Nathan. Fitava sempre o prato, sem coragem de olhar para as pessoas em volta. Sabia que não pertencia àquela situação, àquele lugar. Os olhares constantes que ela sentia comprovavam isso. Então, depois que o prato principal tinha sido servido, ela ouviu a voz da senhora de antes lhe chamando. Como não tinha sido apresentada, a senhora a apelidou de "intrusa".
- Vovó…! – Nathan protestou. Jenna riu de leve.
- Tudo bem, ela tem razão. Eu… Eu realmente não devia ter aparecido sem avisar…
A senhora riu.
- Gostei dela. Diga-me, como se chama?
Jenna pareceu levemente surpresa, mas sorriu ao responder.
- Jenna. Eu estudo na escola em que Nathan trabalha. – ela engoliu em seco. Estaria falando demais? – Desculpa, eu realmente devia ir embora. – ela fez menção de se levantar, mas a mão de Nathan em sua perna a deteve.
- Fique. Por favor. – ele tinha a voz suave e ela sentiu as bochechas ficarem rosadas, concordando com a cabeça. Nathan sorriu.
- Ora, então vocês estão mesmo saindo. – uma mulher, sentada a algumas pessoas de distância, sorriu com uma leve malícia para Nathan. Jenna se perguntou quem ela era.
- Isso não é da sua conta, Marrie. – ele revirou os olhos.
- Claro que é, priminho. – ela engoliu um pedaço de peixe antes de continuar – Vocês têm o que? Quase dez anos de diferença? – ela estava visivelmente se divertindo. Jenna se encolheu por instinto.
- Cinco. – Nathan a corrigiu com um tom seco.
Jenna olhou do professor para a prima. Eles eram realmente parecidos. Os olhos dourados e destemidos, o cabelo entre loiro e ruivo, a pele clara, os gestos firmes, os ombros largos. Apesar disso, Nathan exalava masculinidade, enquanto a mulher tinha um ar sofisticado e feminino. Eles eram, ao mesmo tempo, iguais e diferentes. Jenna sorriu de canto com a constatação.
- Desculpe por isso, Jenna. Marrie não sabe não constranger os outros. – ele tinha o tom suave de quem não precisa se esforçar para deixar os outros confortáveis.
Jenna viu Marrie revirar os olhos e se voltar para a conversa do outro lado da mesa.
- Marrie e você são farinha do mesmo saco, Nathan querido. – a avó apontava para ele com o garfo enquanto falava – Você só quer impressionar a garota. – a mulher tinha um sorriso divertido no rosto.
Nathan suspirou.
- Podemos, por favor, falar de algo que não seja eu? – ele olhou com súplica para a vó, que riu e concordou.
Jenna riu de canto. De repente, sentia-se perfeitamente confortável ali.
Hana dirigia apressada pelas ruas da cidade, parando de vez em quando por causa de um farol fechado ou por terem chegado a algum lugar em que iam procurar por Jenna. Kyouya ia no banco do passageiro. Atrás, Kaoru, John, Mei e Hani se espremiam para conseguirem ir sentados adequadamente. Em um dos faróis fechados, Hana olhou para John pelo retrovisor. O sorriso da garota fez o rapaz tremer levemente.
- Diga-me, John. – ela tinha tornado a olhar para a rua ao falar – Por que você pareceu tão enciumado outro dia quando conversamos sobre a Cat?
John levou um tempo para entender. Kaoru olhava sem entender de John para as costas do banco de motorista.
- Eu não estava enciumado, ok? – ele suspirou – Só… Preocupado.
- Arrependido. – ela o corrigiu – Seu tom era de arrependimento.
- Tanto faz. – ele cruzou os braços diante do corpo – Podemos nos focar no que realmente importa?
- Bom, daqui para a faculdade não tem muitas paradas, então podemos nos focar nas duas coisas. – ela tinha um tom deliberadamente provocador.
John revirou os olhos.
- É, é. O que você espera que eu diga? – ele tinha o cenho franzido.
- Do que você se arrepende. É um bom começo, não acha? – ela sorriu, fazendo um arrepio correr pelas costas de John – Eu sei que vocês já tiveram uma… "Queda" por nós. Todas nós sabemos. A gente só não sabe quem teve por quem. Bom, sabemos do Frederick agora, mas você e o Ben sempre foram mais difíceis de ler.
Kyouya e Kaoru franziram o cenho, desconfortáveis com a conversa. Mei olhava curiosa para os amigos. Hani parecia não saber o que se passava, distraído com a janela.
- Eu não me arrependo de nada, Hana. Você sabe disso. – John afundou no banco.
- Nesse caso, me diz por quem foi a sua queda platônica antes de vocês se mudarem. – Hana parecia extremamente confortável com a conversa.
John suspirou.
- Você sabe.
Hana sorriu largamente, o que fez Kaoru engolir em seco. Algo lhe dizia que ele não ia gostar da resposta. Quando a garota respondeu, seus orbes cor de mel pararam automaticamente em John, que tinha corado. O moreno odiava falar daquilo. Era passado, afinal de contas. Por que desenterrar? Não era como se ele ainda sentisse alguma coisa além de um sentimento de irmandade. Hana riu.
- Bom, se você gostava da Anny, qual é o seu atual problema com a Cat? – Hana sorria de canto ao perguntar. John revirou os olhos.
- O fato de ela gostar de um idiota que não consegue lidar com os próprios sentimentos.
Kaoru pareceu se ofender, mas não disse nada. Afinal, o que havia para dizer? John estava certo sobre Hikaru ser um idiota que não sabe lidar com os próprios sentimentos.
- Então você se sente na obrigação de protegê-la? Quaaanto cavalheirismo, John. Nem parece você. – ela riu.
- Ta, ta. Eu queria ter sido capaz de gostar dela de volta na época, ok? – John suspirou e se ajeitou no lugar. Como odiava falar daquilo!
- John, o sedutor. – Hana riu. Fazia tempo que não o chamava daquele jeito, o que fez o amigo corar. Tinha se desacostumado com algumas coisas – Sabia que a Anny gostou de você mais ou menos na mesma época que a Cat?
Os olhos do moreno se arregalaram. Aquilo era novidade. Kaoru cerrou os punhos.
- Vocês deviam conversar, sei lá. Quem sabe não acontece alguma coisa? – Hana olhou pelo retrovisor, sorrindo ao ver o desconforto de John e de Kaoru – Afinal, ela não está com ninguém.
- Como se eu não soubesse que ela gosta de outra pessoa agora. – John riu de canto. Sua risada era pesada, desconfortável. Ele não entendia o ponto de Hana e não tinha certeza se queria entender.
- Não importa se ela gosta. Ela não está comprometida. E, mesmo que estivesse, o que uma conversa poderia fazer? – Hana deu de ombros e notou o olhar de Kyouya sobre si. O moreno a dizia para parar, mas ela não ligou – A menos, é claro, que os sentimentos de vocês só estejam… Dormentes.
John revirou os olhos.
- Se te interessa tanto, saiba que, de minha parte, acabou. Satisfeita? Claro que a gente ainda acha vocês atraentes, mas quem não acharia? – ele fez uma pausa ao notar a áurea sombria de Kaoru e de Kyouya, mas logo continuou – Só que isso não significa que eu ainda esteja interessado em vocês desse jeito. E eu sei que vocês também superaram. Ou seu peito ainda aperta quando você pensa no Ben?
Hana revirou os olhos.
- Claro que não. Que pergunta idiota. – ela viu Kyouya se ajeitar no banco de carona, visivelmente desconfortável – Aliás, por que as coisas não deram certo com a ruiva lá?
John precisou de um momento para entender.
- Ah, ela achou que ele tinha se metido em alguma encrenca por causa da cicatriz. Aí, como uma boa garota, ela decidiu que não queria se meter em qualquer encrenca por causa dele e caiu fora. Ele não liga muito, até porque não é a primeira vez. Mas ele também não queria nada sério com ela.
- É, supus. As pessoas deviam parar de nos julgar pelas marcas no nosso corpo. – Hana suspirou – Mas voltando ao ponto que interessa… Você já pensou em trocar uma ideia com o Hikaru? Sei lá, você pode dizer que vai pegar a Cat pra você se ele não fizer nada.
John riu. Não era uma ideia ruim.
