Na faculdade, Hana foi com Kyouya e Mei até o prédio de Artes. Procurariam por algum professor que estivesse por lá para cuidar de algum projeto ou dando alguma aula de reposição. A segunda hipótese era menos provável, mas não impossível. Estavam passando pelo corredor que tinha várias salas de professores quando uma mulher pareceu reconhecer Hana. A morena perguntou se a outra tinha visto Jenna e deu uma descrição rápida de como era a garota.
- Hm… Ela passou aqui outro dia. Foi até a sala do professor Nathan. Acho que a assistente dele está lá. – a mulher sorria. Hana agradeceu e logo o grupo estava diante da sala indicada.
- Oi. Hm, essa é a sala do professor Nathan? Ele está? – a mulher que tinha atendido o trio negou com a cabeça – Sabe onde podemos achá-lo?
- Ele deve estar em casa. – ela franziu o cenho – Eu gostaria que vocês não fossem incomodá-lo.
- Se puder nos dar um telefone…
A mulher interrompeu a fala de Hana.
- Sinto muito, eu não posso passar informações pessoais. – ela tinha um tom sério e distante que irritou a morena.
Kyouya interferiu antes que alguma coisa acontecesse.
- É realmente importante que falemos com ele. A senhorita poderia fazer a ligação para nós? – ele ajeitou os óculos.
Não demorou muito para Hana ter o telefone estendido em sua direção. Do outro lado, alguém repetia "alô" várias vezes.
- Nathan? Professor Nathan? – Hana respirou fundo, continuando quando o homem confirmou – Você sabe onde a Jenna está? Ela veio falar com o senhor alguns dias atrás.
Silêncio.
- Por favor, diga que ela está aí…!
- Ela está. Tem algum lugar para anotar? – ele tinha a voz tranquilizadora e Hana sorriu com satisfação com a pergunta. Quando ela conseguiu papel e caneta, o homem passou um endereço – Apareçam daqui a meia hora e poderemos conversar com calma. – ele desligou e Hana fez o mesmo.
- Ok, parece que conseguimos achá-la. Ligue para Anny. Nós vamos visitar o professor.
Mei concordou com a cabeça. Logo o trio estava a caminho da garagem.
Jenna tinha acompanhado a ligação em silêncio, estranhando que ele tivesse passado o endereço de sua casa sem qualquer preocupação. Quando Nathan se virou para ela sorrindo, a garota se perguntou o que tinha acontecido. As outras visitas já tinham ido embora, de forma que eles poderiam conversar com calma. Nathan se sentou no sofá em frente ao que a garota estava.
- Jenna, por que não me conta o que houve? Acabaram de me ligar perguntando se você estava aqui. – ele tinha a voz suave, mas seu semblante era de preocupação.
Ela abaixou o olhar para as mãos no colo.
- Eu saí de casa sem dizer nada a ninguém. Elas devem ter ficado preocupadas, mas eu não sabia o que fazer. – ela levantou as pernas e as abraçou, ficando como uma bolinha no sofá.
- E por que você saiu assim? O que houve? – ele se levantou e foi até ela, se sentando ao seu lado e colocando uma mão sobre o braço da garota.
Jenna apertou mais os braços ao redor das pernas.
- O senhor não vai gostar se souber…
- Não precisa me tratar desse jeito tão formal, Jenna. – ele a abraçou – E eu sei que você teve um bom motivo. Pode me contar. Vai ficar tudo bem.
Jenna se soltou suavemente e se levantou. Então ela tirou o bolero e abriu as costas do vestido, deixando o tecido cair. Seus seios estavam cobertos pelo sutiã, que escondia também parte das cicatrizes. No entanto, algumas iam até o fim de sua caixa torácica, aparecendo por baixo do tecido. A primeira reação do homem foi cobrir a boca com a mão, mas logo em seguida ele se levantou e passou os braços ao redor da garota. O silêncio pesava, mas não havia palavra capaz de preenchê-lo. Jenna abraçou o homem de volta.
- Eu não vou perguntar o que houve, porque provavelmente foi há tempo demais e não há o que fazer. – ele soltou o abraço apenas o suficiente para olhar a garota nos olhos – Mas elas fazem parte de quem você é. Agora elas podem ser um estigma, mas um dia serão apenas marcas. Todos nós temos algumas. Uns mais que outros. Mas isso não te torna menos um ser humano que qualquer outra pessoa. – ele ajeitou o cabelo de Jenna e sorriu de canto – Você ainda é a mesma garota que me encantou, Jenna.
Ela sorriu de canto e o abraçou com força. Então, escondendo o rosto no peito de Nathan, ela se permitiu chorar as lágrimas tão retidas dentro de si. O homem permaneceu em silêncio o tempo todo, apenas lhe afagando os cabelos. Quando ela se sentisse melhor, eles poderiam conversar sobre o que ela quisesse. E, se ela não quisesse contar sobre as cicatrizes, estava tudo bem. Jenna o soltou pouco antes de a campainha soar, ecoando pela casa toda. Ele a soltou e lhe afagou uma última vez os cabelos antes de atender a porta. Jenna se vestiu e se sentou novamente no sofá.
- Ora, ora. Quantos jovens à minha porta. – ele deu espaço para o grupo passar – Creio que o que vocês procuram está na minha sala. – ele apontou o caminho e viu Hana ir quase correndo enquanto fechava a porta.
- Jenna…! Meu deus, Jenna…! – ela abraçou a amiga com força – Graças a deus…!
Mei tinha ido logo atrás e se sentou ao lado da amiga, colocando uma mão gentilmente sobre o ombro de Jenna. Os rapazes ficaram parados na porta, com exceção de Hani, que foi saltitando até as amigas. Ele sorria largamente e estendeu o coelhinho cor-de-rosa para a amiga, que aceitou sem reclamar. Hana a tinha soltado, mas continuava abaixada diante da garota de cabelos tingidos.
- Jenna… – a voz suave de Mei fez o grupo se virar – Por que você… Por que fez isso…?
A outra não respondeu, apenas fitando o coelho de pelúcia.
- Eu sei que ainda te incomoda. – Hana ajeitou uma mecha do cabelo da amiga – Eu também ainda me incomodo. Mas nós estamos com você, Jenna. Você não precisa sofrer sozinha. – ela sorriu de canto – Nós sempre estaremos juntas, lembra? Sempre.
Jenna sorriu, suspirando antes de falar.
- É, eu sei. Eu não devia ter saído daquele jeito. A Cat não sabe, né?
- Bom, nós esperamos que não. Viemos só nós justamente para que ela não percebesse. – Hana se pôs em pé e se espreguiçou – Espero que ninguém tenha contado.
- Se vocês não se incomodam… – ela devolveu o coelho de Hani – Eu gostaria de ficar aqui.
Os amigos se entreolharam e então fitaram o professor, que levantou as mãos na altura do peito, em um gesto de quem se isenta de culpa.
- Por mim… Mas nós sempre podemos deixar o John andando pra você caber no carro. – Hana apontou para o amigo, sorrindo de canto ao falar.
Jenna riu de leve.
- Eu vou mais tarde para casa. Obrigada por se preocuparem. – ela sorria de canto e se levantou ao acabar de falar.
- Bom, nossa missão está cumprida. Aliás… – Hana fez sinal para Kaoru se aproximar.
- Isso é seu. – ele estendeu um aparelho celular na direção de Jenna, que aceitou em silêncio.
Quando o grupo de busca chegou à casa, encontraram os amigos brincando de mímica. Era a vez de Catarina, que parecia representar o Papai Noel. Hana riu, atraindo a atenção da loira. Anastácia fitava o grupo com um misto de esperança e frustração. Quando seu olhar cruzou com o de John, o rapaz corou e virou o rosto. Anny franziu o cenho, sem entender. Kaoru parecia incomodado com alguma coisa. Hani foi saltitando até o primo, parecendo mais alegre e satisfeito que o normal. Mei estava como sempre, mas parecia aliviada. Kyouya…
"Por que diabo parece que ele quer decapitar o Benjamin com os olhos?", Anny se levantou e foi até o grupo. Catarina estava pendurada no pescoço de Hana, que a abraçava de volta com força. John foi até o sofá, ocupando o lugar em que a amiga estava sem dizer nada. Aquilo era estranho. Então Hana, finalmente livre do abraço, indicou a varanda com a cabeça para Anastácia, que concordou. Assim que Catarina voltou para a mímica, as duas saíram.
- Jenna está na casa do professor paquera dela. – Hana se apoiou de costas na varanda – Disse que vem para casa mais tarde.
Anastácia suspirou aliviada.
- Ela saiu por causa daquilo mesmo? – Anny cruzou os braços diante do corpo. Jenna era a que mais sofria com as cicatrizes.
Hana concordou com a cabeça.
- Mas o cara parece bom. Espero que ele consiga fazer o que nós não conseguimos.
"Ajudá-la", Anastácia leu nas entrelinhas. Tinha de concordar. Algumas coisas não estavam mais ao alcance delas.
- E o que há com os rapazes? – ela apontou com o dedão para a sala. Hana riu antes de responder.
- Digamos que… O passado nem sempre fica no passado. Você vai precisar conversar com o John e o Kaoru. Em separado, claro. – Anastácia revirou os olhos com o último comentário. Hana continuou – E como a Cat está?
- Bem. Ela estranhou a saída de vocês depois que o cérebro dela voltou a funcionar. Mas não suspeitou. Pra ela, a Jenna saiu pra namorar mesmo. E vocês foram passear porque eles precisavam esfriar os ânimos. Ou, no caso do Mitsukuni, só por passear mesmo.
- Não é de todo mentira. – Hana deu de ombros.
- Claro que jogarmos mímica ajudou. – Anny sorriu com satisfação. Hana riu de leve. Claro que a ideia era de Anastácia, de quem mais seria? – Mas por que eu acho que os próximos dias vão ser agitados?
- Porque eles provavelmente vão. Não demore muito pra falar com o John. Eles vão embora amanhã, não é?
Anastácia concordou com a cabeça.
- Diz pra ele vir pra cá quando for pra sala.
Hana concordou com a cabeça, se desapoiando da varanda e entrando na casa.
John parou de frente para Anastácia, sem saber o que dizer. Era realmente ruim saber que Hana tinha razão, que ele não tinha superado Anastácia. E se odiava por aquilo. Ele precisava superar aquele sentimento dormente, provocado pela conversa no carro, revirado em sua cabeça. Ele precisava seguir em frente, da mesma forma como ela fizera. Quando a garota abriu a boca para dizer algo, ele se adiantou e a beijou.
Anastácia arregalou os olhos, mas não teve tempo de empurrar o amigo. Ele tinha se afastado antes que ela conseguisse fazer alguma coisa. Então, com as bochechas vermelhas, mas com a voz firme, ele encarou a amiga e quebrou o silêncio.
- Diga que não sentiu nada. – Anastácia tinha a expressão confusa e não respondeu, de forma que ele insistiu – Diga que você não sentiu nada e eu posso ir embora em paz.
- Bom, eu fique realmente surpresa, mas não é isso que você quer saber, não é? – ela franziu o cenho – Sinto muito, John, mas eu não gosto mais de você desse jeito…
O rapaz sorriu satisfeito.
- Tudo bem, eu já sabia. Desculpa, eu não devia ter te beijado. Merda. Eu estraguei tudo, não é? – ele cerrou as mãos e abaixou a cabeça – Desculpa. Merda. Eu vou falar com o Kaoru. Eu explico pra ele. Você não precisa ter dor de cabeça por isso. Merda. Desculpa.
Anastácia não sabia o que dizer. Imaginava, antes de os rapazes se mudarem, que John tinha gostado dela, mas não tinha certeza. Ele mandava muitos sinais contraditórios com frequência. Foi por causa disso que ela não tinha se declarado. E não se arrependia. Não suportaria um relacionamento à distância. Não sabia como faria com Kaoru, mas sentia que sabia lidar muito melhor com a distância.
- Por favor, não fica quieta. – John tinha um tom suplicante ao falar e a fitava como se estivesse perdido.
- Desculpa. Eu não faço ideia do que te dizer, John. Você realmente me surpreendeu. – ela suspirou – Mas…
Ela parou. Não era certo perguntar aquelas coisas depois de tanto tempo, era? Mas ela queria respostas.
- Mas…? – John a incentivou, sem imaginar o que ela poderia dizer.
- O que você teria feito se eu tivesse me declarado para você antes de vocês se mudarem? – ela tinha um tom hesitante.
- Ficado. – a resposta dele, direta e firme, a surpreendeu – Eu teria dito aos meus pais que não ia me mudar. E teria dado um jeito de ficar aqui. De ficar com você. Meu deus, eu faria qualquer coisa que você pedisse. – ele passou as mãos nervosamente pelo cabelo – Meu deus, eu te amo, Anny.
Anastácia corou. O que diabos era aquilo àquela altura do campeonato?
