Kaoru acompanhava a cena da sala, sem saber do que Hana e Anastácia conversavam. Quando ele viu Hana dizendo para John que Anny o chamava, suas mãos se fecharam em punho. Depois da conversa no carro, aquilo não podia acabar bem. Ele viu Anny e John se encararem sentindo o estômago revirar. Quando o moreno se projetou para frente, Kaoru sentiu vontade de vomitar. O ruivo se levantou de repente e foi até o banheiro. Hana apenas o acompanhou com o olhar.
- Os três mosqueteiros! – Mei tinha gritado empolgada, apontando para Hikaru. Hana foi puxada repentinamente de volta para a realidade, para o jogo de mímica.
Hikaru levantou os braços, alegre por alguém ter acertado. Ele não era acostumado com aquilo, então não sabia direito como fazer as mímicas. Hana sorriu de canto. Apesar de tudo, o grupo continuava animado. Kyouya tinha olhado na direção de Kaoru e agora olhava para Hana como se perguntasse o que ela ia fazer. A morena suspirou. O que ela podia fazer? Então ela desviou os orbes para Benjamin, sentado a alguns passos de distância.
"Sentir o peito apertar, não é? Realmente, eu não sinto nada. Mas eu nunca soube de quem ele gostava. A Mei nunca foi chegada em nenhum deles", ela desviou o olhar para a garota, que parecia imitar um coelho. "A Cat e a Anny gostaram do John, que gostou da Anny", ela franziu o cenho. "Ele ainda gosta. A Jenna… Acho que ela também nunca foi chegada neles, mas eu sei que ela aceitaria ficar com algum dos três sem compromisso. Acho até que aconteceu. E o Fred… É, desde quando mesmo? Sei lá, mas aparentemente ele gosta de mim desde um tempão…", ela desviou o olhar para o amigo loiro. "Mas por que ele nunca disse nada…?", ela sentiu alguém sentar ao seu lado, virando-se para ver quem era.
Kaoru tinha as mãos vermelhas. Hana franziu o cenho e segurou em uma. A primeira coisa que ela notou foi a tensão. Quando enlaçou os dedos com os do rapaz, ela sentiu algumas feridas superficiais. Recentes. Ela soltou a mão do amigo e foi até o banheiro. A toalha estava limpa. A pia estava limpa, mas o mármore estava molhado. A morena franziu o cenho. As paredes estavam limpas, o espelho estava inteiro. Ela abriu a tampa do lixo. Alguns pedaços de papel tinham gotas fracas de sangue. "O que ele socou…?", ela passou as mãos nas paredes. Nada. "O que você fez, Kaoru…?", ela voltou para a sala.
John saía da varanda naquele instante e, ao ver a amiga, sorriu de canto. Era um sorriso triste e, ao mesmo tempo, aliviado. Hana entendeu que ele tinha dito tudo o que pensava para Anny e tinha sido dispensado. O moreno ia superar. Ela só esperava que fosse logo. Anastácia, no entanto, continuava na varanda. Hana olhou para os amigos. Benjamin parecia alerta, Frederick estava focado no jogo. "Desligado como sempre", ela revirou os olhos. Nenhum dos alunos estrangeiros pareceu notar algo. Mei e Catarina estavam concentradas no jogo, pelo menos aparentemente.
Kaoru então se levantou e foi até onde John estava. O ruivo não parecia muito feliz, mas quem estaria depois de ver um cara qualquer beijando a garota da sua vida? Hana acompanhou o ruivo com o canto do olho. Viu quando ele puxou o moreno para a cozinha e quase o jogou na parede. John estava sério. Ele entendia perfeitamente as consequências do que tinha feito. Kaoru estava irritado e fechava as mãos com força. Os dois falavam entre os dentes, mas nenhum deles parecia que ia avançar sobre o outro.
Hana se sentou no sofá, ficando dividida entre Anastácia na varanda e os rapazes na cozinha. Sentia o olhar de Kyouya sobre si, mas não se virou. O moreno se levantou e saiu, mas Hana não chegou a ver para onde. Então Anastácia saiu da varanda e foi se juntar ao grupo. Apesar de ter visto os dois rapazes na cozinha, preferiu não fazer nada. Se ela se intrometesse, as coisas só iriam piorar. Ela sentia o peito doer, mas se controlou e se sentou no chão ao lado de Benjamin.
O barulho repentino de alguma coisa se chocando contra a parede atraiu a atenção de todos. Hana e Anastácia se entreolharam e correram para onde Kaoru e John estavam. O ruivo tinha socado a parede ao lado da cabeça do moreno. Hana segurou no braço de John enquanto Anny puxou Kaoru para longe e o fez sentar ao balcão. Quando ela pegou na mão do ruivo para ver o que ele tinha sofrido, o rapaz apenas recuou o braço de forma brusca e virou o rosto para o outro lado. Anastácia se assustou, mas insistiu, pegando-lhe a mão novamente.
- Sai daqui. – Kaoru tinha o tom antipático e mais uma vez se soltou da amiga sem qualquer delicadeza.
Anastácia engoliu em seco, empurrando a vontade de chorar para o fundo de seu estômago. Hana, que analisava John para ver se ele tinha sido atingido, se virou surpresa ao ouvir o tom de Kaoru. Então ela foi em passos largos até o ruivo e o pegou pela gola da camiseta. Kaoru a encarava de volta como quem não se impostava com as consequências. Hana mantinha o olhar. Sabia que Anastácia a olhava como se implorasse para não piorar a situação. Hana não se importou.
- Repete, moleque. – ela falava entre os dentes e fechava a mão com força, apertando a gola ao redor do pescoço de Kaoru.
- Mandei ela sair daqui. – Kaoru tinha um tom pouco amistoso que destoava de seu tom usual.
Hana não pensou duas vezes antes de descer a mão aberta na bochecha do ruivo.
- Quem você pensa que é para falar assim? – a garota estava quase rosnando ao falar.
Kaoru não respondeu.
- Responde! – ela bateu na outra bochecha – Quem você pensa que é pra falar assim com ela, seu moleque?! – Hana gritava, o que pareceu chocar os presentes. Mei e Catarina se entreolharam. Fazia tempo que não viam a amiga descontrolada daquele jeito.
Kaoru continuou em silêncio.
- Hana, ta tudo bem. – Anastácia tinha a voz mais firme do que imaginava e tinha colocado a mão no ombro da amiga. Hana apenas soltou a gola do ruivo e se voltou para John.
- E como você ta?
Aquilo pareceu ser a gota d'água para Kaoru, que apenas se levantou e foi em direção à porta. Quando estava com a mão na maçaneta, a voz de Hana o fez virar.
- Você vai fugir? – ela estava séria e ele sentia como se uma lâmina afiada o atravessasse lenta e dolorosamente.
- Não estou fugindo. – ele falava baixo e tinha fechado a mão com força ao redor da maçaneta.
- Não ouvi, franguinho. – Hana cruzou os braços diante do corpo.
- Eu disse que não estou fugindo. – ele apoiou a testa na porta e soltou o ar pesadamente – Eu… Eu só não vou me perdoar se acabar descontando nela.
- Então vira pra cá e diz isso na cara dela. Vira pra cá e diz tudo o que você quer. Ou você acha que tirar o corpo fora agora não vai ter consequências ruins? – Hana tinha um tom autoritário e encarava Kaoru como se pudesse cortá-lo ao meio.
O ruivo se virou, encontrando com Anny parada ao lado de Hana. A primeira estava visivelmente prendendo o choro, enquanto a segunda provavelmente imaginava vários jeitos diferentes de matá-lo. O ruivo engoliu em seco. O que poderia dizer? Ele repassou algumas cenas mentalmente e sentiu os olhos encherem d'água. O silêncio na casa era sepulcral. Catarina e Mei, próximas ao balcão, pareciam segurar John para que as coisas não piorassem.
Os minutos foram se arrastando.
- Se você não fizer nada, seu riquinho, então eu vou dar um jeito de fazê-la a mulher mais feliz do mundo. – a voz de John quebrou o silêncio como se algo se estilhaçasse no chão, atraindo a atenção de todos. Ninguém esperava que ele se manifestasse. O moreno respirou fundo e continuou – Se você não é homem o suficiente para admitir o que sente pela Anny olhando nos olhos dela, então você não a merece. – ele tinha o tom duro, frio, afiado.
Kaoru deixou o corpo cair para trás, apoiando as costas na porta com um baque surdo.
De repente, nada mais fazia sentido.
- O John tem razão. – Hana se sentou ao balcão e puxou alguns papeis. Correspondência. Ela começou a analisá-los ao continuar – Achei que o que você sentia era forte o suficiente. Que você fosse melhor que o seu irmão em relação a tudo isso. Mas vocês são dois idiotas. – ela apontou com uma carta fechada para o gêmeo mais novo – Você podia ser o príncipe dos idiotas.
- Chega. – a voz de Anastácia saía baixa, mas o grupo todo conseguiu ouvir. Antes que alguém respondesse, ela girou sobre os calcanhares e foi para o quarto. O silêncio foi quebrado pelo som da porta batendo.
- Satisfeito, seu babaca? – Hana estava visivelmente irritada – Olha a merda que você fez. – ela apontou na direção do corredor – Você sabe o que acontece agora?! – ela tinha voltado a falar entre os dentes – Você sabe o quanto isso vai doer nela?!
Kaoru olhava o chão e não respondeu.
- Saco. Essa mania horrorosa de vocês de não responder. – ela largou a correspondência sobre o balcão e se levantou, indo até o ruivo. Ela o encarou por alguns segundo e então o pegou pela mão – Trate de resolver isso. – enquanto falava, ela arrastava o garoto pelo corredor – Porque, se você não resolver, eu juro que arranco sua cabeça fora.
Kaoru engoliu em seco.
Anastácia tinha se apoiado de costas na porta do quarto depois de deixá-la bater. Não conseguia saber o que se passava na sala, mas não fazia questão. Era para ter ficado tudo bem depois que ela disse a John que não queria nada com ele. Então por que as coisas tinham ficado daquele jeito? Por que tudo parecia tão fora do lugar? Por que seu mundo estava ruindo? Por que ela não conseguia impedir?
Ela desencostou da porta com um leve impulso e foi até a cama, onde se permitiu apenas cair. Ficou lá, esparramada, por longos minutos. Queria saber o que Kaoru e John tinham conversado, ao mesmo tempo em que sabia que era melhor não perguntar. Parte dela queria socar Kaoru, enquanto a outra queria afundar o rosto no peito dele e chorar. Ela levantou um braço em direção ao teto e esticou a mão. Sentia que alguma coisa estava lhe escapando aos poucos e ela não conseguisse impedir.
De repente, a porta se abriu e Kaoru foi empurrado para dentro. A garota se sentou de imediato. A porta foi fechada às costas do rapaz, que permaneceu fitando o chão. Anastácia o olhava com um misto de emoções grande demais para entender. O silêncio deles era, ao mesmo tempo, estranho e confortável. Então Kaoru engoliu em seco e foi até a escrivaninha. Puxou a cadeira e se sentou. Anastácia apenas o observava. O ruivo engoliu mais uma vez em seco antes de falar.
- Desculpa falar daquele jeito com você. – ele levantou o olhar para Anny, mas tornou a baixá-lo ao voltar a falar – Eu não queria… Não queria descontar em você.
- O que houve…? – ela tinha a voz suave, reconfortante.
Kaoru fechou as mãos com força.
- O John… O John disse que, se eu não fizesse nada, ele ia dar um jeito de… De fazer você se apaixonar por ele de novo. Ele falou que você tinha deixado bem claro que não queria nada com ele, mas que, se fosse o caso, ele estava disposto a mudar isso. Que tudo dependia de mim. Que, se eu não fizesse nada logo, ele ia voltar a morar aqui só pra ficar com você. – Kaoru tinha começado a tremer e fechava as mãos com força.
Anastácia se levantou e foi até o amigo, abaixando-se diante dele e colocando as mãos ao redor das do rapaz. Kaoru levantou o olhar para ela, mas continuou com o rosto abaixado. A garota podia ver que ele estava a ponto de chorar, sorrindo de canto. "Por que ele tem que ficar uma gracinha até nessas horas…?", ela respirou fundo. Kaoru engoliu em seco. Ele queria dizer mais alguma coisa, mas não conseguia verbalizar.
Anastácia resolveu a situação pressionando os lábios contra os dele em um beijo suave.
