Kyouya estava lendo na cama quando Hana saiu do banho. Ela tinha a toalha na cabeça, esfregando para secá-los mais rapidamente e vestia um pijama relativamente curto. O short ia até pouco acima do meio de suas coxas e a blusa era regata. A garota apenas ignorou o olhar do moreno, que parecia medi-la olhando-a de cima a baixo, e se jogou na cama. Kyouya voltou o olhar para o que lia, se perguntando se não devia comentar alguma coisa.

- Então… – a voz de Hana o fez se virar novamente, encontrando a garota sentada com as pernas cruzadas sobre a cama – Quais são os planos para amanhã?

Kyouya ajeitou os óculos antes de responder, visivelmente desconfortável. Hana sorriu com satisfação.

- Provavelmente a Nanako-san vai nos mostrar mais da cidade. Os outros pareciam realmente empolgados com a ideia. Por que a pergunta?

- Ah, nada de mais. O senhor Williams veio para cá por causa de uma reunião de negócios e vai ficar até o fim do feriado para passear com o filho. Ele me perguntou se eu não queria fazer companhia a eles amanhã. – Hana caiu de costas na cama, fitando o teto com deliberada indiferença.

Kyouya tornou a olhar para o livro em mãos, mas não conseguia mais se concentrar na leitura.

- Então ele teria te trazido para cá se nós não trouxéssemos? – quando a garota respondeu um "acho que sim" indiferente, o rapaz fechou o livro. O desconforto cresceu em seu estômago – Parece que acertamos então. Foi uma boa ideia trazer vocês.

Hana se virou para ele sem entender.

- Mas o que você…? – antes que ela pudesse terminar, o moreno se levantou e foi até a cama da garota, ficando em pé ao seu lado.

- Não acha que já está bom? – ele olhava para ela com uma seriedade que parecia sincera, como se algo o tivesse levado ao desgaste máximo e ele já não suportasse lidar com aquilo mais.

Hana decidiu testar até onde aquilo iria, desviando o olhar do moreno para o teto ao falar. Seu tom era distante e desinteressado.

- Não sei do que você está falando.

Kyouya suspirou e virou o rosto ao responder.

- Apenas esqueça. É melhor irmos dormir, amanhã será um dia cheio. – ele voltou para a própria cama e apagou a luz.

Hana ficou pelo que pareceram longos minutos em silêncio.

- Kyouya…? – ela engoliu em seco. Quando ela ouviu o rapaz se mexer na cama, ela continuou – Eu falei com seu pai hoje. – "Não é isso que você precisa dizer, idiota!", Hana engoliu em seco mais uma vez – Logo depois de ele te apresentar a Nanako. – ela respirou fundo. Kyouya apenas continuava a ouvir em silêncio – Eu… Eu contei a ele o que… O que acho de você. Bom. Mais ou menos. Mas acho que ele entendeu. – ela mordeu o próprio lábio inferior.

A luz se acendeu de repente, o que fez a garota cobrir o rosto por reflexo.

- Venha aqui. – a voz de Kyouya não tinha mais aquele desconforto que ela percebia antes. Hana sentiu as bochechas corarem e agradeceu por continuar cobrindo o rosto – Hana.

Ela tirou o braço de sobre o rosto e respirou fundo. Quando se levantou, ela percebeu que ele tinha ido mais para perto da parede na cama, deixando um espaço livre ao seu lado. A garota sorriu de canto e foi até o rapaz, se deitando ao seu lado. Ele hesitou no começo, mas logo tinha passado um braço ao redor da morena, de forma que os dois ficaram extremamente próximos. Hana conseguia ouvir o próprio sangue circulando. Ela apenas encostou a testa no peito de Kyouya e esperou.

- Você conseguiu conversar sem problemas com ele? – Kyouya tinha um ar levemente preocupado, o que fez a garota sorrir.

- Até que sim. Precisei me esforçar um pouco por causa da diferença cultural e tudo. – ela suspirou – Mas acho que dá pra dizer que correu tudo bem.

Kyouya sorriu de canto.

- Kyouya… – ela engoliu em seco – Como você definiria a nossa relação…?

Ele ficou em silêncio por um tempo que pareceu longo demais para a garota.

- Complicada. – ele fez uma pausa para ver se ela diria algo. Como recebeu o silêncio de volta, ele continuou – Por quê?

- Não acha que a gente devia… Sei lá, mudar isso? – ela afastou o rosto e olhou nos orbes escuros de Kyouya. O moreno tinha um ar pensativo – Eu sei que não é muito fácil pra você. Afinal, você tem várias outras cobranças… Mas… – ela tornou a baixar o olhar e levou uma das mãos até o peito dele – Eu não vejo como isso poderia ser prejudicial…

Kyouya não respondeu. Hana respirou fundo.

- Eu gosto de você. – ela sentiu as bochechas arderem. "Meu deus, por que ainda é tão difícil dizer isso…?!", ela olhou para ele. Kyouya tinha o olhar distante, mas sorria – Eu realmente gosto de você.

Ele baixou o olhar para ela. Ao falar, sua voz saía calma e firme, diferente do que ele achou que aconteceria.

- Eu sei. – ele acariciou a bochecha dela em um gesto hesitante, mas que a garota achou realmente bonitinho. Então o moreno reuniu toda a coragem que tinha naquele momento para fazer o que precisava. Para responder adequadamente. Hana apenas esperava – Eu também gosto de você. – então, sem que nem ele soubesse o que o levou àquilo, ele pressionou os lábios contra os dela.

Hana sentiu o rosto ferver, mas apenas se deixou levar. Aquele era o primeiro beijo de verdade dos dois. Aos poucos, tanto Hana quanto Kyouya foram sentindo o batimento cardíaco desacelerar, voltando ao ritmo normal. Quando os dois se separaram, Hana tinha ainda as bochechas rosadas, mas sorria um tanto largamente e tinha um brilho diferente no olhar. Kyouya sorria de canto e parecia bem mais tranquilo. Ele beijou a testa da morena e apagou a luz.

Hana dormiu profundamente bem naquela noite.


A excursão pela cidade continuou no dia seguinte. O clima no grupo parecia bem mais leve, não apenas por Kyouya e Nanako não estarem mais se alfinetando, mas porque as coisas pareciam ter se ajeitado entre Hana e o rapaz. A garota parecia finalmente apreciar o lugar. Em algum momento, enquanto Nanako explicava sobre o lugar em que estavam, Hana se distraiu com a conversa entre Haruhi e Kyouya. O moreno estava pensativo e Haruhi tinha ido, aparentemente, animá-lo. "Ela deve ter sofrido bastante para se adaptar ao jeito deles, mas… É bom ver que se dão tão bem", Hana sorriu.

- Haaaaana. Terra chamando Hana. – Catarina balançou a mão na frente do rosto da amiga, que se assustou.

- Oi, eu, diga. – ela sorriu para a loira – O que eu perdi?

- Só a sua cara de boba apaixonada. – Anny se divertia com a situação.

Hana corou, mas acabou rindo com o comentário.

- Pelo visto, alguém se acertou com o coração. – Jenna se apoiou sobre o ombro de Catarina, que resmungou alguma coisa em resposta. A garota de cabelos tingidos revirou os olhos e tornou a falar com Hana – E o que exatamente você tinha planejado com a distribuição dos quartos?

- Ah. – Hana parou para pensar um instante, como se escolhesse as palavras certas – Isso não importa mais, eu acho.

Anastácia revirou os olhos.

- Matar o menino do coração por uma noite só já ta bom? Que novidade. – ela tinha um tom zombeteiro.

- Tipo isso. – Hana riu e olhou ao redor. Kyouya fez sinal para a garota se aproximar – Eu já volto.


- O que houve? – Hana se sentou ao lado do rapaz, falando com um tom levemente preocupado.

- Você disse que conversou com meu pai. – Kyouya olhava para o restante dos amigos, acompanhando Haruhi com o olhar enquanto ela passava o recado que ele tinha pedido.

- Bom… Sim. – Hana franziu o cenho. Qual era a relevância daquilo?

- O que acha que ele planeja com tudo isso? – Kyouya desviou o olhar para a garota.

- Ele… Bom, na verdade, eu não tenho certeza. Mas você foi chamado para cuidar da Nanako enquanto seu irmão não chega, não é? – Hana sorriu com certa satisfação quando Kyouya franziu o cenho – Eu perguntei ao Tamaki quem era o Akito-san a que Mitsukuni se referiu quando viemos para cá. Ele me explicou que você é o terceiro filho homem da família.

Kyouya tornou a olhar para frente. Hana fez o mesmo ao continuar.

- Ele ganharia muito mais se colocasse uma equipe de segurança com ela, de preferência com algumas mulheres no meio para evitar fugas. Mas, se ele se deu ao trabalho de fazer o filho mais novo vir até aqui, é porque o interesse está além dela. Ele quer que você perceba alguma coisa. – Hana desviou o olhar para o moreno – Ele quer alguma coisa, mas o casamento foi colocado no caminho. Então ele precisa dar um jeito de anular essa condição.

Kyouya sorriu. As palavras de Haruhi lhe voltaram à mente. "'Não tem como conseguir algo sem sacrificar outra coisa'. De certa forma, é exatamente isso que o casamento significa. Não traz benefício nenhum aos Ootori, mas é um sacrifício que, supostamente, precisa ser feito", ele afagou as mechas negras de Hana e se levantou. A garota estranhou, mas não disse nada. Ainda não entendia o relacionamento familiar de Kyouya para conseguir entender exatamente o que se passava, mas sabia que tinha acertado no que disse. "A questão é o que o Kyouya precisa perceber. Talvez…", mas antes que ela pudesse completar o raciocínio, seu telefone tocou.

Hana se levantou, assustada pelo barulho repentino, e começou a procurar o aparelho na bolsa. O número lhe era estranho, mas ela decidiu atender. No máximo, ela teria de dizer que não se incomodava com um engano. Ela se afastou um pouco do grupo por causa do barulho e levou o aparelho à orelha.

- Senhorita Hana? – a morena reconheceu a voz do outro lado imediatamente.

- Senhor Ootori…! – "O que diabo isso significa…?!" – Como posso ajudá-lo?

- A senhorita pareceu ter uma opinião muito sólida sobre meu filho. Se não se importar, gostaria de almoçar comigo?

Hana gelou. Aquilo provavelmente significava que ela teria de se afastar.

- Adoraria. – ela se esforçava para manter a voz suave, mas sentia que falhava – Onde e a que horas?

- Não precisa se preocupar. – o homem parecia se divertir do outro lado – Vocês estão perto do hotel, não é? Esteja lá em meia hora. Eu a encontrarei no saguão.

Hana concordou e desligou. Ficou um tempo parada, apenas encarando a tela do aparelho em suas mãos. A duração da chamada piscou por alguns segundos e logo deu espaço para a tela inicial. A garota não sabia o que esperar daquele encontro. Talvez tivesse errado ao mostrar tanta confiança quando falou com o homem. "Mas nem foi tanto assim… Foi por causa daquele comentário final…?", ela fechou a mão com força sem perceber. Foi a voz de Tamaki a suas costas que a tirou do transe.

- Hana? Está tudo bem? – ele tinha um tom genuinamente preocupado.

A morena guardou o aparelho na bolsa e se virou, sorrindo para o loiro.

- Não vejo por que não estaria. Eu vou voltar para o hotel.

Antes que Tamaki pudesse protestar, a morena se virou e começou a correr na direção do hotel. Anastácia viu a cena de longe, franzindo o cenho. Alguma coisa tinha acontecido, mas não era culpa de Kyouya ou de Tamaki. Ela tinha percebido a mudança na amiga durante o telefonema. A grande questão era quem tinha ligado e o que tinha sido dito para mexer tanto com Hana. Anastácia decidiu que o melhor era perguntar depois. Naquele momento, ela precisava se focar no resto do grupo, porque Hana não falaria. Ela tinha o estado de quem se fechava atrás de muros grossos.


- Anny! – a voz de Jenna fez a garota se virar – Vamos tomar milk-shake, vem com a gente? – a garota de cabelos tingidos apontava para si e os gêmeos atrás. Catarina tinha escutado a pergunta e logo se manifestou.

- Eu quero! – a loira logo se juntou ao trio, animada.

Anastácia sorriu, concordando. Ela olhou uma última vez na direção em que Hana tinha ido e foi se juntar aos amigos. "Concentre-se no que você pode fazer agora", ela fechou brevemente uma das mãos em punho. Uma vez que os cinco se puseram a andar, ela sentiu Kaoru passando o braço ao redor de seus ombros, o que a fez sorrir de canto. O ruivo sorriu de volta com um ar tranquilizador. Aparentemente, ela não tinha sido a única a estranhar a atitude da amiga.