Hana sentia-se desconfortável desde que entrara no carro enviado pelo pai de Kyouya. Tinham ido a um restaurante não muito longe, apenas distante o suficiente para terem a privacidade que o homem desejava. Durante todo o caminho, o silêncio no carro tinha sido absoluto e a garota se sentia oprimida por uma força que não conhecia. Quando a garçonete perguntou o que ela iria querer para tomar, Hana apenas balbuciou um "água" hesitante, ficando com o olhar fixo no prato diante de si o tempo todo.
Yoshio mantinha-se quieto, analisando a garota. Hana engoliu em seco. Finalmente, o homem decidiu quebrar o silêncio.
- Você disse que é uma aluna da universidade americana em que meu filho está estudando esse ano.
Hana levantou o olhar para o homem e concordou com a cabeça.
- Você me parece bastante jovem para estar na faculdade.
Hana engoliu em seco. O sorriso do homem não transmitia emoção nenhuma.
- Agradeço o elogio, senhor.
O homem ia dizer algo, mas a garçonete tinha voltado para a mesa com as bebidas. Yoshio olhava para Hana como se a analisasse o tempo todo. A garota fechou as mãos com força sobre a saia. Olhando ao redor, ela conseguia ver os seguranças espalhados pelo restaurante. Aquilo era estranho para ela. Era realmente difícil se sentir confortável com tantos olhares estranhos voltados para si. Foi a voz do pai de Kyouya que a trouxe de volta à realidade.
- Eu adoraria saber o motivo pelo qual a senhorita parece ter um interesse especial em meu filho Kyouya. – ele se servia da bebida tranquilamente ao falar – Lembro-me de a senhorita ter dito algo sobre… – ele desviou o olhar para ela, colocando a garrafa de vinho sobre a mesa – Uma garota apaixonada.
Hana baixou os olhos. Se fosse o que ela estava pensando, aquilo era ruim. Ela fechou as mãos com mais força e respirou fundo antes de responder. Ela mal tinha se acertado com Kyouya ainda e já estava sendo questionada pelo… "Eu já posso chamá-lo de sogro? Meu deus, por que isso parece errado?", ela levantou o olhar para o homem a sua frente. Os orbes escuros dele eram frios e duros e Hana sentiu um forte impulso de se levantar e sair correndo.
- Eu… – ela hesitou. "Isso não foi tão difícil ontem. Por que tem que ser agora?" – Eu realmente me importo com seu filho, senhor Ootori. – ela sentia que estava falando depressa demais e mais do que devia, mas as palavras continuavam saindo – E vejo nele um grande potencial para qualquer coisa que ele decida fazer. Eu imagino que o senhor também veja, porque o chamou até aqui. Não acredito que faria isso se a experiência não fosse ajudar o Kyouya a crescer também. Deixá-lo com alguém que pode fazer com que ele perca a paciência tão facilmente pode ter consequências boas ou ruins e o senhor fez uma aposta alta com isso. – ela engoliu em seco – Mas, ao mesmo tempo, tem segurança dos resultados.
Yoshio sorriu com satisfação.
- Vejo que, apesar de tudo, meu filho ainda sabe escolher bem as companhias.
Hana sentiu certo alívio com as palavras, mas ainda não se sentia completamente confortável.
- Não foi apenas por isso que o senhor me chamou, não é…? – ela abriu lentamente os dedos sobre a saia, controlando a vontade de se levantar e sair. O ambiente a sufocava e ela não sabia exatamente o motivo.
- Ora, apenas fiquei curioso por saber que tipo de garota teria conseguido tanta atenção de meu filho mais novo. – o homem parecia se divertir com alguma coisa. Hana supôs que fosse ela – Afinal, não é sempre que se vê esse tipo de coisa.
- É verdade. O Kyouya é uma pessoa muito séria e dedicada. – ela abaixou o olhar para o prato novamente, mas sorria de canto ao falar – Isso faz com que muitas pessoas o vejam como uma pessoa fria. Apesar de ele não ser impulsivo como os amigos, ele ainda é uma pessoa e merece a devida consideração.
Yoshio ficou em silêncio. Hana achou tê-lo ouvido suspirar, mas não levantou os olhos.
- O senhor provavelmente espera que ele faça tudo em prol do benefício que isso traria à família. Eu espero estar errada, porque uma vida assim… – ela tornou a fechar as mãos, enrugando ainda mais o tecido, e levantou o olhar para o pai de Kyouya – Uma vida assim seria uma vida muito triste. Eu não entendo como são as coisas no mundo de vocês, mas não acho que o prestígio familiar seja a única coisa que importa. Arriscando ser atrevida… Espero que o senhor entenda isso. E espero que seja logo.
Yoshio tinha um ar de indiferença, mas Hana não se importou. Já não se importava com o que o homem decidisse a seu respeito. Ela tinha decidido que iria até o fim em suas escolhas. E ela tinha escolhido ficar ao lado de Kyouya independentemente das dificuldades. Ela sorria de canto enquanto esperava que servissem o prato que o homem tinha escolhido. Ele ainda a olhava como se a analisasse, mas não tinha mais o olhar tão duro e frio quanto antes. Hana interpretava aquilo como um bom sinal.
- E por que acha que uma vida assim seria muito triste, senhorita?
- Porque não se busca ser realmente feliz ao se fazer tudo pensando na imagem que a sociedade tem ou nos negócios de família. Apenas se busca aumentar o status social e isso nunca é suficientemente satisfatório.
Yoshio arqueou uma sobrancelha, mas também sorria de canto. "Ele escolheu alguém realmente interessante. Ele não para de me surpreender", o homem olhou ao redor. "Não esperava que ele fosse encontrar alguém que o interessasse em Boston. Mas parece que me enganei. E justamente alguém que não se importa com nada disso… Quem diria…", ele tornou a fitar Hana, que tinha começado a comer. "Essa história será realmente interessante", ele logo tinha começado a comer também.
O restante do almoço, em sua maioria, se passou em silêncio. Mas era um silêncio confortável, que indicava que as duas partes estavam em paz, que tinham se entendido.
Anastácia estava sentada ao lado de Kaoru na lanchonete que eles tinham escolhido para ir. Do outro lado estava Catarina, seguida por Hikaru e Jenna. A loira parecia confortável, exceto quando acidentalmente esbarrava em Hikaru. Nessas horas, ela corava e se virava para o outro lado. Hikaru passava a fitar as mãos no colo. "Tão bonitinhos nesse projeto de relacionamento", Anastácia sorriu.
- Bom, aqui estão os pedidos de vocês. – a garçonete se aproximou sorrindo e começou a distribuir as bebidas. Quando entregou o de Kaoru, que foi o último a receber, a mulher sorriu mais largamente – Espero que gostem.
Anastácia revirou os olhos.
- Meu milk-shake não era de morango. – Kaoru empurrou o copo na direção da garçonete. Apesar do comentário, ele não tinha um tom agressivo.
A mulher riu sem jeito e colocou o copo na bandeja.
- Desculpe, querido, foi um engano. Já trago o pedido certo.
Anastácia acompanhou a garçonete se afastando com os olhos e então se virou para Kaoru. O ruivo tinha o olhar distante, parecendo pensativo. Hikaru tinha tomado metade da bebida já quando decidiu quebrar o silêncio que se formou na mesa. Ele abaixou o copo e olhou para o irmão e Anastácia.
- Você ta legal, Kaoru?
O mais novo suspirou.
- Não gosto quando as pessoas ficam emanando esse ar cheio de segundas intenções. – ele afundou mais na cadeira.
Anastácia olhou de um gêmeo para o outro.
- Espero que ela não venha com aquele sorrisinho de quem acha que vai conseguir alguma coisa de novo. – Kaoru suspirou.
Em pouco tempo, a mulher tinha voltado.
- Aqui está, querido. Desculpe pelo…
Kaoru se sentou direito repentinamente, assustando a mulher.
- Você pode parar com isso? É desagradável. Eu estou aqui apenas pela bebida. – ele tinha o cenho franzido ao falar.
A mulher se desculpou e se apressou em sair.
- Não precisava ter falado desse jeito. – Anastácia tinha o tom controlado ao falar.
- Ela não precisava ficar dando em cima de mim. Aposto que você não gostou também.
Anastácia tossiu algumas vezes antes de responder. O comentário de Kaoru a pegou desprevenida, a fazendo engasgar.
- Você está insinuando que falta confiança. – ela revirou os olhos. Realmente não tinha gostado da atitude da atendente, mas não achou que Kaoru fosse se deixar levar em momento algum.
O ruivo soltou o ar pesadamente e logo se pôs a beber o milk-shake. De repente, o ar na mesa era sufocante.
Kaoru e Hikaru conversavam sobre alguma coisa enquanto esperavam na fila para pagar. As garotas tinham ido olhar os quadros pendurados nas paredes. Quando chegou a vez dos gêmeos, Kaoru foi quem começou a falar com a mulher que estava no caixa. Diferentemente do que o irmão esperava, o mais novo parecia animado e conversava sem problemas com a atendente. Hikaru franziu o cenho.
Anastácia tinha se virado para falar alguma coisa com Catarina quando viu Kaoru rindo de algo que a mulher que os atendia tinha dito. A morena franziu o cenho. Aquilo não parecia fazer nenhum sentido considerando a atitude do ruivo antes. Então o que estava acontecendo? Ela apenas respirou fundo e voltou ao passatempo que as três tinham encontrado. Quando os gêmeos acabaram de acertar a conta, Hikaru chamou pelas amigas.
No caminho de volta, Kaoru manteve o tempo todo as mãos atrás da cabeça ou nos bolsos da calça. Anastácia não sabia o que entender daquilo. Ele queria perceptivelmente provocá-la. Mas por quê? Só por causa do comentário sobre a forma como ele tratou a atendente? Anastácia revirou os olhos. Se fosse, seria muita infantilidade. "E o que você esperava de um cara dois anos mais novo que você?", ela suspirou. Kaoru desviou brevemente o olhar para ela, mas não fez mais nada.
- Jenna. – a voz de Catarina saía baixa e ela tinha segurado a amiga pelo braço. Quando a morena se virou para ver o que tinha acontecido, a loira continuou – Por que de repente parece que a Anny e o Kaoru estão brigados?
- Porque ele é um idiota. – Jenna acariciou a cabeça da menor – Mas vai ficar tudo bem. A Anny não é esquentadinha como a Hana. Vai saber lidar bem com a situação.
Catarina sorriu, sentindo-se reconfortada. Ainda assim, ver a distância repentinamente grande entre Kaoru e Anastácia a deixava hesitante. Ela desviou o olhar para Hikaru e depois para Jenna. Nenhum dos dois parecia preocupado com a situação. "Tudo isso é confiança de que eles vão se resolver logo…?", Catarina se soltou da amiga de cabelos tingidos e foi até Anastácia, que sorriu ao ver a loirinha.
Quando o grupo todo voltou a se reunir – com exceção de Hana, que ainda não tinha voltado –, Hikaru pareceu estranhar alguma coisa. Quando Haruhi perguntou o que tinha acontecido, o ruivo olhou ao redor antes de responder. Mas ele apenas confirmou o que pensava. Hana não estava lá e ninguém parecia preocupado. E aquilo era preocupante.
- Cadê a atacada da Hana?
Catarina olhou confusa para o ruivo, mas logo percebeu que ele tinha razão.
- Ela não tava com a gente quando viemos pra cá?! – ela tinha um tom preocupado.
- Ela disse que ia voltar para o hotel. – Tamaki tinha um tom de quem não entendia o problema.
"Voltar para o hotel?", Anastácia, Kaoru e Kyouya se entreolharam.
- Ela disse o motivo? – o tom de Anastácia era levemente alarmado.
Tamaki negou com a cabeça.
- Merda. – Kaoru cerrou os punhos – Por que ela sempre complica as coisas?
- Kaoru, se acalme. – Anastácia tinha um tom autoritário que pareceu irritar o rapaz.
- Acalmar?! Sua amiga acabou de dar no pé sozinha!
Anastácia suspirou.
- É, eu a vi correndo como se não houvesse amanhã. Você também viu. – "Só não imaginei que ela estivesse mesmo voltando sozinha" – O melhor que podemos fazer é manter a calma e nos separarmos para procurar SE ela não atender ao telefone.
Kaoru suspirou.
Hana pediu licença e se retirou da mesa quando o telefone tocou. Era Anny ligando.
- Onde diabos você se meteu?!
- Eu… – Hana hesitou. Talvez não fosse uma boa ideia dizer que estava com o pai de Kyouya – Eu estou perto do hotel. Desculpa sair sem avisar.
- E sozinha, né?! Cabeçuda! Não faz mais isso! – Anastácia tinha um tom aliviado apesar de estar perceptivelmente brava.
- Anny, o que houve?
Silêncio.
- Seguinte. – Hana conferiu a hora – Eu vou voltar pro hotel, aí a gente conversa. Pode ser?
Anastácia suspirou e concordou. Então as duas desligaram e Hana voltou para a mesa.
