Hana tinha ido até o quarto de Anastácia para as duas conversarem, já que Kyouya tinha combinado uma reunião no próprio quarto sobre o plano de Tamaki a respeito de Nanako. Anastácia estava sentada na própria cama, enquanto Hana tinha se jogado sobre a de Kaoru. As duas pareciam preocupadas com algo, mas Hana foi a primeira a perguntar o que tinha acontecido.

- Eu meio que briguei com o Kaoru hoje. – Anastácia suspirou – Fomos tomar um milk-shake pouco depois de você sair. A garçonete ficou de gracinha pra cima dele e ele ficou irritado.

- E você? Fez o que? – Hana tinha deitado de bruços e balançava as pernas, que estavam dobradas para cima. A bota estava no pé da cama.

- Eu fiquei quieta, ué. Eu sabia que ele não ia ficar de graça de volta. Mas aí, na hora de pagar, ele ficou de gracinha com a mulher que tava no caixa. E ainda fez parecer que a culpa foi minha.

- Anny, qual é, você sabe que é meio sua. É mais dele por ser idiota, mas você sabe o que levou ele a fazer isso.

Anastácia suspirou. Ela sabia a resposta, mas não queria dizer.

- Você não ficou com ciúme. Não deu a atenção que ele queria. – Hana se sentou na cama de pernas cruzadas e fitou a amiga – Como um bom menino, ele fez o que foi preciso pra ter atenção. Ele precisava que você se incomodasse. E ele sabia que você ia ver se ele ficasse de gracinha. Mesmo que vocês não estivessem na fila com ele. Você ia virar, nem que fosse pra conferir se já era a vez deles. Mas, quando você não se mostrou incomodada e, como uma boa mulher, não correu atrás, ele se sentiu inseguro. Ele provavelmente esperava que você fosse agir como uma boa garota e ficar de manha pra cima dele depois de ver a cena no caixa.

Anastácia se deixou cair de costas na cama.

- Qual é, você realmente precisava que eu te dissesse tudo isso? – Hana tinha um tom descrente.

- Mais ou menos. – Anny suspirou – Eu imaginei que fosse isso, mas ouvir de alguém confirma.

Hana soltou uma risadinha.

- Claro que é isso. Depois do rolo com o John, como vocês ainda não assumiram compromisso, ele deve estar morrendo de medo de que aconteça alguma coisa e ele te perca. Vocês deviam conversar.

- Bom. – Anastácia tornou a se sentar e olhou para a amiga – E você? O que ficou fazendo?

- Ah, eu… – Hana desviou o olhar, vasculhando o quarto em algum ponto para se focar – Eu… Fui almoçar.

- Almoçar com quem, Hana?

Hana suspirou.

- O pai do Kyouya.

- Você fez o que? – a voz de Anastácia subiu alguns tons por causa da incredulidade.

- Shhhhhhhh. Que droga, Anny! – Hana afundou o rosto no travesseiro – Ele me chamou para almoçar, disse que queria conversar. E eu fui, ué. Mas foi legal até. Apesar de achar que ele não tem lá a melhor das imagens sobre mim. Eu ganho pontos por tê-lo conhecido quando estava com o Matheu?

Anastácia ria um pouco com o desespero da amiga.

- Olha, até pode ganhar. Sei lá, se ele achar que é maturidade da sua parte. Você explicou por que estava com o menino?

Hana assentiu com a cabeça e fez um resumo da conversa.

- Olha, talvez você tenha dito um pouco demais. – Anastácia suspirou – Mas agora já foi. E você já falou com o Kyouya?

- Também acho que saiu demais, mas até parece que eu tava pensando muito na hora. – Hana revirou os olhos – E ainda não. Achei que seria mais importante ver como você estava antes.

- Então fale logo, porque, se ele descobrir pelo pai…

Hana suspirou.

- To sabendo. Eu vou falar.

Naquele momento, alguém abriu a porta. As duas se viraram imediatamente, encontrando uma Catarina agarrada à própria mala e um Kaoru levemente surpreso atrás. Hana franziu o cenho. "Se a Cat ta aqui, isso significa…", ela se levantou e foi até o ruivo. Antes que alguém pudesse protestar, ela o puxou para o corredor. Sua voz saía brava, entredentes, com uma raiva contida, mas quase palpável ao mesmo tempo.

- Nem pense em mudar de quarto.

Catarina tinha se juntado à Anastácia e as duas observavam da porta.

- Por que não? – Kaoru parecia não se abalar.

- Porque, moleque – Hana sentia certa satisfação ao chamar o ruivo daquele jeito –, vocês vão conversar, se entender e voltar à relação de sempre. Você não vai tomar nenhuma decisão enquanto não sentar e conversar com a Anny.

Kaoru revirou os olhos e passou por Hana. Anastácia suspirou.

- Suas coisas estão exatamente onde você deixou. – Anny se deitou na cama e pegou um livro para ler.

Kaoru parou no meio do caminho. A indiferença na voz de Anastácia o tinha atravessado como uma lâmina afiada. E aquilo doía. "Por que parece que ela desistiu de se importar…?", ele olhou por cima do ombro para a morena e suspirou. Hana continuava na porta, com os braços cruzados diante do corpo e encarando o ruivo. Catarina tinha se apoiado na parede, olhando de um para o outro dos amigos. Kaoru suspirou de novo após alguns minutos e se virou para o trio.

- Desculpa te meter nisso, Cat. – ele sorriu pra loira.

- Então não vamos trocar de quarto? – ela tinha um tom levemente animado que fez o peito dos outros apertar.

- Não, não vamos. – Kaoru pegou as botas de Hana e levou até ela sem dizer nada.

Hana pegou os sapatos e saiu do quarto com Catarina atrás.

- Ta tudo bem entre eles? – a loira tinha um tom curioso que era quase infantil.

Hana sorriu e afagou os cachos da amiga.

- Vai ficar.

Catarina sorriu de volta.


Kaoru se sentou na cama, olhando Anastácia com uma expressão emburrada.

- Olha… – a garota baixou o livro e virou o rosto para o ruivo – Você não precisava ficar inseguro só porque eu não fiquei com ciúme.

Kaoru desviou o olhar, mas não respondeu.

- E você definitivamente não precisava ficar de gracinha com a mulher no caixa. – Anny se sentou, sorrindo de canto ao acrescentar – Foi tudo por que você queria atenção?

Kaoru resmungou alguma coisa. Anastácia riu de canto e foi até o rapaz, colocando uma mão sobre as mechas ruivas e lhe acariciando. Ele sorriu de canto, passando os braços ao redor da cintura da garota e a puxou para perto. Anny retribuiu passando os braços por cima dos ombros de Kaoru e continuou a lhe afagar o cabelo.

- Eu fui um idiota, eu sei. – ele tinha um tom arrependido ao falar.

- Foi mesmo. – ela sorria e seu tom de voz deixava isso claro.

- Mas eu realmente achei que você não se importava.

- Eu sei. É claro que eu não gosto que fiquem de gracinha em cima de você, mas eu confio em você, Kaoru. Eu sei que você não vai fazer bobagem.

O ruivo afrouxou o abraço e levantou o rosto. Anny abaixou para poder olhar o garoto nos olhos.

- Eu acho que devíamos definir que tipo de relação vamos levar. – Anastácia apertou levemente a bochecha de Kaoru, que grunhiu alguma coisa em resposta apenas de brincadeira.

Quando a garota riu, ele sorriu de canto.

- Eu também acho. Então… – ele fingiu parar para pensar por um instante, apesar de já saber o que queria – Aceita namorar comigo?

Anastácia, apesar de ser exatamente o que queria ouvir, corou com a pergunta, mas sorria largamente ao responder que aceitava.


Hana estava deitada na própria cama, lendo uma revista que era oferecida na recepção do hotel enquanto esperava Kyouya sair do banho. A garota pensava em como ia introduzir o assunto sobre o almoço que tivera com o pai do rapaz. E como contaria o que aconteceu. "Acho que é mais fácil falar tudo de uma vez. Dizer que eu aceitei porque… Bom, eu aceitei porque sou curiosa, mas essa não parece uma boa justificativa", ela suspirou. Aquilo seria mais difícil do que ela achava.

Kyouya saiu do banheiro com a toalha nos ombros e o peito descoberto. Hana apenas afundou o rosto na revista, maldizendo o rapaz mentalmente. "Ele tem que ajudar MUITO ainda por cima, né?! Meu deus! O que eu fiz pra merecer isso?!", ela se virou para o lado oposto ao que Kyouya estava, respirando fundo. O moreno pareceu notar.

- Algum problema, Hana?

"Ah, ta. Nunca me chama pelo nome. De repente, parece que adora! Meu deus, por que logo comigo?! Eu não podia gostar de alguém mais fácil de entender?!", ela respirou fundo e se virou para Kyouya. Estava determinada a falar sobre o almoço quando percebeu que ele ainda tinha o peito descoberto. Imediatamente, ela sentiu o rosto ferver.

- Põe uma blusa, droga! – ela jogou o travesseiro no moreno, que apenas se desviou. Hana afundou o rosto no colchão.

Kyouya sorriu de canto.

- Incomoda tanto assim? – ele se abaixou para pegar uma garrafa de água no frigobar.

- I-incomoda! Põe alguma coisa! – Hana sentia vontade de levantar e bater no rapaz.

Kyouya riu levemente com a resposta. Hana pareceu surpresa. "Ele… Riu? Ok, isso é um progresso. Ele me chama pelo nome e ri. Da minha cara, ok, mas é alguma coisa. Não é? Meu deus, por que eu não me apaixonei por alguém menos complicado?!", ela suspirou. Era melhor falar de uma vez.

- Eu almocei com o seu pai. – "Isso, idiota, fala assim mesmo. Como se você tivesse convidado o coroa pra comer. Arruma isso" – Digo, ele…

Kyouya tinha se levantado e encarava Hana com desconforto.

- Por que você almoçou com o meu pai?

- Ele… Ele me convidou e disse que… – ela engoliu em seco – Disse que queria conversar sobre… Ele disse algo sobre eu ter uma opinião… – "Cala a boca! Muda isso!" – Uma opinião muito sólida sobre as coisas e ele ficou interessado.

Kyouya se manteve em silêncio.

- Eu pensei em recusar, mas…

- Por que não recusou? – o tom dele era distante e Hana não conseguiu identificar nenhuma emoção.

- Eu queria entender o motivo de ele ter te chamado aqui. – Hana suspirou – Achei que seria melhor se eu te contasse em vez de você descobrir pelo seu pai.

- Então por que não me avisou antes? – Kyouya desviou os orbes negros para a garota, que sentiu um arrepio lhe correr pelas costas.

- Porque eu achei que você tentaria me impedir. – ela engoliu em seco – Eu achei que você não ia querer que eu tivesse qualquer contato com o seu pai.

Kyouya não respondeu.

- Eu sei que ele é exigente. Se não fosse, você não se esforçaria tanto. – ela baixou os olhos para as próprias mãos. Sentia-se nervosa, como se algo muito ruim estivesse para acontecer – Eu… Eu não acho que você acredite… – "Ta ficando confusoooo. Respira fundo, se acalma e começa de novo". Hana respirou fundo antes de continuar – Você não acredita que ele vá aceitar nosso relacionamento, não é…?

Kyouya parou com a garrafa a meio caminho da boca. Ele não se lembrava de ter dito nada a respeito. Os outros integrantes provavelmente não falariam também. A menos que o pai tivesse dito alguma coisa a respeito – seria improvável, mas não impossível –, ele não entendia de onde Hana podia ter tirado a ideia. Ele fechou a garrafinha de água e calmamente perguntou por que ela achava aquilo.

- Porque… Senão esse tipo de coisa não seria tão mais difícil para você. – ela levantou os olhos para o rapaz, se surpreendendo ao ver que ele tinha caminhado até a cama dela – E-eu… Eu talvez tenha falado alguma coisa…

Kyouya não a deixou terminar. Antes que Hana pudesse reagir, ele tinha se abaixado e lhe beijado. Não como na noite anterior, mas um selinho demorado. Quando o moreno se afastou, a garota precisou respirar fundo. "Por que de repente isso parece tão natural pra ele?! Por que essa inversão de papéis?! Isso é errado! Errado! Muito!", ela respirou fundo mais uma vez e olhou para Kyouya, que vestia a blusa do pijama.

- Não importa o quanto você disse a ele. Importa o que ele vai criar a partir disso. Então me diga, sobre o que vocês conversaram? – Kyouya tinha um ar sério, o que facilitou para Hana.

A garota se ajeitou sobre a cama e contou sobre o almoço, sem deixar nenhum detalhe de fora. Kyouya ouvia tudo com paciência, em um silêncio profundo. Vez ou outra, ele franzia o cenho, mas não interrompia o relato. Quando a garota terminou, o moreno ainda ficou alguns minutos pensando. Por fim, ele apenas se levantou e foi até a garota, lhe afagando as mechas escuras. Estava receoso de que o pai tentasse usar a garota para conseguir que ele fizesse alguma coisa, mas o que estava feito estava feito. Hana talvez devesse ter falado menos. "Mas ele gosta de desafios e… Bom, ela é um desafio. Vai contra muito do que a família Ootori segue. Especialmente a parte de pensar várias vezes antes de agir", Kyouya tornou a se sentar na cama. "Vai ser interessante ver como ele vai lidar com isso", o moreno sorriu de canto.

- O que foi…? – Hana engoliu em seco ao ver o sorriso do outro.

- Nada. Apenas vá dormir. Amanhã é nosso último dia em Barcelona e você não parece ter aproveitado muito. – ele se ajeitou na cama e esperou que ela fizesse o mesmo antes de apagar a luz.

Hana se manifestou após alguns minutos de silêncio.

- Kyouya… – ela recebeu um "hm" em resposta, de forma que continuou – Como você definiria a nossa relação…?

Ele sorriu de canto. Imaginava que ela fosse perguntar de novo.

- Depende de como você vai responder. – ele acendeu a luz e se sentou, olhando para Hana com um sorriso de canto.

A garota sentiu as bochechas ficarem rosadas, mas se sentou na cama e olhou para o rapaz de volta como se nada tivesse acontecido.

- O que você quer dizer com isso?

Ele sorriu com satisfação.

- O que você acha que é?

Hana sentia o rosto esquentando.

- Eu acho que você vai me contar. – ela se levantou e foi até ele, se sentando ao seu lado. Kyouya apenas a acompanhou com o olhar – Não vai?

O moreno lhe afagou as mechas negras antes de responder.

- Você quer dar um nome para a relação que nós temos.

Hana concordou com a cabeça.

- "Namoro". – ele falava como se fosse a coisa mais natural, fazendo Hana corar mais.