Depois do almoço, Yuzuha falou que precisava sair para cuidar de seus negócios. O senhor Hitachiin também tinha saído, mas ninguém soube dizer quando. Kaoru e Hikaru se entreolharam, se perguntando quais eram as intenções da mãe. Ageha gostava de tirar sua soneca diária depois do almoço, de forma que os quatro estavam livres do papel de babá por algumas horas. Catarina foi a primeira a se manifestar enquanto o grupo pensava no que fazer.

- Já que vamos passar uns dias aqui, não seria bom conhecermos a casa? – ela tinha um tom inocente na voz e os gêmeos pareceram aliviados com a sugestão simples da garota.

- Claro, claro! – eles falavam em uníssono, repentinamente empolgados.

- Vamos começar pelos quartos lá em cima! – o comentário veio de Kaoru.

- Assim já deixamos as bagagens arrumadas também! – Hikaru completou o raciocínio.

As garotas se entreolharam, mas acharam melhor não perguntar. Se alguma coisa estivesse realmente errada, os dois acabariam falando eventualmente. Os gêmeos então se puseram às costas das duas e começaram a empurrá-las para apressá-las, enquanto continuavam comentando algumas coisas sobre a família e a casa. Quando começaram a andar pelo corredor no andar de cima, Kaoru acabou fazendo o pior comentário que podia naquele momento, apesar de não ter percebido de imediato.

- Precisamos ver como ficará a divisão dos quartos.

- Achei que íamos ficar juntos. – Catarina se virou para Hikaru com um ar inocente.

- Não era essa a ideia desde o início? – Anastácia falou em seguida, olhando para Kaoru com um ar de dúvida. Afinal… Era normal que se dividissem daquele jeito, não era?

Os gêmeos coraram instantaneamente e se entreolharam.

- Mas é claro. – Kaoru se apressou em responder, virando rapidamente para esconder o rosto vermelho e continuando a andar – Só estava confirmando. – e então ele riu. Era uma risada entre forçada e embaraçada, que fez Anastácia franzir o cenho. Mas sua mente já tinha começado a trabalhar em alta velocidade e ela imaginava o motivo daquele constrangimento.

- Por acaso… Você não quer ficar sozinho comigo, Kaoru? – ela tinha a voz deliberadamente manhosa, fazendo ruivo estacar no lugar, sem se virar – É esse o problema…?

Catarina prendeu o riso ao ver a situação e se virou para Hikaru, que parecia aliviado por não ser o alvo da provocação. A loira se aproximou então, apoiando as mãos em seu peito e olhando para o rapaz como se perguntasse "E você?", de forma que Hikaru precisou de alguns segundos para processar o que acontecia. As bochechas tinham voltado a ficar vermelhas e ele se afastou aos tropeços, sem saber o que dizer. Anastácia e Catarina logo tinham começado a rir.

- Mas o que deu em vocês afinal? – Anastácia tinha cruzado os braços diante do corpo e olhava para os dois anfitriões com um sorriso zombeteiro no rosto.

Hikaru tinha apoiado as mãos na parede e abaixado a cabeça, respirando com certa dificuldade. Precisava se acalmar, mas não conseguia coordenar os movimentos de seu corpo para isso. Kaoru continuava no lugar, com as mãos cobrindo o rosto e o corpo levemente curvado para frente, como se ele resistisse à vontade de se encolher. Não tinham como responder à pergunta de Anny sem se sentirem ainda mais embaraçados. Mas não podiam deixar a pergunta sem resposta. "Estamos entre a cruz e a espada!", eles respiraram fundo, tentando pensar em uma saída.

- É por causa da mãe de vocês? – Catarina apoiou as costas na parede ao lado de Hikaru, olhando para o ruivo mais velho com certa curiosidade.

- É mesmo, ela ficou olhando estranho para vocês durante todo o almoço. – Anastácia parou para pensar – E isso explicaria aqueles comentários aleatórios dela sobre como ter filhos é bom e tudo o mais…

- Bom… É. – Kaoru se virou para a morena, mas não ousava encará-la. Ainda tinha as bochechas vermelhas, mas tinha abaixado os braços. As mãos, paradas ao lado do corpo, estavam fechadas com força – Antes do almoço, ela falou conosco e… Não foi uma conversa muito normal…

Catarina e Anastácia se entreolharam e logo começaram a rir. Então era aquilo. A mãe lhes tinha dito alguma coisa que não parava de voltar à mente dos dois. Algo relacionado a elas. Anny tinha uma ideia bem precisa do que era, Catarina estava quase lá. Quando descobrisse, a loira ficaria tão sem graça quanto os gêmeos. A ideia fez Anastácia rir ainda mais.

- Não acredito que vocês estão tão preocupados com isso. Eu sei que parece estranho agora, mas é algo normal de acontecer. Se não acontecer, aí sim eu vou ficar preocupada. – a morena sorriu, o que pareceu acalmar os rapazes – Mas não precisam ficar pensando nisso agora. Vai ser quando tiver de ser.

Kaoru sorriu com alívio.

- Tem razão. Foi bobagem nossa. Então… Hikaru. – ele se virou para o irmão, que também parecia recomposto – Você e a Cat ficam no nosso quarto. Eu e a Anny vamos ficar no quarto no final do corredor. Tudo bem?

Hikaru concordou com a cabeça. Não fazia diferença em que quarto ficariam, no final das contas. Só precisavam separar as roupas que o outro precisaria, assim ninguém "invadiria" a privacidade de ninguém se precisasse de alguma coisa. Uma vez que tivessem decidido isso, os gêmeos acharam melhor já colocar as bagagens nos respectivos quartos. Enquanto as garotas arrumavam as próprias coisas, Kaoru passou no próprio quarto para pegar suas coisas. Hikaru já tinha começado a separar algumas coisas para o irmão, de forma que não levaram muito tempo.

- Bom, agora que já está tudo arrumado, quer ver o resto da casa? – Kaoru estava sentado na cama com as pernas cruzadas e os braços no colo, fitando as costas de Anny enquanto ela terminava de conferir o armário.

- Pode ser. – ela se virou para o ruivo – Mas acho que devíamos ver como a sua irmã está antes. – quando ele concordou com a cabeça, a garota sorriu.

Ao chegarem ao quarto de Ageha, os dois se surpreenderam ao ver Hikaru e Catarina brincando com a garota. A loira não era a pessoa mais rápida ao arrumar as próprias coisas, então Anny achou que eles ainda estariam ajeitando o quarto. A morena logo tinha se juntado à amiga e à pequenina e as três se divertiam, mesmo com as coisas mais simples. Anastácia, assim como Hana, adorava crianças, mas não conseguia se dar tão bem depois que elas faziam cinco anos. Felizmente Ageha estava por alguns anos longe da idade fatídica.

Os gêmeos sorriam com um misto de alívio e satisfação com a cena, parecendo conformados com os comentários da mãe depois de tudo aquilo. Mas tinham certeza de que, quando fossem dormir, ainda sentiriam certo desconforto. Apesar de já terem dividido a cama com as garotas – sempre com uma grande inocência nesse quesito –, as coisas pareciam diferentes. Mas Anastácia tinha razão. As coisas aconteceriam quando fosse a hora certa.

O telefone de Kaoru tocou, arrancando os gêmeos de sua conversa silenciosa e atraindo os olhares das garotas. O gêmeo mais novo olhou o visor, dizendo que voltaria depois ao sair para atender. Hikaru se juntou às garotas e à irmã, sem saber dizer o que tinha acontecido. Da janela, podiam ver Kaoru passeando pelo jardim enquanto falava no telefone com alguém.


- Kaoru, você foi o primeiro a me ocorrer! – a voz de Hana parecia levemente desesperada do outro lado do telefone e soou assim que o rapaz atendeu à ligação.

- Ei, ei, calma. O que houve? – ele parecia se divertir do tom da amiga. Nunca a tinha visto daquele jeito.

- Eu não consigo lidar com essa gente! – ela falava com um tom frenético – Eu vou acabar enlouquecendo com essas pessoas quadradas!

Kaoru riu, saindo para o jardim ao responder.

- Os irmãos de Kyouya-senpai? Eles são meio difíceis mesmo. Mas a Fuyumi-san é uma boa pessoa, então acho que fica equilibrado.

- Equilibrado uma ova! Tem noção que eu estou lidando com dois rabugentos, um pai que nunca diz as coisas claramente a menos que seja para alfinetar a mim ou ao Kyouya e…! E o próprio, que não faz nada para dar um jeito nisso?! Eu me sinto sufocada aqui! Dá uma ajuda!

Kaoru riu mais uma vez, o que fez Hana bufar do outro lado.

- Mas onde você está para poder gritar tudo isso com tanta liberdade?

- Eu fugi pro quarto do Kyouya. Eles estão na sala. – Hana tinha um tom mais contido, mas não parecia mais calma – Como eu lido com esse tipo de gente?

- Acalme-se, Hana. Vai dar tudo certo. Seja você mesma. Foi assim que você conquistou a simpatia do pai de Kyouya-senpai, afinal. Não foi? – ele esperou alguns segundos, mas ela não respondeu – Confie em mim. Agora volte para lá.

- Ok, eu vou voltar… Não posso demorar muito mesmo. Eu disse que ia ao banheiro. Mas oh, já sabe, se o Akito ou o Yuuichi aparecerem mortos amanhã, não foi culpa minha. – ela tinha um tom divertido ao fazer o último comentário. Kaoru riu em resposta e logo os dois desligaram.

Kaoru então se virou para a casa, fitando a janela do quarto da irmã. Não conseguia ver ninguém de onde estava. A menos que um dos três fosse para a janela, ele teria de entrar e ir até o quarto para falar com alguém. O ruivo deu de ombros e se pôs a caminho da casa. Desde que Ageha tinha nascido, ele se sentia uma pessoa muito mais aberta para as coisas. Claro, estar no Host Club tinha dado o empurrão inicial. Mas ter uma criança na casa tinha sido essencial para manter a situação.

Ele entrou sem muita cerimônia no quarto da pequena, não conseguindo conter o riso ao ver a cena. Ageha estava sentada em cima da barriga de Hikaru, batendo nele com um dos brinquedos de plástico que tinha. Felizmente era um macio, do tipo que fazia barulho ao ser apertado. O gêmeo mais velho ria da expressão séria da pequena, apenas protegendo o rosto com os braços. Se quisesse, seria fácil se livrar do "ataque" da irmã, mas estava se divertindo. Catarina e Anastácia também se divertiam enquanto arrumavam as coisas que Ageha e Hikaru tinham espalhado e bagunçado no quarto.

- Eu saio por dois minutos e parece que um furacão passou por aqui. – Kaoru se aproximou de Hikaru e pegou Ageha no colo – Chega de abusar do idiota do Hikaru, Ageha.

- Ei! – Hikaru ria ao falar, se levantando.

- Mas o que exatamente aconteceu aqui? – Kaoru olhou para as garotas, tombando a cabeça para evitar que o brinquedo da irmã lhe acertasse o rosto.

- A Ageha começou a arremessar coisas no Hikaru quando ele se aproximou e o idiota do seu irmão revidou. – Anny tinha um tom divertido na voz ao responder – Quando a gente percebeu, ele tava no chão, com ela em cima. – a garota apontou para o gêmeo mais velho ao completar – Só não sei como ele foi derrubado pela baixinha aí.

Kaoru riu e olhou para a irmã. Se as histórias da mãe fossem verdade, eles eram do mesmo jeito quando tinham a idade de Ageha. Mas devia ser muito pior lidar com dois pentelhos agitados do que com uma. Catarina então se aproximou do gêmeo mais novo e pegou a criança no colo. Ageha se debateu um pouco, como se dissesse para ser posta no chão. A loira logo cedeu, mas segurava a garota pelas mãos.

- Não. – Ageha tentava retrair os braços para se soltar de Catarina, olhando da loira para as mãos com o cenho levemente franzido – Não.

- Não tem problema se eu soltar? – a loira levantou os orbes para os amigos, parando em Anastácia, que pensou um pouco antes de responder. Considerando a idade de Ageha, era normal que ela já andasse, mesmo que não muito bem. Catarina então tornou a olhar para a criança e lhe soltou as mãos – Se você diz…

- Aliás. – Kaoru bateu as mãos ao começar a falar – Podíamos brincar com ela no jardim. – ele sorriu para o trio e então se abaixou diante da irmã – O que acha de ir para o jardim, Ageha?

A garota fitou o rapaz por alguns instantes antes de sorrir e levantar os braços.

- Jardim!

- Acho que ela aprovou sua ideia. – Hikaru riu e pegou a irmã no colo, saindo do quarto com os outros atrás.


Quando os pais dos gêmeos voltaram, o grupo ainda estava brincando com Ageha no jardim da mansão. O sol tinha começado a se pôr pouco antes, de forma que Yuzuha disse a todos que entrassem antes que esfriasse muito. Ageha sorria, mesmo sem estar "abusando" (como Yuzuha geralmente definia) dos irmãos. Na verdade, ela parecia estar realmente se divertindo com eles.

- Vocês parecem ter tido um dia cheio com ela. – Yuzuha ajeitou a filha no colo.

- Um pouco. – Anastácia arrumou o cabelo ao se sentar, olhando para a irmãzinha dos gêmeos com um sorriso discreto nos lábios.

- Crianças dão trabalho, mas vale a pena. – a senhora Hitachiin segurou nas mãos da filha e começou a brincar distraída. Ageha não parecia resistir.

- Ela não deu mais trabalho que esses dois. – Catarina se ajeitou na poltrona em que estava e apontou para os gêmeos.

- Ora, ora, esses aí não cresceram então? – Yuzuha levantou o olhar para os filhos – Como pretendem ser pais um dia com essa atitude? – ela sorria como se aquela fosse uma pergunta perfeitamente normal e corriqueira, especialmente considerando a conversa antes do almoço.

Kaoru pigarreou antes de responder.

- Isso não é relevante agora, mãe.

Yuzuha riu. Adora provocar os filhos, especialmente naquele quesito.

- Que gracinha. Vocês ainda ficam sem jeito com essas coisas. – ela sorriu e tornou a dar atenção para a filha.

Hikaru e Kaoru se entreolharam e suspiraram. Quando a mãe cismava com alguma coisa, não tinha muito que fazer além de esperar a poeira baixar. Catarina e Anastácia, por outro lado, estavam se divertindo com a situação e não faziam questão de esconder. Hikaru sorriu ao ver que a loira já se sentia mais à vontade.