Apesar de ter parecido uma casa tradicional quando entraram, Jenna e Nathan logo viram que os estilos oriental e ocidental se misturavam, compondo uma melodia única. Hani, depois de "brigar" com o irmão pelo jeito como agira, mostrou ao casal o quarto que usariam. Era um cômodo grande e bem mobiliado, com uma decoração simples, mas suficiente. Jenna se surpreendeu ao ver a cama de casal, se perguntando se tinha sido arrumada para a ocasião ou se normalmente ficava lá. Nathan, por sua vez, parecia mais que satisfeito com o quarto. Quando acabaram de arrumar as coisas, um Yasuchika meio constrangido, meio revoltado apareceu para dizer que o almoço estava pronto.

A refeição foi tranquila e, de forma geral, silenciosa. Hani e o pai conversavam algumas vezes, com Jenna comentando uma coisa ou outra. Ao final, quando a garota comentou com Hani que deviam conversar com os outros sobre os planos para as férias, o senhor Haninozuka falou empolgado sobre o quão maravilhoso era ser jovem e ter energia, que ele passava as folgas jogando jogos de tabuleiro com o pai de Takashi e Satoshi, mas sentia falta de ter pique para ficar passeando. Também comentou sobre a vida a dois ser ótima e perguntou a Yasuchika se, assim como o irmão, já tinha encontrado alguém especial. A resposta foi categórica e um tanto fria.

- Não tenho tempo para me preocupar com isso, meu pai. – o mais novo terminava de comer como se tivesse dito a coisa mais natural.

A mesa ficou quieta por um instante.

- Ah, esse meu filho! – o senhor Haninozuka riu descontraído – Tão dedicado! Mas é importante aproveitar a vida, Yasuchika. – ele assumiu um tom sério de repente – Não se esqueça disso e não se arrependa de suas escolhas.

- Sei bem disso, meu pai. – Yasuchika suspirou – Só não acho que deva me preocupar com esse tipo de coisa agora.

Jenna riu.

- Ora, não é algo que se escolha, fofo. – ela sorria ao falar e conteve o risinho que se formou quando as bochechas do garoto ficaram rosadas – Mas também não é algo que se apresse. – "Apesar de ser bom não se fechar totalmente pra isso… Será que ele precisa de um empurrãozinho?".

- Há várias garotas na sua sala que gostam de você, não é? – Mitsukuni se virou para o irmão com um ar inocente.

O mais novo não respondeu, de forma que Nathan achou que devia pressioná-lo um pouco.

- Ora, ora, rapazinho, não seja assim. Desse jeito, as garotas vão perder o interesse em você.

"Não é como se isso importasse", o loiro mais novo levantou o olhar da comida e respirou fundo antes de dizer que nenhuma delas significava mais do que uma colega de classe. Jenna insistiu no assunto perguntando se não havia ninguém do terceiro ano que o interessasse. Yasuchika pareceu se irritar, pois se levantou repentinamente da mesa e se retirou sem terminar o pouco que restava do almoço em seu prato. O pai dos dois rapazes suspirou, dizendo que sentia muito pela atitude do filho, que era muito sério em seus deveres.

- É impressionante como ele e Mitsukuni são diferentes. – Jenna piscou algumas vezes, processando a informação.

Hani sorriu de canto com um ar distante e pensativo que fez o casal se entreolhar.

- Bom, terminem de comer antes que esfrie. E, depois, por que não mostra a casa para eles, Mitsukuni? – o senhor Haninozuka sorriu para o filho mais velho e voltou a comer.

Logo os outros três fizeram o mesmo.


Yasuchika tinha saído para a parte aberta da casa, se sentando na beirada da sala oriental que dava para o jardim interno. Por que justo naquele dia tinham de aparecer com aquele assunto? Entre tantos outros! O garoto suspirou, fitando um casal de passarinhos que tinha pousado na árvore do outro lado. Tinham um ninho lá e os filhotes logo deviam nascer. Pensar nisso o fez sorrir de canto. Adoraria acompanhar o crescimento deles até se tornarem adultos e procurarem a própria árvore. Ao mesmo tempo em que adorava filhotes, odiava não ser tão sério quanto gostaria. Por isso mesmo não entendia como o irmão podia ser daquele jeito. Era por isso que tinha amigos estranhos.

De repente, a cena do aeroporto voltou a sua mente, o fazendo corar mais uma vez. "O que diabo está errado comigo…?!", ele se levantou de um salto e foi a passos largos até o meio do jardim, parando na beira do pequeno lago que tinham. Precisava se acalmar. Aquilo não era normal. Aquilo não era certo. Ele ficou fitando a água por um tempo, até ter certeza de que seu rosto tinha voltado à cor normal. Estava tão absorto em pensamentos que não percebeu o tempo passar nem ouviu os passos se aproximarem. Muito menos ouviu o som do tecido balançando quando seu pai ajeitou o quimono para se sentar.

- Ela é uma boa garota. – a voz grave do pai fez o Haninozuka mais novo se virar assustado. O homem riu um pouco com a reação do filho e indicou que se sentasse ao seu lado antes de continuar a falar. Yasuchika obedeceu – Mas você está sonhando alto demais, meu filho.

O garoto respirou fundo antes de responder.

- Eu sei, meu pai. Mas não entendo como tudo isso aconteceu. Ela devia ser apenas mais uma dentre os amigos estranhos de Mitsukuni.

- Vai passar. – o senhor Haninozuka envolveu o filho pelos ombros – Mas tente achar alguém mais próximo. – ele sorriu de canto.

Yasuchika franziu o cenho, sem responder.


Depois de Mitsukuni mostrar a casa toda com seu jeito saltitante e empolgado,. Os três decidiram visitar os jardins. Yasuchika e o pai já tinham voltado cada um a seus afazeres, de forma que o "passeio" foi tranquilo. Ficaram ali por um tempo, apenas conversando e apreciando a natureza, até que um dos empregados foi dizer a Hani que seu irmão estava esperando no dojo. O loiro concordou com a cabeça e logo se dirigiu ao quarto para se trocar, dizendo a Jenna e Nathan que o esperassem antes de irem ao dojo. Era a hora da tradicional luta entre os irmãos da família Haninozuka.


Yasuchika e Mitsukuni se encaravam com seriedade, o que fez um arrepio correr pelas costas de Jenna e Nathan. O pai dos garotos seria o juiz daquela luta no estilo da família. Diversos empregados tinham interrompido seus afazeres para assistirem ao combate. O clima era pesado e descontraído ao mesmo tempo. Então, quando o senhor Haninozuka deu o sinal, Mitsukuni e Yasuchika avançaram, dando início ao embate. Os dois usavam as mais diversas técnicas e armas, parecendo lutar de forma equilibrada. No entanto, os empregados comentavam, em sussurros cada vez mais empolgados, que Mitsukuni era mesmo impressionante e que Yasuchika ainda precisava treinar muito para alcançar o irmão.

O irmão mais velho tinha acabado de saltar para trás para desviar do ataque frontal do mais novo quando uma das empregadas se aproximou do líder da família com um envelope preto em mãos. A caligrafia delicada indicava que era destinada a Mitsukuni. Yorihisa esperou que os filhos terminassem o combate antes de entregar a correspondência. Como o esperado – mas ainda assim de forma surpreendente –, Mitsukuni ganhou do irmão, indo saltitante até Jenna e Nathan.

- E então, o que acharam? Foi divertido para vocês?

A garota sorriu e acariciou as mechas louras do amigo.

- Foi uma luta muito boa, Mitsukuni.

O grupo conversava em inglês, o que deixava alguns empregados desconfortáveis, de forma que logo voltavam a seus afazeres. Yasuchika permaneceu sentado em um canto do dojo, enquanto Yorihisa se aproximou do filho mais velho e lhe entregou a carta. Quando o rapaz viu a letra, automaticamente a reconheceu, agradecendo ao pai antes de abrir o envelope. O papel da carta era igualmente preto e a caligrafia prateada se fazia visível por toda a frente da folha. Mitsukuni leu o recado rapidamente, tornando a guardar a carta no envelope. Jenna e Nathan se entreolharam, sem entender. O loiro, por sua vez, apenas sorriu para o casal, sem dar explicações antes de se retirar para tomar banho.


Yasuchika se demorou mais que os demais no dojo, de forma que estava sozinho naquele momento. Sabia que precisava tomar um banho, mas não sentia a menor vontade de levantar de onde estava. Tombou a cabeça para trás, a apoiando na parede e fitando o teto. A vozinha em sua mente decidiu que era a hora de alfinetá-lo. "Então, como se sente sabendo que aquela garota o viu perder para seu odiado irmão?", o rapaz sorriu de canto, num deboche de si mesmo. "De que isso importa? Não mudaria nada", ele suspirou.

Arrancando-o de seus devaneios, Mitsukuni apareceu no dojo depois de tomar um banho, indo saltitante até o irmão. Yasuchika baixou o olhar quando o mais velho parou a sua frente, perguntando o que ele queria. A preocupação nos olhos do integrante do Host Club fez o mais novo se levantar e sair falando que iria tomar um banho e que não havia nada com que o irmão devesse se preocupar. Yasuchika detestava ver Mitsukuni preocupado com ele. Sentia-se fraco toda vez em que isso acontecia.

Mitsukuni, vendo que não conseguiria nada com o irmão, apenas se limitou a acompanhar o mais novo com o olhar até que ficasse sozinho. Então decidiu ir atrás de Jenna e Nathan. Precisava conversar com os dois e depois falar com o restante do grupo. Ele sorriu ao se lembrar do conteúdo da carta, indo saltitante para o jardim externo da casa. Imaginava que encontraria o casal lá, provavelmente conversando com seu pai sobre a luta e a estadia de férias. O loiro sabia o quanto seu progenitor se empolgava quando tinham visitas.


Jenna não sabia dizer se a empolgação do pai de Hani ao indicar os lugares que deveriam visitar era para passar uma boa impressão (ou qualquer outra coisa do gênero) ou se ele realmente gostava de tudo aquilo. Ela apostava na segunda opção, pois o homem parecia realmente se divertir com a conversa. Nathan falava mais que a garota, de forma que logo os dois homens pareciam amigos de longa data. Yorihisa não se importava de conversar em inglês, assim como o casal não ligava para o sotaque um tanto carregado que ele tinha. A conversa já durava um bom tempo quando Mitsukuni se aproximou.

- Ah, se não é meu filho vitorioso! – Yorihisa riu. Sabia que Yasuchika bufaria se estivesse presente (e o pai se divertia com isso), enquanto Mitsukuni apenas ignorava o tratamento – Diga-me, de quem era aquela caligrafia tão delicada e encantadora?

- Da Reiko-chan! – Mitsukuni sorria animado ao se juntar ao pai e aos amigos.

- Ah, a senhorita Reiko! – Yorihisa se virou para o casal – Ela é encantadora, mas me assusta um pouco. Parece que se apaixonou por Mitsukuni assim que o viu. Ele já lhes contou dela?

Jenna negou com a cabeça.

- Só falou que já estava com alguém quando lhe perguntamos se tinha alguma garota interessante no curso dele.

Yorihisa sorriu largamente para o filho, bagunçando seu cabelo ao falar com um tom satisfeito na voz.

- Muito bom, Mitsukuni! Um homem de verdade sempre se mantém fiel a sua mulher!

O integrante do Host não se preocupou em ajeitar o cabelo ao falar, fitando o casal com uma empolgação maior que a normal (coisa que Jenna julgava impossível e estava perceptivelmente errada) enquanto contava sobre o convite de Reiko para a festa de começo de ano que seria dada por sua família. A garota tinha mandado a carta para perguntar de quantos convites Mitsukuni precisaria (além de outros detalhes que o rapaz deixou de fora, pois nada tinham a ver com o assunto).

- Uma festa parece ótimo! – Jenna se empolgou por um momento, mas logo se lembrou de um detalhe importante – Mas… Não acho que algum de nós tenha trazido roupas formais para participar de um evento desse.

- Hana-chan provavelmente vai conseguir alguma coisa com a Fuyumi-san. Cat-chan e Anny-chan podem falar com a mãe do Hika-chan e do Kao-chan. Então precisamos arranjar algo para você e para a Mei-chan! – Mitsukuni parecia empolgado ao falar, imaginando como Mei e Mori reagiriam àquilo – Posso chamar a Reiko-chan para ir conosco!

Nathan ia perguntar como faria para conseguir um traje também quando o patriarca da família Haninozuka se manifestou, dizendo que poderia emprestar um terno, que não havia com o que se preocupar. O professor tentou recusar, mas Yorihisa foi firme em sua decisão, não dando espaço para protestos por parte do outro. Conversaram por mais alguns poucos minutos sobre o assunto até chegarem a uma conclusão e, uma vez que tudo estava decidido entre os quatro, começaram a planejar o resto das férias.

- Podem visitar o Ouran! – Mitsukuni tinha um ar qu misturava seriedade e empolgação de uma forma que parecia impossível.

- A antiga escola de vocês? – Jenna se animou.

- Isso! – Mitsukuni sorriu largamente – O Satoshi-kun, o Chika-kun e a Reiko-chan ainda estudam lá. E vocês vão poder conhecer nossos outros amigos!

Jenna pareceu entender algo naquele momento, perguntando a Hani se as Reiko e o Yasuchika estavam na mesma série. O rapaz respondeu que não, apesar de que não seriam da mesma sala se estivessem. Reiko estava na turma D desde o primeiro ano, enquanto Yasuchika sempre foi da turma A. Jenna suspirou, o que instigou a curiosidade do loiro. Nathan imaginou o motivo por trás daquilo, se dirigindo ao anfitrião ao falar.

- Mas você pode levar quem quiser à festa da família da Reiko, certo?

Mitsukuni concordou com a cabeça, entendendo o ponto da amiga.

- Não acho que o Chika-kun vá gostar dessa ideia…

- Ele não precisa saber. – Jenna sorriu com confiança – E é só pedir com jeitinho que eu tenho certeza de que ele aceita.

Mitsukuni hesitou, mas acabou concordando.


Jenna foi com Mitsukuni até o quarto de Yasuchika, chamando-o com um ar deliberadamente inocente. Quando o mais novo abriu a porta, sua expressão não era de alguém muito receptivo. Mitsukuni se manteve apoiado na parede ao lado da porta para evitar confusão, já que o irmão seria muito menos receptivo se o visse. Jenna sorriu antes de começar a falar.

- Chika-kun, o que você planeja fazer sábado à noite?

O rapaz franziu o cenho.

- Por que a pergunta?

- Porque, meu querido Yasuchika – Jenna sorriu levemente de canto ao ver o rapaz franzir o cenho com o tratamento –, se você não tiver planos, vou pedir para ir conosco a uma festa de começo de ano.

- "Conosco"? Festa? – ele suspirou – Eu não tenho tempo para isso.

- Comigo e as meninas. Bom, seu irmão e os amigos também vão, mas não acho que isso te interesse. E então, aceita? – Jenna sorriu do jeito mais simpático que conseguia.

Yasuchika suspirou mais uma vez, dizendo que ia pensar no caso. Jenna lhe acariciou os cabelos e sorriu novamente antes de sair. "Preciso falar com o papai", o mais novo fechou a porta.