Assim que chegaram à casa dos Ootori, Kyouya levou Hana para o segundo andar para deixarem as malas. Yoshio permaneceu na sala, onde Akito e Yuuichi se encontravam. Fuyumi chegaria mais tarde para a reunião de família, provavelmente acompanhada do marido. Hana esperava que a irmã de Kyouya chegasse logo, pois a ideia de ser a única mulher na casa (que parecia um covil para ela naquele momento) a deixava desconfortável.
- Não precisa se incomodar em arrumar suas coisas agora. – Kyouya tinha um tom indiferente, indo em direção ao banheiro em seguida – Eu vou tomar um banho, mas você não precisa esperar.
Hana riu.
- E ficar sozinha com seu pai e seus irmãos? – ela se sentou na cama, olhando ao redor. O quarto era bastante simples em relação a decorações e enfeites, o que a fez sorrir de canto.
Kyouya olhou de relance para a garota antes de sumir depois da porta do banheiro.
Quando o casal desceu, os irmãos de Kyouya estavam reunidos ao redor da mesa de centro que havia na sala. O patriarca, por sua vez, tinha se retirado sem qualquer explicação. Yuuichi foi o primeiro a notar a presença da garota, mas não disse nada. Fuyumi, por sua vez, se levantou e foi cumprimentar a visitante. Kyouya se manteve em silêncio, indo se sentar no sofá. Hana e Fuyumi conversavam empolgadas, como se já se conhecessem há muito tempo. Akito e Yuuichi se entreolharam, incomodados com a atitude da irmã, que sempre foi a menos conservadora e presa às regras da família.
- Fuyumi, deixe a garota sentar. – a voz de Akito era levemente autoritária, fazendo Hana revirar os olhos. A Ootori, por sua vez, apenas concordou com a cabeça e voltou para seu lugar.
- Hana, você também deve se sentar. Não seja mal-educada. – Kyouya ajeitou os óculos e fitou a garota, que suspirou e se dirigiu ao sofá.
O grupo já conversava tinha um tempo, tratando sempre de assuntos levianos ou então dos estudos. "Enfadonho", Hana se ajeitou no lugar. Kyouya olhou de relance para a namorada, mas não comentou nada, apenas voltando a conversar com os irmãos. Akito já estava trabalhando com os negócios da família, de forma que tinha mais motivos para sondar o irmão mais novo a respeito da escola, dos estudos, das atividades extracurriculares. De Hana.
- Com licença. – a estrangeira se levantou. Ao notar os olhares questionadores, acrescentou que iria ao banheiro. "Pelo menos o pai deles não está aqui", ela se virou para sair, arregalando os olhos ao fitar a porta. Yoshio tinha acabado de voltar e sorriu para a garota, que automaticamente tornou a se sentar. "Droga, droga, droga!", ela ajeitou a saia e respirou fundo.
- Benvindo de volta, meu pai. – Yuuichi se levantou para cumprimentar seu progenitor.
Akito, Fuyumi e Kyouya logo se levantaram e cumprimentaram o pai. Yoshio, mantendo sempre parte da atenção voltada para Hana como se a desafiasse, retribuiu aos cumprimentos antes de se sentar. A conversa logo foi retomada, mas Hana não prestava mais atenção. Olhava distraída para outros pontos da sala, sentindo-se mais analisada do que nunca. "Eles devem estar se perguntando o que o Kyouya viu em mim e por que o pai aceita a relação", ela se ajeitou em seu lugar, atraindo o foco da conversa para si sem perceber. Foi o silêncio sepulcral que se formou antes de a voz de Yoshio soar que tirou a garota de seus devaneios.
- Há alguma coisa errada, senhorita Hana?
- Nenhuma, senhor Yoshio. – ela sabia que não devia tratá-lo pelo nome (como os olhares tortos de Kyouya, Akito e Yuuichi confirmaram), mas a provocação lhe foi irresistível.
- A senhorita ia sair quando cheguei e… Aparentemente, eu a impedi. – Yoshio continuou com um tom calmo, parecendo se divertir com o desespero que piscou rapidamente nos orbes negros da garota.
- Não era nada com que o senhor precise se preocupar, eu garanto. – ela sorriu com um misto de ironia e simpatia.
Fuyumi parecia se divertir com a conversa entre os dois, enquanto os irmãos estavam perceptivelmente incomodados. Kyouya, mais que os outros, parecia desesperado para interromper a interação, apesar de não ter se mexido para nada nesse sentido. Já Akito e Yuuichi pareciam não gostar do "desrespeito" com que a garota tratava o patriarca da família. E de como ela parecia não se importar.
- Isso é bom. Eu detestaria se tivesse aparecido em um momento inoportuno para a senhorita. – Yoshio sorriu com um ar levemente sarcástico e satisfeito.
- Eu detestaria não estar na sua ilustre presença por causa de um pequeno empecilho. – Hana sorriu de volta do mesmo jeito, se perguntando se ele não se cansava daquele joguinho todo com ela.
- Fico feliz em saber, senhorita Hana. – o patriarca da família fez uma breve pausa antes de continuar, dessa vez com um sorriso e um tom de voz gelados que fizeram os filhos se entreolharem – Muito feliz em saber, realmente.
Hana apenas sorria de volta com um misto de ironia, frieza e desconforto. Achava que estava livre daqueles joguinhos idiotas por causa do convite para visitar a família de Kyouya, mas estava visivelmente errada. Tinha sido convidada apenas para que o senhor Ootori tivesse uma fonte de diversão. Ela precisou se controlar para não revirar os olhos ou suspirar. A conversa entre os membros da família tinha sido retomada, o que permitiu à estrangeira ter certa paz. Como antes, interagia pouco, respondendo apenas se lhe perguntassem algo diretamente. "Eu preciso mesmo sair daqui", ela ajeitou mais uma vez a saia, agora discretamente.
Então, como se lesse sua mente, Kyouya colocou comedida e suavemente uma mão sobre a de Hana e acenou breve e discretamente com a cabeça, como se dissesse que ela podia se levantar. Escondendo a satisfação que sentia, Hana novamente se levantou e pediu licença, enquanto Kyouya recolhia a mão de volta ao colo. Ninguém pareceu se incomodar com a saída da garota, o que aliviou o mais novo, mesmo com os olhares de Akito que pareciam tentar acessar sua mente e lê-la.
Hana subiu calmamente as escadas enquanto estava no campo de visão da família. No entanto, quando teve certeza de que já não podia ser vista, ela disparou para o quarto de Kyouya, agradecendo mentalmente por ter deixado as botas junto da bagagem. Uma vez na privacidade do cômodo, ela pegou sua bolsa de mão e começou a procurar pelo celular. Precisava falar com alguém que conhecesse a família de Kyouya para desabafar sobre o desconforto que os irmãos e o pai do rapaz a faziam sentir. Alguém como… "Kaoru", ela apertou o botão para chamar e levou o aparelho à orelha.
Um toque. Dois toques. "Atende, por favor, Kaoru…!", três toques.
- Kaoru, você foi o primeiro a me ocorrer! – a garota tinha um leve desespero na voz, falando assim que o amigo atendeu.
- Ei, ei, calma. O que houve? – o ruivo parecia se divertir do tom da amiga.
- Eu não consigo lidar com essa gente! – ela falava com um tom frenético – Eu vou acabar enlouquecendo com essas pessoas quadradas!
Kaoru riu do outro lado da linha.
- Os irmãos de Kyouya-senpai? Eles são meio difíceis mesmo. Mas a Fuyumi-san é uma boa pessoa, então acho que fica equilibrado.
"Equilibrado…?! Equilibrado onde, meu deus?!".
- Equilibrado uma ova! Tem noção que eu estou lidando com dois rabugentos, um pai que nunca diz as coisas claramente a menos que seja para alfinetar a mim ou ao Kyouya e…! E o próprio, que não faz nada para dar um jeito nisso?! Eu me sinto sufocada aqui! Dá uma ajuda! – "Antes que eu realmente enlouqueça", ela acrescentou mentalmente.
Kaoru riu mais uma vez, o que fez Hana bufar do outro lado.
- Mas onde você está para poder gritar tudo isso com tanta liberdade?
- Eu fugi pro quarto do Kyouya. Eles estão na sala. – Hana tinha um tom mais contido, mas não parecia mais calma – Como eu lido com esse tipo de gente?
- Acalme-se, Hana. Vai dar tudo certo. Seja você mesma. Foi assim que você conquistou a simpatia do pai de Kyouya-senpai, afinal. Não foi?
"Não vi muita simpatia ainda, mas tudo bem", ela não respondeu ao amigo.
- Confie em mim. – ele continuou – Agora volte para lá.
- Ok, eu vou voltar… Não posso demorar muito mesmo. Eu disse que ia ao banheiro. Mas oh, já sabe, se o Akito ou o Yuuichi aparecerem mortos amanhã, não foi culpa minha. – ela tinha um tom divertido ao fazer o último comentário. Kaoru riu em resposta e logo os dois desligaram.
Hana respirou fundo e guardou o celular. Era hora de voltar para a "agradável" companhia dos integrantes da família Ootori.
Ela não sabia dizer o motivo, mas o clima na sala parecia completamente diferente quando voltou. Kyouya, inclusive, parecia muito mais confortável. Hana agradeceu mentalmente por aquilo. Não aguentaria muito nas condições anteriores. Sem pressa, ela caminhou até o sofá e se sentou ao lado do namorado, sorrindo de volta quando viu Fuyumi sorrir. Pelo menos alguém era receptivo na família. "É impressionante como os homens da família Ootori são quadrados", ela olhou ao redor, notando a mão de Kyouya apoiada na coxa.
Sem pensar muito, Hana colocou a mão sobre a do rapaz e enlaçou os dedos com os dele. A primeira reação do moreno foi sorrir de canto, o que agradou à estrangeira. Akito e Yuuichi pareciam não saber o que fazer (afinal, cresceram inseridos em uma cultura de pouco contato físico), enquanto Fuyumi e Yoshio tinham um sorriso satisfeito no rosto, o dele bem mais discreto que o dela. Aparentemente, era àquele tipo de coisa que o chefe da família Ootori se referia quando falou que a presença da garota seria benéfica. Hana se permitiu apreciar o pensamento por alguns minutos antes de voltar a prestar atenção na conversa.
Os Ootori continuavam falando sobre os negócios da família e Hana achou que morreria de tédio se não fosse pela sugestão de Fuyumi de irem até a cozinha para pegarem algo para beber. A irmã de Kyouya perguntou se os familiares desejavam algo, recebendo uma resposta indiferente do mais novo, que achava que ela devia deixar aquilo para os empregados. Hana revirou os olhos antes de ela e Fuyumi se retirarem.
- Espero que tudo isso não esteja sendo muito ruim para você. – Fuyumi sorriu ao falar, procurando nos armários pela chaleira.
Hana desviou o olhar para o fogão.
- Na verdade, não tanto quando achei que seria. – "Mas bem mais do que eu gostaria", ela tornou a olhar para a Ootori – Onde ficam os saquinhos de chá? – quando notou o olhar da outra sobre si, a estrangeira apontou com o polegar para o fogão.
- Ora, ora. Muito bem, Hana-chan. – Fuyumi sorria amavelmente e logo passou a procurar pelo chá.
- Hana… Chan…? – Hana piscou algumas vezes. Apenas Hani a chamava daquele jeito infantil.
- Isso. – Fuyumi se virou para a mais nova antes de continuar – Porque você é uma gracinha. Bom, vejamos. – ela tornou a olhar para o armário, apontando para os potes de chá que tinha encontrado como se a outra os visse – Vai querer de que? Temos pêssego, limão, laranja, camomila, erva-doce e erva cidreira.
- Ah… – Hana parou para pensar por um instante – Laranja, por favor.
Fuyumi logo fazia chá para as duas, cantarolando alguma melodia desconhecida para a outra. Então, depois do tempo necessário, serviu a bebida em duas canecas relativamente grandes e se sentou à mesa, indicando que a garota se sentasse também. Quando o fez, a Ootori retomou a conversa, sempre com um sorriso simpático no rosto que fazia com que Hana sorrisse inconscientemente de volta.
- Fico feliz que o Kyouya tenha encontrado alguém. Quem diria que aquele coração de gelo fosse capaz de se apaixonar.
Hana riu de leve antes de responder.
- Eu também duvidei no início.
- Ora, ora. Você não devia falar assim estando com ele, Hana-chan. – a mais velha usava um tom infantil de repreensão e as duas riram do comentário. Hana então continuou a falar.
- Mas é justamente por ele ser assim que é interessante.
- Quem diria…? Então papai estava certo. Você é mesmo uma garota curiosa.
Hana não entendeu (ou referiu pensar que não tinha entendido) o comentário de Fuyumi.
- Uma… Garota "curiosa"? – ela sorriu com um ar inocente e levemente confuso deliberado. A outra apenas deu um risinho, sem responder.
Ficaram naquele silêncio meio estranho, meio confortável por um tempo, apenas tomando do chá. O barulho vinha apenas das duas soprando a bebida, dos ponteiros do relógio caminhando, um leve zunzunzum da conversa na sala. Apesar de imaginar o que o comentário da Ootori significava, Hana não se sentia tão incomodada como tinha achado que estava de início. "Acho que estou me acostumando a tudo isso", ela tomou um grande gole do chá levemente adocicado. "Será que vou sentir falta quando eles pararem com isso…?", ela olhou para a mulher ao seu lado pelo canto do olho e logo tornou a olhar para frente.
- Sabe, Hana-chan – Fuyumi baixou a caneca e fitou Hana com uma intensidade assustadora de início por ser completamente inesperada –, o Kyouya é um menino especial. Ele é o terceiro filho, tudo é mais difícil.
- Eu sei. – a estrangeira deixou as duas mãos em volta da caneca e permaneceu fitando seu conteúdo durante a conversa, sem coragem de olhar novamente nos olhos da outra, mesmo que não soubesse o motivo.
- Você se sente confortável sabendo que ele pode deixar a relação de vocês em segundo plano por causa da família?
Hana respirou fundo. Já tinha pensado diversas vezes naquilo. A resposta era uma só.
- Ele não vai fazer isso. – ela sorriu e virou o rosto para Fuyumi, a fitando com uma repentina segurança – Ele dará igual prioridade às duas coisas e não sacrificará uma em prol da outra. Eu tenho certeza disso.
Fuyumi pareceu ser pega de surpresa por um momento, mas logo ria com alívio, sorrindo largamente ao falar.
- Muito bom, muito bom. – ela acariciou a cabeça da mais nova ao se levantar – Isso mostra o quanto você confia nele. O quanto você acredita no que ele diz sentir. – ela parou a meio caminho da pia e se virou para Hana – Ou não diz. O que é mais provável vindo dele, não é?
Hana sorriu. Tinha a sensação de dever cumprido, como se tivesse passado em um teste extremamente complicado e só ela fosse capaz de dar a resposta. As duas permaneceram se fitando e sorrindo uma para a outra por alguns segundos, até que a mais velha tornou a se virar para deixar a caneca na pia. A mais nova terminou a bebida e logo fez o mesmo. Então voltaram para a sala, encontrando Yuuichi se despedindo.
Kyouya desabotoava a blusa de costas para Hana ao falar. Tinha um tom estranhamente tranquilo na voz, o que diferia completamente de seu estado quando chegaram à casa. Hana sorriu de canto, se permitindo relaxar esparramada sobre a cama feita. Sem perceber, tinha desviado os orbes para as costas do rapaz e acompanhava a linha de sua coluna conforme as costas do moreno iam sendo expostas.
- Você parece ter se dado muito bem com a Fuyumi-nee-san.
- Ah, sim. Ela é uma ótima pessoa. E seus irmãos? Falaram alguma coisa?
Kyouya ficou em silêncio por um instante ao deixar a camisa nas costas da cadeira diante da escrivaninha. Quando se virou para responder, Hana se sentou automaticamente na cama, virando o rosto para o outro lado na tentativa de esconder as bochechas em chamas por ter percebido o que fazia. Já tinha dividido o quarto com Kyouya antes, quando estavam em Barcelona, e a imagem do peito descoberto do moreno ainda piscava vivamente em sua cabeça quando o moreno perguntou se ela estava bem.
- Ótima. – ela se pôs em pé em um movimento rápido, quase bruto, e foi até o banheiro – Eu vou tomar banho.
- Não acha que está esquecendo alguma coisa? – ele não expressava nenhuma emoção na voz, mas ela conseguiu imaginar o sorriso divertido que ele tinha nos lábios.
"Droga! Droga, droga, droga!", ela respirou fundo e girou sobre os calcanhares. Seus orbes focalizaram um Kyouya seminu extremamente próximo, de forma que suas pernas cederam e ela cambaleou para trás. O moreno se divertia com a cena, sem dizer uma palavra ao cobrir a pouca distância que tinha se formado entre eles. Hana engoliu em seco. Ela imaginou o que ele faria a seguir, mas não esperava estar certa.
Kyouya passou um braço ao redor da cintura de Hana e colocou a outra mão sob seu queixo, de forma que o rosto dela ficasse levemente levantado. A próxima coisa de que a morena teve consciência foi do contato dos lábios mornos e macios dele contra os próprios e de seus olhos se fechando. Sem pensar duas vezes, ela passou os braços ao redor do pescoço do rapaz, retribuindo ao beijo com uma intensidade maior do que aquilo tudo tinha começado. O moreno pareceu sorrir de canto e Hana sentiu suas costas serem pressionadas suavemente contra a parede atrás de si.
Depois de sair do banho, Hana encontrou um Kyouya adormecido na cama. Ela sorriu de canto, recolhendo o livro que ele tinha deixado sobre a coberta e marcando a página em que estava aberto com um pedaço de papel que achou no meio das coisas do moreno. Deixou a obra sobre a escrivaninha antes de deitar ao lado do rapaz, lhe beijando suavemente a testa antes de se ajeitar para dormir. Tinha se deitado de costas para Kyouya por uma questão de hábito, de forma que se surpreendeu ao sentir o braço dele ao redor de sua cintura, seguido de um leve puxão, como se o integrante do Host Club dissesse que ela ficasse mais perto.
Hana sorriu de canto e se virou para o namorado, lhe dando um beijo delicado nos lábios antes de encostar a cabeça em seu peito e lhe abraçar de volta. Kyouya apertou um pouco mais o abraço ao redor da cintura da garota, pegando no sono pouco depois. Não demorou muito para que os dois estivessem nos braços de Morfeu.
