Era sábado de manhã. Como os alunos tinham sido dispensados das aulas e das atividades dos clubes naquele dia, o grupo tinha decidido usar o tempo para fazerem compras e, possivelmente, irem ao salão. Apesar de apenas Mei e Jenna precisarem arranjar vestidos, todos tinham ido ao passeio, incluindo Satoshi e o emburrado Yasuchika, que já tinha se perguntado diversas vezes como tinha se metido naquilo.
- E onde está o Kyouya-senpai? – a pergunta veio de Haruhi assim que Hana chegou. Por exigência da família, incluindo o Ootori mais novo, ela andava com três guarda-costas (e não tinha decorado seus nomes ainda) a tiracolo.
- Aquele rabugento ficou dormindo depois de resmungar que temos problemas mentais por querer sair tão cedo. – a estrangeira deu de ombros – Esses aqui podiam ter feito o mesmo. – ela apontou para o trio de terno e óculos escuros atrás de si.
- Vai dizer que não gosta de ter sua própria equipe de segurança. – Anastácia tinha um tom zombeteiro e riu quando a amiga revirou os olhos.
- Mas é melhor assim. – o comentário veio de Hani, que tinha se posto ao lado das garotas. Reiko, atrás do rapaz, concordou com a cabeça.
- Eu sei que vocês são importantes e tudo, mas… Chegar a esse ponto? – Jenna tinha um tom descrente e franziu o cenho ao falar.
- Por causa dos negócios da família, os Ootori podem ser facilmente odiados. – Kaoru e Hikaru deram de ombros ao falar, como se fosse algo óbvio – Por isso o Kyouya-senpai está sempre com os guarda-costas por perto.
- Vocês já foram vistos juntos. – a voz de Mori era tranquila como sempre, mas ele tinha um olhar preocupado.
As estrangeiras se entreolharam.
- Namoradinho complicado o seu, hein? – Catarina estava realmente preocupada apesar da gozação.
- É, é… – Hana abanou com a mão como se não ligasse. "Demais até…", ela suspirou – Bom, vamos?
O grupo concordou e logo tinham começado a passear. Estavam em uma rua comercial "normal" (como as garotas tinham ouvido o Host dizer várias vezes, apesar de ainda ser acima dos padrões com que elas estavam acostumadas) por exigência das estrangeiras, já que a ideia inicial era conversar com diversos estilistas até que conseguissem a melhor ideia de vestido para cada uma. Precisaram da semana toda para convencer os integrantes do Host de que seria muito exagero.
- Vocês têm alguma ideia básica do que querem? – a pergunta veio de Hikaru quando pararam para olhar a décima vitrine.
- Algo discreto. – a resposta veio de Mei, que parecia ter encontrado algo, entrando na loja com o Morinozuka mais velho.
- E você, Jenna? – Kaoru sorriu para a amiga.
- Bom… – ela cruzou os braços, o que levantou seus seios e fez um Yasuchika vermelho se virar rapidamente para o lado oposto – Algo provocativo! – ela sorriu.
Nathan olhou de forma repreendedora para a garota, mas era possível ver a malícia em seus orbes dourados. Jenna riu, satisfeita. O grupo continuou conversando enquanto Mei e Mori olhavam a loja. Alguns minutos se passaram antes de um Takashi com ar de frustração sair sozinho. As garotas se entreolharam e perguntaram o que houve.
- Ela disse que eu não estava ajudando. – o moreno olhou de Anastácia para Hana, que tinham passado pelos amigos e entraram no recinto comercial em passos largos.
Mei estava fechada em um dos trocadores, imersa em um silêncio profundo. Hana bateu suavemente na porta enquanto Anastácia tinha puxado o vestido que estava jogado no chão. Quando as duas viram o modelo da vestimenta, entenderam o problema. Era um vestido sem mangas. Não importava o quão magnífico fosse. Não ter o que cobrisse os braços era uma ideia que ainda assustava Mei.
- É lindo! – Hana tinha uma grande sinceridade na voz.
- Mei, você sabe o que isso significa? – Anny falava com cuidado, deixando a roupa com Hana.
Nenhuma resposta veio do trocador.
- Mei… – Anastácia suspirou.
- Acho que eu bateria no Kyouya se ele me desse um vestido que deixasse as costas de fora. – Hana se apoiou na parede diante do trocador em que a amiga estava.
Anastácia olhou torto para a garota. Hana apenas continuou.
- Eu entenderia que ele esqueceu o que carrego… O que nós carregamos. Mas essa não é a única interpretação se parar para pensar.
Anastácia entendeu aonde a outra queria chegar e completou o raciocínio. Mei ouvia tudo em silêncio.
- Significa que ele não se importa com as cicatrizes, que as aceita. – Anny sorriu de canto.
Mei abriu a porta do provador e olhou as amigas com os olhos marejados.
- Vocês acham mesmo…? – a insegurança em sua voz era palpável.
- Mas é claro que sim! – Hana sorriu largamente e estendeu o vestido para a amiga – Experimente. Vamos chamar o Takashi.
Mei corou, pegando o vestido.
Quando Hana e Anastácia saíram da loja, o clima ainda era um tanto pesado no grupo. A dupla sorriu e pediu ao Morinozuka mais velho que fosse até o trocador de Mei. O rapaz assentiu e tornou a entrar no estabelecimento. Os demais perguntaram se estava tudo bem, o que tinha acontecido, uma vez que Mori tinha se recusado a falar qualquer coisa.
- Foi um pequeno desentendimento. – Hana sorria ao falar e Anny concordou com a cabeça.
- O vestido de Mei provavelmente já está escolhido. Então falta vermos algo para a Jen, certo? – a pergunta veio de Catarina, que estava animada com o passeio.
- A menos que alguém queira algo mais. – Kaoru olhou para as garotas.
- Podemos passar no salão para fazer o cabelo, mas manter o penteado até a hora da festa vai ser meio sacal. – Jenna franziu o cenho.
- De fato… É melhor deixar isso para quando estiver mais perto da hora. – Anastácia deu de ombros.
Um dos guarda-costas se aproximou de Hana e estendeu um celular. A garota estranhou, mas atendeu.
- Por que você deixou o celular aqui? – Kyouya não parecia muito feliz do outro lado da linha.
A morena parou para pensar, percebendo que tinha deixado o aparelho sobre a cômoda antes de sair.
- Ops. – ela riu levemente na tentativa de amenizar a situação – Mas não é o fim do mundo. E você tem muitas opções para me contatar.
Kyouya bufou do outro lado.
- E que horas vocês vão terminar por aí?
- Sei lá. Ainda falta o vestido da Jenna. Por quê? – ela franziu o cenho. Não era normal ele ficar impaciente.
- A Fuyumi-nee-san está aqui. Trouxe uns vestidos para você olhar. Ela precisa voltar logo, então seria bom se você não demorasse muito.
Antes que Hana pudesse responder, a voz da Ootori soou do outro lado.
- Bobagem. Não dê ouvidos a ele. Levem o tempo de que precisarem. É muito importante achar o vestido certo. – ela parecia sorrir ao falar.
Hana agradeceu e logo as duas desligaram, de forma que ela devolveu o aparelho.
- Você precisa ser menos exigente com ela, Kyouya. – Fuyumi estendeu o celular para o irmão – Senão ela logo vai se sentir sufocada e cair fora. Os colegas delas podem ser idiotas, mas aquelas garotas são ótimas e podem arranjar um ótimo partido quando quiserem.
O rapaz se lembrou da visita ao Ouran e franziu o cenho.
- Viu? Você sabe do que eu estou falando. – a mulher cruzou os braços – Uma mulher precisa de amor e carinho, não de exigências sem fim.
- Fuyumi-nee-san, você pode deixar os vestidos aqui e cuidar de seus assuntos. Eu os devolverei depois. – Kyouya estava dispensando a irmã.
- Nada disso! Eu quero ajudar a Hana-chan a se arrumar! – ela bateu o pé no chão.
- Não se comporte como uma criança, por favor. – ele ajeitou os óculos, falando com um tom indiferente. Realmente não achava adequada a demora da irmã na casa, considerando que ela já estava casada e estabelecida.
- Já sei! Vou deixar um bolo preparado para quando a Hana-chan voltar! – Fuyumi bateu as mãos diante do peito e se virou, indo em direção à porta do quarto.
Kyouya suspirou.
- O que acha desse, Jen? – Anastácia tirou um vestido da arara que olhava.
A descendente de coreanos parou de olhar os vestidos onde estava e se virou para a amiga. O que Anny tinha escolhido era realmente provocativo, com um decote generoso, frente-única e justo até o quadril. Jenna se virou para Nathan para saber o que ele achava. A reprovação foi imediata, o que fez as duas rirem. Nathan não queria estimular ainda mais os hormônios já estimulados dos alunos do Ouran, especialmente se o estímulo fosse Jenna.
O grupo continuava olhando a loja, pelo menos em parte. As garotas e Tamaki olhavam as araras atrás de algo para Jenna. Satoshi estava com Yasuchika do lado de fora do estabelecimento, falando animado sobre algo sem perceber o desconforto do Haninozuka mais novo. Ou, se tinha percebido, o Morinozuka caçula não dizia ou fazia qualquer coisa a respeito. Os irmãos mais velhos dos dois, Reiko e os gêmeos estavam dentro da loja, mas sentados nos sofás dispostos a um canto e conversando sobre as mais diversas coisas.
- Ainda acho que o Kyouya-senpai devia ter vindo. – Hikaru suspirou – Ele podia deixar essas chatices dele de lado de vez em quando.
Os outros quatro se entreolharam e então fitaram Hana. A garota não demonstrava nada, mas provavelmente estava incomodada com a ausência do Ootori. Especialmente por ele já ter levantado. Hani então decidiu ir conversar com a estrangeira, parando a seu lado com o sorriso de sempre no rosto. A garota sorriu de volta e afagou as mechas loiras do garoto, perguntando se estava tudo bem.
- Essa pergunta deveria ser respondida por você, não acha, Hana-chan? – Mitsukuni sorria ainda, mas seu tom era levemente triste.
A morena olhou para o rapaz e franziu o cenho.
- Não sei aonde quer chegar, Mitsukuni. – ela tornou a olhar para a arara.
- Não acha que o Kyo-chan devia ter vindo? – o Haninozuka então se pôs do outro lado da amiga.
Hana suspirou. Então era mesmo aquilo.
- E para quê? Para ficar reclamando que isso é perda de tempo? Para dizer infinitas vezes que eu deveria cuidar das minhas coisas? Ou talvez para não dizer droga nenhuma, mas ficar emburrado em um canto como uma criança mimada? Ou pior. Ficar me seguindo com cara de criança emburrada em uma tentativa idiota de me convencer a ir embora. – ela se virou para o rapaz – Eu não sou babá do Kyouya, então ele que se vire com as decisões e consequências da vida dele.
Hani ouvia tudo em silêncio, concordando com a cabeça rapidamente quando a morena terminou de falar. Ela estava chateada, mas não com a ausência em si. Havia algo mais por trás. Mitsukuni pensou em perguntar, mas Hana deu a conversa por encerrada ao se virar e ir para a arara seguinte. O loiro então achou que era melhor voltar para o sofá, para junto dos amigos. Quando os gêmeos perguntaram como tinha sido, o mais velho apenas respondeu que a ausência de Kyouya não era um problema.
Hana largou a bolsa sobre o sofá ao chegar à mansão dos Ootori. Não sentia a menor vontade de subir e deixar as coisas no quarto, de forma que foi até a cozinha atrás de algo para comer. A chaleira apitando lhe dizia que Fuyumi continuava na casa, a garota só não sabia onde. Tinha acabado de desligar o fogo quando uma exclamação animada vinda da porta do cômodo lhe respondeu. A Ootori parecia realmente contente por ver a estrangeira.
- Eu trouxe os vestidos, como você pediu! Deixei tudo no quarto de Kyouya, mas não se preocupe que ele não vai ficar lá enquanto decidimos qual você vai usar.
Hana sorriu de canto, desanimada. Ela preferia cuidar daquilo sozinha, mas a outra estava tão empolgada que a estrangeira não teve coragem de dispensá-la. Fuyumi continuou falando com toda sua empolgação até perceber o olhar duro da mais nova fixo na porta. Ao se virar, viu seu irmão parado com a expressão séria de sempre, uma mão no batente e a outra no bolso da calça. A mais velha sorriu de canto para o rapaz e se retirou, dizendo que Hana a procurasse quando quisesse ver os vestidos.
- E como foi lá? – Kyouya colocou as duas mãos nos bolsos e foi até a pia, onde se apoiou de costas.
- Foi bom. – Hana o seguia com o olhar, servindo-se de chá quando o moreno parou. Sua voz era indiferente, o que era justamente o problema.
- Hana. – Kyouya tirou uma das mãos dos bolsos e a estendeu na direção da garota, que apenas se desviou e foi se sentar à mesa – Hana, por favor.
- Eu não vou ser a única fazendo sacrifícios por aqui, Kyouya. – ela assoprou levemente o chá antes de beber. O moreno não respondeu, de forma que ela terminou a bebida antes de continuar – Pense sobre isso. – ela se levantou – Eu vou ver os vestidos com sua irmã. – e então saiu.
Kyouya apenas fitava a porta, ainda com a mão suspensa no ar.
Kaoru se jogou sobre a cama, frustrado por não conseguir chegar a uma conclusão. Anastácia continuava a observá-lo em silêncio sentada na cadeira que ficava diante da escrivaninha. Já tinha perguntado o que estava errado, mas o ruivo não respondeu. Só restava esperar que ele se acalmasse e contasse quando se sentisse confortável o suficiente para tal.
- Anny. – Kaoru se sentou e fitou a garota com o cenho franzido – Como você se sentiria se eu não tivesse ido hoje?
- Depende do motivo. – ela deu de ombros – É por causa da Hana? – quando o rapaz confirmou, ela continuou – É, já parecia ter algo errado quando ela chegou. Achei que ela ia acabar falando antes de voltarmos…
Kaoru suspirou.
- Sabe, quando fomos ver a Mei, eu tive a impressão de que a Hana ia chorar. Mas ela odeia que os outros a vejam chorando, especialmente se for em algum lugar público. – Anastácia fitou o teto, pensativa – Aconteceu alguma coisa ontem.
- Por que diz isso? – o ruivo tinha uma expressão confusa.
- Ela me ligou enquanto você estava no banho ontem. Ficou um tempo em silêncio e depois disse que não era nada. Quando eu perguntei se ela tava bem, ela disse que sim, pediu desculpa e desligou.
Kaoru franziu o cenho.
- E o que você acha que aconteceu?
- Eles brigaram por algum motivo idiota. É a cara dela reagir de forma exagerada a algumas coisas pequenas. Bom, mais que algumas, na verdade. – Anastácia se levantou e foi se sentar na cama – Então provavelmente foi um desentendimento idiota, já que o Kyouya é teimoso feito uma mula. E especialmente se ela estiver de TPM.
Kaoru envolveu a morena pela cintura e apoiou a testa em seu ombro.
- Você não devia falar com ela, Anny?
- Talvez. Mas não agora. Ela ainda deve estar tensa demais para conversar, o que pode gerar desentendimentos. Eu não quero brigar com ela. – a garota sorriu de canto.
Kaoru sorriu e levantou o rosto para a morena.
- Tem razão. – e então lhe beijou os lábios.
Catarina estava brincando com Ageha quando Hikaru apareceu na sala. Yuzuha estava atrás da loira para poder fazer os últimos ajustes do vestido. Depois seria a vez de Anastácia. O gêmeo mais velho se sentou no sofá próximo de onde a garota estava com a Hitachiin mais nova e passou o recado. Catarina suspirou e deixou Ageha sobre o colo de Hikaru, que sorriu e começou a brincar com a irmã.
A estrangeira foi até o cômodo em que Yuzuha se encontravam não tendo certeza do que esperar da matriarca da família. Assim que a porta foi aberta, os orbes azuis da garota focaram o cabelo exótico de Kazuha, a avó dos gêmeos. A garota se assustou e recuou. Era a primeira vez que via Kazuha e, apesar do que ouvia, vê-la era um choque, algo completamente fora da realidade.
- Ah, que bom! Então o Hikaru passou o recado! Vamos, querida, entre! – Yuzuha sorria e indicava que a loira devia se aproximar.
Catarina entrou no cômodo e fechou a porta atrás de si.
- Essa é minha mãe, Kazuha. – a mãe dos gêmeos indicou a senhora ao seu lado – Ela vai nos ajudar, já que você e Anastácia devem ficar deslumbrantes!
Catarina engoliu em seco.
- Vá provar o vestido, Catarina querida. Então começaremos os ajustes. – Yuzuha sorriu e indicou o vestido no manequim ao lado da loira.
Enquanto a garota se trocava, Kazuha e a filha conversavam com um tom de voz ácido e animado típico da família Hitachiin. Catarina terminou de por o vestido, que precisava pelo menos ter a barra feita, e foi para junto das duas mulheres para os ajustes finais. Yuzuha e a mãe passaram então a falar sobre onde deviam mexer na vestimenta. A seriedade em suas vozes deixava Catarina aliviada, mesmo que já soubesse o quanto a mãe dos gêmeos se dedicava ao trabalho. Daquele jeito, o sucesso na festa estava garantido.
Kyouya ainda fitava o telefone em suas mãos, sentado no sofá da sala. Tinha acabado de falar com Anastácia e Kaoru – que se manifestou apenas no final da conversa – sobre o que tinha acontecido. Sobre o que tinha deixado Hana de mau humor. E, para variar, tinha levado uma bronca da garota. Kaoru provavelmente precisou controlar o riso. Kyouya detestava aquela situação, aquela sensação de não saber o que fazer. Mas, desde que tinha conhecido o grupo em Boston, foi forçado a aceitar que ele não sabia o que fazer em diversas situações. Que ele precisava de conselhos. Mesmo assim, achava uma droga. "Conversar com ela de novo, não é? Bom… Espero que dessa vez dê certo", ele suspirou e se levantou, deixando o aparelho no bolso. Hana ainda estava no quarto vendo os vestidos. Era melhor esperar.
