Como Sora não participava de nenhum clube do colégio, sua tarde de segunda estava sempre disponível. Menos naquela semana. Ele se olhou mais uma vez diante do espelho, se certificando de que estava vestido adequadamente para o passeio. Era a primeira vez em que ia ao parque de diversões acompanhado de uma garota. Ou melhor, sozinho com uma garota. Ele sorriu levemente de canto com a ideia. As cinco chamavam atenção, claro, mas ele tinha visto algo mais em Hana e Anastácia (como descobriu ser o nome da garota que estava com Kaoru). O fato de a primeira ter realmente se divertido em sua companhia era um bônus.

- Sora? – Yumi bateu na porta antes de abrir – Já acabou de se arrumar? O carro já está pronto.

O rapaz agradeceu e saiu. A irmã parecia animada com o fato de ele ter um encontro.


Hana tinha acabado de chegar ao lugar, parecendo levemente incomodada com o vento. "Pelo menos, mesmo sendo inverno, não está tão frio", ela sorriu de canto. O sol brilhava no céu claro, deixando o dia agradável. Morno. Ela estava com seu visual de sempre, mas o tecido era mais leve e a blusa era de meia manga. Seu cabelo estava preso em um rabo alto, expondo o pequeno par de brincos dourados que ela usava. Era a única joia que usava e tinha se sentido satisfeita ao ver o incômodo de Kyouya, já que ela geralmente não usava nada de "enfeite".

- Desculpe o atraso! – Sora parou diante da morena e sorriu largamente. Ele usava uma jeans escura larga e uma camisa polo branca com o primeiro botão aberto.

- Ora, eu acabei de chegar. – ela sorriu de volta, fechando um pouco mais as mãos ao redor da alça da bolsa que carregava sem perceber.

Os dois conversaram por mais alguns minutos, decidindo aonde iriam primeiro e o que fariam depois. O rapaz queria começar pela montanha-russa, porque provavelmente esfriaria bastante no final da tarde. Era um raciocínio válido, mas a garota preferia começar com calma. Não muita, mas alguma. Por fim, decidiram ir a um dos brinquedos aquáticos que não espirrasse muita água.

- Já vou avisando que, se eu ficar muito molhada, você vai ter que providenciar roupas novas antes que eu fique doente. – Hana sorria de forma um tanto zombeteira e Sora riu.

- Sim, senhorita. – ele olhou longamente para a garota com um sorriso de canto.

A morena franziu levemente o cenho.

- O que foi…?

- Nada, nada. – ele riu e tornou a olhar para frente – Só estava imaginando o motivo de você ter aceitado sair comigo.

Hana sentiu um aperto no estômago. "Para fazer ciúme no meu namorado, fofo. Sinto muito, mas você não faz meu tipo", ela respirou fundo antes de responder que não tinha certeza, mas que achava que não tinha problema nenhum em saírem já que tinham se divertido na festa proporcionada pela família de Reiko. Sora concordou, parecendo satisfeito com a resposta.


O Host, como tinha acontecido no primeiro encontro de Haruhi e Tamaki e juntamente das estrangeiras, estava usando disfarces, se passando por funcionários do parque. Exceto, claro, Kyouya. Inclusive Anastácia tinha aceitado a ideia, apesar de não ter muita certeza do motivo. O moreno, por sua vez, estava vestido normalmente: uma jeans nem clara nem escura e uma camiseta de tom entre bege e creme com o contorno em preto de uma serpente como estampa. O grupo estava acompanhando o movimento de Hana e Sora desde o começo e Kyouya se mantinha em silêncio o tempo todo, apesar de não se sentir confortável com a situação.

- Alguém parece que quer voltar para casa. – Anastácia falava baixo para não atrair a atenção dos "alvos", mas sua voz saía suficientemente alta para Kyouya fuzilá-la com os olhos em resposta. A garota sorriu com satisfação e foi até onde estava Kaoru – Quanto tempo você acha que demora até ele fazer alguma coisa?

O ruivo parou para pensar, apoiando-se no cabo da vassoura que tinha em mãos.

- Espero que antes do entardecer. Se os dois chegarem à roda gigante, as coisas podem não sair como o esperado.

- Roda gigante… É, vai ser um problema. – Anny suspirou – Bom, espero que ele tenha mais bom-senso que isso.

Kaoru sorriu de canto.

- Você parece realmente preocupada com o Kyouya-senpai.

- Definitivamente, não. – ela olhou para as costas de Hana, que se afastava com Sora depois de terem decidido aonde ir – Com ela. Aliás, eles estão indo embora.

Kaoru se virou e chamou a atenção do grupo. Logo todos estavam seguindo pelo menos caminho do "casal".


Quando Hana e Sora saíram do terceiro brinquedo, estavam diante de uma barraquinha de sorvete. O rapaz sugeriu que fizessem uma pausa, recebendo um sorriso em resposta. Ele pediu que a garota escolhesse um lugar para sentarem enquanto ele comprava os gelados. Ela se sentou em um banco que havia por perto e começou a olhar ao redor, observando as pessoas que passavam. Sora demorou pouco para comprar as coisas e logo tinha voltado, estendendo uma das casquinhas para a garota, que agradeceu.

Ao longe, os amigos analisavam a situação. Tinham menos de três horas até que o sol começasse a se por e Kyouya ainda não tinha feito nada além de andar por aí com o grupo. Aquilo era um mau sinal. Haruhi estava junto de Anastácia, de Catarina e dos gêmeos e perguntou o que eles achavam daquilo. Os ruivos se entreolharam e então fitaram o amigo moreno sentado tranquilamente em um dos bancos e lendo uma revista que tinha comprado no meio do caminho.

- Eu dou mais dois brinquedos para ele. – Hikaru tornou a olhar para Haruhi.

- Eu acho que ele vai precisar do tempo de pelo menos três. – Anastácia franziu o cenho e cruzou os braços. Kaoru concordou.

- Ele podia se mexer logo! – Catarina estava ficando realmente incomodada com a situação – Se ele não for antes da roda gigante, eu juro que soco aquela cara metida dele!

- Não precisa partir para a violência, Cat. Mas eu devo admitir que vontade é o que não me falta também. – Anny suspirou – Não é algo tão difícil de fazer, pelo amor de deus. Ele só precisa ir até lá e pedir desculpas pelo que quer que seja.

- Eu ainda não entendi o motivo da briga dos dois. – Haruhi olhou para a estrangeira.

- Olha, na verdade, nem eu. – Anastácia deu de ombros – Mas acho que foi algo que saiu como não devia numa das conversas deles.

- Ou seja, eles estão há uns quatro dias sem se darem bem por um negócio de nada. – Hikaru coçou a nuca – Esses dois são mesmo complicados.

Os demais concordaram.


O tempo tinha passado depressa e não demoraria muito até o por do sol. Hana estava realmente se divertindo, mas tinha evitado todas as tentativas do rapaz de aproximação, como andarem de mãos dadas. Aquilo não seria adequado. Não nas circunstâncias em que estavam. Sora não perguntou e eventualmente parou com as investidas. Estava bastante óbvio de que não daria em nada. Mas era melhor daquele jeito, já que ele duvidava que ela fosse ficar muito tempo mais no Japão.

- Senhorita Hana? – ele esperou que os orbes negros o fitassem antes de continuar – Quando você e suas amigas voltam para os Estados Unidos?

- Hm… Se hoje é segunda… Em uma semana. Por quê?

O rapaz sorriu ao responder, escondendo o misto de emoções conflituosas que sentia.

- Apenas curiosidade. Espero que esteja aproveitando a viagem.

Ela concordou e logo mudou de assunto. Os dois continuaram se divertindo no parque, indo a todas as atrações que conseguiam. Quando o sol finalmente começou a se por, Hana andava alguns passos à frente de Sora, de forma que se surpreendeu ao sentir a mão dele em seu pulso. Ela se virou para o garoto, sorrindo de canto por reflexo ao ver as bochechas rosadas do outro.

- Para terminarmos o dia… Você iria à roda gigante comigo? – ele tinha um tom levemente hesitante que a morena achou "uma verdadeira graça".

Mas ela sabia o que aquele pedido representava. Ir à roda gigante no por do sol era uma das coisas mais românticas que um casal poderia fazer em um parque de diversões. Isso se não encabeçasse a lista. O certo seria recusar o pedido, especialmente depois de se esquivar de todas as sugestões minimamente romanescas do rapaz. Sora esperava pacientemente, sem perceber que sua mão ainda segurava o pulso de Hana.

- Sora, eu… – ela parou. O que poderia dizer. "Eu sinto muito"? Era uma ideia, mas pelo que exatamente ela sentia? – Desculpe. – "Seu problema continua, idiota. Desculpas pelo que?", ela mordeu levemente o próprio lábio inferior – Eu não posso aceitar essa sua sugestão. – "Olha só, às vezes você pensa. Mas, se é para deixar o besta do seu namorado com ciúme, não seria melhor ir? Se bem que você pode dizer que foi sem efetivamente ir, não é?", Hana fitou os orbes esmeralda diante de si.

Sora sorriu de canto, soltando a garota. Não era um sorriso triste, mas um compreensivo. Ele já esperava pela recusa. Não era idiota, tinha entendido o recado há muito tempo. Mas achou que não custava nada tentar. Por fim, disse que não tinha problema nenhum naquilo e perguntou se ela queria comer alguma coisa antes de irem embora. A morena pareceu pensar, respondendo que um crepe seria ótimo. A barraquinha, coincidentemente ou não, ficava diante da roda gigante.

Ao ver a dupla retomando a caminhada, o "grupo de vigilância", como Tamaki os tinha chamado, tornou a se mover. Não tinham escutado o diálogo por causa da distância, mas, ao perceberem o caminho, certo desespero os invadiu. Hani olhava para os amigos com uma expressão chorosa e logo todos passaram a encarar Kyouya, que franziu o cenho e perguntou qual era o problema.

- O problema é você, idiota. – Anastácia apontou para Hana e Sora – Eles estão indo para a roda gigante. É a sua última chance.

- E daí? E não sei do que você está falando. – o moreno ajeitou os óculos. Sabia, ou melhor, tinha entendido o propósito de tudo aquilo. Mas realmente não entendia o que havia de especial na roda gigante.

- E daí que a roda gigante é um passeio romântico! – Catarina sentia-se frustrada e falava com um tom descrente levemente infantil – Romântico!

Kyouya olhou da loira para Anastácia e então para os gêmeos. Depois olhou para o resto do grupo. Havia um misto de raiva, desespero e chateação. Todos esperavam que ele tivesse tomado uma atitude ao longo do dia. Como ele não o fizera, aquilo representava o fim. Ele respirou fundo e tornou a olhar para Anastácia, que parecia querer dizer algo apesar de se conter.

- O que foi?

- "O que foi" uma ova! – ela apontou para o moreno, seu dedo ficando extremamente próximo do rosto do rapaz – Você é um imbecil e vai ser muito melhor se a Hana preferir o Sora!

Kyouya franziu o cenho. Aquilo não tinha parecido impossível durante a tarde toda. Ao ser verbalizado, tornou-se uma possibilidade assustadoramente real. O moreno tornou a olhar para os dois que se afastavam e passou pelos amigos, que respiraram aliviados ao vê-lo correr na direção da garota. Não era tarde demais.


Hana se assustou ao sentir o braço ser puxado para trás, especialmente ao se sentir pressionada contra um corpo mais alto que o seu. Ao levantar os olhos, encontrou dois orbes castanhos fixos em seu rosto. Sora franziu o cenho, não gostando nem um pouco do que aquilo significava. Ao olhar ao redor, acabou entendendo. O grupo inteiro do Host Club, acompanhado das garotas estrangeiras, aproximava-se com calma de onde os três estavam. Ele entendeu que tinha sido um mero peão no jogo dos gêmeos.

- Você sabia disso? – ele se virou para Hana, que tentava se soltar de Kyouya em vão.

- Eu? Que? Disso o que? – ela olhou confusa para ele e então para onde o rapaz apontava – Mas que diabos…?!

- Olá, Hana-chan. – Kaoru sorria animadamente.

- Ao inferno você e seu "Hana-chan". – ela respirou fundo e empurrou Kyouya, finalmente conseguindo se soltar – Que diabos vocês estão fazendo aqui?!

- Sério que você não entendeu? – Anastácia suspirou.

Hana encarou a amiga, mas não respondeu. Em vez disso, segurou Sora pela mão e o arrastou até a roda gigante. A fila estava vazia e faltava preencher a última cabine antes de o brinquedo começar a se mover. O rapaz sentia-se confuso, mas não disse nada, apenas olhando para trás, para onde o enorme grupo estava parado sem saber o que fazer. Quando Anastácia e Kaoru foram atrás dos dois, a roda já estava em movimento.

- Hana… – o mais novo fitou a garota diante de si – Eu sei que não foi algo muito legal da parte deles, mas… Eu tenho certeza de que foi tudo pensando no seu bem…

- Por que está defendendo eles? – ela olhava pela janela, o olhar fixo no por do sol – Eles te usaram como um peão qualquer, então por que está defendendo aqueles lá?

- Olha, eu sei que você está irritada. – ele respirou fundo – Eu não achei legal como eles fizeram tudo isso, admito. – ele passou a fitar as próprias mãos no colo – Mas… Se eu estivesse no lugar dele…

Hana não deixou que Sora terminasse. Não queria saber o que ele faria se estivesse no lugar de Kyouya.

- Se você não tivesse aceitado, eles teriam encontrado outra pessoa. Eu tenho certeza disso. Eles são assim. Não se importam com os outros. Aposto que foi ideia dos gêmeos. Para eles, o mundo não passa de seu parque de diversões pessoal. Não acredito que o resto do pessoal concordou com isso. Meu deus, que vontade de socá-los.

- Então soque. – Sora tornou a fitar a garota e a firmeza em sua voz a surpreendeu, fazendo-a se virar para ele – Soque-os, ué. Se isso vai fazer você se sentir melhor, soque-os. Eles vão entender. Aliás, se quiser, eu posso ajudar. Afinal, não é legal ser usado pra ajudar um casal a se reconciliar. – "Especialmente quando se acredita que ninguém está comprometido".

- Você…

- É, eu entendi quando ele te abraçou. Ninguém abraça uma garota daquele jeito se não quer dizer "me desculpe". – o rapaz franziu o cenho – Vai me dizer que você não pensou nisso?

- Bom… – Hana baixou o olhar para o colo, sentindo-se constrangida – Eu achei que ele estava sendo egoísta como sempre.

Sora riu e se levantou, sentando-se ao lado da garota. Passou um braço ao redor dos ombros da morena e a abraçou, lhe beijando suavemente o topo da cabeça antes de continuar.

- Converse com ele. – seu tom era tranquilo e ele sorria de canto ao falar – Vai ficar tudo bem.

Ela olhou para o rapaz e sorriu de volta do mesmo jeito, agradecendo. Quando o brinquedo parou e eles estavam de volta ao chão, Hana e Sora se despediram, seguindo cada um para seu canto. A garota foi até Kyouya depois de perder o mais novo de vista e respirou fundo antes de fazer qualquer coisa. Os amigos apenas observavam. Então a morena levantou o braço e, pela segunda vez nos últimos dias, bateu na bochecha de Kyouya. O moreno não reagiu, mas pareceu se surpreender quando sentiu a testa de Hana apoiada em seu peito.

- Você é um perfeito idiota… – ela tinha um tom choroso ao falar.

O moreno a abraçou sem responder, mas foi o suficiente para o grupo comemorar. Anastácia olhou uma última vez para o lugar onde Sora tinha sumido, sentindo-se mal pelo rapaz. Mas tinha sido por um bem maior. Então, depois de os gêmeos importunarem um pouco Hana e Kyouya, todos acharam que era hora de irem embora. Hani convidou a todos para irem para sua casa e todos concordaram. O casal recém-conciliado tinha muito que conversar, mas, naquele momento, queriam apenas relaxar.