As garotas continuam cantando empolgadas no palco. Mei e Jenna já tinham cantado cada qual a sua música individual. Era a vez de Catarina, com sua voz levemente mais infantil que as das amigas. Os clientes do clube já tinham, em sua maioria, começado a se divertir com os animais que Satoshi e Yasuchika criavam ali, apreciando a música como uma trilha sonora do dia. Alguns, por outro lado, estavam pelas mesas, preferindo ver as garotas, já que aquele era um evento único.

If you only knew

How I refuse to let you go,

Even when you're gone

I don't regret any days I spent

Nights we shared

Or letters that I sent (1)

(Se você apenas soubesse

Como eu recuso a deixar você ir,

Mesmo quando você já se foi

Eu não me arrependo de qualquer dia que eu gastei

As noites que nós dividimos

Ou cartas que eu enviei)

Nathan, Kyouya, Kaoru e Hani estavam em uma das mesas mais próximas do palco, conversando sobre os mais diversos assuntos, por vezes apenas parando e olhando as amigas sobre o palco. Tamaki estava com Satoshi brincando empolgado com alguns pintinhos. Hikaru e Haruhi estavam com Kasanoda dando de comer a alguns animais. Mori, por sua vez, estava com algumas garotas brincando com um guaxinim.

- Elas parecem tão à vontade ali. – Kaoru sorriu de canto ao falar.

- Elas estão felizes! – Hani sorria animado, levantando os braços ao falar.

- Por que será que elas não disseram nada antes? – o ruivo se debruçou sobre a mesa – Se bem que eu e Hikaru devíamos ter percebido. A Anny ficou mais que o normal com o celular nesses últimos dias e passou mais tempo com a mamãe do que conosco. – ele suspirou.

- Porque isso estragaria a surpresa. – Nathan olhou para o rapaz, falando com um tom suave – Se elas quisessem que soubéssemos antes, teriam dito alguma coisa.

- Elas nunca disseram nada sobre se apresentarem. Nem mesmo antes de virmos para cá. – o Hitachiin franziu o cenho – Mas isso é importante para elas, não é?

- De fato, é estranho que elas nunca tenham comentado. – Kyouya ajeitou os óculos.

- Kyo-chan também não sabia, não é? – Hani se virou curioso para o moreno, que franziu o cenho.

- Não. Isso não apareceu em nenhum lugar. – ele olhava o caderno que levava sempre consigo ao falar.

- Eu ainda não me conformo que você pesquisou sobre a vida delas, apesar de não ter me surpreendido. – Kaoru se ajeitou – Mas não pode ser por que a gente não sabia o nome que elas usavam? Digo, usam.

O Ootori negou. Em algum lugar apareceria o nome dos integrantes do grupo e ele conseguiria ligá-las ao nome que usavam. Mas, mesmo que ele não tivesse achado nada em lugar algum, haveria alguma explicação plausível para que as cinco parecessem tão confortáveis sobre o palco. Era uma questão de tempo até que eles soubessem qual.

- O importante é que elas estão se divertindo. – Nathan se levantou – Não esquentem muito a cabeça com isso. – ele sorriu e então se afastou, indo se distrair com os animais.

Satoshi se aproximou do trio pouco depois, empolgado ao falar.

- E então, o que acharam? A sugestão foi praticamente toda delas, eu devo admitir. Mas foi uma ótima ideia! E todos parecem estar gostando! – ele sorriu para os mais velhos.

- Foi uma ótima ideia, Satoshi. – Kaoru sorriu de volta para o Morinozuka.

- Sim! Dá para ver que elas estão contentes ali! – Hani olhava para o quinteto ao falar – Ah! É a vez da Hana-chan!

Kyouya se virou para o palco ao ouvir o comentário.

Mi sorprende ritrovarti

Sulle scale quando torno a casa

Sorpreso di vedermi

Come se fosse la prima volta (2)

(Surpreendo-me ao encontrar-te

Nas escadas quando chego em casa

Surpreso ao ver-me

Como se fosse a primeira vez)

- Quantas línguas essas garotas sabem? – Kaoru parecia surpreso ao falar.

A resposta veio, não de forma surpreendente, de Kyouya e suas fiéis anotações.

- Todas falam em português e inglês, logicamente. Anastácia, Hana e Catarina sabem italiano. Hana, Mei e Catarina sabem japonês. Anastácia é a única que sabe fluentemente espanhol. Jenna sabe um pouco de coreano e começou o francês, mas parou ainda no começo.

Satoshi olhou impressionado para o Ootori enquanto Kaoru e Hani se entreolharam como se perguntassem se aquilo era normal ou se eles que estavam acostumados demais com o amigo. Então o Hitachiin tornou a fitar o moreno mais velho ao falar, querendo saber onde ele tinha achado tudo aquilo.

- Em parte, a Hana me contou. – ele fechou o caderno e o deixou sobre a mesa – Mas não é difícil descobrir coisas tão simples hoje em dia.

"Definitivamente somos nós que estamos muito acostumados com ele", o ruivo tornou a olhar para o palco. Anastácia parecia concentrada dedilhando as cordas do instrumento, o que o fez sorrir de canto. Hana parecia mais empolgada que o normal cantando, o que visivelmente divertia as amigas. Quando o rapaz ia se voltar para os amigos, seu olhar capitou outra movimentação no palco.

Era a vez de Anastácia.

A garota olhou para Kaoru e sorriu, achando graça ao ver as bochechas do rapaz ficarem rosadas. Então ela olhou para a sala de uma forma geral e respirou fundo. As garotas deram início no instrumental e Anny acompanhou, esperando o tempo certo para começar a cantar. Para o gêmeo mais novo, aquela música parecia preencher mais o ambiente que as outras. Ele olhava para o palco sem piscar, alheio ao movimento em volta.

Yo mi piel no cambio

Porqué no hay vida

Que apague esta sed que tengo

Es la noche que me llama (3)

(Eu não mudo a minha pele

Porque não tem vida

Que apague essa sede que tenho

É a noite que me chama)

Hikaru voltou para a mesa quando Anastácia estava no final da música e se deixou cair na cadeira, o que assustou Kaoru. O gêmeo mais velho riu e começou a tirar sarro do mais novo, que não conseguiu evitar responder como sempre faziam nas atividades do clube. Apenas ao ouvir o grito das garotas que frequentavam o clube que os gêmeos perceberam que estavam agindo como não deviam e se ajeitaram em seus lugares.

- De qualquer forma, isso é tão legal! – Hikaru estava empolgado e apontava para as amigas sobre o palco – Eu não esperava por algo assim!

- Ninguém esperava. – Kaoru também se divertia – Foi uma boa surpresa.

- É uma boa despedida. – Kyouya olhou para o palco ao acabar de falar e os outros três se entreolharam. Satoshi, por sua vez, já tinha se afastado e voltado às atividades do clube.

- Verdade, amanhã vamos embora. – Hani adquiriu um ar pensativo e então sorriu de canto um tanto tristemente – Preciso falar com a Reiko-chan.

- Ah! É mesmo! O Clube de Magia Negra é aqui do lado, não é? – os gêmeos falaram em uníssono e se levantaram, indo até a porta que dava acesso ao outro clube.

Por um instante, o foco mudou do palco para os dois indo a passos largos até o outro lado da sala. As cinco "estrelas do dia" se entreolharam com um ar confuso e levemente temeroso por um instante, mas logo Catarina tinha dado início ao instrumental da música seguinte e as outras acompanharam. Jenna tinha começado a cantar com sua empolgação usual, mas, naquela música, também tinha um ar de sensualidade que divertia as amigas.

I remember brighter days

Then the dark ones killed my dreams

You deprived me of my needs

Give me up and I will leave (4)

(Eu me lembro de dias brilhantes

Então as trevas mataram meus sonhos

Você me privou das minhas necessidades

Desista de mim e eu partirei)

Os gêmeos pararam cada um diante de uma das metades da porta e puxaram as maçanetas, fazendo os alunos do Ouran e Tamaki gelarem. O pessoal do Clube de Magia Negra se recolheu ao canto, fugindo da luz repentina. Nekozawa em especial tinha se afastado tanto quanto podia. Kaoru se adiantou, pedindo desculpa por aquilo com um ar de quem não se importava realmente.

- Reiko-chan, você está aí? O Hani-senpai quer falar com você!

A garota sentiu as bochechas ficarem rosadas e então se adiantou, passando para o ambiente do Clube de Criação de Animais e fechando a porta atrás de si. Então, recomposta, ela olhou para os gêmeos, que apontaram para a mesa em que os amigos estavam com um ar de satisfação. Hani e Kyouya acompanhavam tudo de longe e os alunos iam abrindo passagem para a garota com um misto de emoções preenchendo o ar. Todos na escola já sabiam do relacionamento de Reiko com Mitsukuni, mas a maioria ainda estranhava. Ao fundo, Anny cantava em italiano a mesma música que Jenna tinha começado e logo as duas passaram a se revezar.

Non lo sai chi sono davvero

Non saprò mai che donna sei

Sono qui solo stasera

Sai farmi mai quello che vuoi (5)

(Eu não sei quem realmente é

Nunca se sabe que mulher você é

Eu só estou aqui esta noite

Nunca me deixe saber o que você quer)

- Mitsukuni-san. – a garota parou ao lado do loiro e se abaixou levemente ao se dirigir a ele.

Hani sorriu e indicou a cadeira ao seu lado.

- Sente-se aqui, Reiko-chan. As garotas estão se apresentando, é divertido! – ele esperou até que a morena se sentasse ao seu lado e então sorriu largamente ao acrescentar – Espero que você goste também, Reiko-chan!

Os gêmeos, contentes com o trabalho, voltaram para junto da mesa.

- Desculpe por te tirar assim do clube, Reiko-chan. – Hikaru sorria de forma divertida – Mas o Hani-senpai estava mesmo muito – ele enfatizou a palavra – ansioso para poder dividir esse momento com você, apesar de achar que não tinha o direito de interromper as suas atividades.

A garota, com as bochechas levemente ruborizadas, virou os orbes negros para o rapaz, que sorriu largamente em resposta e lhe segurou gentilmente a mão. O gesto fez Reiko corar ainda mais, virando-se para o palco por reflexo. Ver que as cinco se divertiam, sem se importarem com nada além do que faziam sobre o palco, fez com que a integrante do Clube de Magia Negra sorrisse de canto e, inconscientemente, enlaçasse os dedos com os de Mitsukuni, que sorriu de canto com certa satisfação.

- Eu sei que todos estão se divertindo muito com a nossa seleção musical agitada – Hana tinha o tom alegre ao falar –, mas tem uma música em especial que nós queremos cantar para vocês e, por isso, vamos reduzir um pouco o ritmo agora. Esperamos que gostem.

O instrumental mais suave e calmo logo encheu a sala, atraindo todos os olhares presentes. Alguns foram se sentar às mesas e o Host Club e Nathan não foram exceção. A voz de Hana então se fez ouvir. Toda a empolgação que ela tinha nas músicas anteriores tinha se transformado em uma emoção profunda naqueles versos, como se fosse algo que ela mantinha preso na garganta há muito tempo. Um sorriso discreto se desenhou em seus lábios conforme as palavras fluíam.

There's a strong light shining from your eyes

It is so bright that I can hardly see

It reflects all the things that you hide in your soul

Things that make you truly free (6)

(Há uma forte luz brilhando em seus olhos

É tão brilhante que eu mal consigo ver

Ela reflete todas as coisas que você esconde na sua alma

Coisas que o fazem verdadeiramente livre)

A morena olhou para Kyouya nos versos finais da estrofe que cantava e, quando Anny deu continuidade à letra, os presentes perceberam que a mudança tinha sido em todas elas. As garotas se revezavam para cantar, terminando a música em coro. A única coisa que quebrava o silêncio quase sepulcral na sala era a apresentação e, quando a última nota parou de soar, as garotas podiam jurar que ninguém ousava respirar na sala além delas. Era algo inusitado e ao mesmo tempo agradável. Jenna então assumiu um dos microfones, falando com um tom animado.

- Eu sei que o dia já está no fim, mas ainda temos mais algumas músicas para vocês. Então, por favor, não sufoquem ainda. – ela e as amigas riram do comentário que deixava claro o nervosismo que sentiam com a reação do público que tinham.

Conforme as músicas novamente animadas preenchiam o ambiente, o ar foi ficando mais leve e as pessoas tinham, em sua maioria, voltado às atividades do clube. Ao olhar para a mesa em que os amigos estavam, Hana viu que havia algo errado. Tanto Kyouya como Kaoru não estavam ali. Nem em qualquer lugar da sala. A morena não soube dizer quando a dupla se retirou, mas era esperado. Ela se concentrava mais que o normal quando fazia algo de que gostava, como naquele momento. Ali, naquele palco.

Era a volta de The Reveriers e aquilo significava muita coisa.


Kaoru parou diante do chafariz que havia no jardim da escola e respirou fundo ao se virar para Kyouya, que estava alguns metros mais atrás. O ruivo sorriu de canto com um misto de emoções e então se sentou na pedra gelada. O moreno se aproximou e parou diante do amigo, ajeitando os óculos ao esperar que o outro falasse alguma coisa.

- Você também percebeu, não é? Que aquela música não foi à toa. – Kaoru baixou o olhar para as mãos sobre as pernas cruzadas – Acho que nenhuma das músicas foi, mas aquela em especial… Eu não sei. Eu posso estar imaginando coisas.

- Eu não acho que esteja. – Kyouya colocou uma das mãos no bolso da calça, deixando a outra pendendo ao lado do corpo – Em quantos momentos elas olharam para a nossa mesa?

O ruivo riu um tanto nervosamente e olhou para o amigo.

- Tem razão. Mas eu não sei o que pode significar. – ele deu de ombros – Você acha que elas vão nos contar?

- Não. – Kyouya se sentou ao lado do amigo e cruzou os braços e as pernas – Assim como não disseram nada a respeito da apresentação.

- Tudo isso… Tem alguma coisa por trás. – os orbes dourados se voltaram para o céu – Não tem? Elas querem nos dizer algo, mas não conseguem simplesmente verbalizar, então fizeram tudo isso, não é?

Kyouya não respondeu, mas estava claro que pensava do mesmo jeito.

- A grande questão é o que. Eu realmente não consigo pensar em nada. Pode ser o motivo por elas terem parado. Na verdade, é a única coisa em que eu consigo pensar. – Kaoru tornou a olhar para o moreno.

- Nós temos tempo para pensar sobre isso. – o Ootori ajeitou os óculos antes de continuar – Sobre tudo isso. Talvez seja bom falarmos com os outros também.

Kaoru olhou para o prédio diante dos dois e respirou fundo antes de continuar.

- E se eles não tiverem a ver?

Kyouya tinha pensado naquilo, mas não conseguiu chegar a uma resposta. Sua frase seguinte pareceu surpreender o ruivo por um instante, mas logo tinha entendido.

- Vamos dar um jeito.


O sol tinha começado a se por do lado de fora da janela, de forma que Catarina se adiantou e anunciou a última música. Era outra melodia animada, para terminarem como tinham começado. Não queriam deixar a sala com a sensação de terem deprimido o público. Todas, com exceção de Anastácia, começaram a cantar em voz baixa a introdução da música. Então veio a primeira estrofe e a voz da garota preencheu a sala.

Don't close your eyes 'cause your futures's ready to shine

It's just a matter of time, before we learn how to fly

Welcome to the rhythm of the night

There's something in the air you can't deny (7)

(Não feche seus olhos porque seu futuro está pronto para brilhar

É apenas uma questão de tempo, antes de aprendermos a voar

Bem-vindo ao ritmo da noite

Há algo no ar, você não pode negar)

Era uma ótima escolha para a última música e as cinco se divertiram até o final. Quando a letra acabou e o instrumental foi sumindo, elas agradeceram pela atenção e pela receptividade. Kaoru e Kyouya tinham decidido não voltar para a Terceira Sala de Música, esperando pelo restante do grupo nos portões do colégio. Ao vê-los, Anastácia se adiantou, segurando na mão do gêmeo mais novo e sorrindo ao perguntar o que ele tinha achado. Não comentou nada sobre o sumiço e o rapaz esperava que continuasse daquele jeito.

- Falou com a Reiko-chan, Hani-senpai? – Kaoru sorriu para o amigo ao falar.

- Sim! – o loirinho sorriu animado – Vamos manter o mesmo esquema do primeiro semestre!

O grupo podia não saber o que aquilo significava, mas sabia que o casal tinha se acertado. Hana afagou as mechas loiras do menor e então todos se dirigiram às respectivas limusines. Era hora de pegar as malas e partir. A viagem tinha sido agradável e as garotas sabiam que sentiriam falta do que passaram ali, mas ainda preferiam voltar para os Estados Unidos. Talvez, um dia, uma ou outra voltasse não a turismo, mas para morar. Até lá, elas sabiam que as viagens ao Japão, que provavelmente seriam algumas, seriam visitas breves.

- Você parece animada. – a voz de Kyouya era tranquila e tirou Hana de seus devaneios mentais no carro a caminho da mansão Ootori. Em resposta, a garota apenas sorriu.


N/A: as músicas utilizadas no capítulo foram

(1) If you only knew – Shinedown

(2) Senza riserva – Annalisa Scarrone

(3) Sigueme o mátame – Sonohra

(4) Let go – Sonohra

(5) Solo stasera – Sonohra

(6) The night is ours – Sonohra

(7) When can I see you again – Own City