Hana não conseguia dormir, revirando na cama por um tempo que parecia incrivelmente longo. A fala de Valentine ecoava em sua mente em um ciclo infinito. Kyouya eventualmente acordou, resmungando que a garota devia dormir ou, pelo menos, não virar tanto na cama, porque ele não queria ser acordado novamente por toda aquela inquietação. Hana revirou os olhos, mas se ajeitou e tentou ficar quieta.
Quando o grupo se dirigiu ao estacionamento no fim daquela sexta-feira, estranharam ver Hana de calça e regata. A roupa de todo não era nem justa nem larga, sendo feita de um tecido leve. O longo cabelo negro estava preso em um rabo-de-cavalo alto e a garota levava um par de óculos escuros pendurado na blusa. As garotas franziram o cenho e foi Anny quem fez a pergunta em que todos estavam pensando.
- O que exatamente isso significa, Hana?
- Nós – Hana apontou para o grupo todo – vamos viajar nesse final de semana. – ela sorriu com satisfação.
- E para onde vamos? – Catarina tinha uma curiosidade sincera na voz.
A estudante de moda olhou para Kyouya, que logo se pôs diante do grupo e começou a falar, afundando as mãos nos bolsos. Seu tom era o de sempre, como se dissesse algo corriqueiro, mas os outros pareciam realmente surpresos com o que ouviam, especialmente as garotas de Boston, que se entreolhavam sem muita certeza do que fazer.
- Minha família adquiriu recentemente o terreno de uma ilha ao leste dos Estados Unidos. Devido ao seu tamanho bastante reduzido em comparação com as terras ao redor, dificilmente aparece no mapa. Mesmo assim, seu território é suficientemente extenso para construirmos um de nossos parques de ambiente controlado. Foi escolhido um terreno montanhoso para reprodução e diversas espécies animais podem ser encontradas por conseguirmos ajustar a temperatura e suas variações. Há muitas trilhas que podem ser exploradas, mas, para aqueles que não puderem ou não se interessarem, foi criada uma piscina natural na base da montanha, com quiosques de café e lojas. – ele ajeitou os óculos ao acabar de falar.
Os olhos de Valentine brilharam.
- Fico tão feliz por ter conseguido chegar até o fim da competição e poder ir embora apenas na segunda-feira!
Os gêmeos pigarrearam, impedindo o que poderia virar uma conversa empolgada e sem sentido entre Hana e a visitante. Os ruivos falaram em meio a entreolhadas dos amigos, sem ter certeza de que tinham escutado corretamente. No fundo, esperavam sinceramente estarem certos. "Não faço a menor questão de ser arrastado pela loucura alheia", Hikaru trocou a perna de apoio.
- Vocês estão dizendo que vamos acampar em uma ilha por todo o final de semana? – os Hitachiin falaram em uníssono.
- Não sejam idiotas. – Hana revirou os olhos como se aquela fosse a ideia mais ridícula que já tinha ouvido.
Antes que alguém pudesse protestar, Kyouya completou.
- Há um hotel percorrendo todo o perímetro da ilha. Assim garantimos que os hóspedes sempre conseguirão voltar.
As garotas assobiaram.
- Ser rico é outro nível. – o comentário, feito em tom divertido, veio de Jenna.
- Como ainda estamos em fase de testes – o moreno continuou, ignorando a fala da amiga –, todas as despesas serão pagas por minha família.
As garotas arregalaram os olhos, assim como os gêmeos americanos, enquanto os ex-alunos do Ouran apenas deram de ombros. Kaoru e Hikaru então pareceram se lembrar de algo, comentando em alternância. O mais velho foi o primeiro a falar.
- Você disse que há animais…
- Havia crocodilos no parque aquático.
- Isso não parece perigoso?
- E Hani-senpai se perdeu também.
- E aí todos nós nos perdemos.
- E Haruhi e Mori-senpai se separaram de nós.
- Isso é uma desculpa para se livrar de nós sem deixar rastros?
Hana e Kyouya suspiraram.
- De novo: deixem de ser idiotas. – a garota cruzou os braços diante do corpo – Os animais não vão nos atacar sem motivo.
- E ninguém fará trilhas sozinho. – o moreno ajeitou novamente os óculos.
- Isso ainda parece absurdo. – Anny arqueou uma sobrancelha.
- Deixem de frescura. – Hana se virou, abrindo a porta do carro – Andem, as malas já estão no carro. Temos que tomar o navio logo. Quanto mais cedo, melhor.
O grupo suspirou, obedecendo ao ver que não tinham opção.
Já estavam a algum tempo andando quando Catarina notou que havia algo estranho. Algo… Faltando.
- As ruas estão muito vazias, não? Só vejo o nosso carro e os dois dos meninos… – ela olhava fixamente pela janela.
Hana olhou pelo retrovisor, vendo uma Anny cochilando, uma Cat curiosa e uma Jenna estranhando. Então olhou para Mei no banco do passageiro, sorrindo sem perceber. Aquela cena explicava por que tinha sido a loira a perguntar e por que tinham demorado a perceber. A motorista do grupo apontou para a esquina que se aproximava ao começar a falar.
- O trânsito foi bloqueado em alguns pontos. Isso tem dois motivos. O primeiro – ela pôs novamente a mão no volante – é para nos indicar o caminho. O segundo… – ela suspirou – Foi porque o Kyouya queria garantir uma viagem tranquila.
As amigas se entreolharam e a atenção foi momentaneamente desviada quando Anny acordou e se ajeitou no banco. A garota de coturnos franziu o cenho ao ver que passavam por um segurança japonês, mas não perguntou. Então, antes que alguém dissesse algo em protesto, Hana retomou a explicação.
- Eu disse ao Kyouya que tudo isso era desnecessário, mas ele não quis ouvir. Pelo menos me deixou dirigir. Ele queria que fôssemos com um motorista, assim poderíamos deixar o carro aqui em vez de embarcar no navio com ele. Mas tudo isso ainda é absurdo demais. – ela deu uma risada de deboche – É muito coisa de riquinho mimado.
- Espera, espera, espera. – Anny se ajeitou no lugar, projetando o corpo para frente e pondo as mãos no encosto do banco de Mei – Você acabou de chamar o seu namorado de riquinho mimado? – ela estava visivelmente achando graça.
- Chamei. – Hana franziu o cenho – É o que ele é. Todos eles, na verdade. – ela suspirou.
A estudante de enfermagem riu e recostou no banco, sacando o celular.
Kyouya sentiu o telefone vibrar no bolso, tirando-o com um gesto rápido e jogando-o para Hikaru ao seu lado. Por causa dos protestos de Hana, o moreno ia ao volante. O ruivo franziu o cenho, mas entendeu o recado. Ao abrir a mensagem, ficou surpreso ao ver o remetente.
- Por que a Anny…?
- Leia. – Kyouya o interrompeu.
Hikaru suspirou. No banco de trás, Kaoru tinha passado a ouvir a conversa. Valentine e Daniel, por outro lado, estavam absortos no próprio diálogo. O ruivo mais velho então leu a mensagem, rindo ao final. Logo Kaoru acompanhava o irmão. O moreno, por sua vez, apenas suspirou. Na tela, a mensagem ainda era exibida.
Só para registrar, sua namorada acabou de te chamar de riquinho mimado (coração).
- E então? Quer responder? – Hikaru tinha um tom zombeteiro.
Kyouya apenas estendeu a mão, recebendo o aparelho de volta pouco depois. Então o largou sobre o colo, olhando para a rua sem prestar muita atenção. Sua mente tinha voltado para a conversa com Hana sobre a viagem que fariam. Sobre o acerto dos últimos detalhes.
- Espera um pouco aí! – a garota se ajeitou sobre a cama, sentada de frente para o rapaz em pé no meio do quarto. Naquele momento estavam no apartamento de Kyouya para não serem interrompidos – Você está me dizendo que consegue um navio para nos levar?
- Já que você não quer confiar o carro ao motorista, pareceu-me a saída mais lógica.
Hana riu.
- Já ouviu falar de "estacionamento"?
O moreno franziu o cenho.
- Você realmente acha que eu confio em estacionamentos comuns estrangeiros?
- Desculpa se eu não sou rica o bastante para ter um navio grande o suficiente para suportar três carros. – ela suspirou – Vocês podem usar um motorista, Kyouya. Mas eu me sinto desconfortável.
- Já lhe ocorreu, Hana, que talvez fosse bom você se acostumar?
A morena digeriu a pergunta por quase um minuto até entender o que aquilo provavelmente significava. Sentiu como se uma pedra batesse com força no fundo de seu estômago e seu corpo caiu para trás, esparramando sobre a cama. Suas bochechas ardiam com o súbito aumento de sangue. "Quais as chances de ele estar sugerindo o que eu acho que está sugerindo?", ela franziu o cenho.
- Eu não sei em que você está pensando – a voz de Kyouya fez a garota voltar a se sentar –, mas eu só quis dizer que pretendo terminar os estudos aqui antes de voltar para o Japão.
Hana suspirou com alívio, fazendo o outro franzir o cenho.
- Graças a deus… Por um instante, eu achei que você estivesse propondo casamento.
- Casamento? – o moreno parecia achar certa graça da ideia, aproximando-se de Hana. Colocou uma mão suavemente sob o queixo da garota e lhe levantou o rosto, abaixando-se para ficarem mais próximos – Qual seria o problema se eu realmente estivesse falando disso? – ele tinha a voz suave, mas também um tanto provocante, além de um estranho sorriso no rosto.
A morena sentiu o coração bater com tanta força no peito que chegou a doer e logo tinha empurrado o rapaz enquanto recuava sobre a cama. Suas bochechas ardiam como nunca e ela cobria o rosto com as mãos, enquanto as palavras de Kyouya ecoavam em sua mente em um ciclo sem fim. O moreno riu com satisfação da cena e, sem dar o tempo de que a outra precisava para se recuperar, retomou a conversa, agora com seu tom usual.
- De qualquer forma, eu não acho que nosso casamento seria aprovado pela minha família.
Aquilo atingiu Hana como um tapa e ela rapidamente se pôs em pé sobre o colchão.
- Está me dizendo que você só vai se casar se tiver aprovação?! Isso é ridículo! Qual seria o problema se nós decidíssemos casar?! Digo… – ela engoliu em seco, sem saber se estava vermelha de raiva ou de vergonha. Talvez ambos – Qual seria o problema em casar com uma pessoa comum…?!
Ela olhava fixamente para Kyouya.
"Acabou que discutimos menos sobre a viagem e mais sobre outras coisas…", Kyouya se ajeitou no banco, virando à esquerda ao ver o carro que bloqueava a passagem em frente. Hikaru, ao seu lado, pareceu notar a inquietação, mas nada disse. Se não fossem pelos gêmeos americanos, o silêncio no carro seria absoluto, mas aquilo não parecia incomodar os japoneses.
No terceiro e último carro, em que iam Mori, Hani, Tamaki e Haruhi, o loiro mais alto, como era de praxe, discursava longamente sobre algo. O moreno dirigia com todo seu silêncio, sorrindo discretamente vez ou outra com a empolgação do amigo. Então, quebrando a fluência do monólogo, o celular de Haruhi tocou.
- Ah, Jenna-san!
- Haruhi, avise os rapazes aí de que estamos chegando à casa do Nathan. Mande o Hani para cá, vou trocar de lugar com ele. – a descendente de coreanos tinha um tom despreocupado e não pareceu notar que Mori acabaria sozinho com dois casais com aquela nova distribuição.
Haruhi, como esperado, também não notou.
- Entendi. Vou avisá-los então.
As garotas se despediram brevemente e logo a japonesa passava o recado aos amigos. Tamaki, em quase um milagre, ouviu em silêncio e, por alguns breves segundos, não respondeu. O grupo no carro era, à exceção de Mori, muito desatento, não percebendo que a nova organização poderia ser um incômodo. O moreno, no entanto, não pareceu se importar com aquilo.
Nathan parecia tão empolgado com a viagem quanto Hana e Valentine tinham se mostrado e, assim como a mestiça, usava roupas leves e mais soltas. Jenna pareceu surpresa ao ver o professor de bermuda e camiseta, mas não comentou. Só esperava que ele não quisesse arrastá-la para as trilhas. O casal então se cumprimentou rapidamente e logo tinha entrado no carro.
- Antes que eu me esqueça – a descendente de coreanos começou a falar assim que Mori deu a partida –, acho que eu devo avisá-lo de que temos dois elementos extras no grupo dessa vez. Outro par de gêmeos.
Nathan franziu o cenho, sem entender. Jenna explicou brevemente o que tinha acontecido durante a semana e como Valentine e Daniel acabaram temporariamente agregados ao grupo. O homem ouviu com um sorriso de canto, parecendo achar certa graça do motivo que tinha levado a tudo aquilo.
Hana parou o carro paralelamente à embarcação que tomariam para chegar até a ilha da família Ootori. Kyouya e Mori pararam ao seu lado e logo os rapazes desciam e entregavam as chaves para dois guarda-costas. A morena concluiu que aqueles homens manteriam os carros guardados em algum lugar seguro – na concepção de seu tão excêntrico namorado – durante todo o final de semana. Ela estava ajeitando a marcha para manobrar quando alguém deu duas batidas no vidro de sua janela. Quando ela se virou para olhar, viu um Kyouya parado ao lado da porta indicando que abaixasse o vidro. Ela obedeceu e ele se curvou.
- Se ainda não quiser deixar o carro aqui, posso pedir para a deixarem subir com ele. – o moreno indicou o navio com a cabeça.
As garotas se viraram juntas para a embarcação, constatando que havia espaço de sobra para comportar todo o grupo, a tripulação e o carro que usavam. Mais que isso, ainda teriam espaço para circular livremente. Hana engoliu em seco, sentindo-se subitamente reduzida diante daquela constatação. Então sentiu todos os olhares voltados em sua direção. Foi a voz de Catarina que a salvou.
- Podemos mesmo embarcar com o carro? – ela parecia estranhamente admirada.
Hana olhou para o namorado, que deu de ombros.
- Vou avisar o capitão. – então o moreno afundou mais as mãos nos bolsos e se virou, afastando-se como se tivesse todo o tempo do mundo.
Hana deixou a cabeça cair sobre o volante, apoiando-a entre as mãos. Sentiu alguém colocar a mão em seu ombro, mas não se virou. Não demorou muito para que dissessem que ela já podia seguir para o navio, de forma que a garota se ajeitou no banco e tornou a dar a partida no carro. Quando Anny perguntou o motivo de não deixarem o carro ali em vez de embarcarem com ele, a estudante de moda respondeu com o tom mais firme do que esperava.
- Se ele não vai me deixar colocar o carro em um estacionamento comum – ela reforçou a palavra para dar ênfase ao quanto achava aquilo absurdo –, então eu não vou deixá-lo fazer tudo como quer. Isso significa que eu não vou dar o nosso carro na mão de um estranho, por mais confiável que ele supostamente seja. – ela desligou o carro após ajeitá-lo no canto que haviam reservado para o veículo.
As demais garotas se entreolharam e alguém soltou um risinho, mas Hana não prestou atenção. Então logo todos estavam a bordo e eles partiam para o mar-aberto.
