A primeira coisa que Hana fez depois do jantar, quando todos já tinham se recolhido a seus quartos, foi se sentar diante do computador que havia no cômodo destinado a ela e a Kyouya e abrir seu e-mail. O moreno precisava acertar alguma coisa com o capitão, de forma que ela estava sozinha naquele momento. Ela passou o olho rapidamente pelas mensagens, selecionando as que apagaria. Então seus olhos captaram um remetente que ela conhecia bem.

John.

Ela hesitou, especialmente quando viu que o assunto era apenas "Querida Hana", mas abriu a mensagem.


Como está, Hana? Espero que bem. A essa altura, acredito que você já esteja mais que resolvida com o Kyouya (escrevi certo?), mas, se não estiver, pode deixar que vamos aí dar uma bela surra nele por ser idiota. Mas não é por isso que eu decidi escrever somente a você e, esperta como é, aposto que já sabia disso. Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que guardasse segredo desse meu contato. Não quero preocupar as outras. Espero que entenda. Também espero que, ao final, entenda o motivo desse tom tão… Incomum a mim. Não estou em meu melhor estado nesse momento.

Escrevo para dizer que, acima de tudo e apesar de ainda não ter conseguido superar um sentimento que passou tanto tempo engavetado, eu espero que a Anny esteja feliz. Realmente feliz. Mas ainda basta uma palavra dela para que eu largue tudo e vá aí. Tudo para vê-la feliz. E, se ela disser que nunca mais quer me ver, eu nunca aparecerei diante dela, mesmo que um dia esse sentimento venha a desaparecer. Porque sei o que é importante para mim. Sei que disse muitas vezes de que nunca me arrependo das coisas, sejam as feitas ou não feitas, as ditas ou não ditas, as sentidas ou não sentidas. Mas sou obrigado a admitir que me arrependo da dor que causei a Anny naquele dia. Da dor que causei a todas vocês como consequência.

Sei que Fred também se arrepende de tê-la feito sofrer, Hana. Física e emocionalmente. Ele não diz, mas eu e Ben sabemos. Sabe como são os amigos de longa data. Nós apenas sabemos. A dor ainda pisca nos olhos daquele idiota com certa frequência. Estamos planejando uma nova visita a vocês, mas, dessa vez, menos conturbada. Mas esses são planos pouco concretos por enquanto, então não falemos deles. Falemos, além do que lhe contei acima, de como estão as coisas do lado de cá. Sei que havia algo que a perturbava quando estive em sua sala. Lembra-se? A nossa conversa após a sua aula. Sei que você percebeu que peças faltavam no quebra-cabeça. Elas ainda faltam. Espero poder fornecê-las.

Há muito tempo que amo Anastácia e isso não é segredo a ninguém, mas fiquei realmente surpreso ao saber que tanto ela quanto Catarina nutriam o mesmo sentimento por mim e, piorando a situação, ao mesmo tempo em que eu nutria o meu. Jovens são realmente idiotas, não são? Não conseguem perceber as coisas mais óbvias diante de si. Ainda somos um tanto idiotas, nós mais que vocês, mas não tanto quanto éramos. E agora sei que perdi a grande chance da minha vida de ser feliz. Talvez eu esteja sendo repetitivo, mas, em minha cabeça, as coisas parecem tão diferentes. De qualquer forma, o que acontece é que… Apesar de todo o sentimento que eu sempre tive por Anny, sou incapaz de manter o segredo apenas comigo por mais tempo.

Eu sei que não a faria feliz. Eu sei que não seria bom o suficiente para ela. Nunca fui. Sempre gostei de uma boa briga, apesar de não ser como Fred. Mas eu sempre gostei da sensação de ter o sangue do outro, do "inimigo", escorrendo em minhas mãos, determinando a minha vitória. Estava tão irritadiço esses dias que, por um motivo realmente ridículo, acabei saindo no braço com um rapaz. Ele era um funcionário da empresa em que trabalho, mas saiu já faz alguns anos. Nem me lembro do que nos levou a isso mais. Só sei que, diferentemente do que acontece quando a briga é com Benjamin ou Fred, eu não fui capaz de parar. Eu não consigo saber o motivo.

Eu tenho lapsos de memória. Quando a raiva é muito grande, eu esqueço sobre o mundo. Sobre mim. Sobre o que importa. E depois sou incapaz de lembrar o que aconteceu. Por isso sei que nunca seria capaz de realmente fazer a Anny feliz. Consciente disso, eu me perguntei – mais de uma vez para ser sincero – se não devia investir em outra pessoa. Vergonhosamente, a primeira que me ocorreu foi Catarina. Porque ela sempre pareceu se contentar com pouco, sempre pareceu não se importar de fato com esse tipo de coisa. E, por um tempo talvez longo demais, eu acreditei cegamente nessa ideia, sem perceber o quanto a fazia sofrer com minhas atitudes dúbias. Por isso eu lhe disse que ela merecia – e ainda merece – que realmente desse certo dessa vez.

Sei que fui um canalha, sei que não posso ser perdoado por brincar com as pessoas desse jeito. Sei que você ficará irritada com tudo isso. E vou entender se não quiser me responder. Mas, Hana, por favor, acredite em mim quando digo que nunca agi de má-fé. Estou aqui, escrevendo de forma a expor todo o meu ser, porque acredito que é o mínimo que posso fazer. Eu espero que entenda, mas não que me perdoe. Acho, na verdade, perfeitamente compreensível que você decida não perdoar. Sei que não mereço nada por ter feito o que fiz. Por ter causado tanta dor em tempos ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos. A todas vocês. Se quiser ter uma conversa comigo cara-a-cara, estarei em Boston na próxima semana em uma viagem a trabalho. Meu celular continua o mesmo e estarei sempre disponível virtualmente. Se quiser, saberá onde me encontrar.

Para terminar, deixo registrado que, se eu pudesse, voltaria no tempo e faria tudo diferente. Não deixaria que vocês se ferissem, não deixaria que a relação entre você e Ben se despedaçasse. Sei o quanto você o amou e sei que agora esse amor está voltado para outra pessoa. Mas ainda acho que vocês dariam um belo casal. Ele sempre teve um carinho especial por você, apesar de eu nunca ter descoberto que tipo de carinho era – e acredito que ainda seja – esse. Mas, numa possibilidade não tão pequena assim, talvez fosse apenas um amor quase fraternal, porque vocês sempre foram a família que nunca tivemos.

Com amor,

John.


Hana só percebeu que estava chorando quando ouviu a porta se abrir, assustando-se. Kyouya, parado entre o quarto e o corredor, franziu o cenho ao ver o estado da garota, que rapidamente fechou a janela, esquecendo-se do que fazia antes. Então ela secou o rosto com as mãos e respirou fundo, tentando se recompor. O moreno nada disse, apenas caminhando até a namorada e a puxando suavemente para si, envolvendo-a em um abraço estranhamente protetor. Sua voz saiu suave quando ele falou, fazendo com que as tentativas de Hana de manter a compostura falhassem miseravelmente.

- Desculpe por ter implicado com você por algo tão pequeno.

Ela não respondeu, apenas apoiando as mãos no peito do rapaz e escondendo o rosto em sua camiseta. Kyouya estendeu brevemente o braço para fechar a porta e logo tinha voltado a abraçar a garota, afagando-lhe as mechas negras. Hana, por sua vez, chorava um tanto copiosamente, sem saber exatamente por quê. Sentia-se mal. Por ela, pelas garotas, por John, por Fred, talvez até por Benjamin. Pelo pessoal do Ouran. Por Kyouya. Por isso se permitia chorar como não fazia há muito tempo.


Anny parou com a mão no ar diante da porta do quarto de Hana e Kyouya quando ouviu os soluços abafados vindos de dentro. Não sabia o motivo, mas acreditava que vinham da amiga, de um choro de alívio. "Mas talvez tenha algo mais misturado a isso", ela abaixou o braço. Era melhor deixar para depois. Ainda teriam o final de semana todo, podiam conversar depois. Então ela girou sobre os calcanhares e saiu, sorrindo de canto ao ver Catarina passeando pelo navio com Hikaru, os dois parecendo empolgados com a exploração.

Apesar de tudo, ela sentia que a viagem seria agradável.


John estava quase desistindo de ter uma resposta quando o computador apitou, avisando que havia uma nova mensagem. Ele se levantou preguiçosamente da cama, vendo o horário. Era tarde, de forma que o e-mail novo provavelmente era uma propaganda automática de algum site de compra em que ele tinha cadastro. Seus orbes se arregalaram quando ele viu o e-mail de Hana no remetente. Rapidamente ele abriu a mensagem, começando a lê-la com estranha avidez. O assunto, como ele tinha feito, era "Querido John".


Queria começar dizendo que me sinto dentro da ficção de "Querido John" só por ter colocado o assunto desse jeito. Mas isso não é importante, então vamos ao tópico seguinte.

Você é um idiota.

Simples assim. Que história é essa de me escrever com esse tom de carta de suicídio?! Idiota. Eu quase tive um ataque aqui, seu idiota. Você por acaso fez um pacto com os gêmeos para ver quem conseguia ser mais idiota? Porque esse seu e-mail conseguiu te deixar em grande vantagem, seu grande idiota. Meu deus, que ideia essa de que eu não vou te perdoar. E eu sei que você pediu segredo, mas o Kyouya me encontrou às lagrimas – olha o que você fez comigo, seu idiota! – e eu acabei mostrando seu e-mail a ele. Ajudou a me acalmar, pelo menos.

Só para garantir que você registrou… Você é um perfeito idiota, ok?

Mas voltando ao que importa, avise-me quando chegar a Boston, podemos marcar alguma coisa. O Kyouya vai entender. O que eu espero que você entenda é que… Pode ser que eu apareça com guarda-costas. A ideia não me agrada, veja bem, mas alguns sacrifícios às vezes são necessários. De resto, não se preocupe. Não contarei a mais ninguém sobre o seu desabafo. Mas saiba que eu achei uma graça.

Com amor,

Hana.


John sorriu de canto. Não esperava atingir a amiga daquele jeito, mas se sentia bem ao ler a resposta dela. Também não importava que Kyouya tivesse visto o e-mail, pois não comentaria com ninguém. Então, sem mais o que fazer além de se sentir confortável pela resposta com o ar típico de Hana, John desligou o computador e voltou a se deitar sobre o colchão. Mas demorou a pegar no sono. Ainda pensava sobre tudo que tinha dito à amiga, imaginando o que ela poderia querer perguntar mais. Mas não era tão bom naquilo quanto Hana e, principalmente, Anny, de forma que logo suspirou e se ajeitou na cama para dormir.


O navio atracou pouco depois de o sol nascer. Mesmo assim, Hana já estava em pé, sentada a uma das mesas na área do refeitório. Tinha dormido mal, não apenas por ter demorado a pegar no sono ou por ter acordado várias vezes durante à noite, mas porque, quando acordou por volta das cinco horas da manhã, não conseguiu mais dormir. Sentia um estranho misto de empolgação, sono e ansiedade correndo em suas veias. A garota então baixou o olhar para a caneca de chá diante de si, tomando mais um longo gole antes de olhar novamente ao redor.

Como o esperado, o navio estava silencioso, parecendo deserto. A morena então se levantou, com a caneca em mãos, e se retirou, indo ver o mar da popa do navio. A água estava tranquila, refletindo o céu azul e sem nuvens. O sol parecia que não ia ficar muito forte naquele dia, mas ela tinha aprendido a não confiar nas primeiras impressões. Ela suspirou, bebericando o restante do chá e deixando o olhar se perder no horizonte.

- Hana? – uma voz familiar soou a suas costas, mas a garota se assustou do mesmo jeito – Desculpe, eu não quis te assustar. – o tom era levemente constrangido.

A garota se virou, sorrindo para sua companhia.

- Está tudo bem. Mas o que faz em pé a essa hora?

- Bom… A mesma pergunta vale para você, não acha?

Ela riu.

- Acho que temos muitas conversas de madrugada. – ela tornou a olhar o céu – Ou quase isso.

Kaoru sorriu de canto e foi até o lado da amiga, apoiando os braços nas barras de ferro que percorriam todo o perímetro do navio pouco abaixo da altura de seu peito, o que o obrigou a se curvar levemente. Hana, inconscientemente, sorriu de volta para o ruivo. Mas havia algo realmente de errado naquela situação e ela não conseguiu ficar muito tempo em silêncio.

- Aconteceu alguma coisa para você ter se levantado tão cedo?

Kaoru não respondeu de imediato. Para evitar cuspir palavras de novo, a garota tornou a bebericar o chá.

- Não exatamente. – ele olhava para o mar ao falar – Eu só não consegui mais dormir. – ele deu de ombros e então se virou para ela – Estava conversando com a Anny ontem de noite. Sobre a apresentação de vocês no Ouran.

Aquilo pareceu surpreender a outra e seus orbes levemente arregalados fizeram Kaoru rir.

- Não me olhe assim. Ela começou a cantar junto do rádio e eu acabei me lembrando disso. – quando a garota assentiu, ele continuou – Havia algo por trás daquilo, não é?

Hana sorriu com um ar um tanto misterioso.

- Talvez.

Kaoru suspirou.

- É. A Anny respondeu algo por aí também e me alertou que eu não conseguiria nada com você. – ele sorriu de canto, sem parecer incomodado, e então tornou a levantar – Bom, acho que vou tentar dormir mais um pouco. Faça o mesmo, porque o dia pode ser longo. – então afagou as mechas negras e se retirou.

A garota ainda ficou algum tempo ali, olhando para o horizonte, até que todo o chá da caneca tivesse acabado e os pássaros já se fizessem ouvir a bons minutos. Então, quando a movimentação da tripulação já se fazia ouvir significativamente, a morena se virou e voltou para o refeitório, devolvendo a caneca a um dos funcionários e se retirando para o quarto. Kyouya ainda dormia profundamente.

Hana calmamente se sentou ao lado do moreno na cama e abaixou o rosto, depositando um beijo breve e suave na bochecha do rapaz, que mal se mexeu. Então ela pegou um papel e uma caneta, rabiscou alguma coisa e saiu, levando apenas o celular e uma garrafa d'água consigo. No caminho, pediu para um dos tripulantes chamar três pessoas específicas para ela.

Com os guarda-costas ao seu redor, Hana desembarcou do navio.