Hana caminhava sem pressa, olhando com um sorriso de canto a paisagem ao seu redor. Tinha simplesmente saído do navio com o trio de guarda-costas e munida de apenas uma garrafa d'água, imaginando se não devia ter pegado mais. Seu plano não era ir muito longe, mas o som de água caindo em algum lugar a impulsionava cada vez mais para frente e ela logo começava a sentir o efeito da economia. A garrafa tinha ainda um terço de seu conteúdo original e a garota ainda tinha pelo menos metade do caminho pela frente pelo que conseguia ver.

Então, tirando-a da paz que o canto dos pássaros e a paisagem a tinham inserido com certo custo depois do primeiro telefonema de Kyouya, a garota novamente ouviu o barulho estridente de um toque de celular. Irritada, virou-se para o grupo atrás de si, falando com um tom de poucos amigos e tendo o cenho franzido.

- Que inferno! Não disse que deviam desligar ou, pelo menos, manter essas drogas no silencioso?!

- Sinto muito, senhorita Hana. – um dos homens respondeu, tirando o aparelho do bolso e atendendo – Pois não, senhor Kyouya?

- Como ela está? Já decidiu voltar? Estamos indo para o hotel agora e seria bom irmos todos juntos.

O homem olhou brevemente para as costas da morena, que tinha voltado a andar.

- Ainda não. – ele franziu o cenho – Mas acredito que não deve demorar. – ele olhou brevemente para a garrafa d'água.

Kyouya suspirou do outro lado.

- Tudo bem. Avisem assim que ela decidir dar meia-volta.

- Entendido. – e então o homem desligou.

Hana tinha acompanhado como podia a conversa e acabou sacando o próprio celular, revirando os olhos ao ver que não tinha nenhuma notificação de ligação perdida. Se Kyouya queria tanto saber o que ela tinha decidido, por que ligar para o guarda-costas? Por que não falar diretamente com ela? "Idiota", ela respirou fundo e parou, olhando para o céu. Mesmo com aquilo, ela não se sentia irritada com o rapaz. Então um sorriso se desenhou em seus lábios e ela retomou a caminhada, subindo mais um pouco pela montanha.


O grupo estava reunido no refeitório do navio, tomando um café-da-manhã reforçado. Kyouya, que tinha se afastado brevemente para fazer a ligação, logo voltou para junto dos amigos, sem comentar qualquer coisa. Aquilo não era uma surpresa e ninguém parecia disposto a questioná-lo sobre a única garota ausente. Os gêmeos americanos, que ainda estavam sentindo um misto de encantamento e descrença sobre tudo que estava acontecendo, tinham entendido rapidamente as regras do jogo. Não questione e não será questionado.

Um homem então se aproximou do grupo, fazendo uma breve reverência antes de falar. Sua voz era suave, com um tom educado, e ele olhava igualmente para todos os presentes. Anny percebeu o emblema no uniforme, imaginando se aquele era apenas para o hotel, para o navio ou se era para todos os negócios dos Ootori.

- Quando todos estiverem satisfeitos e prontos, uma equipe estará esperando na saída do navio para levá-los até o hotel e indicar-lhes seus respectivos cômodos. – então ele fez mais uma reverência e se retirou.


Hana parou quando viu uma pequena tenda ao lado da trilha. Um ponto estratégico de descanso para os futuros turistas dispostos a subir a montanha nem tão alta, mas certamente não menos difícil de caminhar. Ela foi até um dos bancos e deitou, olhando sem muito interesse enquanto, hesitantes, os guarda-costas a seguiam. A única mulher entre os três então se aproximou, abaixando-se ao lado da garota parecendo sem muita certeza de como fazer aquilo, e falou com um tom suave, mas nem tão subserviente.

- Senhorita Hana, por que não voltamos agora?

A estudante de moda olhou da mulher para os outros dois homens, visivelmente desconfortáveis em seus trajes depois da caminhada. Então ela olhou para as próprias roupas, vestidas quando ela percebeu que não conseguiria mais dormir. Uma calça de moletom fina e uma blusa de manga tão curta que quase chegava a ser uma regata. Estava um pouco frio quando ela se levantou, mas seu plano já tinha tomado forma quando ela decidiu se trocar, de forma que aquele era realmente um traje adequado. Então ela tornou a olhar para a mulher.

- Vocês podem voltar. – então ela olhou para o telhado de palha da tenda – Bom, não todos vocês. Alguém ainda precisa me acompanhar. Fazer uma trilha sozinho nunca é seguro. – ela deu de ombros.

A mulher olhou para os companheiros de profissão e entendeu que os três pensavam a mesma coisa. Kyouya podia ser caprichoso, mas Hana sabia ser bem mais quando queria. Então o grupo rapidamente decidiu o que fazer, ficando apenas com as camisas e dobrando as pernas das calças compridas. Tiraram então as camisas de dentro das calças e os homens abriram os dois primeiros botões. Hana quase riu ao ver a cena e seus olhos foram automaticamente parar nos pés dos guarda-costas. Apesar de tudo, eles tinham sido precavidos e colocado sapatos adequados para trilhas. Ela sorriu de canto e se levantou.

- Obrigada. – ela fez uma breve reverência e sorriu para o grupo, que pareceu surpreso.

Então retomaram a caminhada.


Kyouya tinha rapidamente desistido de esperar por Hana para irem até o hotel. Considerando o estado da garota na noite anterior, era bem possível que ela precisasse um tanto desesperadamente daquilo. Anastácia, por outro lado, sentia-se um tanto ansiosa com a ausência da amiga. Não conseguia entender o que tinha acontecido para ela sair daquele jeito e algo em sua mente a alertava, relembrando-a constantemente do choro que tinha escutado poucas horas antes, quando ia falar com a amiga.

Mei e Valentine estavam se dando surpreendentemente bem, falando empolgadas do que poderiam fazer, das trilhas, dos animais. Mori e Hani pareciam se divertir, mas Daniel parecia cansado só de escutar a conversa. Jenna não resistiu, passando um braço ao redor do rapaz e lhe bagunçando os cabelos ao falar.

- Não vai acompanhar o pessoal nessa exploração? Mas parece uma ideia tão interessante. – a ironia misturada à gozação era quase palpável na voz da garota, o que fez o outro rir.

Tamaki, a seu jeito, parecia aflito com alguma coisa e o grupo não demorou em saber o quê. Ele logo começou a questionar Kyouya sobre os perigos que poderia haver, especialmente para alguém como Haruhi, desprovida de muita força física e bom senso, naquelas atividades. Kyouya deu de ombros, olhando para a amiga de relance. A japonesa parecia perfeitamente consciente de como tinha sido chamada, sorrindo de canto com um ar irônico e incomodado que fez o moreno se perguntar quanto daquilo era resultado do tempo passado com as amigas americanas.

Catarina e os gêmeos pareciam um tanto alheios ao que acontecia ao redor. Os ruivos discutiam sobre algo que parecia muito interessante à garota, apesar de ela não participar da conversa. Hikaru andava ao seu lado, a mão segurando com estranha delicadeza a sua. Aquilo fazia a loira sorrir de canto inconscientemente. Kaoru tinha reparado, mas preferiu manter silêncio. Não queria acabar com a felicidade da menor, considerando o quão difícil devia ser para eles parecerem um casal normal. "Especialmente considerando que Hikaru é uma das partes", ele sorriu e acenou com a cabeça, concordando com o irmão sem ouvir muito por um breve momento.

Nathan, que ia mais atrás do grupo, parecia analisar com certa satisfação o que via. Todos estavam descontraídos e empolgados, o que o tranquilizava. Mesmo assim, havia algo que não saía de sua cabeça. Jenna havia lhe dito para levar roupas de banho por causa da piscina e do que mais poderia haver na ilha da família de Kyouya. Somava-se a isso o fato de que ela não gostava de maiôs, como ela havia casualmente comentado uma vez. "O que ela pretende fazer então…?", ele soltou um ar um tanto pesadamente, mas ninguém pareceu notar. Mesmo que tivesse visto progresso na garota em relação às cicatrizes em seu peito, o homem sabia que ela não as tinha superado. Essa consciência o fazia descartar a possibilidade de Jenna usar biquíni.


Hana parou ao lado de uma placa que indicava quantos metros ainda havia pela frente. Um pouco mais abaixo, a mesma placa indicava que o rio já era acessível dali, mas que a cachoeira ficava mais acima. A morena sorriu com satisfação e entrou pela trilha circundada e sombreada pelas árvores. Ali, eram obrigados a andar em fila, o que parecia incomodar os guarda-costas. A garota não ligou, seguindo em frente até chegar à beira do rio. Então descalçou os tênis e os deixou junto da garrafa d'água vazia sobre uma pedra mais elevada, deixando-os tão longe quanto possível do rio.

O trio de guarda-costas logo se juntou a ela, parecendo mais confortável pelo fato de a trilha ter se aberto em um espaço consideravelmente mais amplo. Um dos homens se sentou próximo de onde a garota tinha deixado suas coisas e os outros foram até Hana, que se encontrava parada com apenas as pontas dos dedos tocando na água. Apesar de a terra afundar com o peso deles, a garota estava parada sobre um amontoado de pedrinhas arredondadas e lisas, de forma que a barra da calça estava praticamente limpa.

- Senhorita Hana? – a mulher a chamou com uma voz firme.

A garota se virou, olhando para a outra com uma estranha mistura de curiosidade e inocência. Ali, ela não era mais a garota teimosa e caprichosa. Parecia mais uma garotinha querendo apenas se divertir na água. A mulher sorriu com mais afeto do que imaginou que aconteceria e, com uma voz suave, sugeriu que voltassem. O olhar da mais nova endureceu automaticamente.

- Eu não vou voltar ainda. – ela então foi até suas coisas e começou a tirar a blusa.

- S-senhorita Hana…! – a mulher tinha um tom repreendedor.

- O que? – a garota se virou, falando com um tom indiferente que quase beirava a grosseria. Então deixou a blusa sobre os tênis, expondo a parte de cima de um biquíni. Logo ela tirava também a calça, que deixou junto do resto antes de voltar para a água.

- Nós realmente devíamos voltar. – a mulher tinha rapidamente recuperado a compostura e olhou para os colegas atrás de apoio.

O mais novo deles encarava as costas de Hana com o cenho franzido, parecendo realmente incomodado com alguma coisa. Quando os outros olharam, rapidamente entenderam o que era. Apesar de a luz chegar em faixas irregulares por entre as folhas, pregando peças em seus olhos, as cicatrizes estavam visíveis sobre a pele levemente morena da garota, fazendo o trio prender brevemente a respiração.

Hana sentia os olhares em suas costas e resistia à vontade de se encolher. Não importava o que eles pensassem, ela estava ali por um único motivo. Ela só queria aproveitar o lugar e espairecer. Precisava daquilo mais do que quando saíram no dia anterior para buscar os amigos. Se não tivesse saído tão cedo, ela teria ido com os amigos e dispensado os guarda-costas, o que seria mais confortável sem qualquer dúvida. "Mas é claro que eu tinha que acordar mais cedo que o universo e perder o sono", ela suspirou, afundando o corpo na água.

Os guarda-costas se entreolharam sem saber o que fazer. O homem mais velho então tirou a camisa e dobrou as pernas da calça mais para cima, entrando na água com certa hesitação. Nunca, em toda sua carreira, imaginou que precisaria fazer aquilo. Mas, como Hana estava demorando a emergir, eles acharam que algo estava errado e era seu dever tomar conta da garota. Pelo menos enquanto o mais novo dos Ootori, a quem acompanhavam de fato, assim desejasse.

A garota sentiu a mão do homem segurar firmemente em seu braço e puxá-la para fora da água. Ela puxou o ar com força quando voltou à superfície e olhou irritada para o outro. Com um gesto um tanto brusco, ela se desvencilhou e tornou a mergulhar, nadando pelo rio por alguns segundos. Quando tornou a emergir, estava a poucos metros do trio responsável por sua segurança. O homem a olhava preocupado e ela, em um impulso infantil irresistível, lhe mostrou a língua.

A mulher, parada ao lado do outro colega de profissão, quase riu ao ver a cena, especialmente quando o homem, que já tinha água até os joelhos e a calça molhada pelo rio, se voltou confuso para eles. Não tinha sido treinado para lidar com aquilo, ficando sem reação por alguns segundos. Quando ele tornou a olhar para onde a garota estava, ela já tinha mergulhado de novo e avançava mais um pouco por sob a água. O homem suspirou e começou a caminhar atrás da garota.


Kyouya, junto de um ou outro funcionário, mostrava calmamente o hotel para os amigos, explicando o que ficava onde e como eles poderiam se localizar pelos diversos mapas espalhados pelas paredes em pontos equidistantes, mesmo nas áreas destinadas a lazer, onde havia grandes áreas abertas para as quadras, piscinas e bares. O grupo seguia admirado e, ao mesmo tempo, impressionado com tudo aquilo. Apesar de já fazer quase um ano, as garotas de Boston não conseguiam se acostumar com todo aquele luxo. Os gêmeos americanos, por sua vez, pareciam capazes de desmaiar a qualquer momento pelo choque que recebiam.

- Seguindo por ali – Kyouya apontou para um portão não muito longe –, é possível chegar a um dos acessos para as trilhas. Há vários outros espalhados pelo hotel e as trilhas variam em tamanho e dificuldade. Junto de cada portão há um esquema simplificado do terreno, indicando as distâncias de cada trilha e o que pode ser encontrado em cada uma delas. – ele viu alguns olhos brilharem diante daquilo – Se não houver ninguém que queira acompanhá-los em alguma trilha, há um interfone junto de cada portão que pode ser usado para requisitar um ou mais guarda-costas.

Anny olhou o amigo com firmeza, sabendo que ele dizia isso como uma forma de tranquilizá-la. "Hana não está lá fora sozinha" foi o que ela leu nas entrelinhas. Mesmo assim, a garota não conseguia se sentir confortável com a ideia. Kyouya ajeitou os óculos e continuou. Explicou brevemente o que havia no terreno de uma forma geral, dizendo que era possível nadar nos rios, desde que se mantivesse uma distância segura das cachoeiras maiores. Para os distraídos, havia avisos indicando a partir de que ponto era proibido avançar. O rapaz falou mais algumas coisas, mas Anny tinha parado de ouvir.

Kaoru, ao notar o ar preocupado e o cenho franzido da garota, passou calmamente o braço ao redor de seus ombros e a puxou para si, dizendo que estaria tudo bem. Com um tom de brincadeira, disse que Hana não seria idiota o suficiente para cair de uma cachoeira por metros e metros. Quando Anny o olhou com um ar duro e incomodado, o ruivo rapidamente levantou a mão livre na altura do peito em um sinal de desculpa. A morena então suspirou e o abraçou de volta. Não tinha contado ao rapaz sobre o que a perturbava de fato. Podia não ser nada. "Mas, considerando o tempo desde a última vez em que isso aconteceu…", ela suspirou.