Quando Hana voltou, encontrou os amigos sentados na beirada da piscina, conversando e beliscando alguns petiscos. Kyouya foi o primeiro a se levantar e ir até a garota, uma vez que sabia que o grupo já estava voltando. Os guarda-costas então foram rapidamente dispensados, parecendo aliviados por poderem se retirar e descansar. O que tinha entrado no rio atrás da garota ainda tinha as roupas molhadas, mas Kyouya não perguntou nada. Pelas marcas nas calças, o moreno imaginou o quão longe eles tinham ido.

- Está quase na hora do almoço. – foi a primeira coisa que a garota ouviu o Ootori dizer.

Antes que houvesse resposta, no entanto, Kyouya levou uma das mãos a seu rosto e começou a analisá-lo. A garota franziu o cenho, mas não se afastou. "Eu não sou idiota, eu vi o aviso no rio. O que ele acha que eu ia fazer? Por acaso eu pareço do tipo que se joga de cabeça em uma queda de metros em direção às pedras ou que gosta de se afogar?", ela fitava o céu azul, sentindo o sol atravessando sua blusa e esquentando suas costas.

Então, mais rápido do que ela imaginou que seria, o rapaz tornou a por a mão no bolso e, com um discreto sorriso de canto, virou e se afastou. A garota arqueou uma sobrancelha, mas não questionou. O cabelo ainda escorria da visita ao rio, espalhando pequenas gotas de água conforme ela caminhava até os amigos. No meio do caminho, apenas tirou a calça e a blusa, jogando-os em uma cadeira e deixando o par de tênis ao lado. Anny sorriu quando a amiga se sentou ao seu lado.

- Como foi o seu "pequeno" passeio matinal? – ela tinha um tom levemente irônico ao falar.

- Foi bom. – Hana deu de ombros – Achei que a trilha seria mais complicada, mas só era longa mesmo. – ela sorriu, olhando para os pés mergulhados na água ao continuar – A água do rio estava realmente uma delícia.

Anastácia olhou brevemente para o lugar por onde os guarda-costas tinham sumido.

- Não acho que eles tenham ficado muito felizes. – ela riu.

Hana levantou o olhar e acompanhou a visão da amiga, demorando um pouco a entender. Quando a ficha caiu, no entanto, ela apenas soltou uma risadinha e deu de ombros.

- O que houve no rio? – a voz da amiga fez a mestiça se virar – Um deles tinha a calça visivelmente molhada.

Hana se aproximou mais da amiga e, com um tom sussurrado, contou brevemente como foram as coisas, sem se esquecer da parte em que um dos homens ficou apenas com a calça dobrada até o joelho para entrar no rio – enfatizando que aquilo não era realmente necessário, considerando que ele não chegou a mergulhar o tronco na água em nenhum momento.

- E, logicamente, o seu namorado não ficou sabendo. A visão valia a pena? – Anny respondeu no mesmo tom.

Hana olhou de forma sugestiva para a amiga e então de soslaio para o moreno em questão. Ao tornar a falar, sua voz tinha o tom normal e ela tinha tornado a se ajeitar no lugar.

- Vamos saber se ele não for trocado até amanhã. E você sabe a resposta dessa pergunta, meu amor.

Anastácia riu.


Depois de um agradável descanso sob a sombra de uma árvore após o almoço, Valentine decidiu que queria explorar o lugar. Foi atrás de todos do grupo, perguntando quem gostaria de acompanhá-la. Kyouya, no que pareceu surpreender um pouco a garota, concordou em ir, dizendo apenas que precisaria pegar umas coisas antes. A americana não se importou, imaginando se seria algo relacionado ao fato de a área estar em teste ainda. Nathan e, inesperadamente, os gêmeos Hitachiin se juntaram ao grupo. Mei também aceitou, sentindo falta de alguma atividade física já. Mori e Hani dispensaram o convite por estarem ocupados treinando. Valentine pareceu brevemente decepcionada, mas não comentou. Faltava então perguntar a Hana, mas a visitante já imaginava a resposta.

A estudante de moda estava em seu quarto, vendo se tinha algum e-mail novo e aproveitando o ar condicionado um pouco, quando ouviu batidas soarem da porta. Gritou um rápido "já vai" antes de fechar tudo e mandar a máquina desligar. Imaginava que era algum funcionário a chamando a pedido de Kyouya, de forma que se surpreendeu ao ver uma Valentine sorridente parada no corredor.

- Estou vendo quem quer fazer trilha agora. Nem todos aceitaram, mas isso era esperado.

Hana piscou algumas vezes, parecendo digerir o que ouvia. Então sorriu e pediu um momento para a outra, porque precisava se trocar. Tinha tomado banho depois do almoço, para tirar o cloro do cabelo. Não por estética, mas porque a forma como as mechas ficavam a incomodava. Por conta disso, estava sem uma roupa adequada para caminhar. Valentine concordou, dizendo que esperaria na piscina com os outros.


O grupo já tinha caminhado um bom pedaço da trilha de uma dificuldade maior em relação a que Hana pegara horas antes quando os gêmeos decidiram que tinham se cansado. Kyouya indicou que dois dos cinco guarda-costas que os acompanhavam voltassem com os ruivos para o hotel. Kaoru suspirou, sem vontade de protestar, mas Hikaru reclamou que aquilo era exagero e que eles podiam voltar sozinhos.

- Se alguma coisa acontecer, eles estarão melhor preparados para ajudar. – Kyouya trocou a prancheta que carregava de uma mão para outra antes de continuar – E eu terei uma fonte mais confiável de dados.

Os gêmeos suspiraram, sem forças de continuar aquela discussão inútil. Estava quente demais para aquilo, de forma que eles apenas decidiram que continuariam acompanhando o grupo. O restante do caminho se passou em silêncio, com a caneta de Kyouya riscando o papel e os passos sendo os únicos ruídos produzidos pelo grupo. Ao longe, eles viam um animal ou outro de vez em quando, mas nunca conseguiam se aproximar a tempo de identificá-lo.

No fim, no topo da trilha, uma nascente se fez visível. Era uma poça de não mais de um metro de diâmetro e quase dez centímetros de profundidade, mas a água saía forte, escorrendo e se alargando mais abaixo para formar o rio. Alguns insetos voavam baixo, aproveitando a água e a sombra de uma árvore larga que se projetava metros e mais metros para o céu. As garotas, e Nathan em menor grau, pareceram encantadas com a beleza do lugar, mas os gêmeos pareceram frustrados. Depois de tudo aquilo, eles esperavam por algo mais emocionante que uma "pocinha d'água", como tinham definido.

- Deixem de ser chatos. – Hana gesticulava ao falar, sem efetivamente olhar para os dois – Venham ver isso aqui. É todo um microambiente, com características que se integram ao mundo macro em um equilíbrio perfeito. – ela tinha o tom realmente encantado na voz.

Valentine se virou para os guarda-costas, perguntando se havia alguma possibilidade de algum deles estar com uma câmera fotográfica. Um dos homens tirou das costas a mala que recebera de Kyouya no hotel e a abriu. Lá dentro havia garrafas d'água, bolachas, duas ou três toalhas, um protetor solar forte e, para a alegria da garota, uma câmera fotográfica que não deixava nada a desejar.

- Sempre precavido. – o tom de Hana era zombeteiro e Kyouya não respondeu, apesar de ter olhado atravessado para a namorada. Ela riu e se aproximou dele – Não disse que é algo ruim, não precisa se ofender.

Após Valentine tirar diversas fotos da nascente e de Mei ter falado por minutos a fio sem parar para respirar sobre como os gêmeos não podiam deixar aquela oportunidade passar, os ruivos desistiram e se aproximaram da água cristalina. Apesar da reclamação inicial, eles foram obrigados a admitir que aquela era realmente uma visão que valia a pena. Valentine, satisfeita, tirou algumas fotos do quarteto e se virou para Kyouya a fim de agradecer pela câmera e devolvê-la, mas o que viu a fez se calar.

Papel e caneta tinham sido entregues a um dos guarda-costas e o moreno tinha as mãos na cintura de Hana, que o abraçava pelo pescoço. Os dois pareciam mergulhados em um mundo à parte, alheios ao que acontecia ao redor. Eram iluminados por um facho fino de luz que passava por entre as folhas das árvores, absortos naquele beijo tranquilo, que parecia combinar perfeitamente com o ambiente. Valentine não resistiu e ergueu a câmera.

Kyouya nunca admitiria, nem mesmo para Hana, mas aquela se tornaria sua foto preferida dos dois, principalmente da viagem, por todos os anos que se seguissem em sua vida. Ele sempre teria uma cópia guardada segura em sua casa e uma, reduzida para conseguir caber no bolso, colocada na carteira. A original ficaria, obviamente, exposta em um porta-retratos na sala de sua casa tão logo ele morasse sozinho. Até lá, ficaria sobre sua escrivaninha em seu quarto.

Quando voltaram, os gêmeos pareciam renovados, conversando empolgados com as garotas. Kyouya ia mais atrás, alheio às vozes e prestando atenção suficiente apenas para não cair ou se desviar do caminho. Sua mente continuava repetindo a cena que precedera o beijo com Hana, deixando-o estranhamente constrangido e desconfortável, de forma que o moreno acabou ajeitando os óculos mais vezes que o normal.


- Ah, você parece feliz! – a voz empolgada de Catarina fez Hana sair forçadamente de seus devaneios e olhar para a amiga. Estavam na lanchonete do hotel, tomando sorvete e olhando o pôr do Sol. Ou esse era o plano – A caminhada foi tão boa assim?

Anny olhava com um ar curioso e, como era de se esperar, zombeteiro para a mestiça. Mei e Jenna não estavam junto do grupo. A primeira tinha ido acompanhar o treino de Mori e Hani, enquanto a segunda nadava despreocupadamente na piscina com seu maiô ousado o suficiente, mas sem expor seu peito – apesar de as costas e boa parte da barriga ficarem expostas –, acompanhada de Nathan e os demais. Kyouya, por sua vez, tinha ido para alguma das milhares de sala do lugar a fim de inserir os dados coletados no sistema.

- Ah, foi bem legal. – Hana sorriu para as duas e tomou uma grande colherada do sorvete. Arrependeu-se no mesmo instante, fechando os olhos com força e se encolhendo ao gemer – Gelado…!

Anny riu.

- Lógico, sua besta. O que você esperava de um sorvete? – o trio riu antes de a mestiça dar de ombros como se tivesse sido derrotada – Mas "bem legal" não explica porque você está tão… Avoada.

Hana revirou os olhos.

- Vimos uma nascente. Foi realmente bonito. A Valentine tirou fotos, vocês podem ver depois. O Kyouya deve passar tudo para o computador ainda hoje e aí eu mostro para vocês. – ela brincou um pouco com o sorvete, sorrindo inconscientemente – Mas tem uma que eu acho que ficou realmente bonita.

As outras duas se entreolharam e foi a vez de Catarina zombar da outra.

- Eu aposto que é uma do Kyouya.

Hana levantou o olhar do sorvete derretendo lentamente no pote e fitou a amiga, corando levemente.

- Quase isso.

Anny e a loira reviraram os olhos e então as três riram novamente.


- Pelo visto, você gostou mesmo do passeio. – Jenna apoiou os braços na borda da piscina, batendo calmamente os pés na água apenas para se manter na superfície sem levar seus membros superiores à exaustão.

Nathan sorriu.

- Com certeza. Teria sido melhor, claro, se você estivesse lá. – ele riu, ao passo que ela revirou os olhos – Eu só tinha visto aquele tipo de coisa em livros, fotos, essas coisas. Ver ao vivo é realmente muito melhor. É… Quase mágico. E aquela sua amiga, a Mei. – ele pareceu pensar pelo melhor jeito de falar o que queria – Ela tem um fôlego impressionante. Achei que ela fosse sufocar enquanto tentava convencer os dois gêmeos a verem a nascente.

Jenna riu com gosto do comentário. Aquilo era típico de Mei.


Os gêmeos aproveitavam o tempo livre – não que ele fosse algo raro naquele momento de suas vidas – para explorar o hotel. Kyouya tinha explicado mais ou menos a disposição do lugar quando o grupo chegou, mas era diferente ouvir e ver como eram as coisas e o que ficava onde. Partiram da recepção, indo na direção do corredor que dava para os quartos em que o grupo tinha sido alojado. Passaram por algumas salas de TV, diversos quartos vazios, salas de jogos e salas de leitura.

Por fim, pararam entre o restaurante e a cozinha.

- O que acha, Hikaru? Quer continuar? – Kaoru olhava de forma marota para a porta da cozinha.

- Bom… Uma aventura pode ser sempre interessante. – Hikaru sorriu com estranha satisfação.

Eles se entreolharam e empurraram a porta da cozinha. Um dos empregados reclamou que eles não deviam estar ali, apesar de não ter sido muito convincente na bronca. O responsável por coordenar todas as pessoas ali presentes logo se aproximou, perguntando com um tom entre cordialidade e desagrado o que os dois queriam. Kaoru foi quem respondeu, sorrindo para o homem a sua frente.

- Estávamos explorando o hotel e ficamos curiosos por ver como seria a cozinha. Não foi nada demais.

O homem arqueou uma sobrancelha.

- São amigos do filho do senhor Ootori? – ele secou as mãos em um pano que levava no ombro e as colocou na cintura.

- Sim, senhor. – os dois responderam em uníssono.

O homem pareceu ponderar por um instante.

- Venham comigo. – então se virou e começou a se afastar. Os gêmeos logo foram atrás e não demorou muito para a conversa ser retomada – Estamos testando pratos para o jantar de hoje e seria interessante ter alguém com um paladar mais refinado que… – ele olhou ao redor, ficando em silêncio por alguns segundos – Apenas um paladar mais refinado. – indicou uma mesa a que os dois deveriam se sentar – Logo alguém irá servi-los, mas peço que sejam moderados ou não conseguirão aproveitar o jantar. – ele fez uma breve reverência, visivelmente a contragosto, e saiu.

Uma cozinheira não tardou a se aproximar com duas porções pequenas do prato que preparava. Não havia problema em sobrar da quantia feita, porque os funcionários podiam comer depois, mas tudo que sobrava nos pratos era jogado fora, então todos foram aconselhados rapidamente pelo superior a servir apenas o mínimo necessário. Kaoru e Hikaru não se incomodaram e se puseram a comer, falando sem hesitar o que achavam sobre os pratos – especialmente o que não gostavam.


Quando a noite já tinha avançado e todos se recolhido a seus quartos, Catarina se surpreendeu com o abraço forte de Hikaru assim que fechou a porta. Eles ficaram em silêncio por algum tempo – que pareceu muito e pouco simultaneamente – até que a loira decidisse perguntar o que tinha acontecido. Como um garotinho birrento, Hikaru não quis dizer e apenas foi para o banheiro a fim de tomar banho.

A garota suspirou e começou a separar suas coisas para se colocar debaixo d'água assim que o ruivo saísse. Desfez a cama sem pressa, já que não tinha muito mais o que fazer, e deixou um copo de água ao lado do móvel. Ajustou a temperatura do cômodo para uma que não fosse fria ou quente demais e se sentou em uma das cadeiras localizada no canto próximo à janela. A espera pareceu longa até que Hikaru saísse do banheiro, dizendo que a ela que podia ir.

Catarina quase correu para dentro do banheiro.

"O que raio foi isso?", ele franziu o cenho, olhando para a porta por onde a garota sumira. Após pensar por alguns segundos, decidiu que não valia a pena e foi até a cama, sentando-se preguiçosamente sobre o colchão e pegando uma revista qualquer que havia na gaveta do criado-mudo para folhear. Nada daquilo era interessante, mas ele não tinha o que fazer. Sentia-se cansado pela caminhada e pelo montante de comida que colocara para dentro nas últimas horas, mas não queria estar adormecido quando a garota saísse.

Ele achou particularmente difícil esperar até que os dois estivessem deitados, envolvendo a menor em um abraço protetor como sempre fazia antes de apagar as luzes e desejar uma boa noite. Catarina respondeu já com um tom sonolento, mas despertou assim que sentiu os lábios de Hikaru tocando os seus. Ali, no escuro, ela não se importava com o quanto corava sempre que os dois se beijavam. Sabia que o mesmo acontecia com o rapaz. Que poderiam fazer se tinham uma relação regada mais a brincadeiras, gozações, videogame e comidas não muito saudáveis?

Hikaru permaneceu beijando Catarina por algum tempo, sentindo o coração acelerando em seu peito. Aquilo sempre acontecia e ele se sentia particularmente idiota, porque fazia parecer que os dois nunca tinham nenhum contato mais íntimo. Quando os dois se separaram, ele apenas se ajeitou e esperou que a garota adormecesse antes de se permitir pensar sobre aquilo. "Talvez… Só talvez… Ela se incomode por não termos uma relação mais cheia de… Tudo isso…?", ele suspirou. "Afeto" era algo que não estava em seu dicionário ainda.