Os orbes negros se abriram calmamente, fitando o teto do quarto. Naquele dia, estava em casa, sozinho. Apesar de o grupo ter se reunido na noite anterior, as garotas acabaram voltando para casa e cada um deles foi para o próprio apartamento. Sentiu uma pontada na lateral da cabeça e franziu o cenho. Tinham bebido um pouco durante a noite e ele, não acostumado com o álcool, não precisou de muito para sentir os efeitos.

Levantou-se, esticando a mão em um gesto automático para pegar o par de óculos sobre o criado-mudo e o colocando no rosto. Caminhou sem pressa até o banheiro e lavou os olhos antes de se fitar no espelho. O cabelo negro estava desgrenhado e, por um instante, não houve reconhecimento nos orbes escuros e profundos. Piscou por alguns instantes enquanto pegava os óculos sobre a pia para recolocá-los antes de um sorriso de canto, estranhamente satisfeito, se desenhar em seus lábios.

Aquele seria um dia interessante.


O ruivo se revirou na cama, acordando com o barulho de passos no corredor. Seus orbes dourados fitaram a porta por alguns segundos antes de o corpo se erguer da cama. Céus, como se sentia cansado. Tinha a boca seca e um leve latejar no fundo da cabeça, mas não se importou. Um pouco de água amenizaria aquilo facilmente. "E comida", pensou ao sentir o estômago se contrair.

A vista embaçada de sono melhorou com o contato da água fria contra a pele do rosto. Não prestou atenção no ambiente ao seu redor até se observar com atenção no espelho. O cabelo ruivo estava arrepiado e lhe caiu sobre o rosto quando o rapaz passou a mão pelos fios rebeldes. A maciez lhe era estranha ao toque. Achou que o reflexo que o vidro trabalhado lhe devolvia não podia ser seu. Então girou lentamente sobre os calcanhares, absorvendo todos os detalhes do ambiente ao seu redor.

Algo estava errado.


O moreno sorria por dentro enquanto esperava diante dos portões da universidade pela sua companhia. Ela precisava pesquisar algumas coisas na biblioteca naquele dia, mesmo que não tivessem aula. Felizmente a instituição abria normalmente, porque havia alunos e professores realizando pesquisas que não podiam parar. O rapaz afundou as mãos nos bolsos e olhou em volta. Tinha chegado um pouco mais cedo que o combinado, mas aquilo era previsível.

- Desculpe pela demora. – Hana apareceu andando a passos rápidos enquanto ajeitava a saia – A Anny pediu uma carona até o apartamento dos gêmeos. Teria marcado o encontro lá se soubesse disso antes. – ela suspirou.

Kyouya deu de ombros, sem parecer se importar. Mas tinha o cenho franzido. A garota sorriu brevemente antes de entrarem no terreno universitário e se dirigirem à biblioteca do prédio de Artes. Havia poucas pessoas pelo caminho, mas a reação dos alunos não mudava. Os professores cumprimentavam o casal, apesar de não tomarem uma atitude em relação aos outros. A garota não se importou, mas o brilho nos orbes do rapaz tinha mudado.


- Kaoru, tem certeza de que você está bem? – Anny franziu o cenho ao se sentar no sofá ao lado do ruivo, que, em uma rara situação, parecia entretido com um livro.

- Sim. E não vejo motivo para toda essa sua preocupação. – ele desviou os orbes dourados brevemente para a garota antes de voltar ao livro – Só achei a história interessante. – então, em um gesto automático, levou uma das mãos ao rosto como se fosse ajeitar alguma coisa, mas seus dedos nada encontraram. O rapaz rapidamente tratou de passá-los no cabelo, como se houvesse algum fio fora do lugar que o incomodasse.

A garota hesitou, mas acabou acenando com a cabeça em sinal de entendimento. Ainda era uma situação estranha, mas ela tentou não pensar muito a respeito. Afinal, ele tinha Literatura Moderna como uma de suas matérias preferidas. Ela olhou ao redor, procurando por Hikaru. Ainda não tinha conversado com o gêmeo mais velho sobre aquilo, já que o rapaz parecia ocupado ao telefone. Pelo pouco que ela tinha ouvido, ele e Catarina planejavam alguma coisa para reunir o pessoal mais uma vez.

- Anny! – o ruivo mais velho apareceu na porta entre a sala e a cozinha – Sabe quanto tempo a Hana e o Kyouya-senpai vão demorar? – ele tinha um tom mais empolgado que o normal.

A morena parou para pensar por um momento.

- Ela precisava pesquisar umas coisas de trabalho, mas não sei o que era.

Hikaru franziu o cenho e agradeceu, sumindo novamente por trás da porta. A garota suspirou. Pelo visto, teria de esperar mais um pouco para falar com o mais velho dos gêmeos. Sem muitas opções do que fazer, ela se levantou do sofá e foi buscar um copo d'água. Kaoru notou o movimento, fechando o livro sem ruído, apesar de não ter sido proposital, e fitando as costas femininas.

Ele estava bem, mas ainda não tinha aceitado a estranheza do dia. Desde que tinha acordado e se olhado no espelho, ele soube que algo estava errado. Sabia o que era, mas não por quê. Era essa sua não compreensão que o incomodava, que causava a estranheza. Ele piscou algumas vezes, sentindo uma mistura de sentimentos se revirar em seu estômago, como se o corpo desejasse algo que ia contra a vontade de seu subconsciente e sua consciência, presa na linha de fogo, não conseguisse decifrar os sinais.


Hana se empolgou com a ligação de Hikaru e foi para o apartamento dos gêmeos assim que saiu com Kyouya da universidade, mas o moreno disse que tinha assuntos a resolver e foi em sentido contrário ao da garota após se despedirem. Surpreendendo-a, ele a beijou antes de ir para o carro e sorriu com a vermelhidão que foi surgindo no rosto feminino. Ele riu ao se sentar atrás do volante. Aquele seria um dia realmente divertido.


- Estou falando, tem algo errado aqui. – Catarina olhava de cenho franzido por cima do ombro de Anastácia para o ruivo mais novo, ainda entretido com o livro e sentado no sofá.

- Ainda bem que eu não sou a única que acha isso. – a morena suspirou sem parecer realmente aliviada. Por que estaria? Estavam sentadas no balcão que separava a cozinha da sala. Do outro lado do móvel, entretido com o videogame e sentado no chão, Hikaru parecia alheio ao mundo tanto quanto o irmão – A questão aqui é que ele nega. E o seu namorado – ela apontou para a loira – é tapado demais para notar.

- E o que você acha, Hana? – a menor se virou para a terceira integrante daquele grupinho sussurrante. Jenna e Mei, juntamente dos respectivos namorados e Hani, já tinham planos para aquele dia, de forma que só as três estavam no apartamento dos gêmeos.

Como esperado, Kyouya não estava lá ainda.

- Eu acho que vocês estão exagerando. – ela franziu o cenho, tentando não pensar em como o moreno tinha posto muito mais afeto que o normal no beijo daquela vez. "Foi impressão sua", ela repetiu mentalmente. Tinha perdido a conta de quantas vezes tinha repetido aquilo.

Anastácia revirou os olhos.

- Você sabe que não estamos.

"Sei mesmo", Hana fitou a amiga e se levantou, indo até o sofá e parando ao lado de Kaoru. Os dois gêmeos pararam o que faziam para ver o que estava acontecendo. A morena se ajoelhou no chão, ajeitando a saia antes de tornar a fitar os olhos dourados e colocar uma mão sobre a de Kaoru. Antes que o ruivo pudesse dizer qualquer coisa, a garota se manifestou.

- Você não acha que está deixando a Anny muito de lado hoje?

Anastácia engasgou com a pergunta e olhou para Catarina, que parecia igualmente surpresa. Então olharam para um Hikaru também chocado – o que as surpreendeu um pouco –, e depois para Kaoru e Hana. A mestiça continuava olhando para o gêmeo mais novo, que parecia não ter o que dizer. O quinteto ficou naquele silêncio por alguns segundos antes de o rapaz sorrir e responder com seu tom de sempre.

- Tem razão. – ele se levantou e foi até a cozinha, abraçando a namorada, mas sem dar qualquer outra manifestação de afeto antes de tornar a falar – Sinto muito por isso.


Kyouya olhou uma última vez para a sacola de compras em sua mão antes de bater na porta. Foram necessários alguns segundos até alguém atendê-lo e os orbes que o fitavam se arregalaram, seu dono visivelmente confuso. Uma voz soou de dentro – a de Catarina, como os dois logo reconheceram –, perguntando o motivo da demora. Hikaru pareceu se recuperar com a pergunta, voltando à realidade.

- Achamos que não fosse vir, Kyouya-senpai. – o ruivo deu espaço para o outro passar e fechou a porta quando o moreno entrou. Então tomou a dianteira – A Hana está na sala com as outras.

O mais velho assentiu, puxando uma cadeira na cozinha para por as compras. Retirou um plástico cônico da sacola e então foi para o outro cômodo. Os demais presentes pareceram tão chocados quanto Hikaru ao abrir a porta. Hana engoliu em seco, sem desviar os olhos da morena enquanto ele avançava pela sala, girando levemente o objeto em mãos. Ele parou diante da garota e, sorrindo, estendeu o braço.

- O-obrigada. – Hana pegou a rosa que lhe era oferecida, rezando para seu rosto não estar tão vermelho quanto ela achava que estava.

Como todos os olhos estavam voltados para a garota exceto os de Kaoru, ninguém além do ruivo mais novo viu o moreno levar um dedo aos lábios em sinal de silêncio. Os dois se fitaram com um brilho estranho nos orbes tão diferentes e, naquele momento, tão iguais. Era como se toda a estranheza do dia de repente fizesse sentido, enquanto continuava a manter seus segredos ocultos. Uma explicação incompleta tinha se apresentado e eles simplesmente a acataram.

O moreno olhou para Anny como se pedisse desculpas por algo e então se voltou para a mestiça.

- Hana. – a voz de Kyouya soava estranhamente afável e ele sorriu com divertimento quando os orbes femininos o fitaram com hesitação – Ora, não fique tão receosa, meu amor. – o tom era de uma leve zombaria e ele riu um tanto contidamente quando a garota engasgou com a própria saliva em resposta ao termo usado.

Os demais se entreolharam temerosos.

- Kyouya-senpai… Você se sente bem…? – a pergunta veio de Hikaru, que parecia genuinamente assustado e surpreso com a situação.

- Perfeitamente bem, Hikaru. – o moreno se sentou no sofá ao lado da namorada e a abraçou – Apenas acho que tenho sido muito frio com a Hana e ela merece algo melhor que isso. – ele sorriu ao fitar a garota. Não o sorriso frio e distante de sempre, mas um realmente preocupado.

As garotas estavam atônitas.

Kaoru franziu o cenho, estranhamente preocupado com aquela afirmação. Era óbvio o que realmente acontecia, então por que a garota não parecia notar? Aquilo definitivamente não era esperado, por que ela agia como se fosse? Seria possível que ele nunca tivesse notado o quanto ela desejava algo daquele tipo? Aquela possibilidade era estranha e perfeitamente plausível, o que o incomodava profundamente. Mas o que poderia fazer?

O resto do dia passou com uma normalidade suspeita, levemente alterada ainda pelos acontecimentos da chegada de Kyouya. Kaoru tinha sido não mais atencioso que o normal com Anny, de forma que as suspeitas da garota pareceram desaparecer de sua mente. Tinham acabado de jantar quando o moreno pegou a sacola que tinha deixado na cozinha para entregar à Hana. A garota o olhou com desconfiança, mas aceitou o presente. Era uma caixa de bombons em formato de coração e decorada de forma simples, mas bonita e delicada. A morena, assim como os demais, ficou realmente surpresa, mas foi Kaoru quem primeiro se manifestou.

- Qual o propósito de tudo isso? – sua voz era um tanto amargurada e ele olhava fixamente para a embalagem refinada nas mãos da americana.

Kyouya ajeitou os óculos quase como sempre fazia, detalhe que passou despercebido por quase todos, e se fez de inocente.

- Não entendo sua pergunta. Achei já ter dito o que…

O ruivo se levantou de repente, fazendo o mais velho se calar com o gesto. Era quase como se soubesse o efeito que causaria. Os outros quatro presentes não sabiam o que fazer. Não tinham nem ao menos certeza de que entendiam o que se passava. O gêmeo mais novo e o moreno se entreolhavam com estranha intensidade, sem se mover por alguns segundos. Então, quando o mais velho fez menção de se mover, o ruivo se afastou o suficiente para sair do alcance e se virou para Hana, que finalmente conseguiu se manifestar.

- O-o que houve, Kao…

- Não me chame assim. – a voz saiu espremida entre os dentes do rapaz.

A garota piscou sem entender.

- Seja mais razoável. – Kyouya suspirou – Nem parece você desse jeito. – "Parece o corpo falando em uma mistura bizarra com a mente", ele fitava o ruivo de forma inexpressiva.

- Ora. – o mais novo pareceu repentinamente recomposto, virando-se para o mais velho – Então você acha que sabe como eu devo agir? – a forma como aquilo foi falado soava estranhamente como algo que seria dito por Kyouya e não por Kaoru.

O moreno sorriu com satisfação e foi até Hana, puxando-a para si e a beijando em seguida. O silêncio era sepulcral e o ruivo mais novo revirou os olhos. Anastácia, sem saber o que pensar diante de tudo aquilo e visivelmente perturbada, levantou de onde estava e virou Kaoru para si. Os orbes dourados que a fitaram não eram os de sempre e perceber isso a fez recuar.

- Mas… Como…? – ela olhou para Kyouya, que abraçava uma Hana extremamente vermelha com braços firmes em sua cintura, e então novamente para Kaoru – Quando…?

As garotas se entreolharam, a mestiça mais confusa que a loira ao fitarem a amiga. Então olharam para os dois rapazes em pé na sala, finalmente percebendo o brilho frio típico de Kyouya presente nos orbes dourados e o brilho empolgado típico de Kaoru presente nos orbes negros. Era como se os dois tivessem trocado de corpo – o que, por mais bizarro que fosse, explicava tudo passado naquele dia.

- Ah, sei lá. – Kyouya deu de ombros – Percebi de manhã, acordado pela ressaca leve causada por ontem. – ele fitou as garotas.

A compreensão foi imediata e Anastácia não hesitou em acertar Kaoru no pescoço para nocauteá-lo. Os orbes arregalados dos amigos a fitavam, indo por vezes para o ruivo caído no sofá de forma completamente torta. Então a morena se virou para o rapaz de óculos e lhe disse que fosse buscar alguma bebida alcóolica. Se tinha sido por causa da noite anterior, aquilo devia resolver. Pelo menos era o que a garota esperava.


Anastácia acordou com um sobressalto. Estava molhada de suor e com o coração batendo tão rápido no peito que doía. Precisou de alguns segundos para assimilar onde estava e perceber que precisava de um copo grande de água por causa da boca seca. Kaoru dormia com seu rosto angelical ao seu lado e ela sorriu inconscientemente de canto ao fitá-lo. Tomou cuidado ao se levantar, indo diretamente para a pequena geladeira no canto do cômodo. Aquilo realmente era conveniente, não havia como negar.

Pegou um dos copos que ficava em uma bandeja sobre o eletrodoméstico e então abriu sua porta, piscando com a luz repentina antes de conseguir pegar uma garrafa de água e se servir. Fechou a porta do frigobar com um ruído leve e voltou para a cama, esperando que a bebida perdesse um pouco do gelo após servi-la no copo. A garrafa foi para cima do criado-mudo e o vidro cada vez mais gelado foi mantido entre suas mãos.

Kaoru resmungou alguma coisa, mas não acordou. Em vez disso, apenas se virou na cama, ficando temporariamente de costas para a garota antes de se virar novamente e ficar com a barriga para cima, os braços abertos em direções quaisquer sobre o colchão. Anastácia sorriu, achando graça, e precisou resistir à tentação infantil de encostar o copo gelado no rosto do mais novo. Seria cruel acordá-lo daquele jeito. Especialmente no meio da madrugada.

Por fim, mais calma e hidratada, ela deixou o copo junto da garrafa e se colocou sob as cobertas, deixando a cabeça sobre o braço de Kaoru, que a abraçou quase imediatamente, apesar de continuar dormindo. Perceber o quanto seus corpos estavam acostumados um com o outro a fez corar levemente e ela agradeceu por ser a única consciente no cômodo naquele momento. Estava quase dormindo quando o ruivo se mexeu novamente, virando-se para ela.

- Anny…

A voz arrastada dele a fez erguer os olhos, mas nada foi dito por nenhuma das partes.

- Não me deixe… Por favor…

Pelo tom que o rapaz usou, mais arrastado e sonolento que antes, ela percebeu que ele estava falando enquanto dormia. A vontade de saber o que era despertou em seu peito, agitando-se por um instante antes de ser vencida pelo sono. Kaoru não resmungou mais nada antes de a garota adormecer em seus braços pela segunda vez naquela noite. Quando acordou de manhã, Anastácia mal se lembrava do único sonho que tivera. A segunda metade da noite tinha sido tranquila e quieta, banhada por uma escuridão agradável.


N/A: a ideia para o sonho da Anny, originalmente, veio como uma possibilidade de capítulo extra que em nada interferiria na história, mas então veio a sugestão da Rack de fazer como sonho de alguém e eu acabei escolhendo a Anastácia porque sim, hahahah. Enfim. Espero que tenham gostado! Tem mais um sonho meio doido para colocar na história, mas não se preocupem que ninguém vai ficar com uma personalidade estranha. E eu sei que demorei, mas esse semestre está particularmente complicado na faculdade. Vou tentar postar em menos de um mês o próximo, mas não garanto. Rack, não me mate, hahahaha