Haruhi desceu da limusine sentindo-se desconfortável. Podia muito bem ter ido até lá de metrô, mas não tinha conseguido escapar daquele luxo desnecessário quando tentou. Logo atrás, os três guarda-costas normalmente destinados a Hana saíram do carro. A garota cobriu rapidamente a pouca distância entre a guia da calçada e a entrada do prédio, sempre com os três em seu encalço. Uma vez do lado de dentro, parou e olhou ao redor. Havia uma moça simpática atrás do balcão de recepção, de forma que a japonesa se apressou em ir até lá.
Mei abriu os olhos com dificuldade. A luminosidade, parecendo intensificada pelas paredes brancas, a agredia e a garota precisou de alguns segundos para se acostumar. Então as vozes começaram a chegar a seus ouvidos. Distantes, fracas. Familiares. Ela virou a cabeça com cuidado, sentindo uma pontada de dor com o gesto. Gemeu. As vozes pararam de imediato. Ela reconheceu alguns vultos que pareciam fitá-la de volta. Piscou. Reconheceu Anastácia, com Catarina um pouco atrás. Desviou os olhos. Jenna e…
- Hana…? – sua voz saiu fraca e a garganta arranhou. Estaria a quanto tempo sem beber água?
- Mei! – a voz das garotas soou em coro e Anny foi quem se aproximou. As outras continuavam a observar de longe com um ar cauteloso.
- Anny, seu rosto… O que…? – falar tinha se provado mais difícil do que ela imaginava e o alívio que sentiu foi enorme quando a amiga lhe estendeu um copo de água e a ajudou a se levantar para beber.
- Relaxe, Mei. – Anastácia sorriu de canto – Devia ver o seu estado antes de criticar qualquer uma de nós. Agora termine de beber. – pausa – Quer mais? – a pergunta veio assim que o copo ficou vazio e a descendente de japoneses concordou com um aceno. Anny esperou que alguém pegasse o copo para enchê-lo antes de ajudar a amiga a se ajeitar na cama.
- O que aconteceu? – Mei, agora se sentindo mais disposta, olhou em volta e percebeu a faixa que cobria todo seu braço. A respiração falhou. "De novo não…", ela respirou fundo, obrigando-se a se acalmar.
- Calma, Mei. Vai ficar tudo bem. – Anny se sentou na beirada da cama e agradeceu quando lhe devolveram o copo com água – Você machucou os braços, mas nada que vá deixar marcas. Agora se acalme e beba a água. – ela voltou a ajudar a amiga, que gemeu quando tentou levantar o braço não enfaixado por completo para pegar o copo – E não tente se esforçar.
- Você lembra o que houve? – Hana se aproximou, parando ao lado de Anny. Mei levantou os olhos e demorou alguns segundos para processar o que via.
- Hana, o seu cabelo… Ele…
- Ah. – ela passou uma mão pelas mechas escuras e sorriu sem jeito – É… Eu não lembro direito o que houve, mas ele já estava assim quando eu vi. Só perguntei para a enfermeira se tinha como deixar o corte mais certinho. – ela deixou a mão no pescoço, sentindo as pontas de seus fios roçarem nos dedos. Seu corte agora se parecia com o de John – Sinto falta do comprimento, mas não é como se ele não fosse crescer de novo. – ela sorriu para a amiga.
- Mei. – a voz de Anastácia fez as outras se virarem em sua direção – Nós precisamos saber do que você se lembra.
- Eu estava indo para a biblioteca, acho. Pegar um livro para estudar. – ela franziu o cenho. As imagens em sua mente eram confusas e desfocadas, mas ela se esforçou para lembrar na ordem em que aconteceram – E aí… Alguém me chamou. Senti tocarem no meu ombro.
- Mei Kuriyama? – uma voz masculina desconhecida soou atrás da garota.
Mei se virou para ver quem a chamava e focalizou o punho fechado indo em direção ao seu rosto. Sua reação mais imediata foi abaixar e, ao se levantar, cravar a própria mão em punho na região em que ficava o estômago do outro. O rapaz arfou e recuou alguns passos, resmungando algo que ela não entendeu. Depois das cicatrizes, a garota tinha intensificado os treinos de todas as lutas por que se interessava e, ao primeiro sinal de perigo, eram esses impulsos que tomavam conta, especialmente se estivesse sozinha.
O que aconteceu em seguida foi uma mistura confusa de socos e chutes se cruzando, por vezes errando o alvo, partidos dos dois lados. Mei sentia a adrenalina correndo por suas veias, sem parar para pensar sobre o que acontecia ali. Sabia que, se parasse, poderia tomar um golpe perigoso. Conhecia aquele tipo de gente, sabia que havia uma tática muito bem montada por trás de cada soco, de cada chute. Quando lançou o corpo na direção oposta de seu atacante, escapou por pouco do que seria uma bela canelada em sua orelha. Ela respirou fundo.
Estava pronta para continuar quando algo lhe acertou atrás da cabeça.
A dor subiu devagar por sua nuca nos primeiros três, quatro segundos. Depois, pareceu explodir em sua cabeça. Ela gritou e caiu de joelhos no chão. A bolsa, que tinha mantido junto ao corpo o tempo todo, escorregou e o celular rolou pelo chão por alguns centímetros. Ela esticou a mão para pegá-lo e conseguiu discar o número de Hana antes que lhe pisassem nos dedos. Felizmente tinha falado com a amiga ainda naquela manhã, então o número era o primeiro do registro de chamadas.
- Mei? – a voz soou do aparelho.
- Hana! – ela gritou, já que estava incapacitada de levar o celular ao ouvido – Nos fundos da… – mas não conseguiu terminar a frase. O rapaz pisou com mais força em sua mão, obrigando-a a soltar o eletrônico e arrancando um gemido alto de dor.
- Mei! - Hana soava aflita – Você está onde?
- Biblioteca…! – ela gemeu, esperando que a voz chegasse aos ouvidos da outra.
A ligação foi cortada e ela não sabia dizer se a amiga tinha desligado ou se a linha tinha caído. Esperava que fosse a primeira opção. A dor de sua mão começava a subir pelo braço, junto do formigamento causado pela oxigenação reduzida. A morena respirou fundo e desferiu um soco com a mão livre na perna do rapaz. Ele não esperava pelo golpe enquanto conversava com alguém – provavelmente a pessoa que a tinha acertado por trás. Mei levantou assim que se viu livre, sabendo que a dor que sentia na mão iria apenas piorar dali para frente. Naquele momento, no entanto, não sentia muita coisa.
- Você devia ter ficado no chão, que é o seu lugar. – alguém lhe puxou pelo cabelo, forçando sua cabeça para trás, e ela viu um par de olhos azuis brilhantes e frios voltados para si. Ela conhecia a garota, eram da mesma sala.
- Cala a boca. – o rapaz rosnou para a outra, que o olhou confuso. Mei aproveitou para cravar o cotovelo em sua barriga, obrigando-a a soltar seu cabelo.
- Mei! – a voz de Hana soou a poucos passos e a primeira coisa que a descendente de japoneses viu foi o salto da amiga avançando em direção às costas do rapaz, que acabou caindo de joelho no chão – Mei… O que está acontecendo aqui…? – ela ofegava, sinal de que tinha corrido tudo que podia até ali.
- Mas como…? – Mei piscou. Aquilo tinha sido rápido demais.
- Você só vai a uma biblioteca, Mei. – Hana sorriu de canto e respirou profundamente antes de continuar – Liguei para as outras.
- Ora, ora. – o rapaz se levantou e pegou Hana pelo pescoço, apertando com força – Vejam só quem veio se juntar à festa. Se não é Hana Dimitri. – ele sorriu com escarnio e apertou mais a mão, rindo quando a mestiça começou a tentar afastá-lo com as mãos – Achei que você fosse mais esperta, Hana.
- Morra… – ela engasgou, falando com a voz fraca.
- Droga, temos que cuidar das duas agora? – a garota da sala de Mei parecia irritada, batendo o bastão de beisebol no chão. Mei o encarava com ódio, mas sua cabeça ainda latejava com força.
- Você sabe que sim, idiota! – o rapaz se virou para responder, dando a oportunidade que Hana queria. Ela só fez cravar o salto da bota entre suas pernas e empurrar com força. Ele gritou, soltando-a e caindo no chão encolhido – Vagabunda…
- A menos que você queira provar o meu salto na sua boca, é melhor começar a explicar o que raio está acontecendo aqui. – ela olhava para o rapaz com o cenho franzido e um brilho que mostrava raiva e desgosto nos olhos.
- Ao inferno com o que você quer. – ele gemia ao falar, ainda sem conseguir se por em pé – Faça alguma coisa, sua idiota…! – ele se virou para a colega, que piscou confusa algumas vezes.
Mei e Hana se entreolharam. Ela era nova naquilo por acaso?
- Desculpa, mas acho que eu perdi alguma coisa. – Hana parecia se divertir ao falar – Você não sabe o que veio fazer aqui? – ela se dirigia para a garota desconhecida, que bufou em resposta – É, você não sabe. – ela riu.
Mas a graça durou pouco, pois logo o rapaz deu uma rasteira na mestiça, fazendo-a cair de costas no chão, o que expulsou o ar de seus pulmões de uma única vez. Ele então se pôs sobre ela, uma perna de cada lado do corpo, e estalou os dedos como se estivesse se preparando para dar o soco de sua vida na garota. Hana tentava normalizar a respiração e seus olhos se arregalaram quando ela viu que Mei caía. Sorriu ao perceber que estava errada e que a amiga tinha apenas desviado de um golpe do bastão.
- Não acha que está olhando para o lugar errado? – o rapaz sorriu e, sem dar tempo para uma resposta, socou o rosto de Hana.
Ela tossiu e mal tinha virado o rosto para encarar o rapaz quando o golpe seguinte veio. Ficou assim, recebendo socos revezados entre os lados de seu rosto, por algum tempo, que pareceu longo e curto demais para que ela soubesse estimar. Apesar da demora em processar o que tinha de fazer, ela conseguiu bolar um plano de fuga e logo suas mãos puxavam a gola da blusa do rapaz, trazendo-o de encontro a seu rosto. Sem qualquer hesitação, ela bateu a testa com força no nariz do outro, aproveitando para empurrá-lo quando ele levou as mãos ao rosto em um reflexo à dor.
Mei continuava se desviando dos golpes do bastão da outra garota, sem conseguir revidar. Em parte era pela violência com que era atacada, mas Hana percebeu a mão inutilizada pendendo ao lado do corpo e soube de imediato que aquilo reduzia significativamente a capacidade de contra-ataque da amiga. Não demorou muito, com os gritos do rapaz, para que um grupo de alunos se juntasse. Dentre eles, Hana e Mei avistaram Anastácia, Jenna e Catarina abrindo caminho até o centro. Foi a loira quem conseguiu livrar as duas do bastão incansável ao jogar o corpo contra a colega de turma de Mei.
O bastão rolou pelo chão e sua dona foi de encontro à parede mais próxima.
- Eu perdi a consciência depois disso. – Mei olhou para as amigas.
- É, perdeu. – Hana suspirou, sorrindo de canto com um ar tristonho – Você estava esgotada e com dor pelo corpo todo. Não sei como aquela retardada não estourou sua cabeça com aquele bastão, mas você trincou os dedos da mão. – ela apontou para o braço enfaixado da amiga. Ou foi o que Mei pensou até seguir com os olhos pelas faixas e perceber que estava com talas segurando todo e cada um de seus dedos – Eles ainda não conseguiram ajeitar tudo, pelo que eu entendi, então não podem engessar.
- E o braço? – Mei tinha certo desespero na voz.
- É para você não forçar os músculos. Eles foram levados até o limite e mais um pouco acabaria… Deus sabe o que teria acontecido. Mas você vai ter de tomar analgésicos e descansar por vários dias. – Anastácia apoiou a mão sobre a coxa da amiga e sorriu de canto.
- Tudo bem, o que houve depois? – a descendente de japoneses sentia certa ansiedade em saber como as coisas terminaram.
- Bom, mais algumas pessoas entraram na briga e, apesar de estarmos em vantagem numérica, nenhum deles estava cansado e todos estavam com o instinto violento ligado na tomada. – Catarina se ajeitou na poltrona em que estava sentada e todas se viraram para ela – Eles focaram principalmente em você e na Hana, porque eram as que estavam em maior desvantagem. Além disso, a Hana não deixou nenhum deles chegar muito perto de você e nós não conseguíamos ir ajudar, porque tínhamos que cuidar dos dois que ficavam em cima da gente. Eles iam se revezando, sabe?
- E o barulho era ensurdecedor, eu não sei como nenhum professor escutou. – Jenna suspirou.
- Eles escutaram. – Nathan apareceu na porta e sorriu com alívio ao ver a namorada bem. Ou tão bem quanto possível.
- Então por que eles não fizeram nada?! – Jenna estourou, sentindo a revolta queimar em seu peito.
- Eles não podiam. Sabe como é esse mundo capitalista. – ele deu de ombros – Mas saiba que eu tentei, Jenna. – ele a olhou com seriedade, mas a garota apenas virou o rosto sem responder.
- O que houve, Nathan? Precisamos saber por que ninguém interferiu. – Hana tinha um leve desespero na voz.
O homem suspirou e fechou a porta atrás de si. Então apoiou o corpo contra o batente e cruzou os braços. Por onde começaria? Pela gritaria insuportável? Pela ameaça que tinha recebido? Pela imagem assustadora que rodava sua mente do que poderia estar acontecendo? Ah, ele sempre imaginava o pior… Com os gritos não tinha sido muito difícil. Tudo que queria era ver Jenna e as amigas bem. Como ele tinha odiado não fazer nada para ajudar!
- Assim que a gritaria começou, eu vi todos que estavam na sala dos professores fecharem as janelas, as cortinas, as persianas… Eles estavam bloqueando, por assim dizer, tudo que pudesse indicar o que se passava. Vocês sabem como é, a escola recebe doações estratosféricas dos pais de quase todos os alunos. Mas junto vem o pedido de deixarem seus filhos fazerem o que bem entenderem. Porque é na escola que eles podem… "Extravasar". Em todos os outros lugares, eles têm de seguir regras rígidas de comportamento, então, na faculdade, eles encontram a única fresta de "liberdade".
Hana riu com desgosto. Aquilo não era liberdade, era anarquia.
- Então – Nathan fingiu não ouvir, muito menos saber o que significava a risada – eles apenas ignoraram. Mesmo quando começou a ficar insuportável. Foi então que eu decidi que seria impossível continuar fingindo que nada estava se passando de forma mais… Óbvia. Porque, a essa altura, eu já tinha grudado na porta e estava quase saindo com discrição. Mas os gritos aumentaram e eu quase saí correndo porta afora. E foi um erro. – ele suspirou – Uma professora me chamou assim que eu passei para o corredor.
- E o que houve? O que raios ela pode ter dito que te impediu?
- Ela… – ele olhou em volta, sem saber quantas regras violava ao ter aquela conversa – Ela disse que, se eu saísse para me intrometer na briga, podia me considerar suspenso porque ela falaria com a diretora. E, nas palavras dela, podia considerar "as minhas queridinhas" expulsas também. Acho que vocês sabem o que isso significa.
Jenna bufou.
- Ela não pode fazer isso.
- Na verdade, ela pode. – Nathan coçou a nuca – Ela tem uma influência absurda sobre a diretora. E, infelizmente, somos vizinhos de sala, então não seria muito fácil enganá-la e sair. Ela saberia na hora em que eu abrisse a minha porta, porque com certeza iria atrás se eu dissesse que ficaria na minha sala.
- Isso é golpe baixo. Ela não pode simplesmente suspender as nossas bolsas. Isso é… Isso tem que ser contra as regras. Que motivo idiota ela inventaria?! – Hana precisava se controlar para não socar alguma coisa. Não serviria para nada além de piorar o próprio estado.
- Eu não sei te dizer, Hana, mas com certeza seria algo suficientemente bom para ninguém querer investigar muito. E, por "suficientemente bom", eu quero dizer que rolaria algo por baixo dos panos também.
- Eles são tão vendidos que me dá até nojo. – a mestiça soltou o ar com força.
- Mas devo dizer que vocês se saíram muito bem, considerando que eu imaginei que todas estariam acamadas. – ele sorriu, tentando sem muito sucesso aliviar o clima pesado que havia no quarto.
- Vou achar que me saí muito bem se tiver enfiado o saco daquele idiota para dentro. – Hana quase rosnou ao falar.
- Hana! – Anastácia tinha o tom repreendedor, mas os outros apenas riram.
- O que foi? Ele merecia. Ainda merece. – ela franziu o cenho.
- Podemos voltar ao que importa? – Mei decidiu interferir. Ainda queria saber como as coisas tinham terminado.
- Ah, sim, isso. Você quer saber como as coisas se desenrolaram. – Hana respirou fundo – Catarina tinha acabado de lançar aquela babaca do bastão na parede quando mais um rapaz decidiu intervir…
N/A: eu sei, eu sei, esse capítulo parece muito perdido. Mas eu garanto que ele não está. Logo mais aparece uma referência ao tempo em que estamos na história e eu espero que até o final do arco tudo faça sentido. Na minha cabeça, por enquanto, está fazendo todo o sentido do universo, hahahaha. Enfim, estou empolgada com essa parte (porque eu finalmente soube como continuar, uhul!), então vou lá escrever mais um pouco, hahahaha
