Hana sorriu com certa satisfação ao ver o bastão rolar e se agachou para pegá-lo, mas alguém o chutou para longe antes que ela conseguisse fechar a mão em volta do cabo de madeira. Seus orbes negros acompanharam o objeto por alguns segundos antes de ela tornar a se levantar e encarar a pessoa ao seu lado. Seu olhar ficou frio e distante quando o reconheceu. Era um rapaz de sua sala e ela não tinha um histórico muito bom com ele. Não que ela tivesse com alguém, mas toda e qualquer interação que ambos tiveram foi sempre em forma de desentendimentos e discussões. O rapaz sorriu com satisfação.

- Sentiu minha falta, queridinha? – seu tom era irônico e ele usou o tratamento de sempre por saber que a irritava. Ela tinha cometido o erro de brigar com ele por aquilo uma vez.

- Tremendamente, querido. – ela respondeu com um tom ácido – Estava mesmo precisando socar alguém já que seu amiguinho ali não me parece mais páreo.

- Ora, e de quem é a culpa mesmo? – ele levou uma mão ao rosto dela e contornou um dos cortes abertos pelos socos de antes com o dedão – É uma pena que ele tenha feito isso… Vai ficar marcado e não será por minha causa. – ele puxou a borda do ferimento com o dedo e riu quando Hana precisou fechar os olhos e respirar fundo por causa da dor – Por que você não me ouviu desde o começo, Hana?

- Vá para o inferno. – ela afastou a mão do rapaz e tornou a encará-lo.

Ele suspirou em resposta e, com um gesto de cabeça, indicou que mais um rapaz e uma garota se juntassem ao grupo. Anny, Jenna e Catarina tinham se juntado à amiga depois de deixar uma Mei inconsciente apoiada em um canto. Pelo menos as pessoas tinham alguma consideração em relação àquilo e abriram passagem para as garotas ajeitarem a amiga. No entanto, a roda não tornou a se fechar, o que permitia que qualquer um avançasse sobre a descendente de japoneses ao mesmo tempo em que permitia às garotas vigiarem a amiga.

Hana se virou levemente para as amigas atrás de si e bastou uma troca de olhares para elas entenderem que a garota sentia-se sem condições de ser muito ativa naquela briga. Sem pressa, ela foi até onde Mei estava e ajeitou a mão machucada sobre o colo do vestido longo que a outra usava. Em seguida, ajeitou a mão inteira, apesar dos arranhões, por cima para garantir que continuaria daquele jeito. Foi o barulho de alguém caindo no chão que a fez se virar. Jenna, que estava mais à frente das outras, tinha sido empurrada para o chão pelo colega de sala de Hana e logo os dois se engalfinhavam. A garota desconhecida que o acompanhava foi em direção a Hana enquanto o outro rapaz sorria com um prazer sádico para Anny e Catarina.

- O que você quer? – Hana não soava simpática, mas sabia que seu tom não faria qualquer diferença àquela altura.

- Terminar o que aqueles dois – ela indicou com a cabeça o rapaz que tinha o nariz quebrado e a outra garota jogada contra a parede por Catarina. Apesar de consciente, ela tinha decidido se manter fora do restante da briga – começaram e tão incompetentemente deixaram sem um ponto final. – ela riu.

Hana não respondeu.

- Ora, o que foi? Preocupada em não aguentar? – a garota riu novamente.

- Apenas me perguntando se você realmente está disposta a estragar as unhas que parecem tão bem feitas. – a morena deu de ombros.

- Você se acha tão espertinha, não é? Vamos ver então! – a desconhecida avançou sobre sua adversária e ambas teriam caído sobre Mei se Hana não tivesse se projetado com mais força para frente e abaixado de forma que seu ombro pegasse pouco abaixo do diafragma da outra. Quando caíram no chão, a estudante de Moda estava por cima, prendendo a outra contra o piso frio de pedra – Sai de cima de mim, sua vagabunda! – ela tentou empurrar a morena, mas não teve muito sucesso.

- Repete! – Hana socou com força a pele escura da outra – Repete o que você acabou de dizer!

A garota tossiu e se virou para cuspir o sangue.

- Vagabunda. É isso que você é. Você e suas amiguinhas! – ela vociferou ao tornar a encarar a mestiça.

Hana não hesitou ao descer um novo soco na outra, mas se levantou em seguida. Tinha percebido a movimentação dos braços de sua "presa" e concluiu que teria sérios problemas se não se afastasse. A outra garota se levantou, olhando com ódio para frente. Elas quase se degolavam com o olhar. Foi a voz do colega de Hana que interrompeu o momento e logo a garota tinha se juntado ao outro rapaz no ataque às três do outro lado. Catarina, Anny e Jenna tinham vantagem numérica, mas não tinham a mesma agressividade.

- Foco aqui, minha querida. – o rapaz estalou o dedo diante dos orbes negros de sua companheira de turma ao perceber para onde ela olhava – Você não quer perder tão facilmente, não é? – ele riu.

- Por que vocês estão fazendo isso? – ela fincou os pés no chão, preparando-se para avançar a qualquer sinal de ataque do outro.

Ele suspirou.

- Afinal, vocês "não fizeram nada", não é? Mas vocês fizeram, Hana. Dia após dia. Vocês escolheram não se adaptarem. Os professores podem fingir que acham uma graça, mas onde eles estão agora? – ele abriu os braços ao terminar a pergunta.

- Você não me respondeu. – ela mantinha o estado alerta.

- Hana, Hana… Quando você vai aprender? Todas vocês. Sabe, nós temos olhos e ouvidos em todos os lugares. E mãos também. Já se perguntou onde o namoradinho está? – ele sorriu com satisfação ao ver o cenho franzido da outra – Ah, sim, porque ele não sabe brigar como vocês. Ele não é um cãozinho de rua. Dá para ver só de olhar. Nenhum deles é como vocês, não é? – ele riu – Todos eles são… De berço.

- E daí? – Hana fechou os punhos com força, resistindo à vontade de avançar. Sabia que perderia a briga se caísse nas provocações.

- E daí que vocês não querem ver aqueles rostinhos tão bonitos serem estragados, não é? Ah, não. Apesar de tudo, eles são como florezinhas delicadas que precisam de proteção. Porque, na hora em que a coisa passa a ser de verdade como agora, eles não sabem o que fazer. Ou sabem?

Hana pensou em Mitsukuni e Takashi e não conseguiu evitar a risada. Aqueles dois seriam suficientes para nocautear a escola inteira. Foi naquele momento em que ela percebeu. Por que nenhum deles tinha ido ajudar? O barulho era alto o suficiente para alguém notar. Não os gêmeos, o prédio do colegial era o mais afastado. Isso, claro, se estivessem na aula. Mas daria para ouvir da cantina. E todos eles tinham aula ali por perto. Então onde estariam?

- Pare de pensar tanto, querida. Você sabe a resposta. – o rapaz sorria como se fosse um professor paciente lidando com um aluno estúpido.

- Eles não conseguiriam chegar até aqui. – ela respondeu sem pensar. Ouvir a própria voz verbalizando o que se passava em sua cabeça tinha sido inesperado.

- Exatamente. Nós tomamos conta disso. De tirá-los de perto. Afinal, não queremos ninguém estragando a festa. Ou queremos? – ele mantinha o sorriso e Hana sentia-se chegando ao limite. Aquele jeito dele de falar, a conversa, o sorriso, tudo nele a irritava – Eu sei que você está louca para me socar, mas eu também sei que você não vai fazer isso. Nós dois sabemos que aquele que atacar primeiro vai perder. Ou talvez eu esteja fadado a perder, já que você se provou muito boa em revidar, não é? – ele riu – É por isso que vou deixar que outra pessoa cuide disso. – ele se afastou e logo tinha trocado de lugar com o outro rapaz.

Hana conseguiu ver a confusão de socos e chutes que as amigas trocavam com a garota desconhecida e, agora, com seu colega de classe. Naquele momento, ela desejou ter uma arma. Não uma de fogo, mas… Algo como o bastão. Ela olhou ao redor, procurando-o, mas a multidão o tinha engolido. E aqueles poucos segundos foram suficientes para ela sentir um soco certeiro lhe atingir o estômago. O ar saiu com força de seus pulmões e ela se curvou para frente de imediato.

- Não se distraia. – o rapaz tinha um tom de divertimento ao falar.

- Cala… A boca… – ela respirava com dificuldade e cambaleou um pouco para trás enquanto tentava se recuperar. A multidão a aparou, mas apenas para jogá-la no meio da roda de novo.

O rapaz avançou de novo, mas ela conseguiu desviar. Ele tentava jogá-la contra Mei, fazê-la cair de todas as formas, mas, de um jeito que Hana não entendia, nada dava certo. Talvez ela estivesse tão disposta a proteger a amiga que conseguia resistir. Ou talvez fosse só a raiva fazendo seu coração bater tão rápido e tão forte que quase chegava a doer. O sangue corria por seu corpo com uma velocidade que ela achava impossível.

Então, de repente, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Catarina caiu e bateu no chão, sem conseguir se reerguer. Alguém a prendia, mas Hana não conseguia ver. Anny tentou ajudar, mas foi jogada contra a parede. Jenna teve tempo de derrubar o colega de Hana, mas acabou sendo levada junto e caiu por cima da loira. Havia sangue pingando, o que fez a garota sorrir. Só podia ser da desconhecida, já que era a única ainda em pé.

Então alguém agarrou a mestiça por trás, tampando a boca e o nariz. No início, ela se debateu e tentou se soltar, mas isso apenas fazia seu corpo precisar mais desesperadamente de oxigênio e ela logo começou a se sentir fraca, com a consciência se esvaindo. Antes de tudo escurecer, ela teve tempo de ver que Anny permanecia acordada e mexia no celular. Ao mesmo tempo, a garota desconhecida se afastava do trio para se juntar ao amigo. Hana estranhou quando a viu se abaixar e pegar uma tesoura de algum lugar.


- Quando eu acordei, meu cabelo estava todo espalhado em volta. Era uma cena ridícula. E só restávamos nós. Anny ainda estava consciente, mas não conseguia falar direito, então não conseguia chamar a emergência. Eu fui acho que meio me arrastando até ela para ajudar. – Hana trocou o peso de perna e franziu o cenho – Acabei desmaiando de novo enquanto nos punham na ambulância. Não sei como os outros ficaram. Os cinco que brigaram com a gente, eu digo.

Mei ia responder quando a porta se abriu, revelando um John entre sorridente e preocupado.

- Madames, perdoem a interrupção. – ele fez uma breve reverência, arrancando risos das amigas, e então deu um passo para o lado, permitindo que Benjamin e Frederick entrassem no quarto.

- John! – Hana sorriu e foi até o amigo – Que bom te ver! – ela o abraçou com força – Eu achei que você já tinha voltado para a Europa.

- Opa, só ele ganha abraço? – Benjamin tinha o tom gozador de sempre e bagunçou as mechas negras da amiga antes de ir até a cama – E como você se sente, Mei? – seu tom passou a expor toda a preocupação que ele sentia.

Hana soltou John e seu olhar cruzou brevemente com o de Frederick. O rapaz se encolheu e virou o rosto. A garota apenas deu espaço para os dois saírem da porta, que fechou sem muita demora. O quarto, apesar de espaçoso, tinha ficado apertado com aquela quantidade de gente, mas ela não se importou. As outras também não pareceram achar um detalhe relevante.

- Como vocês sabiam onde nos achar? – Anastácia se mantinha sentada na cama, ao lado da amiga, e perguntou o que todas queriam saber.

- Bom, eu queria me despedir antes de pegar o voo de volta, mas a Hana não atendia o celular. – John coçou a nuca – Então acabei apelando e liguei para o Kyouya. Ele me contou o nome que viu na ambulância e perguntou se eu sabia onde era. Eu liguei para esses dois antes de vir para cá. – ele deu de ombros – Ah, sim. Aquela amiga japonesa de vocês está lá fora. Ela estava no telefone quando chegamos, então acabei não perguntando se ela queria nos acompanhar…

As garotas se entreolharam.

- Como a Haruhi sabia? – Hana franziu o cenho – O Kyouya deve ter descoberto pelos guarda-costas, já que eles sempre ficam do lado de fora da escola e nos viram sendo postas nas ambulâncias…

- Ele deve ter pedido para ela conferir. – Cat foi quem respondeu, falando com um tom de quem não tem muita certeza – Pelo menos, é o que eu imagino.

O grupo concordou. Ficaram conversando mais um pouco, sem se importar quando Jenna e Nathan disseram que iam sair. Eles provavelmente precisavam de um tempo sozinhos para toda e qualquer coisa que lhes ocorresse. Fred tinha se afastado tanto quanto podia de Hana, mas ela conseguia sentir os olhos dele em suas costas. Ouviu quando ele perguntou algo a Catarina, apesar de o tom baixo não ter permitido que ela discernisse as palavras. Provavelmente era sobre o cabelo. Ela sabia que a enfermeira tinha feito o melhor que podia para deixá-lo apresentável, mas imaginou que ainda precisaria ir a um salão para arrumar.

- Você ficou bem assim. – Benjamin se apoiou na parede ao lado de Hana, sorrindo de forma carinhosa para a amiga. Ela sorriu de volta com um ar um tanto tristonho – Dói muito? – ele passou um braço ao redor dos ombros da garota e a puxou para perto.

- Só quando eu mexo a bochecha. – ela riu e se ajeitou no peito do amigo – A Mei é a que está sofrendo mais…

- Na verdade, ela está muito bem. – ele acariciava suavemente o braço da morena – Digo, ela sente dor e tudo, mas é mais uma coisa física, entende? Ela não me parece abalada. Não tanto quanto era de se esperar, pelo menos.

- Isso é bom. – Hana suspirou. Mei era, naquele quesito, provavelmente a mais vulnerável do grupo.

- Você sabe por que eles fizeram isso com vocês…?

- Não… Um dos idiotas disse que foi porque escolhemos não nos adaptar… Eles até deram um jeito de afastar os outros… Sabe, eu nunca achei que poderia ser uma falta tão grave escolher como me vestir…

- Mas você sempre soube, Hana. – o rapaz a apertou suavemente contra si – Porque as pessoas sempre vão arranjar motivos, mesmo que seja o mais idiota, para se meterem em encrencas… E você também sabe que não é só pela roupa.

A morena suspirou. Ele tinha razão.


O rapaz entrou no hospital sem se importar com a japonesa com guarda-costas na calçada. Independentemente de quem fosse, não iria atrapalhá-lo. Especialmente porque ele não tinha ido ali para causar um tumulto. Virou-se a tempo de vê-la entrando em uma limusine e então passou pelas portas de vidro. Não falou com a recepcionista. Já sabia o quarto que queria e onde ficava, de forma que apenas se dirigiu para o elevador.

As pessoas o olharam com certo estranhamento quando ele entrou na cabine metálica. Apesar de ainda não ser verão, o frio já não era tão intenso. Mesmo assim, ele usava um sobretudo consideravelmente grosso. Mas aquilo não importava. Ele passou uma das mãos pelos cabelos loiros tão claros que eram quase brancos e seus olhos azuis claros sorriam de forma fria. Quando chegou ao andar que queria, o rapaz desceu sem pressa e caminhou pelo corredor olhando cada placa por que passava.

Parou diante do quarto que procurava e bateu três vezes na porta.


O grupo fez silêncio ao ouvir batidas na porta e John foi ver quem era por estar mais perto. Todos olhavam com curiosidade e estranhamento, já que não esperavam mais ninguém. Quando a pessoa do outro lado foi revelada, os olhos de Catarina se arregalaram. Ela se levantou de imediato e foi até o rapaz parado no corredor, parecendo um tanto perturbada. O restante do grupo apenas se olhou sem entender.

- Ora, se não é Catarina Vizzacchi. Fico feliz em ver que está bem. – ele sorriu de forma cordial, rindo quando ela engoliu em seco – Não me olhe assim, minha querida. Não quer saber o que vim fazer aqui?

- Sim, mas quero mais ainda que você dê o fora daqui! – ela o encarava como se pudesse expulsá-lo dali sem grandes dificuldades, o que divertia o rapaz.

- Não vai nem me deixar conhecer seus amigos? – ele sorriu largamente com uma satisfação estranha.

- Você sabe quem são, caia fora daqui. – ela cruzou os braços diante do corpo.

- Catarina, minha querida… Você sabe que eu poderia passar facilmente por você se quisesse. Olhe seu tamanho tão diminuto! – ele riu.

Catarina bufou. O rapaz era realmente bem mais alto que ela, o que era frustrante.

- E o que você quer? – ela franziu o cenho.

- Apenas vim ver como estavam. – ele olhou pelo cômodo, parecendo satisfeito com o estado de Hana e Mei em especial – Saber… Os resultados.

- Foi você, não foi? – Hana se soltou de Benjamin e foi até a porta, parando atrás de Catarina.

- Eu o que, Hana querida? – o tom do rapaz era de deliberada inocência.

- Você sabe o que. – ela o fitou com frieza de volta.

O rapaz riu.

- Sei? Acha mesmo que eu sei do que você me acusa tão infundadamente? – ele sorriu – Oh, Hana, assim você me decepciona. – ele olhou o cômodo mais uma vez – Bom, agora que já cumpri meu objetivo, há outras coisas que preciso fazer. – então se virou e saiu.