Mei recebeu alta alguns dias depois do ocorrido. Para comemorar, o grupo decidiu ir à mesma sorveteria a que tinham ido depois das provas alguns meses antes. O clima, no entanto, não era de muita festividade. Catarina parecia perturbada ainda pelo encontro com o rapaz loiro no hospital, apesar de não ter comentado nada a respeito com ninguém. O grupo nem ao menos sabia quem era o rapaz. Hana tinha pedido para Kyouya investigar, mas ele precisava de um nome e ela não tinha.

- Cat, meu amor, você precisa conversar sobre isso com a gente. – Anny colocou a mão sobre a da amiga por cima da mesa.

Catarina recolheu o braço.

- Ele é só mais um idiota da nossa faculdade. – ela virou o rosto. Nem mesmo Hikaru tinha conseguido algo a respeito.

- Ele não é só mais um idiota, Catarina. – Hana debruçou sobre a mesa – Ele é um idiota que nos mandou para o hospital. Depois de dois anos. – ela soltou uma risada de deboche. Uma risada nervosa e, ao mesmo tempo, descrente – Ele fez com que nos atacassem por motivo nenhum e eu não ia ficar surpresa se a ideia fosse nos matar, porque era claramente com essa intenção que eles estavam nos atacando.

- Hana, calma… – Jenna olhava preocupada para a amiga.

- Calma? Eu vou ter calma quando eu conseguir por as mãos no desgraçado por trás de tudo isso. A Mei mal consegue usar os braços. Ela quase quebrou praticamente todos os dedos da mão. E você quer que eu mantenha a calma? – ela riu mais uma vez.

- Você se exaltar não vai mudar o que aconteceu, Hana. – Kyouya tinha o tom indiferente de sempre, mas era possível notar que a frieza e o distanciamento tão comuns não estavam presentes.

- Eu não estou dizendo que vai, ok? – ela se ajeitou na cadeira em que estava e sentiu certo alívio ao ter um braço do namorado em volta de seus ombros – Mas isso não afeta só a nós. Afeta a vocês também. Eu não quero nem pensar no que eles poderiam… No que eles pensaram em…

- Respire. – Kyouya mantinha o tom calmo, mas Anny conseguiu ver a preocupação nos orbes escuros e acabou sorrindo de canto – Respire…

- Cat, por favor. – Hikaru passou a mão sobre as mechas loiras da menor – Por que você não quer falar?

A resposta veio de Kaoru.

- Ela sabe o que pode acontecer.

Os orbes azuis se arregalaram e fitaram o ruivo diante de si. Anastácia franziu o cenho e se virou para o gêmeo mais novo, mas não fez a pergunta que todos esperavam. Catarina precisava de um tempo para se recuperar e aí poderia ser mais fácil conseguir as respostas, de forma que a morena decidiu esperar. O restante do grupo fez o mesmo, olhando do ruivo para a loira. Hikaru parecia ser o mais confuso de todos.

- Sim. – a voz de Catarina soou baixa, mas foi suficiente para todos se virarem – Eu sei… – ela engoliu em seco – Quer dizer, mais ou menos. É essa aura que ele tem, sabe? Eu nunca fiquei sabendo de nada concreto, mas… Há alguns boatos.

- Que boatos, Cat? – a voz de Mei saiu mais firme do que a morena esperava, o que a surpreendeu.

- Sobre… Como ele está envolvido em algumas atividades ilegais, apesar de o pai dele ser da polícia e tudo. – ela olhou os amigos um a um. Apenas pares de olhos chocados a fitavam de volta, mas aquilo não era de se surpreender – Isso não era para envolver vocês… Eu não achei que ele fosse chegar a esse ponto…

Hikaru, em um gesto inconsciente, abraçou a garota, pressionando-a contra si em um gesto protetor. Catarina não resistiu. O silêncio no grupo era total, quase chegava a sufocar. Inesperadamente, quem o quebrou foi Haruhi, com seu tom entre curioso e indiferente na voz. As garotas se sentiram estranhamente confortadas ao ouvir a voz da amiga japonesa, como se aquilo fosse uma prova cabal de que não estavam sozinhas. Exatamente do que precisavam naquele momento.

- O que ele fez a você?

Catarina se encolheu brevemente, mas logo levantou o rosto para olhar os amigos. Hikaru a fitava com uma preocupação tão grande que a garota sentiu o peito doer. Não tinha sido nada muito excepcional, mas o loiro tinha uma aura tão sombria que ela sentiu-se arrepiar. Só se lembrar da cena já fazia os pelos de seu braço se eriçarem novamente. Ela respirou fundo.

- Teve um exercício em grupo um dia e eu acabei caindo no dele. Não foi nada muito… Assustador, como era de se esperar, mas as pessoas ficavam cochichando atrás de mim. Ele apenas estava lá, sorrindo daquele jeito dele, me vendo subir para o fundo da sala para podermos fazer o exercício, como se nada estivesse acontecendo. Mas eu ouvia o que as pessoas estavam comentando. Era quase como se eu estivesse indo para o abate, sabem…? Ele foi bastante cordial, falando sempre daquele jeito dele. "Minha querida" isso, "minha querida" aquilo. – ela suspirou – Céus, como eu odeio isso.

- Relaxa, Cat. – Jenna sorriu para a garota – Respire fundo e leve o tempo de que precisar.

A loira concordou com um aceno breve de cabeça.

- Ele é bastante inteligente. – ela continuou após alguns segundos – E não é metido como se esperaria. Ele poderia ser bem legal se… As circunstâncias fossem outras.

- Por que você esperava que ele fosse metido? – Kaoru arqueou uma sobrancelha sem entender.

- Bonito, rico e inteligente. – a resposta veio de Anastácia – Pessoas assim tendem a ser metidas. É por isso que muitos naquela faculdade são insuportáveis. Nem todos são bonitos ou inteligentes, mas eles acham que dinheiro compra tudo.

- Bom, compra quase tudo. – Hikaru deu de ombros – Mas agora faz muito mais sentido termos ido para a escola de vocês.

- E, com tantas opções, vocês acabaram justo com as alunas que têm bolsa de estudo em vez de dinheiro. – Hana falou com um tom de deboche na tentativa de aliviar o clima.

- Eu não vejo problema nisso. – o comentário de Kyouya pegou o grupo de surpresa e logo todos, menos o casal, estava rindo. Ele não riu por não entender o que era tão engraçado, enquanto Hana sentia-se envergonhada demais para conseguir achar alguma coisa engraçada.

- Olha só quem está aprendendo! – Anny tinha um tom satisfeito na voz e o comentário fez os outros rirem mais.

Kyouya ajeitou os óculos, sem responder.

- Vamos focar no que interessa, sim? – Hana pigarreou e se virou para a amiga loira – Por favor, Cat, continue.

- Bom… – ela fez uma pausa para retomar o pensamento – Depois que terminamos o exercício, ele virou para falar comigo. Eu já estava arrumando as minhas coisas para voltar para o meu lugar de sempre, mas ele segurou o meu braço com um pouco de força e não soltou até eu me virar para ele.

- E o que ele queria? – Hikaru franziu o cenho, não parecendo muito contente com o rumo da conversa.

- "Eu não deixei você sair, Catarina, minha querida". – ela imitou as aspas com as mãos para indicar que não eram suas as palavras.

- Meu deus, como isso é ridículo. – Hana suspirou – E o que você fez?

- O que qualquer uma de nós faria. Levantei, peguei as minhas coisas e disse que ele não tinha nada que ficar me dando permissão para fazer as coisas. Que eu não era propriedade dele. Aí ele riu e disse que eu devia tomar cuidado com o que falava, porque eu podia fazer alguns inimigos pelo caminho.

- Isso foi uma ameaça? – foi a vez de Anny de não se conformar – Em que século ele acha que vivemos?

- Pois é, foi o que eu disse. – Catarina sentia-se cada vez mais desconfortável – Ele respondeu que isso era irrelevante, porque poder era poder em qualquer lugar, a qualquer tempo. E que, se eu me importava com alguma coisa, eu devia ter mais cuidado ainda, porque elas eram meus pontos fracos. Isso tem mais ou menos um ano.

Um ano. Ouvir aquilo fez algo estalar dentro da cabeça de Hana.

- Espera, espera, espera. – ela gesticulava com as mãos como se apagasse ou empurrasse para os lados alguma coisa que estava a sua frente – Está dizendo que eles queriam… Sei lá, nos recrutar? Para toda essa bobagem deles… Eles queriam nos envolver?

- Foi o que pareceu depois, porque ele sempre arranjava uma desculpa para falar comigo. – Catarina franziu o cenho. Ela acreditava, até aquele momento, que tinha sido a única a passar por algo daquele tipo.

- "Vocês escolheram não se adaptarem"… – a morena pensou alto sem perceber.

- Que? O que você está falando, Hana? – Anny, assim como os demais, olhava sem entender para a amiga.

- Durante a briga, o menino que é da minha sala me disse isso. Eu não entendia aonde ele queria chegar. Até agora, pelo menos. Ele não se referia ao ambiente da escola propriamente dito. Ele queria que nos adaptássemos ao esquema deles de… Eu nem sei o que é, porque nunca me interessou. – ela gesticulou como se aquilo não fosse importante – Ele disse que foi uma escolha que fizemos dia após dia.

- Então o que? Isso foi para "nos ensinar uma lição"? – Jenna riu – Acho que o feitiço virou contra o feiticeiro.

O grupo ficou mais algum tempo na sorveteria, conversando sobre os mais diversos assuntos. No fim, no entanto, sempre acabavam voltando para o dia da briga, para o que ele poderia significar. Para o que aconteceria dali para frente. Catarina ainda estava receosa, mas parecia mais aliviada, o que deixava Hikaru relaxado ao menos em parte. Estavam indo para os carros a fim de voltarem para casa quando Hana sentiu Kyouya a segurar pelo braço, afastando-a do grupo.

- Há algo que eu quero lhe perguntar tem alguns dias.

Ela piscou, sem entender.

- O que foi, meu amor? – ela usou o tratamento sem pensar muito, mas não pôde evitar sorrir quando o rapaz se mostrou desconfortável.

Ele pigarreou antes de continuar.

- Por que você não me ligou…?

Hana conseguiu ver a preocupação piscar nos orbes negros do outro por um breve instante e estava para responder quando ele balançou suavemente a cabeça e lhe disse que esquecesse o que tinha dito. Por um lado, ela achou a atitude do rapaz estranha. Por outro, no entanto, ficou aliviada, porque não saberia o que responder. A verdade era que ela não tinha sequer chegado a cogitar aquela possibilidade, assim como tinha esquecido sobre os guarda-costas. No fim, por mais importante que o rapaz lhe fosse, ela havia percebido que não conseguia contar com ele sempre que precisava.

E a culpa era unicamente dela mesma.

Hana foi para o carro com um ar pensativo e estranhou ao ver apenas Mei e Jenna dentro do veículo. Antes que pudesse perguntar, no entanto, a estudante de Odontologia indicou o carro dos gêmeos. Cat e Anny passariam a noite com os ruivos. A garota deu de ombros e se sentou diante do volante, perguntando às amigas se elas queriam passar em algum lugar antes de ir para casa.

- Uma farmácia me deixaria muito feliz. – Mei sorriu fracamente de canto.

- Claro. – Hana sorriu de volta e deu a partida.


Kyouya estava sentado no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá maior e fitando a televisão desligada. Tinha os braços apoiados sobre os joelhos levantados e o celular abandonado ao seu lado. Tinha pensado em ligar para alguém várias vezes, mas acabou não completando nenhuma das tentativas. Desistia antes mesmo de o telefone começar a chamar. Talvez fosse bom ficar sozinho um pouco. Talvez assim conseguisse clarear as ideias. Ele suspirou. Precisava de seu computador.

Levantou e foi até o quarto, pegando o laptop no armário. Sentou-se na cama enquanto esperava a máquina ligar, pensando em tudo que precisava fazer, tudo por que precisava procurar. Não seria difícil conseguir uma lista dos alunos da sala de Catarina, de forma que o maior problema era identificar corretamente o rapaz que lhe tinha sido descrito. A tela inicial apareceu, fazendo-o desviar o olhar. O plano de fundo, que Hana tinha mudado na última vez em que usara o computador, era uma foto do moreno de costas, olhando pela janela. Ela tinha colocado um coração discreto no canto direito inferior e ele ria toda vez em que via.

Era então a hora de colocar suas habilidades em ação. Como previsto, foi fácil conseguir a relação de alunos da sala de Catarina, mas não conseguiu uma que viesse com a foto de cada um ao lado do nome. Mesmo retirando as meninas, a quantidade de gente restando era considerável, o que o fez suspirar. A noite prometia ser longa. "Mas é o mínimo que eu posso fazer…", inconscientemente, ele buscou o celular. Não estava ali.

"Lógico, você deixou na sala, idiota", ele ouviu a vozinha em sua cabeça. O moreno apenas revirou os olhos antes de deixar o computador sobre a cama e se levantar, indo buscar o aparelho. A primeira coisa em que seus orbes escuros pousaram foi no presente de Hana, pendurado no canto do celular. Ele ainda se lembrava do bilhete da garota em que ela o chamou de sem-graça por não aceitar nada maior. Mas ele gostava daquilo. Era quase como estar acompanhado dela o tempo todo.

"Ok, chega de divagar. Você não tem o que fazer?", a vozinha tornou a soar dentro de sua cabeça, arrancando-o de seus pensamentos. Kyouya suspirou e colocou o aparelho no bolso da calça, voltando para o quarto e recolocando o computador no colo. Era hora de começar a destrinchar a vida de qualquer um que se parecesse com o rapaz que apareceu no hospital para vê-las. De achar um ponto fraco. "Aliás, você se lembra de quem mais apareceu?", a vozinha tinha um tom provocador. "O seu nem tão poderoso rival no amor", ele a ouviu cantarolar. O moreno suspirou.


Mei sentou-se próxima à janela, olhando através do vidro com um ar distante. Hana e Jenna se entreolharam, sem saber o que fazer. Quando tinham ido visitar a amiga no hospital, frequentemente a encontravam no mesmo estado. Ela passava os dias quieta, imersa em um mundo que era só seu e ao qual ninguém conseguia ter acesso. Tinham chamado Takashi em uma das vezes – depois de ele quase ter um ataque ao saber do ocorrido –, mas não conseguiram nenhum resultado significativo.

- Será que devíamos conversar com ela…? Ou procurar um psicólogo…? – Hana suspirou, ajudando Jenna a arrumar as coisas na cozinha.

- Eu não sei… Não sei mesmo. – a descendente de coreanos suspirou – Talvez seja melhor apenas a deixarmos quieta.

A outra concordou com relutância. Não era uma solução que a satisfazia, porque não sabia o que podia acontecer. Mei nunca tinha ficado daquele jeito, de forma que até mesmo Anastácia se sentia desnorteada. "Fale conosco, Mei… Não fique sofrendo sozinha…", Hana apoiou o prato que secava na mesa e jogou o pano por cima do ombro, olhando a amiga na sala. "Fale conosco…", ela suspirou. Jenna parou ao seu lado e lhe estendeu uma caneca de chá. A estudante de Moda assentiu, deixando pano e prato sobre a mesa e indo levar a bebida para a sala. Mei agradeceu com um tom baixo e logo tinha voltado a fitar a janela.


N/A: (musiquinha de suspense tocando) Quem será nosso rapaz misterioso? Com o que ele estará envolvido? Será que Mei nunca mais irá se recuperar dessa experiência traumática? Não perca! As respostas para estas e muitas outras perguntas virão nos próximos capítulos! (fim da musiquinha de fundo) Hahahaha, ok, sem ser louca na nota (de novo), mas eu me sinto empolgada. Sério. É ótimo ter inspiração para escrever de novo, hahahaha. Enfim, deixem reviews (especialmente se tiverem odiado, hahahah) e façam uma autora feliz!