Mei encarou a xícara de chá entre suas mãos, apoiada em seu colo. Todos os dias, durante uma semana, tinha sido daquele jeito. Ela chegava, sentava no sofá e olhava pela janela. As garotas conversavam na cozinha ou em qualquer outro lugar, achando que não eram ouvidas, mas ela conseguia captar o zumbido dos cochichos. Então alguém se aproximava e lhe estendia uma xícara de chá. Aquela era toda a comunicação que tinham. Mei ainda não falava com ninguém sobre o que a perturbava tanto.
Além do fato de quase ter tido o crânio rachado por uma idiota com um bastão de beisebol em uma briga que não deveria ser sua.
Ela suspirou. Sentiu quando os olhos em volta se viraram em sua direção, mas não correspondeu. Ela não queria atender às expectativas. Ela simplesmente não queria saber a respeito de mais nada. Os braços ainda doíam, ainda lhe serviam como um lembrete constante do que tinha acontecido. Tinha imobilizado a mão e o braço com um gesso curto para "prevenir que ela batesse em algum lugar e acabasse atrasando o tratamento", como tinha dito o médico. Seus dedos continuavam com talas também. Ela se sentia inutilizada. Tinha de gravar todas as aulas e não podia participar ativamente das práticas, porque os danos foram em sua mão dominante.
Ela se sentia abandonada pela vida à qual se dedicara.
A porta sendo aberta fez seus orbes escuros se desviarem momentaneamente do que havia além do vidro frio da janela. Viu os gêmeos e Kyouya entrarem, mas ninguém mais apareceu. Não que importasse. Talvez uma hora até mesmo eles se cansassem e ela pudesse ter um pouco mais de paz. "Como se isso fosse possível…", ela tornou a olhar para fora. Sabia que nunca mais teria paz. Sabia disso desde que seus braços ficaram marcados para sempre. Sabia mesmo com todo o incentivo, com toda a aceitação que recebia para continuar em frente como se as marcas não existissem.
Mas elas existiam.
Era por causa delas que tinha se condicionado daquele jeito, que tinha passado a treinar com um afinco quase doentio os mais diferentes tipos de luta. Era por causa delas que as coisas tinham terminado daquele jeito. Mais uma vez. Talvez estivesse fadada a terminar em um hospital. Talvez aquilo significasse alguma coisa que ela ainda não conseguia entender. Ou talvez não significasse nada. Seus olhos piscaram e ela escorregou pelo sofá, afundando mais nas almofadas. Sua cabeça pesava. A escuridão estava cada vez mais próxima.
A xícara caiu de sua mão.
- Mei! – ela ouviu uma voz distante demais para ser reconhecida ecoar em seus ouvidos.
Mechas longas e escuras surgiram em seu campo de visão. Anastácia? Jenna? Não sabia. Sentiu mãos fortes e grandes lhe segurarem por sob os braços e a erguerem de volta para o sofá antes que chegasse ao chão. Duas manchas ruivas apareceram atrás da mancha castanha. Eram os gêmeos. Mas o que eles estavam dizendo? O que eles queriam saber? Por que ela não conseguia entendê-los? Piscou. Demorou o suficiente para inspirar profundamente. O peso em sua cabeça aumentou. Ela tornou a fitar o vidro, mas não discernia o que estava além dele mais.
Deixou-se ser abraçada pela escuridão.
Quando Mei acordou, estava deitada na própria cama, com a coberta até o pescoço e as luzes apagadas. Um zumbido baixo e preocupado vinha da sala. Ela se forçou a sentar, mas uma mão em seu ombro a impediu. Virou o rosto devagar, sentindo a cabeça doer. Sabia que não tinha sido drogada. A única coisa que lhe tinha sido dada foi o chá que ela não bebeu e que tinha se espalhado pelo chão antes que ela conseguisse impedir. Piscou algumas vezes, tentando ver algo no escuro.
- Mei. – ah, aquela doce voz. Ela sempre a reconheceria. Fechou os olhos, mas não sorriu. Apesar do conforto que sentia, não conseguia sorrir. Não havia nada que lhe convencesse de que podia sorrir.
- Takashi. – ela se ouviu dizer. Estava há tanto tempo quieta que ouvir a própria voz foi estranho. Viu o rapaz sorrir e indicar que voltasse a se deitar. Ela obedeceu sem resistência.
A porta foi aberta e fechada. O calor da mão dele ainda estava em seu ombro, mas ia se perdendo conforme o tempo passava. Não havia mais ninguém no quarto além dela agora. Estava sozinha com seus pensamentos novamente. Sabia que o rapaz tinha ido contar às outras que ela estava acordada, mas ela teria preferido que ele continuasse ali. Não queria conversar, queria apenas a companhia. Mas não tinha sido capaz de lhe dizer em tempo, então acabou ficando sem ninguém. A porta foi aberta mais uma vez, mas a voz era outra.
- Mei…? Podemos entrar…? – era a voz de Anastácia e Mei nunca desejou tanto não morar ali.
- Podem. – ela soltou a resposta como um suspiro.
Sentiu que a amiga sorria, mas não tinha como saber. Estava escuro e ela não tinha se virado para olhar. Ouviu passos se aproximando. Eram duas pessoas. Quem seria a segunda? Hana? Era possível. As amigas eram quase como irmãs e faziam praticamente tudo juntas. Mei continuou fitando o teto. Sentiu uma mão lhe afagar os cabelos. Não queria aquele contato, mas não tinha forças para resistir, então apenas fechou os olhos e respirou fundo.
- Ainda dói muito para se mexer…? – a pergunta hesitante veio de sua segunda visitante e ela conseguiu confirmar que era Hana.
- Sim. – sua voz saía fraca. Sua garganta arranhou. Estava daquele jeito antes?
- Nós trouxemos água. – Anny ajudou-a a se levantar e estendeu um copo diante de seu rosto.
Mei o pegou, parecendo aliviada com o contato frio do objeto. Precisou de alguns segundos, mas logo o tinha levado aos lábios e sorvia todo seu conteúdo. Quando acabou, o copo logo lhe foi retirado e ela tornou a se deitar. Não se sentia mais cansada, mas levantar parecia uma tarefa mais difícil do que ela estava disposta a enfrentar. Ouviu as amigas trocarem alguns sussurros e então a carícia em sua cabeça parou. O toque foi interrompido e ela se sentiu estranhamente aliviada.
- Mei…? Podemos lhe perguntar uma coisa…? – era a voz de Anastácia.
- Claro. – ela fechou os olhos e esperou.
- Por que você… O que tem se passado em sua cabeça…? – agora era Hana.
- Nada. – ela respirou fundo – Vocês apenas… São muito preocupadas.
- Essa não é você, Mei… Você não se isola desse jeito. Converse conosco. – Anny soava quase suplicante.
- E se… Não tiver acabado…? – a voz da estudante de Odontologia foi diminuindo durante a frase até ser quase um sussurro.
- Se o que não tiver acabado, Mei…? – Hana parecia impaciente. Hana era sempre impaciente.
- Tudo. – ela tornou a abrir os olhos – Tudo isso…
- Ninguém mais vai nos ferir, Mei. – Anny estava claramente tentando passar uma segurança que não sentia – Ninguém mais.
- Foi o que nós sempre pensamos… – Mei tentou se virar na cama e gemeu de dor com o esforço.
- Tente não se mexer, Mei. Seu corpo ainda não está…
- Eu sei. – ela interrompeu a fala de Hana com um tom seco e o silêncio que se formou em seguida durou alguns segundos – Desculpe. Eu sei que ainda não estou totalmente boa…
- Nós… Nós vamos estar lá fora, ok…? – Anny hesitou. Parecia não saber se era uma boa ideia sair – Quer que chamemos alguém…?
- Takashi. – foi tudo que a outra respondeu, tornando a fechar os olhos quando terminou de falar.
Anastácia e Hana se entreolharam com certa satisfação, apesar de mal conseguirem se ver com a pouca luminosidade, e foram em direção à saída. A porta abriu e demorou um pouco para fechar. Então uma mão tocou o topo da cabeça de Mei. Uma mão maior, mais carinhosa, mais preocupada. A garota se sentiu aliviada. Não que não gostasse das amigas, mas ela precisava naquele momento de algo que sabia que só conseguiria com uma pessoa. Uma companhia silenciosa.
- Takashi…? – ela abriu os olhos e virou o rosto na direção do rapaz. A mão parou, um sinal de que ele estava ouvindo – Obrigada. – ela sorriu de canto.
O rapaz também sorriu e logo tinha voltado a acariciar a cabeça da garota.
Mei cochilou algumas vezes e Mori acabou fazendo o mesmo, por mais que tenha tentado resistir. Quando ela acordou naquela vez, encontrou o rapaz deitado ao seu lado, parecendo estar em um sono profundo. Levou a mão até seu rosto, tocando-lhe delicadamente na bochecha por alguns segundos antes de deixá-la apoiada sobre o travesseiro. Ficar com o braço levantado cansava muito rápido. Suspirou. Apesar de ainda achar que o rapaz estava adormecido, ele apenas não tinha aberto os olhos ainda. Tinha a teoria de que ela se abriria se acreditasse que ele não podia ouvi-la e aquela era a oportunidade perfeita para testá-la. Assim, ele esperou.
- Sabe… – ela começou após alguns segundos de silêncio – Elas acham que as coisas acabaram… Que nós finalmente vamos ter paz, que as pessoas vão parar de implicar conosco por coisas pequenas como a forma de nos vestirmos… Mas elas estão erradas… Esse tipo de coisa nunca vai acabar…
O silêncio voltou a imperar por alguns segundos.
- Nós achamos que ia acabar depois dos incidentes do primeiro ano… E olha onde estamos agora… Isso… – ela sentiu os olhos se encherem de água – Isso nunca vai acabar… Nós nunca vamos poder ter alguma paz real…
Mori sentiu o peito apertar, mas não se moveu.
- Eu só queria que tudo isso acabasse de uma vez… Talvez tenha sido um erro resistir… O que você acha, Takashi…? – ela contornou os lábios do rapaz com a ponta dos dedos e sentiu o rosto ferver ao perceber o que fazia, retraindo o braço imediatamente. Infelizmente, aquilo fez com que a dor voltasse, parecendo espetá-la como se várias agulhas tentassem atravessar sua pele para sair – Ugh…
Ao ouvi-la gemer com a dor, o rapaz não conseguiu resistir ao impulso de passar um braço ao redor da garota e trazê-la para si. Mei se assustou e tentou protestar, mas não encontrou forças para isso. Mori apenas a segurou contra seu corpo até que se acalmasse, afastando-se o suficiente para fitá-la nos olhos quando percebeu que ela tinha parado de tentar estapear toda e qualquer coisa que encontrasse. Mesmo no escuro, ele sabia exatamente para onde precisava olhar.
- Mais calma? – a voz dele era suave, o que pareceu acalmar a garota.
- Sim… Obrigada. – ela respirou fundo e apoiou a cabeça no peito do moreno – Você ouviu tudo, não foi…?
- Sim.
- Por que não me disse que estava acordado…?
- Não era o que você precisava.
Ela suspirou. Ele tinha razão. Se ela soubesse que ele a estava escutando, teria ficado quieta. Não tinha coragem ainda de desabafar daquele jeito com alguém suficientemente consciente para analisar o que ouvia. Mesmo assim, sentia-se trapaceada pelo rapaz ter fingido que dormia enquanto ela falava todas aquelas coisas. Mas não havia nada que pudesse ser feito para mudar a situação, de forma que ela decidiu que era melhor deixar de lado aquele detalhe.
- E o que você acha…? – ela se ajeitou na cama a fim de ficar mais próxima do outro.
- Acho que você está errada.
Mesmo com o tom suave que Mori usava, Mei pareceu se ofender.
- E por que eu estou errada?
- Porque tudo isso vai acabar passando. – ele afagou as mechas negras da garota e sorriu de canto – Você logo vai estar melhor.
- Você não entende…
- Entendo. – ele interrompeu a carícia para abraçá-la – Você só está assustada.
Mei não respondeu.
Enquanto Mei e Mori estavam no quarto dormindo e, posteriormente, conversando, o restante das garotas, junto de Kyouya e dos gêmeos, estava na sala, tendo uma discussão um tanto acalorada feita praticamente aos sussurros. Não queriam acordar o casal, mas achavam cada vez mais complicado manter o tom baixo. Kyouya tinha contado que conseguira a relação dos alunos da sala de Catarina e que estava conferindo os que batiam com a descrição dada pelas garotas e a loira tinha se manifestado contra essa atitude.
Estavam discutindo sobre ser certo ou não e sobre os riscos que aquilo podia representar desde o começo e não pareciam perto de acabar.
- Cat, eventualmente nós iríamos descobrir quem é aquele moleque. – Hana estava se sentindo cada vez mais irritada com a relutância da amiga.
- Exatamente. Então qual é o problema de usar os poderes investigativos do namorado quase hacker da Hana? – Jenna não ficava muito atrás na revolta.
- Quase hacker? – Kyouya ajeitou os óculos, incomodado com o termo – Eu não violo nenhuma lei quando…
- Não é o ponto. – Jenna o interrompeu com um tom menos amigável que o pretendido, mas não pareceu se importar.
- A questão aqui é que você devia ser menos paranoica, Cat. – Hana se ajeitou na cadeira, apoiando as costas contra o encosto e cruzando os braços sob os seios.
- Eu não estou sendo paranoica, ok? – a loira franziu o cenho – Estou sendo precavida.
- Precavida demais, meu amor. – Anny arqueou uma sobrancelha – Eles vão fazer o que se tivermos o nome? Tentar nos matar?
As garotas se entreolharam e, apesar do nervosismo – ou talvez justamente por causa dele –, acabaram rindo da sugestão. Kyouya, que estava com seu inseparável laptop mesmo durante aquela reunião, apenas continuou o que fazia sem dar muito crédito à ideia, mas os gêmeos pareceram verdadeiramente desconfortáveis. Anastácia suspirou.
- Fala sério, isso é ridículo. Eles não têm capacidade de matar alguém. Duvido que alguém lá tenha essa coragem. São todos muito mimados.
- Sou obrigada a concordar. – Hana levantou uma mão ao falar.
- Tudo bem, vamos esquecer isso. – Catarina achou melhor se manifestar antes que a discussão fosse muito mais longe – Mesmo assim, acho que seria melhor se só… Deixássemos tudo isso de lado. – ela deu de ombros.
- Cat, para alguém que não tem nenhuma prova concreta, você está muito preocupada. – Hana franziu o cenho, encarando a amiga.
- Eu… – ela hesitou – Eu realmente não tenho provas, mas… Eu não estou querendo muito pagar para ver. Não é você que vive dizendo que é melhor prevenir que remediar?
- De fato. – Hana assentiu – Mas, nesse caso, já não tem mais prevenção, meu amor. Já estamos remediando desde que aqueles babacas decidiram atacar a Mei enquanto ela ia para a biblioteca.
Os demais presentes concordaram, deixando Catarina sozinha em seu ponto de vista.
- Mas nós podemos evitar um desastre maior…! – ela parecia um tanto desesperada ao falar – E se eles decidirem nos atacar de novo?
- Aí nós vamos direto para cima do seu coleguinha, meu amor. – Hana apontou para a loira ao falar.
- Ele de fato parece ser quem mandou aqueles idiotas atrás de nós. – Anastácia tinha um ar pensativo – Mas ainda existe a possibilidade de haver alguém "acima".
- Podemos ir atrás deles também. Eu estou realmente irritada com tudo isso. – Jenna se debruçou sobre a mesa, ficando com uma expressão descontente só de pensar na possibilidade de haver um verdadeiro esquema por trás de tudo.
- Eu odeio interromper… – Kyouya empurrou levemente o computador na direção do centro da mesa e definitivamente não aprecia odiar coisa alguma – Mas eu encontrei o rapaz.
Catarina gemeu com a notícia enquanto o moreno virava a máquina para os amigos poderem ver a tela. Uma foto do rapaz que visitara as garotas no hospital aparecia no canto esquerdo, em cores, acompanhada de uma matéria aparentemente extensa de um jornal online. Hana leu o nome em voz alta. Alexei Yurievich Volkov.
N/A: primeiramente, desculpem se o nome russo não for realmente escrito assim. Eu dei uma pesquisada rápida na internet antes de bolá-lo e acabei encontrando o blog "Falando Russo" (procurem, é bem interessante) que explicava o esquema. Como eu não entendo de russo, acabei pegando mais ou menos o que ele dava nos exemplos, então deve estar certo (né?), mas... Sei lá, vai saber. Bom, fora isso, o que eu queria dizer é... Deve ter ficado bastante óbvio que esse era para ser um capítulo voltado para a Mei, para explorar o abalo psicológico todo que ela sofreu. Mas aí, eu estava lá alegremente escrevendo (não, eu não estava me divertindo com o sofrimento da personagem, mas com o fato de que esse é o 4º capítulo seguido - isso mesmo, 4º seguido, uhul! - que eu escrevo entre ontem e hoje e isso é algo a ser comemorado, especialmente porque eu só não escrevi tudo ontem devido ao sono)... Onde eu parei? Ah, sim, estava lá escrevendo e pensei "puxa, imagina que legal se o capítulo termina com elas descobrindo quem é o garoto?" e decidi fazer essa cena final. Por que mesmo eu decidi explicar isso? Ah, sei lá. Continuando. Eu achei que seria muito legal, já que esse foi o grande mistério até agora. Mas, se elas descobrem, o que acontece? Entendem aonde eu quero chegar? Manter uma identidade oculta é algo que eventualmente perde a mágica. É um mistério com data de validade. Você pode criar um arco maravilhoso sem nunca revelar a identidade de um personagem crucial, afinal de contas. Então decidi acabar logo com ele (eu já pretendia fazer isso desde que comecei esse arco, que fique claro) e partir para as outras coisas planejadas. Enfim, antes que a nota fique tão grande quanto o capítulo... Deixem reviews, porque isso não mata e faz uma autora feliz!
