Alexei estava parado diante do prédio de Artes, com um sorriso discreto no rosto. Seus olhos estavam cravados na janela do segundo andar, apesar de ele não conseguir ver a pessoa que queria. De acordo com o colega de turma da garota, ela não gostava de sentar à janela. Não tinha importância. Ele tinha como conseguir todas as informações de que precisasse mesmo sem interagir diretamente com ela. Então inspirou profundamente e entrou no prédio. Apesar de toda a diversão que aquilo lhe causava, ainda tinha aulas a assistir.

Na sala, ele avistou Catarina sentada a um canto próximo da mesa do professor. A janela ficava a duas fileiras de onde ela estava. Ele riu baixo com divertimento. Ela era uma das poucas pessoas que não tinha um lugar constante na sala, então ele nunca sabia onde a veria. A garota estava distraída, arrumando o material da aula anterior e separando o que precisava para a que estava para começar. Ele seguiu para o fundo da sala, onde suas coisas estavam, dando duas batidas suaves sobre o tampo da mesa da loira. A garota levantou os olhos, sem entender o propósito daquilo.

- Prestem bastante atenção. – o professor começou a falar assim que entrou na sala – Eu não estou com saco para ficar aturando essas babaquices que vocês inventam quando eu estou explicando a matéria, então hoje teremos aula de exercício. – ele se virou para a turma – Montem duplas. Vocês têm cinco minutos. Depois um de cada grupo venha aqui buscar a folha de perguntas. – ao terminar de falar, ele se sentou e começou a arrumar as coisas que tinha trazido sobre o tampo da mesa.

Catarina ia se virar para ver com quem acabaria ficando, já que sempre sobrava algum infeliz para parear com ela, quando uma mesa foi posta ao lado da sua e ela viu o material ser depositado sobre o tampo. Levantou os olhos com certa hesitação, esperando estar errada, mas os orbes azuis que encontrou não enganavam. Alexei sorriu e foi buscar a folha com o professor antes de se sentar ao lado da garota. Ela engoliu em seco enquanto o via voltar.

- Espero que não se incomode, Catarina querida. – ele lhe estendeu o papel – Importa-se? – quando ela pegou a folha, ele apenas começou a arrumar as próprias coisas.

- Por que você fez isso, Alexei? – ela sussurrava ao falar, fitando os enunciados impressos diante de si.

- Ora, como se você ou suas amiguinhas não soubessem. – ele sorriu, usando do mesmo tom e sem olhar para a garota.

- Tenho certeza de que podemos resolver isso de um jeito civilizado. – ela respirou fundo.

- Claro que podemos, minha querida. Mas qual seria a graça? – ele sorriu e ela não precisou se virar para ter certeza disso – Não se ofenda, mas eu preciso saber quão boas vocês são. Afinal, você sabe que nós… Bom, dependemos disso.

- Nós não somos um risco a… Seja lá o que você faz. Então nos deixe em paz, Alexei.

- Não são um risco? – ele riu – Ora, não achei que você fosse tão inocente, Catarina, minha querida. – então finalmente se virou para ela ao continuar – Vocês sempre foram um risco. Um risco um tanto… Delicioso de se correr.

- Por quê? – ela acabou se virando para o rapaz ao perguntar, mas se arrependeu no mesmo instante quando o viu sorrir largamente.

- Vocês sabem brigar, diferentemente de muitos idiotas aqui. – ele se apoiou no encosto da cadeira e cruzou os braços diante do peito – Mas eu precisava saber quão bem vocês brigavam. Não consegui nenhuma oportunidade antes, porque vocês são tão escorregadias. – ele suspirou, mas o ar de satisfação continuava em seu rosto.

- Você não me parece achar isso ruim… – ela engoliu em seco.

- Oh, claro que não, Catarina, minha querida. – ele riu – Eu posso usar pessoas assim. Idiotas escandalosos sempre estragam tudo. – ele arqueou uma sobrancelha.

- Usar… Para quê…? – ela sentiu que se arrependeria daquilo, mas acabou perguntando do mesmo jeito. Não podia negar a curiosidade que crescia em seu peito.

- Ah, você está curiosa! Ótimo, ótimo. Assim… Eu consigo mais da sua atenção. – ele levou uma mão até o rosto da garota e passou o dedo suavemente sobre a bochecha pálida, em uma carícia desagradável.

Catarina teve de se controlar para não empurrá-lo para longe.

- Você ouviu os boatos, tenho certeza. – ele fez uma breve pausa, mas a loira não respondeu. Ele tornou a cruzar os braços, olhando-a com divertimento – Mas você não tem toda a informação, tem? Não, claro que não. Vocês seriam mais cautelosas se soubessem.

- E por que precisamos ser cautelosas, Alexei…? – ela tentou não hesitar, mas estava achando cada vez mais difícil manter a voz firme.

- Ora, não me olhe assim, querida. Não vamos matá-las, claro que não. Isso não seria vantajoso. – ele riu mais uma vez – Aliviada?

A garota quase assentiu, mas conseguiu manter-se quieta.

- Mas… Eu tenho certeza de que você sabe disso, não sabe? – ele fez uma pausa, como se para apreciar melhor o momento e o baque que suas palavras causariam – Nós poderíamos transformar a vida de vocês em um inferno.

Ela sentiu a respiração falhar, mas se manteve parada. Precisava esconder qualquer reação do rapaz, porque ele entenderia aquilo como uma vitória sobre ela. "E essa é a última coisa que eu quero", ela trincou os dentes. Depois do que acontecera, ela tinha uma ideia muito clara do que Alexei e seus amigos poderiam fazer. Uma ideia bem desagradável, ela tinha de admitir. O rapaz continuava a fitá-la em silêncio, como se esperasse uma resposta.

- E por que você tem todo esse interesse em nós? – ela tentou soar indiferente, mas sentiu que tinha falhado.

- Porque eu não tenho ninguém tão habilidoso em meu grupo. – ele respondeu como se falasse com uma criança incapaz de entender a mais simples das coisas, rindo com certa satisfação ao ver como aquilo irritou a garota – Controle-se, Catarina, minha querida. Temos de manter os modos aqui.

- Aposto que você não duraria dois segundos se eu decidisse socar a sua cara. – ela respondeu entre os dentes, precisando cerrar os punhos com força para resistir à vontade que sentia de partir para a violência. Sabia que estava em desvantagem numérica mesmo que ninguém estivesse demonstrando qualquer interesse na conversa dos dois.

Alexei apenas riu antes de pegar a folha com os enunciados, indicando que a conversa estava terminada por ora. Catarina respirou fundo e tentou esquecer o que tinha acontecido, mas sua mente voltava o tempo todo a remoer as possibilidades escondidas nas palavras do rapaz. "Elas são péssimas, com certeza, mas poderiam nos dar alguma paz, não é…? Quanto nós estamos dispostas a pagar por um pouco de paz…? Não, não pense nisso, Catarina! Concentre-se! Não se deixe enganar só porque ele é um russo boa-pinta – e que o Hikaru nunca saiba que você acha isso – e trate de ser racional!", ela começou a rabiscar no papel os nomes dos dois, com a data. Precisava começar a focar nos exercícios ou acabaria tendo um ataque.

O rapaz se divertia.


- Você não pode estar falando sério, Hana. – Anny tinha o cenho franzido, consciente de que a amiga não podia vê-la do outro lado do telefone.

- Eu estou. Que mal pode haver em perguntarmos? Não é como se nós fôssemos realmente aceitar qualquer bobagem dele, mas talvez… Talvez possamos conseguir uma trégua. – ela conseguiu ouvir a amiga suspirar do outro lado.

Silêncio.

- Eu fui ver a Mei… Bom, ela não sabe que eu fui, porque eu não consegui chegar muito perto. Sei lá, achei que ela fosse fugir e se esconder como um animalzinho assustado. – pausa – Ninguém demonstra a menor preocupação com ela, Anny… Nem os professores… Eu sei que ninguém nunca esteve do nosso lado, mas mesmo assim…

- Você não fez nenhuma bobagem, fez? – Anastácia tentou manter o tom firme de repreensão, mas sentia o mesmo aperto no peito que a amiga.

- Não, não fiz. Relaxa, eu não sou retardada. Mas meu primeiro impulso foi correr para abraçá-la e não correr para socar todo mundo. Se bem que esse foi o segundo impulso. – a mestiça riu e logo a amiga a acompanhou – Nós nunca mais vamos ter paz, não é?

Anny olhou para o céu, sentada na borda da fonte. Tudo tinha começado ali. Talvez terminasse ali também. Então ouviu passos, sentindo-se repentinamente alarmada. O silêncio que deu como resposta a Hana fez com que a tensão se tornasse maior. Nenhuma das duas falava, como se a outra conseguisse entender o que se passava mesmo sem estar lá. O barulho se aproximou e se afastou sem que seu causador aparecesse.

- Nunca mais, Hana… – foi tudo que ela conseguiu dizer antes de se calar de novo.

- Tente relaxar, ok? Eu vou voltar para a aula. Procure pelo Kaoru e consiga um momento, mesmo que breve, no paraíso. – a estudante de Moda riu novamente, mas dessa vez não foi acompanhada.

- Hana…

- Diga.

Anastácia não respondeu.

- Anny, o que foi?

- Não é nada, desculpe. – e desligou antes que a amiga pudesse chamar por seu nome novamente.

Kaoru não tinha aparecido para a aula naquele dia.


Jenna estava sentada diante da mesa de Nathan, esperando enquanto ele pegava duas xícaras de café na sala dos professores. Tinha ido até lá para conversar com ele, porque não aguentava mais a situação como se encontrava, e acabou se vendo perto demais, se não dentro, de um ninho de cobras que preferia evitar. Felizmente a mulher com que Nathan dividia a sala, uma professora novata, não tinha ido à escola por "motivos de saúde", como ele tinha explicado. Alguma coisa dizia à garota que aquilo não era exatamente verdade, mas ela preferiu não argumentar.

- Seu café, senhorita. – ele tinha a voz suave e ela agradeceu quando viu a bebida ser posta diante de si sobre a mesa – Sobre o que quer falar especificamente? – ele se sentou diante dela, mantendo o tom cordial que sempre usava com os alunos. Apesar de saber o motivo, Jenna odiava aquilo. Se pelo menos não houvesse uma víbora na sala ao lado…

- Estou fazendo um trabalho extra para uma matéria e gostaria de saber como alguns dos professores reformariam a escola caso lhes fosse dada essa possibilidade. – ela bebericou o líquido escuro e quente, franzindo o cenho. Ainda não estava adoçado.

Nathan empurrou alguns saquinhos de açúcar por sobre o tampo antes de responder.

- Acredito que o principal problema seja a forma como as salas de aula são estruturadas. – ele abriu a gaveta ao seu lado na escrivaninha e puxou uma folha de papel e uma caneta. Começou a escrever quando voltou a falar – Muitas têm um sistema de iluminação que não é adequado à forma de ensino que utilizamos atualmente, sem contar com as diversas falhas que vêm ocorrendo. – ele virou o papel na direção da garota e esperou que ela lesse.

Entende agora o que eu quis dizer naquele dia?

Jenna assentiu.

- Entendo. – ela se ajeitou na cadeira e puxou um dos sachês de açúcar. Adoçou o café, experimentou para ver se estava de acordo com o que estava acostumada e, uma vez satisfeita, pegou algo para escrever dentre tudo que havia sobre a escrivaninha. Acabou com o lápis mais gasto que havia – E o que mais o senhor pensa que devia ser mudado? – ela rabiscou uma mensagem de volta.

Por que não podíamos nos ver depois?

- Essa é uma pergunta complicada. – ele coçou a nuca e ela entendeu que ele se referia ao que estava escrito, não ao que tinha sido dito. Então começou a escrever assim que voltou a falar – Acredito que muitos dos professores têm muita resistência a mudanças.

Estão de olho em mim.

Jenna teve que tomar cuidado para não expirar muito alto. Por mais que duvidasse que a professora ao lado pudesse ouvir, era melhor não arriscar. Ela pensou por alguns segundos e acabou apenas fazendo uma seta apontando para a parede que servia como divisória entre as duas salas. Nathan assentiu em silêncio e rabiscou mais alguma coisa antes de tornar a virar o papel.

Parece que foi pedido da diretora.

- O que o senhor quis dizer com "resistência a mudanças"? O que acha que precisa ser mudado?

Pedido da diretora ou indução à diretora?

O homem sorriu com satisfação. A garota se lembrava, afinal, do que ele tinha dito a respeito da mulher do outro lado. Ele circulou a segunda parte da pergunta, vendo quando a morena trincou os dentes. Então respirou fundo. Precisava dar uma resposta verbal para a estudante ou então não conseguiriam manter a suposta "entrevista" para o "trabalho" de Jenna.

- Os métodos utilizados para ensinar ainda são muito rudimentares porque é como eles sabem ensinar. Eu acredito que isso possa ser mudado, que eles podem aprender novas formas de passar o conhecimento que têm para os alunos. Mas, ao mesmo tempo, acredito que eles não estão dispostos a isso.

Como estão todos?

- Faz sentido. – Jenna rabiscou uma resposta rapidamente – E que método acredita ser o mais eficiente?

A Mei ainda não fala conosco.

- É difícil dizer… Mas obrigar uma sala inteira a estar presente durante pelo menos uma hora em uma aula expositiva e maçante definitivamente não é a melhor solução. As pessoas têm jeitos diferentes de aprender.

Deem tempo ao tempo. Ela vai se abrir.

- O senhor tem toda a razão. – Jenna deu um sorriso triste de canto. Sabia que aquela era a melhor solução, mas também sabia que não conseguia lidar com ela.

E se algo acontecer de novo?

- O que eu acho que deve ser feito é conversar com a sala logo na primeira aula e tentar encontrar o método que satisfaça a maioria.

Vocês estarão lá para ajudá-la, tenho certeza disso.

- Mas não foi o que o senhor fez.

Nós sempre estamos. Mesmo assim ela se mantém afastada.

- Seria difícil ter uma votação adequada, já que eu não sou nenhum guru da internet e ainda não sei usar adequadamente esse tipo de ferramenta. – ele sorriu não como quem se divertia como o comentário deixava a esperar, mas com carinho.

Ela vai se abrir quando se sentir pronta. Tenha paciência.

Jenna sorriu de volta.

- É uma questão de aprender.

Não é o meu forte.

- Exatamente. – dessa vez, ele sorriu com satisfação. Então segurou a mão da garota e a levou aos lábios, beijando-lhe suavemente as costas. Jenna não resistiu – Se precisar de mais alguma coisa, pode voltar em outro horário. Mas agora eu preciso cuidar do meu trabalho.

A garota entendeu que estavam se estendendo demais e os passos na sala ao lado pareciam confirmar sua conclusão. Ela devolveu o lápis e se levantou, juntando suas coisas, agradecendo de forma educada como faria com qualquer outro professor e se dirigindo para a porta. Estava quase com a mão na maçaneta quando alguém a girou pelo lado de fora. Ver a mulher parada sob o batente daquele jeito repentino assustou à morena, que se desculpou sem jeito e saiu com certa pressa. Nathan já tinha amassado o papel da conversa e escondido em seu bolso quando a colega professora fechou a porta e se dirigiu a ele.

- Achei que você tinha um compromisso hoje e não… O que quer que isso tenha sido. – ela gesticulou com a mão com desprezo e o homem precisou respirar fundo para responder de forma educada.

- Esse era o meu compromisso. A aluna… – ele fingiu consultar a agenda para ver o nome da garota – Jenna Wong me pediu uma entrevista para um trabalho da faculdade e então marcamos um horário para conversar.

- Entendo… – ela não pareceu muito convencida, mas não insistiu – Você anda comportado, Nathan. Comportado demais…

- Ora, fala como se eu fosse um rebelde sem causa. – ele sorriu com um divertimento que não sentia, rezando mentalmente para que a mulher saísse logo.

- Foi a impressão que você deu quando quase saiu correndo da sala dos professores. – ela tinha um ar satisfeito apesar da expressão impassível.

- Vamos voltar nesse assunto de novo? – ele fingiu um cansaço extremo para reforçar a ideia de que estava farto de dar explicações – Já não nos esgotamos a respeito, Vera?

- Está bem. Mas lembre-se de que você não é mais um moleque, Nathan. Tem que se responsabilizar por suas ações. E nem sempre as consequências são sobre você. – ela deu um sorriso satisfeito por um momento tão breve que, se o homem não a conhecesse, não conseguiria perceber. Então deu as costas e saiu.

Ele se largou na cadeira e suspirou. As coisas estavam ficando complicadas.


N/A: para animar os pobres corações infelizes (pera, história errada, hahaha) depois desse massacre da Alemanha sobre o Brasil (isso se alguém que lê isso aqui se importar), um capítulo novo! Uhul! Bom, não que ele seja muito alegre... Enfim, vou lá escrever um pouco mais e... Vocês podem ir lendo e deixando reviews enquanto isso, não é? Faria uma escritora muito feliz! 8D