Anastácia tinha tocado a campainha três vezes já e estava disposta a tocar uma quarta quando a porta se abriu. Um Kaoru de cabelo bagunçado e um inesperado olho roxo apareceu apenas de pijama, mesmo com a noite mal tendo começado, fazendo com que a garota levasse alguns segundos para conseguir processar a cena devido à surpresa. Quando conseguiu falar alguma coisa, sua voz saiu mais acusatória do que ela gostaria.
- Por que raios você não foi para a aula hoje?! E o que é esse olho roxo?!
O ruivo franziu o cenho e deu espaço para ela passar sem responder.
Anny suspirou.
- Desculpe. Isso saiu completamente errado. – ela respirou fundo – Você está bem, Kaoru…? Eu fiquei preocupada por você não ter aparecido hoje.
Ele continuou em silêncio, mantendo o espaço para ela entrar. Vendo que não conseguiria uma resposta, a morena passou do corredor para o apartamento, ouvindo a porta ser fechada atrás de si enquanto ia até o sofá. Kaoru passou para a cozinha e serviu duas xícaras de chá. A água tinha acabado de ferver, como Anny conseguiu perceber pelo vapor subindo quando o ruivo voltou para a sala e deixou as bebidas sobre a mesa de centro.
- Kaoru…
Ele não a deixou terminar, apenas a puxando pelo braço e a prendendo em um abraço apertado. A garota sentiu quando ele afundou o rosto em seu ombro, aproveitando que ela tinha o cabelo solto para esconder-se. O silêncio que se instalou era desconfortável, mas nenhum dos dois parecia disposto a quebrá-lo. Tudo que a garota fez em resposta foi abraçar o rapaz e lhe acariciar as costas calmamente.
- Desculpe por isso. – ele tinha a voz rouca ao falar e não levantou o rosto para ela.
- O que houve, Kaoru…? – ela lhe afagou as mechas ruivas, fitando a janela na parede oposta.
- Eu briguei com o Hikaru. Ele… Eu queria falar com o tal do Alexei, mas o Hikaru não queria me deixar, então acabamos brigando.
Anny engoliu em seco.
- Quando você pensou nisso…?
- Hoje de manhã. Eu ia te ligar, mas eu não sabia o que dizer. – pausa – Desculpa.
- Foi ele quem te deixou com o olho assim…?
Silêncio.
- Kaoru…
- Foi.
Anastácia não tentou manter a conversa. Estava bastante óbvio que, apesar de querer colocar tudo para fora, Kaoru ainda não conseguia conversar a respeito. Algo mais tinha acontecido, mas ele ainda não queria que ela soubesse. A mente da garota trabalhava rápido e talvez ele estivesse contando que ela concluísse o que faltava, tirando sua responsabilidade de contar. Mas ela preferiu guardar silêncio.
- Anny. – Kaoru se afastou de repente, fitando a garota com uma seriedade tão profunda que a assustou.
- Kaoru…?
- Venha comigo para o Japão. – ele a fitava nos olhos sem piscar em qualquer momento. A proposta repentina fez o cérebro da garota travar.
- Como é que é? – o tom de sua voz subiu levemente e ela precisou pigarrear para conseguir falar normalmente – Você não pode estar falando sério.
- Estou. Anny, você não faz ideia de quanto eu pensei sobre isso. Essa é a melhor solução. Não estou dizendo para irmos agora, mas eventualmente eu vou ter de voltar e…
A garota sentiu o peito doer. Estava evitando pensar sobre aquilo e ouvir o que o ruivo dizia tinha trazido tudo à tona de repente. Tinha parado de escutar. Via os lábios dele se movendo, mas não conseguia processar nenhuma das palavras que saíam. Então acabou agindo por impulso. No desejo de parar aquela conversa a qualquer preço, ela projetou o corpo para frente e logo tinha começado a beijá-lo. Kaoru se surpreendeu em um primeiro momento, mas não demorou a passar os braços ao redor da cintura da morena e puxá-la para si, retribuindo ao gesto.
Hana estava plantada do lado de fora da sala de Catarina, esperando a loira sair da aula. Como tinham suspendido sua última aula, a morena não tinha muito que fazer, de forma que acabou rodando um pouco pela faculdade até decidir por acompanhar a amiga. No entanto, o que se seguiu estava fora de seus planos e, com os nervos à flor da pele como estava, ela se surpreendeu por não ter feito nenhuma besteira.
Alexei saiu logo antes de Catarina e sorriu ao ver Hana na porta da sala. Em um gesto que qualquer um consideraria inocente, ele segurou a mão da garota e lhe beijou as costas, despedindo-se com um breve aceno. Os orbes negros estavam cravados em suas costas e a mente da mestiça rodava a imagem dela apertando aquele pescoço branco até cortar todo o suprimento de oxigênio para a cabeça. Foi uma voa a chamando que a tirou do transe.
- Hana? Hana! – Catarina esperou que a amiga se virasse antes de continuar – O que você faz aqui? – ela franziu o cenho.
- No momento, tentando não vomitar. – ela cruzou os braços e suspirou – Minhas aulas acabaram mais cedo, então decidi vir ver como você estava.
A loira sorriu.
- Estou bem, não precisa se preocupar. E as outras?
- Anny foi na frente, me pediu carona. Foi ver o Kaoru. Parece que ele não veio hoje para a aula, então ela decidiu matar o último período e ver o que tinha acontecido. – a morena coçou a nuca – A Jenna foi falar com o Nathan e não a vi depois de ficar sabendo disso. A Mei… Bom, a Mei continua como nos últimos dias, mas me parece menos aérea. Sei lá. – ela deu de ombros – Posso estar errada.
- Vamos esperar que não esteja. – a menor sorriu novamente – Vamos para casa?
A morena concordou. Encontraram com as outras duas na garagem, já esperando ao lado do carro. Não demoraram muito no caminho de volta, que foi feito em um silêncio profundo. Mei continuou em seu ritual diário de ficar encarando a janela sem falar qualquer coisa, mas a tensão que a cercava parecia ter se dissipado um pouco. Aquilo era bom. Era progresso.
Quando chegaram, Jenna foi direto para a cozinha a fim de fazer o jantar. Catarina perguntou a Mei se precisava de ajuda com o banho e ficou entre chateada e aliviada quando a morena negou. Aquilo podia ser um sinal de que as dores estavam diminuindo, mas também podia ser apenas mais uma barreira sendo erguida entre elas. Hana, por sua vez, foi direto para o quarto, pegando o telefone na bolsa assim que fechou a porta atrás de si. Sentou-se sobre a cama feita e ligou para o único número que tinha na discagem rápida.
Hana estava sentada em uma cadeira isolada no centro de uma sala pequena e escura. Conseguia ver o contorno dos outros móveis ao seu redor, mas nada muito definido. Sentia também que havia mais duas presenças na sala. De vez em quando, uma porta atrás de si era aberta e ela ouvia passos. Então a porta se fechava, mais passos se seguiam, junto de um breve cochicho, e o silêncio voltava a se instaurar. Ficaram naquilo pelo que pareceram horas.
- Desculpe fazê-la esperar. – a voz de Alexei soou atrás dela em uma das vezes em que a porta se abriu. No entanto, ela não tornou a se fechar – Achei que gostaria de um pouco de luz.
- Morra. – ela não se virou.
- Ora, você devia ser mais educada. – ele riu – Quem foi que solicitou esse encontro mesmo?
- Pare de gracinhas, seu imprestável.
- Diga o que quiser, Hana… Porque pode ser a última vez que você pronuncia essas palavras. – ele se aproximou e ela conseguiu sentir a mão passando por seu cabelo – Você fica tão bem assim, devia manter o corte.
- Eu não dou a mínima para o que você acha.
- Ah, mas isso vai mudar. – ele riu e puxou uma cadeira. Ela conseguiu ver quando ele se sentou a sua frente – É para isso que você veio, não é?
- Na verdade, eu vim aqui para dar um belo soco nessa sua cara metida, mas achei melhor começar com algo mais civilizado. – ela sorriu de forma sarcástica e não se deixou afetar quando ele riu mais uma vez – Só não achei que fosse tão cansativo. Podemos pular para a parte em que eu quebro o seu nariz?
- Ah, Hana, sempre tão espirituosa! – ele estava visivelmente se divertindo.
- Não, sério, isso cansa. Eu preciso muito socar a sua cara. – ela manteve o tom.
- Ora, para que a pressa, não é? – ela não precisava ver para perceber que ele sorria – Sabe… Eu andei me perguntando… Por que você acha que vocês, as cinco de vocês, foram atacadas no primeiro ano? Atacadas a ponto de ter essas cicatrizes tão… Importantes.
Hana franziu o cenho. Como ele podia saber daquilo? A menos que…
- Terminou de ligar os pontos? – o sorriso se alargou.
- Você não presta.
- Ora, se eu prestasse, não estaríamos aqui. – ele se levantou – Mas você, minha querida, é exatamente como eu…
Ela conseguiu ouvir passos se afastando e mais sussurros. Sentia uma vontade cada vez maior de levantar e socar qualquer um que aparecesse, mas tinha prometido a si mesma que levaria aquilo de forma civilizada. Se o plano era conseguir alguma coisa em seu favor, não podia socar todo mundo com quem cruzasse. Então escutou a porta ser novamente aberta e passos se afastando. Quando o clique indicando que a porta se fechou foi ouvido, Alexei acendeu as luzes, obrigando a morena a proteger os olhos com as mãos por um momento.
Ela olhou ao redor. Estavam em um quarto.
- Mas que diabos…?
- Ora, não seja tão rude, Hana. Não combina com você. – ele riu e tornou a se sentar diante dela – Não, esse não é o meu quarto. Não se preocupe. Mas podemos ir para lá se preferir.
Ela pensou por um instante. Estar em um ambiente que ele conhecia tão bem seria desvantajoso dependendo de como as coisas se desenrolassem, porque ele saberia exatamente o que buscar e onde. Ao mesmo tempo, ela conseguiria informações de âmbito pessoal a respeito do rapaz. Talvez conseguisse alguma pista do que o tornava tão temido e respeitado pelos outros alunos da escola. Além, obviamente, do dinheiro.
- Você me parece interessada. – ele sorriu com satisfação – Siga-me, sim?
Hana se levantou e observou enquanto o loiro ia para a porta. Hesitou por um segundo, mas decidiu ir atrás. Passaram por um longo e bem iluminado corredor, repleto de portas decoradas, móveis antigos e vasos de flores. Subiram dois lances de escadas e pararam diante da porta mais ao longe. Alexei girou a maçaneta e entrou no cômodo. Hana o seguiu, sem se preocupar em fechar a porta. Vasculhava o lugar com os olhos a fim de absorver toda a informação que pudesse. O rapaz não pareceu se importar.
Clique.
Estavam sozinhos no quarto fechado.
- Onde estávamos? – ele se sentou sobre a cama e indicou a cadeira da escrivaninha – Ah, sim. Você quer… Negociar. – ele pareceu se divertir com a palavra.
Hana não respondeu.
- Sua proposta é interessante, minha querida, não vou negar. Mas… Ela não é o bastante. Eu não quero uma de vocês, eu quero as cinco. – ele sorriu com satisfação, mas a garota continuou sem reagir.
- E por que é tão importante nos ter no seu esquema, Alexei?
- Porque, minha querida, vocês são… Como dizer? Especiais. Como eu já disse à querida Catarina, vocês sabem como ser escorregadias e eu posso usar isso. Ao mesmo tempo, vocês sabem brigar.
- Porque somos cães de rua. – ela repetiu as palavras que tinha escutado no dia da briga.
- O que? – Alexei pareceu realmente surpreso com a afirmação – Claro que não! Quem disse isso?
- Seu servo preferido, imagino. – ela deu de ombros – Você sabe. Minha sala.
O loiro parou para pensar por alguns segundos antes de saber quem era. Quando o raciocínio se completou, ele pareceu realmente irritado, levantando-se de repente e indo até o telefone. Discou um número sem consultar a agenda e levou o aparelho até a orelha. Hana aproveitou para vasculhar novamente o quarto. O celular de seu anfitrião tinha ficado sobre a cama quando ele decidiu pegar o telefone fixo. Era estranho ver como as pessoas tinham diferenças de hábitos que podiam ser tão importantes.
- Idiota! – ela o ouviu dizer ao telefone. Aproveitou-se que estava fora do campo de visão do rapaz e esticou o braço para pegar o aparelho sobre a cama, mas não conseguiu atingir seu objetivo – Hana, querida, o que você está fazendo?
Ela soltou alguns palavrões mentalmente e se levantou, fitando o rapaz.
- A diferença de classes é gritante. Não acha natural que eu fique curiosa? – ela mantinha a voz firme com custo e rezou para que ele não percebesse.
Alexei sorriu.
- Se quer provar a coberta, basta pedir. – ele foi até a cama, deixando o telefone fixo sobre a escrivaninha e guardando o celular no bolso quando o pegou. Ajeitou a coberta e indicou que a garota se sentasse – Confortável?
Hana apenas assentiu, encarando o bolso em que seu objetivo estava quando o rapaz tornou a se virar para continuar a conversa que estava tendo ao telefone. Ela o ouviu esbravejar no que supôs ser russo antes de desligar com força. Alexei respirou fundo e ajeitou o cabelo com as mãos, alisando a roupa antes de se virar novamente para a garota.
- Desculpe por isso. – ele sorriu como se não tivesse acabado de perder o controle com a outra pessoa – Vamos continuar, sim?
- Estávamos falando sobre o quanto podemos ser úteis para o que quer que seja por sermos como cãezinhos de rua. – ela repetiu o termo propositalmente, deliciando-se ao ver o quanto aquilo o incomodava.
- Hana, querida, não. Vocês não são… Isso. – ele sorriu em uma falha tentativa de se mostrar tranquilo.
- Mas nós definitivamente não somos de berço, Alexei.
O rapaz piscou. Detestava aqueles termos, porque dava a entender que pessoas em uma classe social como a dele eram naturalmente melhores em tudo que os demais. E ele tinha aprendido que não era daquele jeito. Seu próprio pai só estava onde estava porque dera duro para subir na vida. Alexei fazia o mesmo, só não da mesma forma. Ou era assim que ele via. Enquanto seu pai trabalhava a favor da lei, ele procurava brechas que lhe poderiam ser benéficas. Por isso seu grupo não portava armas de fogo, por exemplo.
- O que houve, Alexei? Você parece incomodado. – Hana se fez de inocente.
- Incomodado? – ele riu nervosamente – Imagine.
- Talvez a presença de um cão de rua em sua casa seja mais do que você pode aguentar.
- Eu… Hana, vamos deixar uma coisa bem clara. Nunca use esse termo comigo. Entendido? – sua voz tinha endurecido e ele parecia a ponto de avançar.
Ela podia não saber o motivo de todo aquele desconforto em relação ao termo, mas sabia que, se provocasse um pouco mais, teria uma boa desculpa para bater no rapaz. E era tudo de que precisava naquele momento, de forma que foi o que fez. Ainda mantendo a inocência deliberada, ela se ajeitou na cama para falar, como se realmente não compreendesse o que se passava.
- Que termo? "Cão de rua"? "De berço"?
- Já chega! – ele avançou em passos largos até ela e levantou a mão para lhe bater no rosto – Pare de repetir isso! – a palma, no entanto, encontrou apenas o ar quando a garota se desviou.
Hana escorregou pela cama e puxou o braço de Alexei para as costas.
- Escorregadias, você disse? – ela sorriu com satisfação – Desse jeito? – então forçou mais o braço para trás, rindo quando ele grunhiu com a dor e o desconforto – É melhor termos um acordo, Alexei. Porque você não vai nos ganhar. Imagine a credibilidade que você vai ter quando todos ficarem sabendo que eu o venci.
- Ninguém acreditaria em você. – ele virou o rosto para encará-la e tinha um ar sério.
- Ah, não? – ela riu – Não lhe pareceu estranho eu estar de calça logo hoje? – ela sorriu com satisfação quando viu os olhos dele se arregalarem e o jogou sobre a cama. Por poucos centímetros que um choque contra a parede foi evitado.
- Mas o que…? – ele não conseguiu terminar a frase. Ao se virar, percebeu que ela segurava um gravador na mão. Era velho, mas fino, e funcionava perfeitamente. Aquela tinha sido a forma que ela encontrara de escapar de qualquer manipulação digital do conteúdo. Claro, não era impossível, mas, se alguém alterasse alguma coisa, dificilmente gravaria em uma fita como aquela o resultado – Hana, querida, o que você pretende com isso? – ele passou novamente a mão pelos cabelos.
- Nós vamos voltar a nos falar, Alexei. Se eu fosse você, tomaria mais cuidado. – ela sorriu e indicou a porta – Faça as honras.
O rapaz se levantou e abriu a porta do cômodo. Em pouco tempo, a morena estava a caminho de casa.
Hana abriu os olhos com certa dificuldade. Não conseguia dizer se aquilo tinha sido um sonho ou uma lembrança. Não sabia nem em que dia estava. Tudo de que tinha certeza era que sua cabeça doía fortemente. Olhou ao redor, demorando a reconhecer onde estava. Aquele era o quarto de Kyouya. Como tinha chegado até lá? Quando tinha ido para a casa do moreno? Ela se lembrava de ter ligado para alguém, mas não conseguia recordar quem. Com dificuldade, procurou pelo celular ao seu redor, avistando-o sobre a cômoda. Estava criando coragem para se levantar quando a porta abriu.
- Acordou enfim. – era a voz de Kyouya e não parecia exatamente surpresa – Como se sente? – ela o ouviu fechar a porta e se aproximar.
- Dolorida. – ela gemeu em resposta.
- Não é de se surpreender. – ele estendeu alguns comprimidos e um copo grande de água – Engula tudo sem reclamar.
Hana obedeceu em silêncio e deixou a cabeça cair novamente sobre o travesseiro.
- Quanto tempo passei inconsciente?
- Não muito. Hoje seria o segundo dia. – Kyouya deixou o copo sobre a cômoda e pegou o celular da morena, que lhe estendeu assim que tornou a se sentar – Era isso que você queria?
Hana suspirou. Pelo registro de ligações, aquilo não tinha sido um sonho.
N/A: pense em uma pessoa produtiva. Essa sou eu no momento, hahaha.
