Kyouya se sentou ao lado de Hana no sofá da sala, estendendo a caneca de chá que ela tinha pedido. Apesar da hora, ela não sentia fome, então decidiram adiar um pouco o almoço. Como ele tinha acordado relativamente tarde e tomado um bom café-da-manhã, não achou uma má ideia. A garota ainda sentia a cabeça doer, mas conseguia aguentar graças aos analgésicos. Ela bebericou um pouco a bebida, deixando o silêncio os envolver, antes de fazer a pergunta que estava no ar.
- O que aconteceu? – ela soltou por fim, virando-se para o moreno ao terminar a frase.
- Diga-me você, Hana. Tudo que eu sei é que você estava inconsciente na minha porta ontem por volta desse horário. – ele mantinha seu tom indiferente de sempre, mas ela conseguia ver a preocupação em seus olhos, o que a fez sorrir – Eu disse algo engraçado? – ele ajeitou os óculos.
- Nada, não se preocupe. – ela tomou um longo gole da bebida – Estou tentando me lembrar do que aconteceu, mas minha cabeça ainda dói. – então suspirou.
Kyouya não respondeu, apenas levando uma das mãos até a nuca da morena, que se sentiu repentinamente desconfortável com a situação, mesmo sem saber o motivo. Enquanto ele passava calmamente os dedos na base da cabeça da garota, ela tentava se concentrar em outra coisa, bebericando o chá apenas para ter o que fazer. Por fim, o moreno recolheu a mão e se levantou, indo até o telefone.
- O que foi…? – Hana estranhou a atitude.
- Eu não tenho certeza, mas acho melhor você ver um médico.
- Eu só bati a cabeça, não é para tanto. – ela riu com certo nervosismo.
- Tem certeza? – ele estava estranhamente sério.
- O que? – ela não entendeu a pergunta. Do que ela não teria certeza?
- Você bateu a cabeça? Ou bateram nela? – Kyouya abaixou o telefone, encerrando a ligação antes mesmo de começar.
A garota piscou. Aquilo fazia sentido. Ela não se lembrava de ter batido a cabeça e, se tivesse, teria de ter caído de costas em alguma coisa para ter atingido a nuca. Ela franziu o cenho. Lembrava-se de ter chegado em casa, de estar com as meninas até ir para o quarto e pegar o telefone. Discou o número de Alexei, que tinha conseguido com Kyouya a certo custo, já que o moreno não via nenhum motivo plausível para lhe dar a informação. Marcou com ele uma hora para o encontro no dia seguinte, já que ela não teria aula. Se ele tinha, ela não fazia ideia. As imagens do que acontecera na casa dele ainda rodavam em sua mente. Depois disso, ela se lembrava de ter pegado o carro e ido para a casa do moreno.
- Foi quando eu estava vindo para cá… – ela pensou alto sem perceber.
- O que? – ele parecia um pouco mais tranquilo e se sentou novamente ao lado da garota enquanto esperava pela resposta.
- Eu me lembro de ter descido do carro e tudo. Quando ia tocar a campainha, só senti a cabeça rodar e depois… Acho que apaguei. – ela fitou os orbes negros do outro como se buscasse uma confirmação.
Kyouya assentiu.
- Eu só abri a porta porque ouvi alguma coisa batendo enquanto ia para a cozinha. Você estava desmaiada no corredor. – ele sustentou o olhar.
Hana tentou imaginar a cena como tinha acontecido, mas não resistiu à tentação de colocar um ar de desespero no rosto do moreno, o que gerou certa graça e a fez rir. O rapaz franziu o cenho, sem entender o que se passava. Quando ia perguntar, no entanto, ela apenas se levantou, agradecendo pelo chá e dizendo que deviam ir comer alguma coisa enquanto ia para a cozinha. Provavelmente, Kyouya tinha no máximo erguido uma sobrancelha ao vê-la caída diante da porta de seu apartamento. "Mas, se ele realmente me carregou para dentro, eu tenho que admitir que foi um gesto fofo…", ela sorriu de canto.
- Tem certeza de que não quer ver um médico? – o moreno surgiu repentinamente atrás da outra na cozinha, assustando-a.
- Céus…! – ela respirou fundo e passou as mãos nas pernas da calça para se acalmar – Não me assuste desse jeito…
Kyouya ficou com uma expressão um tanto confusa. Não achou que ela fosse realmente se assustar, mas parecia que ela estava divagando mais do que ele imaginara. Ao ver que a menor pretendia lavar a caneca usada, ele apenas colocou a mão sobre a dela antes que chegasse à esponja e disse que não se importasse. Hana piscou e se virou para ele. O mais novo suspirou.
- Vamos almoçar. Depois eu cuido disso.
Hana riu.
- Você lavando louça? Essa eu não posso perder.
Kyouya não respondeu, apenas se virando para sair. Foi quando chegaram à sala que a garota percebeu que ele não tinha soltado sua mão.
Anastácia continuava andando em círculos na sala e esbravejando contra Hana, enumerando todos os motivos possíveis para que a estudante de Moda não tivesse feito o que fez, enquanto Catarina e Jenna estavam no sofá observando e deixando que a amiga colocasse tudo que fosse necessário para fora. Mei estava no quarto, ainda sem falar com ninguém. Ou foi o que elas pensaram até que a garota parou na divisa com o corredor e chamou por Anny.
- Mei…! – os olhos da estudante de Enfermagem se arregalaram em surpresa. As outras duas compartilhavam do mesmo sentimento, mas se mantiveram quietas.
- Oi. – a estudante de Odontologia sorriu de canto com certa tristeza. Sabia que tinha errado ao se fechar como fez, mas não conseguia se ver fazendo diferente. Então foi até a sala e se sentou no sofá que estava vazio, sentindo os olhares das outras em suas costas enquanto andava – Onde está a Hana?
- Ah… Com o Kyouya. – a resposta veio de Catarina, que parecia se controlar para não levantar e ir abraçar a amiga com força – Sente-se melhor? – ela sorriu.
- Um pouco. – a morena retribuiu o sorriso – Desculpem por preocupá-las.
- Você não precisa se desculpar. – Anastácia sentou-se ao lado da amiga, falando com um tom acolhedor – Nós entendemos que você esteja passando por uma fase difícil.
Mei assentiu em sinal de que agradecia pelas palavras da outra.
- Mas por que você estava tão irritada, Anny?
As outras três se entreolharam e engoliram em seco.
- A Hana… Ela foi ver o Alexei. – a resposta veio de Jenna.
Mei precisou de alguns minutos para processar o que tinha escutado. Quando sua mente destravou, a morena se pôs em pé e começou a esbravejar, misturando todas as línguas que conhecia em uma bagunça linguística irritada. As amigas acharam certa graça, precisando se controlar para não rir. Mei estava indo de um extremo a outro em relação a expor suas emoções em um intervalo tão curto que era realmente inesperado. Quando ela se acalmou um pouco e tornou a se sentar, ninguém disse nada. Foi a própria Mei quem quebrou o silêncio.
- E o que ela queria com ele?
- Não sabemos. Tentamos falar com o Kyouya, mas, depois de ter nos ligado avisando que encontrou a Hana e que estava com ela, ele não nos deu mais nenhum sinal de vida. Se ligamos, ele apenas ignora e deixa cair na caixa postal. – Anny deu de ombros como se dissesse que não havia o que fazer.
Mei suspirou.
- Tem mais um problema. – Jenna se ajeitou no sofá, repentinamente desconfortável – Lembram-se do que eu contei da minha conversa com o Nathan? – ela esperou as outras concordarem para continuar – Parece que agora a outra professora lá está muito mais em cima dele.
- Assim parece que estão tentando nos cercar. – Catarina franziu o cenho.
- Não parece, Cat. Eles estão. – Anastácia se levantou e foi buscar o próprio celular sobre a mesa – Eu falei com o Kaoru anteontem e ele também estava com essa ideia de falar com o Alexei. Mas o Hikaru foi contra e os dois acabaram brigando. – ela terminou de discar um número no celular e o colocou no viva-voz enquanto chamava.
- Fala, Anny! – o ruivo soava animado do outro lado da linha.
- Sente-se melhor? – ela tinha um sorriso discreto no rosto ao falar. Quando o rapaz concordou, ela decidiu partir para o assunto principal – Você e seu irmão sabem onde está o Kyouya?
- Kyouya-senpai? Acabamos de esbarrar com ele e a Hana no elevador. Estavam indo almoçar, pelo que ela disse.
As garotas ficaram aliviadas com a informação.
- E ela parecia bem?
- Ela não deveria estar bem? – Anny conseguia, só pelo tom de voz, imaginar a expressão confusa que o outro fazia.
- Não precisa se preocupar com isso. Mudando de assunto, você e seu irmão estão ocupados?
- Só um minuto. – pausa. Pelo bocal coberto do outro lado, a voz de Kaoru chamando pelo irmão se fez ouvir. Os dois conversaram por alguns segundos antes de o mais novo voltar a falar ao telefone – Não temos nada programado para esse final de semana. Quer que a gente vá aí?
- Vamos nos encontrar na sorveteria. Vocês já sabem onde fica. – ela sorria ao falar e logo tinha desligado.
Ao levantar os olhos do aparelho, encontrou três pares de orbes a fitando com confusão. Ela tinha trabalhado rápido para pensar no que fazer, mas não explicou às amigas porque assim não conseguiria resolver logo o que precisava com Kaoru. Também não poderia explicar no táxi, porque não conseguiriam ir todas no mesmo carro. "Melhor assim", ela se levantou. Daquela forma, explicaria tudo uma vez só, já que explicaria para todos juntos.
- Vão se trocar, temos que sair. – ela apressou as amigas e mandou uma mensagem para Kaoru dizendo que chamasse os outros.
Alexei estava sentado em seu lugar de costume à mesa do restaurante em que costumava se encontrar sempre com o mesmo grupo de pessoas. Colegas da faculdade que o seguiam cegamente, sempre achando que aquilo os fazia mais quistos. O rapaz se divertia ao vê-los se debatendo por um pouco de atenção. Naquele momento, no entanto, ele estava sozinho com outro rapaz, o colega de sala de Hana.
- Alexei, eu…
- Cale-se. – o loiro tinha o tom frio e cortante e chamou o garçom em seguida, o que impedia o outro rapaz de se pronunciar. Pediu as bebidas de sempre e, assim que o funcionário se afastou, tornou a fitar sua companhia – Entenda que eu só estou aqui por consideração ao seu bom trabalho até agora.
- Sim, senhor. – o rapaz baixou os olhos para não fitar os orbes azuis diretamente.
- Como se não bastasse ter usado termos desprezíveis sem necessidade – Alexei apoiou os braços cruzados sobre a mesa, encarando o outro com desgosto – Você ainda atacou sem ter recebido a ordem.
- Sinto muito, senhor.
- Ora, cale-se. Eu devia deixar que o usassem para o treinamento dos novatos. – ele fez uma pausa – Se isso não tivesse como possibilidade uma… Morte acidental, vamos assim dizer, você estaria lá já.
- Compreendo, senhor.
- Compreende mesmo? Porque, se bem me lembro, na última vez em que você "compreendeu" alguma coisa, o plano que eu tive tanto trabalho para montar não foi seguido. Ou estou errado?
- Não, senhor.
O garçom trouxe as bebidas, gerando um silêncio sufocante entre os dois rapazes. Alexei agradeceu ao funcionário quando ele acabou de servi-los e esperou estarem sozinhos novamente antes de continuar. Sentia o sangue fervendo e um forte impulso de arremessar o outro pela janela do lugar, mas achou mais sensato manter-se quieto, de forma que apenas tomou um longo e demorado gole de sua bebida. O silêncio torturava o outro rapaz e aquilo era o suficiente por enquanto.
- Eu devia substituí-lo. Infelizmente para mim, ninguém mais é capaz de observar Hana tão de perto quanto você. – o loiro parecia analisar alguma coisa no copo enquanto falava – Considere-se com sorte.
- Obrigado, senhor.
- Não sei por que está agradecendo. – ele sorriu com satisfação – Não se esqueça de pagar a conta. – então se levantou, indicou ao garçom que trouxesse a conta e saiu.
Quando a relação dos pedidos chegou, o rapaz que ficou entendeu o motivo do sorriso do loiro. Todos os pedidos que tinham sido feitos por todas as mesas enquanto eles estavam ali tinham sido postos na conta deles. Alexei sabia que o outro não tinha como pagar tudo aquilo de uma vez, de forma que ficaria preso no restaurante até que desse um jeito de eliminar a dívida, nem que fosse lavando louça por dias.
Logo o grupo se encontrou na sorveteria, com exceção de Hana e Kyouya, que recusaram o convite por ainda precisarem almoçar. Mais tarde, se desse, o casal encontraria os amigos lá. Anastácia preferiu desse jeito. Se eles iam bolar um plano para colocar juízo na cabeça da amiga, era melhor que ela não estivesse presente. A situação foi rapidamente explicada para os que não sabiam assim que todos se sentaram e foi Anny quem prosseguiu.
- A gente não sabe o que ela tem como proposta para conseguir o que quer, mas, se ela já falou com o Alexei, nós precisamos descobrir logo o que aconteceu.
- E se o plano dela funcionar? – a pergunta veio de Kaoru e a primeira reação tanto de Hikaru quanto de Anastácia foi olhá-lo feio pela ideia – Falando sério. Ela deve ter pensado em alguma coisa minimamente razoável para oferecer. Então o que nós vamos fazer se der certo?
- Conhecendo a Hana, eu não sei se "razoável" é o melhor termo. – Jenna suspirou. Queria saber a opinião de Nathan também sobre tudo aquilo, mas o professor não tinha mais a mesma liberdade de locomoção de antes, de forma que não podia simplesmente sair mais cedo da escola.
- Ela deve ter pensado em alguma coisa que nos livrasse… Mas ela provavelmente se comprometeu. – Catarina franziu o cenho. Não seria a primeira vez que aquilo acontecia.
- Assim parece que ela virou oferenda. – o comentário veio de Hikaru.
- Mas é a cara daquela idiota. – Anastácia suspirou.
- Eu não entendo qual é o grande problema de ela tentar negociar se isso pode trazer benefícios a todos. – Haruhi falava com naturalidade um comentário que seria esperado de alguém como Kyouya, não ela.
O grupo ficou em silêncio pelo que pareceram ser longos minutos.
- Haruhi, acho que você tem passado tempo demais com o Kyouya. – Mei foi a primeira a falar e deu uma risada nervosa.
Outro silêncio se seguiu, dessa vez mais confortável. Mori foi o primeiro a reagir, passando o braço ao redor dos ombros da garota e a puxando para si. Ninguém ousava fazer o menor dos ruídos, nem mesmo para comer os sorvetes que derretiam. Considerando os dias anteriores, aquele era um momento importante e ninguém queria estragá-lo. Por fim, o mais alto afrouxou o abraço e Mei fitou o próprio colo, sentindo o rosto esquentar. Mori andava muito mais atencioso nos últimos dias devido ao estado em que ela estava, mas ela tinha imaginado que as coisas voltariam ao normal quando ela conseguisse sair da catatonia.
Felizmente, tinha se enganado.
- D-de qualquer forma… – Mei pigarreou antes de continuar – Eu não consigo pensar em nada que pudesse ser tão benéfico para o Alexei que ela pudesse oferecer e que fosse nos deixar de fora.
- Eu posso pensar em algumas coisas, mas nenhuma delas é realmente viável. – Jenna tinha um tom indefinível na voz, parecendo fazer graça ao mesmo tempo em que falava sério, insinuando coisas com um significado no qual os outros preferiam não pensar.
- Jenna! – a repreensão veio de Catarina, mas logo todos riam. Era bom dar uma descontraída em uma situação como aquela.
- A Hana-chan não pode ter se oferecido para fazer as tarefas que ele quisesse em troca de deixar vocês em paz? – o comentário repentino de Mitsukuni, feito com o tom infantil de sempre do loiro, fez com que aquela leveza momentânea se dissipasse. Enfim o que eles vinham evitando tinha sido verbalizado.
