Quando Hana abriu a porta do apartamento, foi o comentário de Anny que a recebeu.
- E a filha rebelde retorna ao lar. – ela tinha um tom de provocação, mas sorria com um alívio perceptível.
Hana sorriu de volta como se pedisse desculpa pela ausência não explicada, mas não respondeu. O restante do grupo estava na sala, reunido em volta da mesa de centro, pelos sofás e pelo chão, vendo um filme antigo que passava na TV. Havia um balde de pipoca pela metade abandonado em um canto e vários copos espalhados pelo meio do grupo. A mestiça apenas tirou a bolsa do ombro e a abandonou em um dos bancos diante do balcão que dava para a cozinha e esperou que Kyouya entrasse para fechar a porta.
- Sente-se melhor? Inteira, pelo menos? – a pergunta veio de Jenna, que parecia se divertir alfinetando a amiga – Conseguiu satisfazer seu desejo de "enfiar o saco daquele idiota para dentro"? – ela riu. Sabia que o comentário não tinha sido feito sobre Alexei, mas achou que seria aplicável do mesmo jeito.
Hana riu também, mas com um ar cansado.
- Não exatamente. – ela pegou o gravador da bolsa e levou até as amigas – Divirtam-se. Eu preciso de um banho.
Assim que ela saiu, todos os olhares pousaram sobre Kyouya, que permanecia em pé junto à porta. O moreno apenas caminhou até o grupo e se sentou apoiado em um dos braços do sofá. Anastácia rebobinou a fita, pensando em quanto tinha sido prático alguma empresa sem o que fazer reinventar o gravador daquele tipo, porque os antigos eram grandes demais para serem facilmente escondidos. Antes de deixar o áudio, rodar, no entanto, virou-se para o rapaz, fitando-o com certa curiosidade.
- Você sabe o que tem aqui?
- Não. Eu perguntei, mas ela não quis responder. – ele ajeitou os óculos – Acredito que seja a conversa que os dois tiveram.
A garota assentiu e apertou o botão de play. Ouviram alguns ruídos de fundo antes de a voz de Alexei soar, um pouco abafada pela forma como tinha sido feita a gravação. Apesar de haver a referência a uma proposta com frequência ao longo de todo o diálogo, não havia nenhuma explicação sobre o que havia sido proposto. No entanto, um detalhe confirmava parcialmente a suspeita do grupo. Hana estava tentando deixar as amigas longe do alcance de Alexei ao se oferecer para o que quer que fosse. A possibilidade pareceu ainda pior pela referência às cicatrizes, apesar de nenhuma das garotas ter demonstrado qualquer reação.
"Mas ele não vai deixar isso barato…", Anastácia interrompeu a reprodução quando os ruídos da fita indicaram que a gravação tinha acabado. O silêncio do grupo era denso e ela se sentia um tanto sufocada, mas não se moveu. Hana estava cutucando a fera com vara curta e aquilo era potencialmente perigoso. Não que nenhuma delas soubesse disso, mas não havia nenhum motivo que explicasse de forma suficiente o que a estudante de Moda pretendia. Naquela vez, quem quebrou o silêncio foi Haruhi, com uma pergunta que podia ser perfeitamente irrelevante, mas que parecia ter sua importância no momento.
- Alguém entendeu o motivo de ele odiar tanto os termos que ela usou?
Os presentes se entreolharam, sem saber responder. Hana saiu do banho pouco depois e logo tinha se juntado aos amigos. Quando lhe fizeram a pergunta sobre os termos, tudo que fez foi dar de ombros e dizer que não sabia. Para ela, aquilo não era importante. Se funcionava, já estava bom. Então decidiu mudar o foco, apesar de ainda se manter no assunto, perguntando se alguém conseguia traduzir o russo. Não surpreendentemente, recebeu uma resposta negativa. A morena deu novamente de ombros, como se tivesse perguntado apenas por perguntar.
- Hana, você se sente bem mesmo? – Catarina tinha um tom preocupado ao falar.
- Sim, ué. – ela estendeu a mão para pegar o gravador e logo Anny o tinha devolvido – Só acho que vocês estão se preocupando muito.
As garotas se entreolharam. Já tinham visto aquela cena antes.
- Não era você quem estava extremamente revoltada até outro dia? – Jenna arqueou uma sobrancelha – Enquanto a Cat estava com essa de "vocês se preocupam muito".
Hana suspirou.
- Tudo bem, vamos dizer que não é exagero. Isso não muda o fato de que eu acho bastante possível resolvermos tudo… Diplomaticamente. – ela foi até onde tinha deixado a bolsa e guardou o aparelho – O Alexei me parece uma pessoa razoável.
Kyouya olhou de soslaio para Anastácia a fim de confirmar se aquilo era estranho apenas para ele. Não olhou para as demais porque sabia que, de todas, ela era quem mais racionalizava o que acontecia. Isso foi confirmado quando Catarina explodiu, falando com um tom agudo por causa da alteração em seu estado emocional.
- Razoável?! Ele é um maníaco, é isso que ele é! Você ouviu o que ele disse! Sobre nós! – ela foi até a mestiça – Nossas cicatrizes, Hana! Elas foram propositais…!
Hana piscou.
- Cat, ninguém nos atacaria como atacou se não fossem propositais. As suas e as da Anny talvez pudessem ser tidas como acidentais, mas as outras? As minhas, as da Mei e as da Jen? Elas nunca foram fruto de um acidente. – a morena passou a mão pelos cabelos em uma tentativa de se acalmar – Saber que foi pelo interesse de uma única pessoa não muda nada agora, ok? Nós temos outras coisas com que nos preocupar.
- Ela tem razão, Cat. – o comentário veio de Anny, que logo se virou da loira para a morena – O que raios você tinha na cabeça quando foi falar sozinha com ele?! Na casa dele! Céus, por que não escolheu um lugar público?!
- Sei lá. – Hana deu de ombros. Não tinha pensado muito naquilo. Ou talvez tivesse, só não conseguia se lembrar. Ela ainda estava tentando recapitular como tinha parado naquele quarto pequeno onde a conversa se iniciara.
Anastácia suspirou, visivelmente irritada com a resposta que obtivera.
- Eu acho que é mais do que a hora de você começar a pensar mais no que faz, Hana.
De fato era, mas a mestiça não queria admitir. Gostava de como fazia as coisas, mas agora se encontrava em um ponto de conflito interno. Continuar a agir daquela maneira podia trazer riscos imprevisíveis e ela não sabia se estava preparada para corrê-los. Especialmente se envolvessem terceiros. Ao mesmo tempo, não conseguia ainda mudar a racionalização parcial de seus atos. Tendo isso em mente, ela preferiu não responder nada à amiga. As duas continuaram se fitando por alguns segundos antes de Anny se cansar e decidir que era melhor voltarem ao filme.
Os dias que se seguiram passaram com uma tranquilidade um tanto tensa, mas que também trazia alívio consigo. Ninguém mais as tinha procurado, Alexei tinha dado uma pausa nas provocações diárias à Catarina durante as aulas e o colega de sala de Hana andava mais ausente que presente. A única preocupação era com Nathan, que continuava sob o olhar atento de sua colega professora. A novata com quem dividia a sala chegara a perguntar algumas vezes se havia algo errado, mas, como ele sempre desconversava, acabou desistindo. Ele preferia assim, não queria envolver pessoas que não sabiam o que estava acontecendo.
- Chegou correspondência. – era sempre daquele jeito que a conversa entre os dois se iniciava.
- Obrigado. – ele sorriu. Era daquele jeito que costumava terminar.
- Eu andei pensando. – mas naquele dia seria diferente.
- Sobre? – ele levantou os olhos das cartas que tinha em mãos. Ela sempre lhe entregava tudo para separar e ele agradecia mentalmente por aquilo.
- Faz tempo que eu não vejo aquela garota simpática que…
Ele arregalou brevemente os olhos, como se estivesse vendo alguém entrar em um território minado sem ter consciência disso. Levou um dedo aos lábios em sinal de silêncio e a outra logo entendeu, apesar de não saber o motivo daquilo. Ele não explicou, mas rabiscou em um papel que era melhor não falarem sobre aquilo. A mulher franziu o cenho, mas aceitou sem questionar e devolveu o papel. O homem rapidamente o amassou e o enfiou fundo no bolso do casaco. Ao fazê-lo, sentiu os dedos roçarem em outra folha, que ele logo reconheceu como sendo a utilizada para conversar com Jenna. Um sorriso discreto se desenhou em seus lábios antes que ele tivesse consciência do gesto.
- E como está a aula que você precisava preparar? – a mulher continuou.
- Hm? – ele tornou a guardar o papel e se virou para a colega – Ah, progredindo. – então sorriu educadamente e tornou a se concentrar na correspondência. Já não sabia mais o que tinha olhado, de forma que teve de recomeçar.
A mulher sorriu e voltou a se concentrar no que tinha para fazer. Nathan agradeceu mentalmente por aquilo e terminou de separar a correspondência. Considerando o pouco volume de coisa que tinha chegado, ele estava levando um tempo anormalmente longo, mas não conseguia se concentrar na tarefa, então precisou recomeçar algumas vezes mais. Quando finalmente acabou, deixou as que eram de sua colega sobre a mesa dele e decidiu ver o que tinha recebido.
Hana estava sentada na borda da fonte, olhando as nuvens se movendo calmamente no céu enquanto esperava sua companhia chegar. Kyouya, como combinado, observava tudo à distância e só interferiria se fosse necessário. Tinham decidido por aquilo quando o rapaz perguntou à garota como andavam as coisas e ela achou melhor ser sincera, contando que Alexei a tinha procurado. Não comentaram nada com o restante do grupo, mas ela não ia se surpreender se alguém, especialmente Anny, suspeitasse de alguma coisa.
- Não sabia que você andava com um guarda-costas a tiracolo, Hana querida. – o loiro falava com tranquilidade e se sentou ao lado dela.
- Muito perspicaz, Alexei. – ela desviou os orbes negros para os azuis, falando com um tom deliberado de indiferença.
- Incomodada? – ele sorriu.
- Deveria? – ela cruzou as mãos sobre o colo ao notar que ele pretendia cumprimentá-la como de hábito.
O rapaz não se deixou afetar, mas aquilo não era nenhuma surpresa. Ele apenas cruzou as pernas e apoiou as mãos ao lado do corpo, deixando-se tombar para trás apenas o suficiente para não perder o equilíbrio. Algumas gotículas de água espirravam e, por vezes, pegavam em seu cabelo, dando a impressão de haver pequenas joias espalhadas pelos fios quando a luz refletia. Hana se perguntou se ele fazia aquilo por ter consciência desse efeito.
- Imagino que você tenha feito cópias da fita. – ele virou o rosto para ela ao falar.
- Talvez.
- Ora, Hana, não acha que devíamos parar com os joguinhos? Olhe onde estamos já. Não precisa mais bancar a difícil. – ele sorriu largamente e a garota se viu obrigada a concordar com algo que Catarina tinha dito antes. Se as circunstâncias fossem outras, talvez eles tivessem se dado realmente bem.
- Facilite a nossa vida e as coisas mudam. – ela sorriu com um ar levemente sarcástico.
- Você sabe que não é assim que funciona, minha querida. – ele parecia se divertir – Mas, já que estamos no assunto, eu gostaria de saber… Você tem noção de com o que está se envolvendo ao fazer uma proposta como aquela?
- Sim. – não, ela não tinha. Tudo que sabia era o pouco que Catarina tinha contado e que Kyouya tinha descoberto. Mesmo assim, eram informações tão amplas que não diziam muita coisa. Só do que tinha certeza era de que Alexei e seu bando agiam no limiar da lei. A discrição com que mantinham tudo de uma forma geral realmente funcionava, então só havia um jeito de saber o que acontecia: se envolvendo.
- Não minta para mim, Hana. – ele falava como se lidasse com uma criança pequena.
- Se acha que eu estou mentindo, esclareça os pontos para que eu tenha noção. – ela precisou se esforçar para manter o ar de indiferença.
Alexei riu.
- Ah, se fosse fácil assim, não teria graça. E quem vai me garantir que você não vai apenas ouvir, quem sabe gravar, e me dar as costas? Se quiser saber, Hana querida, você vai ter que mudar de vida.
Hana franziu o cenho. Não era uma resposta inesperada – a bem da verdade, ela ficaria surpresa se as coisas tivessem sido fáceis –, mas ainda assim era insatisfatória. Apesar da proposta que tinha feito, a última coisa que ela queria era realmente se envolver com o esquema do rapaz. Não queria pagar para ver como as coisas funcionavam. O rapaz riu novamente, parecendo se divertir com o conflito interno da garota. Não era preciso muito para saber o que acontecia, mesmo assim ela se sentiu incomodada.
- Ainda quer manter a sua proposta, Hana querida? – ele sorriu com satisfação.
- Não há nenhum jeito de você nos deixar em paz, independentemente do que eu escolha. – a voz da morena tinha endurecido e, por algum motivo que ela não entendia, aquilo fez o sorriso do loiro murchar.
- Hana, minha querida. – ele se endireitou e a olhou diretamente nos olhos com uma seriedade estranha – Meu objetivo nunca foi transformar a vida de vocês em um inferno. Mas entenda que eu preciso garantir os meus negócios.
- E o nosso objetivo, Alexei, nunca foi ser uma ameaça a esses negócios. – ela retribuiu o olhar. Ficaram daquele jeito por alguns segundos até que ela decidiu retomar a fala – Eu não vejo nem como isso seria possível, considerando que nós temos uma preocupação maior em cuidar das nossas vidas do que ficar bisbilhotando a sua ou a de qualquer outro idiota desse lugar.
O rapaz suspirou e passou uma mão pelo braço da outra, olhando-a como se fosse uma criança incapaz de entender o mundo ainda, mas que continua tentando sem parar. A resposta foi uma desvencilhada não muito educada, com um empurrão não muito sutil no braço do outro. Ela o olhava com uma seriedade profunda e ele não teve dúvidas quanto à mensagem passada. Por fim se levantou e saiu. Hana estava novamente sozinha.
N/A: não que eu esteja completamente satisfeita com esse capítulo, mas não sei mais o que fazer com ele, então vai ficar assim mesmo. E eu sei, ficou menor que o normal, mas vocês superam, eu sei que sim.
