- Alexei. – o loiro estava em seu lugar no canto da sala, lendo um livro qualquer entre as aulas, quando ouviu seu nome ser chamado. Ao levantar os orbes azuis, encontrou um colega de turma. De todos, aquele era com quem falava de forma mais casual, o que era praticamente um sinônimo de status.

- Diga, Arthur. – ele sorriu de canto e esperou que o ruivo se ajeitasse ao seu lado.

- As pessoas estão comentando sobre essa sua brincadeirinha com… Elas. Algumas estão impacientes. – o tom de voz abaixou um pouco e o rapaz projetou o corpo levemente para frente ao continuar – Especialmente o colega de Hana. Eu nunca lembro o nome dele, mas você sabe quem é. – quando o loiro confirmou, o ruivo prosseguiu – Eu o ouvi dizendo alguma besteira sobre vingança.

- Trate de dar um jeito de acalmar os ânimos. Simples, não é? – Alexei sorriu novamente, divertindo-se com a situação – Diga que estamos em uma fase de negociação e por isso todos devem ter calma. E descubra mais sobre essa… "Vingança". – a diversão que o termo lhe causava era óbvia – Mande uma mensagem ou qualquer coisa quando o professor chegar. – então ele se levantou e saiu.

- Mas, Alexei…! – o ruivo não conseguiu terminar de falar. O outro já tinha se retirado.

O loiro parou diante da entrada do prédio de Artes, olhando o céu começando a ficar nublado. Em poucos segundos, um rapaz pequeno, mas de tronco largo e feições endurecidas, apareceu e se postou ao seu lado. Alexei apenas lhe entregou um papel cuidadosamente dobrado com um nome escrito em cima. O menor assentiu e se retirou. Alexei ficou ali por mais alguns segundos antes de girar nos calcanhares e tornar a entrar no prédio.

Seu celular apitou assim que ele alcançou a porta da sala.


Anastácia encarava o papel que lhe tinha sido entregue algumas horas antes como se temesse o que poderia encontrar. Desde que o rapaz de sua sala lhe entregou o bilhete sem dizer qualquer coisa, mesmo que ela perguntasse, uma sensação estranha, quase como um mau-pressentimento, tinha se instalado em seu peito. Ela não tinha certeza de que queria saber o que havia entre as dobras do papel. Estava tão distraída que não percebeu quando os gêmeos e Haruhi chegaram à cantina e se sentaram à mesa com ela.

- Anny? Tudo bem? – a pergunta veio de Kaoru, que apoiou a mão no ombro da garota ao falar.

A americana se assustou, dando um leve pulo na cadeira que fez os outros se entreolharem. Quando se acalmou, ela os cumprimentou devidamente, estranhando não ter chegado mais ninguém. Estava para perguntar quando Tamaki e Kyouya apareceram. Não demoraria muito para estarem todos ali, de forma que ela apenas enfiou o papel que tinha recebido no bolso do short.

- Você parece preocupada com alguma coisa. – o comentário veio de Kyouya, o que gerou certo estranhamento.

- Ah… Perspicaz você. – Anny franziu o cenho.

- Isso não é exatamente surpresa. – Hana apareceu logo atrás do moreno, vinda de algum lugar que a estudante de Enfermagem tinha deixado passar – Vamos, conte. O que houve?

- Só estou imaginando até quando essa paz aparente em que estamos vai durar agora. – Anny desconversou. Como ainda não tinha lido o bilhete, não queria preocupar os amigos. Podia não ter nada demais e ser apenas uma brincadeira de mau gosto de Alexei. Uma possibilidade tão plausível quanto qualquer outra que fazia com que a garota se sentisse ainda mais desconfortável.

O almoço passou com tranquilidade, mas, assim que entrou na sala para as aulas da tarde, Anny tornou a pensar no papel em seu bolso. Sentou-se no mesmo lugar de sempre na sala e ajeitou o material. Precisava se concentrar em qualquer outra coisa. Tudo que não precisava era ficar pensando no humor de mau gosto de Alexei. "Mas eu vou ter de ler essa droga cedo ou tarde…", ela franziu o cenho. Talvez fosse melhor aproveitar que a professora ainda não tinha chegado para ver o que o loiro queria com ela. Com um ar de derrota, ela tirou o bilhete de seu esconderijo e o desdobrou.

Anny, minha querida, sei que você já tem consciência do fato de que sua amiga Hana veio me procurar. Justamente por isso decidi falar com você. Veja bem, ela me fez uma proposta… Interessante, vamos dizer. Mas eu não posso simplesmente aceitar, não é? Por isso, estou deixando um endereço indicado para você. Eu ficaria muito feliz se decidisse aceitar o convite. E não se preocupe, o horário foi marcado de acordo com as suas aulas, então não precisará ser uma má aluna. Você odiaria matar aula, não é? E não comente com as outras, pode preocupá-las. Você não quer isso, quer?

A morena sentiu vontade de rir. Mesmo escrevendo, o jeito de falar era extremamente característico do loiro. Tanto que ela conseguia reproduzir as palavras mentalmente na voz dele sem parecer estranho. Então baixou o olhar. Havia um endereço conhecido, próximo da faculdade, e um horário, como o rapaz tinha escrito, conveniente. Então seus orbes castanhos se concentraram na frase de rodapé do papel. Uma observação final incômoda, que ela preferia que não existisse. Mas, se estava lá, era porque o loiro queria deixá-la com tempo para se preparar psicologicamente para o que encontraria.

P.S.: vá preparada para bater para valer.

Anastácia engoliu em seco.


Pouco antes do horário indicado no bilhete que tinha passado a Anastácia, Alexei chegou ao "ponto de encontro", que, apesar de ser fácil de localizar, era pouco visitado. Fazia parte de um parque, mas ficava escondido por algumas árvores e longe das principais atrações do lugar. Escolheu um ponto que lhe permitisse ver a cena sem ser visto pelos participantes, ficando protegido pelas árvores. Pouco tempo depois de se ajeitar, ele conseguiu ver que Anny chegava ao lugar. Não demorou muito até que sua companhia também chegasse.

Era hora de começar a diversão.


Anastácia franziu o cenho. Já tinha visto a outra garota na faculdade antes, mas não conseguia se lembrar de onde ela era. As duas se encararam, uma incomodada e a outra confusa. Aproximaram-se até ficarem a uma distância pouco maior que um braço uma da outra. O silêncio era profundo e nenhuma delas parecia disposta a quebrá-lo. Das sombras, Alexei observava com uma ansiedade que nunca admitiria sentir.

- O que você faz aqui? – Anastácia ouviu a outra dizer depois de longos minutos. Seu tom era de desprezo e inconformidade.

- Eu deveria lhe perguntar o mesmo. – a morena franziu o cenho. O que estava acontecendo?

- Ah, é, espertinha? Eu só estou aqui porque o Alexei me pediu.

Então era aquilo. Anastácia suspirou.

- Você ainda não me disse o que faz aqui. – a confiança da outra, que já não era muito, parecia abalada por algum motivo.

- Olha – Anastácia começou, sem saber exatamente o que dizer –, ele provavelmente bolou alguma coisa para uma de nós. Não acha suspeito estarmos as duas aqui a essa hora?

- Cala a boca. Não foi isso que eu perguntei. E não questione o que ele faz.

- Se você quer que eu me cale, como espera que eu responda? – a morena franziu o cenho. A outra garota estava alterada, o que não resultaria em boa coisa. Mesmo assim, se era para bater, ela preferia pular logo para essa parte e acabar com tudo o quanto antes – E eu não estou questionando nada.

- Está sim, cala a boca. – a outra avançou um passo, entrando no raio de alcance da estudante de Enfermagem.

- Você precisa se decidir. – mesmo assim, Anny não atacou. Preferia não ser quem começava a briga – E se acalmar. O que você andou tomando?

- E por que você se importa? – os punhos se fecharam – Você e suas amiguinhas, que ficam andando por aí achando que são melhores que todo mundo. Pois saiba que vocês não são. Vocês não são nada! – ela estava quase gritando, o que fez a morena franzir o cenho. Aquela foi a gota d'água e logo um soco era desferido na direção da outra.

A reação foi automática. Anastácia se abaixou e girou o corpo a fim de atingir as pernas da outra para desestabilizá-la. Quando sua canela pegou no calcanhar de sua adversária, a morena sentiu uma pontada de dor lhe subir pelo membro, mas não recuou. Aquilo era pouco comparado com o que ela já tinha passado e com o que provavelmente passaria. Acompanhou a queda da outra com os olhos e logo se pôs em pé, afastando-se da garota caída, que gemia alguma coisa ininteligível.

-Maldita… Você me paga por isso. – ela viu a outra se levantar e avançar novamente. Como antes, errou o golpe, sendo agora atingida na barriga pelo punho fechado de Anny.

A morena tornou a se afastar, dessa vez dirigindo-se ao ponto onde tinham começado. Queria se manter no espaço aberto ao máximo, porque ter de se preocupar com as árvores no meio da briga seria inconveniente. No bolso, o celular começou a tocar, mas ela apenas ignorou. Não podia se dar ao luxo de distrações, especialmente porque sua adversária ficava cada vez mais irritada, o que significava que se tornava mais agressiva. "Eu só queria entender porque estamos fazendo isso. E porque ela se deixou cair tão fácil nas provocações", Anny trincou os dentes.

A tensão começava a tomar conta de seu corpo.


Alexei sorria enquanto via a briga se desenrolar. Apesar de já ter previsto mais ou menos o desenrolar das coisas, não podia deixar de se surpreender com a diferença entre as duas. Anastácia era visivelmente mais experiente naquilo, tinha muito mais noção do que fazia. Suas reações eram quase automáticas, vindo tão logo ela era atacada. Foi atingida algumas vezes, mas não se deixou abalar ou perder o controle. A outra estava completamente dominada e já tinha perdido no instante em que se deixou irritar tão facilmente. "Mas não posso culpá-la… Afinal, ela já estava alterada quando veio para cá", ele precisou reprimir uma risada. Era maravilhoso ver as coisas se desenvolvendo de forma muito melhor do que tinha planejado. "No fim, parece que eu não precisava ter dado essa… Pequena ajuda à querida Anastácia", seu sorriso se alargou.


Anny parou de revidar quando percebeu que a outra garota já mal se aguentava em pé. Ambas tinham sangue e terra espalhados pelo rosto e pelas roupas, mas a morena estava muito mais limpa. Viu a outra tossir e cuspir sangue sobre a grama antes de desistir de se manter na vertical, permitindo-se deitar no chão. Respirava com dificuldade não apenas pela briga desequilibrada, mas pela frustração de ter perdido. Não conseguia nem pensar em algum comentário ácido para dizer a Anastácia.

- Isso foi fantástico! – Alexei saiu de entre as árvores e se aproximou das duas – Estou mesmo impressionado!

- Alexei. – o olhar de Anny endureceu – Não posso acreditar que você ficou vendo tudo. É nojento ver como você se diverte com esse tipo de coisa.

- Divertir-me? – ele fez uma falsa expressão de choro – Ora, não fale assim. Eu fico magoado.

- Ah, morra. – ela falava por entre os dentes e, com o sangue ainda quente por causa da briga, precisou se controlar para não socá-lo.

- Você quer brigar mais? – ele riu – Eu dispenso. Não quero sofrer o mesmo estrago. – então se virou para a outra garota, ainda deitada no chão e com uma expressão confusa no rosto – Entendeu o que eu estava lhe dizendo mais cedo? Do motivo de não precisar mais da sua… "Ajuda"? Depois de tudo que eu investi, você perdeu feio para alguém que não teve o mesmo treinamento. O seu problema é a mente fraca. – ele suspirou – Não precisava nem ter colocado nada na sua bebida enquanto conversávamos.

- Você a drogou?! – Anastácia estava inconformada – E ainda esperava que ela tivesse o mesmo desempenho?! Ela podia ter morrido! A absorção da droga foi tão facilitada por estar no meio da bebida que ela podia acabar com uma quantidade absurdamente alta no sangue! Você…!

- Tudo bem, tudo bem. – ele levantou a mão como se dissesse para ela se calar – Eu já entendi, foi irresponsável. Não grite, pode atrair alguém. – ele sorriu com estranha satisfação, o que fez a morena franzir o cenho – Por que se preocupa tanto? Ela estava brigando para matar.

- Eu não posso me preocupar com uma vida? Além do fato de isso ter sido completamente o oposto de uma briga justa.

- Não que alguém se importe. – ele cutucou a cabeça da outra com a ponta do pé – Você já pode se levantar. – seu tom tinha mudado, ficado mais frio e distante. Era como se uma pessoa completamente diferente estivesse lá – Não vou carregar ninguém de volta para a casa. Trate de se levantar e sair daqui.

Anastácia recuou um passo instintivamente, o que chamou a atenção do rapaz.

- Não precisa fugir, eu não vou te atacar. – ele comentou com o mesmo tom frio, o que fez com que a morena se sentisse ainda mais desconfortável.

- Você não devia ter mais consideração pelos seus… – ela hesitou. Como deveria chamá-los?

- Subordinados? – ele riu – Eu tenho quando eles sabem fazer um bom trabalho.

A garota no chão gemeu.

- Já mandei levantar! – ele a cutucou de novo com a ponta do sapato.

- Pare com isso. – Anastácia tornou a se aproximar, abaixando ao lado da outra de forma que ficasse de frente para o rapaz – Consegue se levantar? Quer ajuda?

- Eu não preciso… – ela tossiu – Da sua ajuda.

Alexei riu ao ver o cenho franzido da morena.

- Viu por que você não tem nada que ficar se preocupando?

- Você não presta, Alexei. – ela o encarou e se pôs em pé – Trate de levá-la ao médico.

- Eu? – ele riu alto – Eu não levaria nem você, minha querida. E olhe que tenho uma estima muito grande por vocês cinco. – então sorriu. Era um sorriso estranho e desagradável que fez Anny engolir em seco.


Anastácia foi para a casa dos gêmeos depois de voltar do parque, dando a desculpa de que queria passar um tempo sozinha com Kaoru para as meninas. Tinha sido suficientemente convincente, considerando que Hikaru tinha ido para o apartamento delas. O grupo tinha acabado de sair da aula quando ela ligou, o que também tinha ajudado. Uma vez que o casal tivesse chegado à residência, o ruivo decidiu pedir algo para comerem, já que não queria comer fora e não estava disposto a comer sanduíche. Arriscar na cozinha era a última das opções.

- Então, o que vai querer? – ele sorriu para ela, estendendo alguns panfletos de restaurantes que faziam entrega.

A garota olhou sem muito interesse.

- Sei lá, pede… Esse indiano aqui. – ela apontou para o restaurante escolhido aleatoriamente ao falar – Escolhe o que te parecer melhor.

Kaoru franziu o cenho, mas não disse nada. Achou melhor deixar para conversar depois de pedir a comida. Talvez enquanto comessem. O humor estranho da morena podia ser fome, apesar de ele acreditar que havia mais coisa por trás. Ele rapidamente ligou para o restaurante, escolhendo o prato enquanto esperava ser atendido. Acabou pedindo uma entrada junto dos dois principais, que acabavam ficando quase como complemento um do outro, de forma que ele planejava dividir. Quando estava tudo resolvido, deixou o dinheiro separado e foi se sentar com a garota no sofá.

- Você parece preocupada com algo. Também estava estranha no almoço. – ele a envolveu pela cintura e a puxou para si – Quer conversar? – tinha um sorriso carinhoso no rosto que fez com que a morena sorrisse de volta.

- Desculpa por te preocupar. – ela se ajeitou de forma a apoiar a cabeça no peito do rapaz – Não é nada. Sério.

- Sei. – ele a beijou na testa – Vai dizer que só está com fome? Porque eu não vou acreditar. – ele tinha certo ar de divertimento e ela riu com o comentário – Aproveite que estamos sozinhos. Sabe que não vou contar para ninguém a menos que você queira.

Anastácia suspirou. Aquilo era verdade. Ela sabia que podia contar com ele para o que fosse, mas ainda assim… Talvez fosse melhor só esquecer. O que tinha acontecido no parque devia permanecer no parque. Especialmente depois de ela ter presenciado a mudança tão abrupta na personalidade de Alexei. Aquilo a tinha assustado e ela sabia menos ainda o que esperar do loiro agora. Não queria contar o que acontecera para Kaoru e correr o risco de envolvê-lo em tudo que se passava. Aquele não era um problema do ruivo.

- Opa, hora de comer. – o gêmeo mais novo a soltou e se levantou quando a comida chegou e logo tinha posto tudo na mesa – Vem, antes que esfrie. E depois você me conta o que te preocupa tanto. – ele sorriu para a morena, indicando a cadeira.

Anny sorriu de volta e aceitou o convite.


N/A: apesar de eu estar postando isso às 4h (sim, da manhã), dessa vez não tem nota retardada da autora de madrugada. Foi mal, queridos, mas o sono me impede de pensar em algo.