Durante os dias que se seguiram, até que fosse completado o período de uma semana, os recados de Alexei foram entregues até que as cinco tivessem confrontado alguém do grupo do loiro. Como acontecera com Anastácia, ele demonstrou pouca empatia pelos derrotados, mesmo que, em teoria, devesse se preocupar com eles. A diferença era que, nos quatro confrontos seguintes, ele não fez nada para alterar o estado de seus colegas deliberadamente "enviados para o abate", como Arthur tinha definido.
- Não é lindo isso? – Alexei pausou o vídeo, sorrindo ao falar. A tela exibia uma Catarina ao mesmo tempo assustada e furiosa – Elas lutam de forma instintiva e, ao mesmo tempo, racional. Só pessoas que enfrentaram muitas brigas conseguem fazer isso com toda essa eficiência.
- Eu entendo que você quisesse puni-los, Alexei – o ruivo começou a responder –, mas precisava utilizar esse método? A diferença entre os dois lados é tão grande que é quase palpável. – ele franziu o cenho.
- Arthur, Arthur… Quando você vai entender? É por isso que a punição funciona. Se fosse mais leve, eles não aprenderiam a lição. – o loiro sorriu com estranha satisfação.
- O que acha que vai acontecer quando elas descobrirem que você estava apenas as usando por diversão?
- Nada, porque elas não vão descobrir. O que elas vão ficar sabendo será uma… Versão diferente, vamos dizer. Mas será satisfatória para os dois lados. – a satisfação cresceu juntamente do sorriso.
O outro não respondeu. Sabia que Alexei vencia em número, mas as garotas podiam facilmente vencer em técnica. Ficaram olhando a imagem congelada na televisão da sala da casa de Alexei até que o barulho da porta se abrindo fizesse o loiro levantar e ir tirar o DVD do aparelho. Guardou-o em uma caixa apropriada e então o passou para o ruivo, que o guardou na mochila. O zíper terminou de ser fechado no mesmo instante em que o pai de Alexei surgiu no cômodo.
- Olá, meninos. – o homem sorriu – Estavam estudando?
- Olá, papai. – Alexei sorriu com uma inocência deliberada e era convincente para quem não sabia de seus esquemas – Estávamos fazendo uma pausa.
- Olá, senhor Yuri. – Arthur sorriu com educação.
- Como vai, Arthur? Fazia tempo que você não nos visitava.
- Vou bem. – "Pensando em um bom motivo para seu filho não estar em um hospício ainda", o ruivo manteve o sorriso.
Hana estava afundada no sofá da sala dos gêmeos, ouvindo enquanto o grupo discutia sobre o que tinha acontecido. Jenna tinha sido a última das cinco a receber o recado de Alexei e, inconformada com a situação, decidiu contar para as outras o que tinha se passado quando voltou do confronto. Especialmente porque tinha terminado com um hematoma não muito discreto no rosto. Aquilo tinha desencadeado uma discussão um tanto fervorosa sobre as possíveis razões do loiro e, em certo ponto, alguém perguntou se aquilo tinha acontecido para provar que negociações eram inúteis.
- Tudo bem, supondo que eu tenha mesmo desencadeado tudo isso… – a morena se ajeitou, apoiando os braços nas pernas ao deixar o corpo curvado para frente – Vocês acham mesmo que ele já não tinha um bom motivo? Que foi só porque "nós tentamos escapar"? E, se fosse por minha causa, ele podia ter mandado os cinco para cima de mim. Afinal, o resto estava quieto, esperando calmamente pelo Dia do Juízo Final. – ela estava irritada e não fazia muita questão de esconder.
- Respira fundo, ok? – Anastácia tinha o tom um tanto cortante. Não estava com vontade de ficar lidando com o ânimo exaltado da outra – Não estamos dizendo que não ia acontecer de jeito nenhum se você não ficasse brincando de cutucar a onça com vara curta.
- Mas estão me culpando do mesmo jeito. – Hana respondeu de imediato, encarando a amiga.
- Bom, você realmente o desafiou. – o comentário veio de Hikaru, que se arrependeu assim que a morena o fuzilou com os olhos.
- Hana, você sabe que eles estão certos. – Kaoru franziu o cenho – E o Alexei não pode muito bem ter envolvido todas vocês para passar uma mensagem?
- Não pode ser nenhuma que ele já não tenha passado. Ele já provou que pode envolver qualquer uma de nós independentemente do que possamos querer. – a mestiça deixou o corpo cair pesadamente contra o encosto do sofá – Afinal, todas nós nos envolvemos na briga que era para ser da Mei. Quem garante que eles não iam atrás de nós uma a uma naquela vez também? Tudo que ele fez agora foi eliminar variáveis. – ela bufou – Pelo menos pude socar aquele estúpido da minha sala. – um estranho sorriso se desenhou em seus lábios. Havia escárnio, mas também havia satisfação.
- Hana. – Anastácia tinha um tom repreendedor.
- Nem vem, Anny. Você sabe que, no fundo, todas nós gostamos de provar que somos melhores que aqueles idiotas covardes. Porque é isso que eles são. – ela tornou a encarar a amiga, que não respondeu, mas sustentou o olhar.
- Tudo bem, tudo bem. Vamos nos acalmar. – Jenna se colocou entre as duas – Eu acho que é melhor comermos alguma coisa. Estamos todos de estômago vazio querendo discutir um assunto estressante.
- Essa é uma ótima ideia. – os gêmeos responderam em uníssono com certa empolgação.
- Há um restaurante aqui perto de que vocês podem gostar. – Kyouya ajeitou os óculos – Se formos de carro, deve levar dez minutos.
Jenna olhou para as amigas na esperança de aliviar a tensão com aquilo. Hana e Anny não responderam, mas ambas se levantaram de onde estavam para irem comer. Quando o contato visual foi interrompido, os outros sentiram como se uma tempestade de raios estivesse se afastando. Mesmo assim, o silêncio que envolvia o grupo era profundo e parecia pesar sobre os ombros. Tamaki se aproximou de Kyouya enquanto iam para os carros para saber se estava tudo bem entre ele e Hana.
- Por que a pergunta? – o moreno tinha um tom desinteressado ao falar.
- Porque, quando acontece alguma coisa entre mim e a Haruhi, parece que tudo ao nosso redor fica… Difícil de lidar. – o loiro deu um sorriso constrangido como se estivesse falando sobre algum segredo.
- Não aconteceu nada entre nós, Tamaki. Mas agradeço a preocupação. – então ele abriu a porta do carro, dispensando o amigo francês. Quando Hana se sentou ao seu lado dentro do veículo, o moreno comentou sobre a breve conversa.
- Ah, que meigo ele se preocupando com o melhor amigo. – ela soltou uma risada com certo ar de deboche – Até que ele consegue agir de acordo com a idade às vezes.
- Você está fazendo com que ele pareça muito maduro agora. – Kyouya deu partida.
- Como é que é? – Hana se virou para o namorado com um brilho de irritação nos olhos.
- Você sabe que eu estou certo. Pare de querer brigar com todo mundo. – então ligou o rádio, dando a conversa por encerrada.
Hana apenas bufou em resposta.
- O que você acha? – Catarina cochichou para Hikaru quando entraram no carro. Anastácia ia na parte da frente com Kaoru – Particularmente, eu acho que o que a Hana fez não teve muita influência no que aconteceu.
- Eu não sei. – o ruivo franziu o cenho, cochichando de volta – Talvez não tenha influenciado mesmo, talvez ele já planejasse isso. Mas, mesmo assim, eu acho que é possível que tenha acelerado alguma coisa.
- Então provocá-lo é o gatilho para o fim do mundo? – ela teve de conter uma risada.
Hikaru não respondeu, mas parecia desconfortável com o comentário.
Alexei estava sentado sobre a cama, com as costas apoiadas na parede encostada à cabeceira, brincando de deixar seu hamster passear por suas mãos enquanto conversava com Arthur. Tinham acabado de jantar com o pai do loiro e o ruivo foi convidado a passar a noite lá. Não que ele se sentisse muito confortável com a ideia, mas aceitou ficar. Preferia esconder o DVD por ali também, em vez de ficar passeando na rua com aquilo na mochila. Ou pior, levá-lo para casa, onde uma irmã mais nova e curiosa por tudo existente o esperava junto dos pais.
- Acha que elas já conversaram a respeito?
- Da sua… Punição? – Arthur hesitou. Não tinha certeza de como chamar o que tinha acontecido – Talvez. Mas você não lhes disse para manter segredo?
- Disse, mas a madame Wong me pareceu… Eu não sei exatamente o motivo, mas tenho a sensação de que ela comentaria. – Alexei sorriu com satisfação.
Arthur engoliu em seco.
- O que você espera conseguir com isso, Alexei?
- Ora, não é óbvio? – o sorriso se alargou – Hana me procurou tanto e logo em seguida esse tipo de coisa acontece. O que você acha que vai ser a primeira conclusão delas?
O ruivo franziu o cenho.
- Você quer jogá-las contra a senhorita Hana? – ele não se sentia confortável usando outro tratamento com elas, mas não sabia explicar o motivo – Que benefício isso traria?
- Assim talvez ela entenda a razão de eu não ter aceitado a proposta. – Alexei passou a olhar para o animal – Não ter o apoio das amigas a deixa abalada, instável. Eu não posso trabalhar com alguém assim.
- Assim até parece que você se preocupa com o bem-estar delas. – Arthur riu com certo deboche.
- E você não? – o tom do loiro era quase de desafio e o ruivo apenas girou os olhos em resposta.
Quando o grupo voltou do restaurante, o clima era bem mais leve e descontraído. Hana e Anastácia conversavam como se não tivessem quase se matado pelo olhar apenas algumas horas antes. De certa forma, aquilo aliviou os demais. Mas ainda havia a sensação de que algo estava errado, de que havia mais naquela história do que eles conseguiam ver. E não saber o que era os torturava. Jenna estava remoendo a respeito disso quando seu celular tocou. Ela atendeu sem conferir quem era por força do hábito.
- Jenna, minha querida. – a voz de Alexei soou do outro lado. Ele parecia sorrir. Quando ela não respondeu, ele apenas continuou – Imagino que a hora não seja das melhores. Tudo bem, apenas escute. – pausa – Daqui uma semana, eu estarei no parque, no mesmo lugar do último encontro. Marcamos a hora depois, mas será conveniente para todos. Estarei esperando por você e suas amigas. Acredito que vocês tenham… Perguntas que queiram resolver. – nova pausa – E então, o que lhe parece? Tentador, não é?
Jenna mais uma vez se manteve em silêncio, mas tinha franzido o cenho, o que atraiu a atenção dos que estavam mais próximos. Quando Haruhi ia perguntar o que aconteceu, a americana apenas indicou que esperasse. Por algum motivo, ela acreditava que Alexei estava se divertindo do outro lado. Percebeu que ele estava a ponto de dizer mais alguma coisa quando outra voz masculina soou mais distante.
- Já não está bom de tudo isso? – o tom era cansado e a garota se perguntou há quanto tempo seu dono estaria acompanhando o loiro para falar daquele jeito.
- Ora, Arthur, não seja tão ansioso. Logo as coisas chegarão ao fim. – Alexei riu. Jenna tinha arregalado um pouco os olhos. O que aquilo podia significar? – Estarei esperando, Jenna, minha querida. Leve todas com vocês e mais ninguém. – e então desligou.
A morena tornou a guardar o aparelho no bolso e soltou o ar pesadamente. O grupo se virou, mas ninguém disse uma palavra. Preferiam conversar sobre aquilo no apartamento, longe de ouvidos curiosos. O clima de tensão voltava a rondá-los, o que era desagradável, mas, ao mesmo tempo, natural. Se não fosse desse jeito, seria um sinal de que as coisas tinham chegado a um ponto muito pior. Foi somente quando todos já estavam novamente acomodados na sala dos Hitachiin que a descendente de coreanos se manifestou.
- Recebi um telefonema do Alexei agora na volta.
- O que ele queria? – a pergunta, feita logo em seguida, veio de Haruhi.
- Ele disse que estará nos esperando no mesmo lugar no parque daqui uma semana. Ele não deu um horário, mas disse que vai ser bom para todas nós. – pausa – Vai ser a hora de colocar um ponto final em tudo isso. E tinha alguém com ele.
- Sabe o nome? – dessa vez, foi Anastácia quem se manifestou.
- Era… Arthur, se não me engano.
- Tem certeza? – Catarina pareceu subitamente desconfortável. Quando a morena concordou, ela continuou – Arthur é um amigo de infância de Alexei, pelo que eu saiba… Não é uma pessoa muito agradável, mas me parece ter mais coração, pelo menos.
- Ele me parecia cansado dessa coisa toda, faz sentido. – Jenna deu de ombros – Eu só não sei o que eles estão planejando.
- Eles vão estourar nossos miolos. – Hana comentou com uma naturalidade assustadora – Bom, talvez não literalmente. Talvez nos contem o motivo de tudo isso, talvez decidam nos deixar em paz. Qualquer coisa que eles façam será como se estourassem nossos miolos, porque qualquer coisa é possível e por isso não temos como nos preparar. Ele sabe disso. Ele está pronto para tirar todo o proveito do mundo disso. – ela suspirou.
- Nenhum deles usa armas de fogo, não é? Se forem literalmente nos estourar os miolos, nós vamos ter chance de revidar. – Catarina comentou na tentativa de aliviar um pouco da tensão, mas não deu muito certo. Ela não acreditava que fosse dar.
- Eles não vão fazer isso. Não com o pai de Alexei sendo policial. – Kyouya ajeitou os óculos – Mais que isso, pela mão de obra que ele tem à disposição.
- Faz sentido, eu acho. – Haruhi tinha um ar pensativo.
- Qual é, gente, não vamos falar assim. Isso é de deprimir qualquer um. – Kaoru estava visivelmente desconfortável com a conversa e se ajeitou no lugar, mas não parecia achar nenhuma posição agradável.
- De qualquer forma, não adianta ficarmos discutindo isso, não é? – Mei decidiu se manifestar – Por que não nos concentramos em alguma outra coisa?
- E você consegue fazer isso? – Hana tinha um tom descrente.
- Não é tão difícil, na verdade. – a estudante de Odontologia tombou levemente a cabeça para o lado, parecendo pensar – É só escolher algo que realmente prenda a sua atenção.
- Fácil quando não estamos em aula, por exemplo. Não dá para abrir um livro qualquer e ficar lendo… – Anastácia suspirou.
- Tem mais. Enquanto o Nathan continuar em problemas por nossa causa, vai ser difícil deixar para lá. – Catarina olhou de soslaio para Jenna, imaginando o quanto a amiga devia estar sofrendo com aquele afastamento forçado.
Mei piscou algumas vezes. As pessoas podiam considerar insensibilidade o fato de que ela nem havia chegado a considerar esse ponto, mas ela acreditava ser apenas porque tinha facilidade em se concentrar nas tarefas que escolhia, de forma que todo o resto passava a compor um pano de fundo um tanto… Imperceptível. Tendo consciência disso, preferiu não dar continuidade ao assunto como geralmente faria. Naquela vez, sabia que era melhor assim. Olhou para os amigos um por um enquanto eles discutiam sobre outras coisas relacionadas ao problema central em que elas se encontravam. Descobriu o olhar de Hana voltado para si como se a estudante de Moda esperasse que ela dissesse alguma coisa a qualquer momento.
- É melhor darmos isso encerrado por essa semana. Podemos formular todas as perguntas que quisermos, mas as respostas só virão daqui uma semana. – Kyouya se levantou e ajeitou os óculos. Os orbes negros encontraram os de Hana.
- Ele tem razão. A gente merece um descanso. – ela também se pôs em pé – Não me chamem pela manhã.
Aquilo dava a conversa por encerrada, pelo menos de forma conjunta. Todos tinham consciência de que, em algum momento e talvez em mais do que gostariam, aquele assunto voltaria a lhes assombrar mesmo depois do encontro com Alexei. Mas também sabiam que continuar a discuti-lo apenas os desgastaria mais e não levaria a lugar algum. Pouco a pouco, cada um deles foi se retirando. Nenhuma das garotas sentia vontade de voltar para o próprio apartamento, de forma que acabaram ficando por ali também.
- Isso nunca vai acabar… – Hana suspirou e se jogou sobre a cama de Kyouya.
